Mostrando postagens com marcador liberdade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador liberdade. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O Pacheco esteve aqui!

Na noite da última quinta-feira, 25/11, parei tudo que me ocupava e fui para a Escola Classe da 304 Norte, a 100 metros da minha casa, participar de evento da maior importância para a educação brasiliense.

Trata-se da escola pública em que a Sofia, minha neta, vai estudar a partir do próximo ano. Nela estudaram também minhas filhas, nos anos 80 do século passado.

(Ai! como o tempo voa! Já sou uma pessoa que fala com a maior naturalidade de coisas que vivenciei "no século passado"!)

Já naquela época a escola reunia um grupo de pais e mães de alunos muito participativos, preocupados com a qualidade da educação. Mas preocupados, acima de tudo, em que a escola se tornasse um espaço não de reprodução das relações sociais, e sim de questionamento permanente dessas relações. Não queríamos a escola que "padronizasse" nossos filhos, mas que nos ajudasse a dar-lhes uma formação cidadã, crítica e autônoma. Notem: isso foi lá pelos idos de 1985-88.

Houve boas brigas. Fomos a primeira Associação de Pais e Mestres a utilizar o instrumento jurídico da ação popular, instituída pela Constituição de 1988, para obrigar o governo do DF a negociar com o Sindicato dos Professores, em greve havia 45 dias. O difícil foi desmentir a imprensa local, que dizia ser essa uma iniciativa para acabar com a greve, contrária ao movimento dos professores. Nossa APM também resistiu contra a exoneração da diretora da escola, nossa querida e comprometida Bete, rechaçando a vinda de uma interventora nomeada na calada da noite pela então Fundação Educacional do DF. Foram muitas reuniões, muita discussão, muitas idéias, muitas iniciativas inovadoras. Não me queixo daqueles anos: graças a esse movimento minhas filhas se tornaram boas leitoras, críticas, politizadas e sensíveis.

Mas vamos ao Pacheco. Ele foi diretor da
Escola da Ponte, em Portugal, desde sua criação, em 1976, até há pouco mais de dois anos. Não preciso falar aqui dessa escola, já por demais conhecida pelos educadores brasileiros. Suas palestras são muito concorridas, professores e estudantes gostam de ouvi-lo falar, empolgam-se com o relato de suas vivências, de como se tornou educador "por vingança", de como a escola que dirigiu deixou de ser "um lixão" para se consagrar como modelo de uma educação emancipadora, trabalhando com conceitos libertários de disciplina e responsabilidade, enfrentando a violência presente no dia-a-dia das comunidades excluídas. Pacheco fala com muita convicção, com muita paixão, com forte embasamento crítico-teórico.

Esse educador português fez questão de realçar em sua palestra o grande número de iniciativas inovadoras em educação, dizendo que há no Brasil muitas "escolas invisíveis", que conseguem bons resultados com seus alunos rompendo os padrões estabelecidos da educação alienadora. E a boa nova é que ele participará de um projeto conjunto da Escola Classe 304 Norte e a Faculdade de Educação da Universidade de Brasília, como apoiador da direção, dos professores e dos pais dos alunos, na prática educacional do diálogo, da solidariedade e da autonomia. E a minha filha faz parte do grupo de pais que correram atrás de um projeto novo para a educação de seus filhos. E é para a turminha da Sofia que primeiro se descortinarão as mil novas possibilidades de aprendizagem e de "ensinagem", como diz o Pacheco, sempre brincando com assuntos sérios.

Ao final da palestra, fui tomada por aquela sensação de estar conhecendo pessoalmente alguém com quem vinha mantendo, pela leitura de seus textos, sintonia fina, desde muito tempo. A sensação de conhecer aquele professor, de compartilhar suas expectativas, de ser solidária com sua história, com sua formação de esquerda, com suas propostas para a educação. E não pude resistir a uma pergunta emocionada:

- Onde é que você estava em dezembro de 1985, quando um grupo de jovens pais e mães de alunos desta escola iniciava intuitivamente uma revolução na forma de educar seus filhos?

Hoje, 25 anos depois de vivenciar tantas angústias, tantas dúvidas, tanta insegurança e de lutar com convicção contra a educação que tínhamos certeza de não querer, vejo que não tivemos José Pacheco - ocupadíssimo em revolucionar a educação em Portugal -, mas vieram em nosso socorro Paulo Freire, Anísio Teixeira, Darci Ribeiro, Demerval Saviani e Lauro de Oliveira Lima; com este último aprendi que "o homem está em permanente reconstrução: por isso é livre: liberdade é o direito de transformar-se".

domingo, 17 de outubro de 2010

O mundo sem José Ângelo Gaiarsa




Veio hoje a triste notícia da morte do psicanalista José Ângelo Gaiarsa. Encerrou-se assim um capítulo de avanço na história dos costumes da vida nacional.

Ângelo Gaiarsa promovia na mídia uma discussão avançadíssima, posicionando-se contra a virgindade e a favor da liberação sexual. Culpava a instituição família pela repressão da sexualidade e classificava-a como fonte de todas as neuroses e psicopatologias. Despertava a ira dos setores conservadores da sociedade - esses mesmos setores que hoje fazem campanha deslavada para Serra, como a(s) igreja(s), a TFP e a Opus Dei.

Gaiarsa foi o primeiro no Brasil a trabalhar com a psicologia analítica de Carl Gustav Jung e com a terapia da sexualidade de Wilhelm Reich. Publicou muitos livros sobre corpo, sexualidade, terapias analíticas, sempre em linguagem acessível ao público leigo, com leveza e humor, mas sem jamais perder a seriedade.

Muitas mulheres e homens da minha geração hoje são bem resolvidos graças a dois fatores importantíssimos: a invenção da pílula anticoncepcional e os textos de José Ângelo Gaiarsa. Onde quer que ele esteja agora, meu desejo é que usufrua de uma eterna felicidade orgástica!


quarta-feira, 19 de maio de 2010

"Não somos racistas"

Neste mês em que se comemora a abolição da escravatura no Brasil, o professor Marcelo Paixão, da UFRJ, divulgou interessantíssimo trabalho de pesquisa.

Mostra-nos ele, entre outras coisas, que os negros e mestiços continuam em desvantagem: têm em média 2 anos menos de escolaridade que os brancos; a média salarial das pessoas negras/mestiças é 50% menor que a das pessoas brancas; o percentual de negros nas universidades públicas é ainda muito pequeno, apesar da adoção das políticas afirmativas.

Tudo isso é sabido e consabido. Esses números podem ser piores, se focarmos especificamente a situação das mulheres negras, pois a ela se soma a desvantagem da discriminação de gênero, além da cor da pele.

Esses dados são divulgados todos os anos e mostram melhoras muito lentas na situação dos negros/mestiços no Brasil. São indignantes e servem para nos mobilizar na luta pela superação da herança escravista.

Mas neste ano foi divulgado um dado pra lá de indignante, escandaloso mesmo: o professor Paixão nos mostra que, de 2003 a 2009, foram libertados do trabalho escravo 40 mil brasileiros e brasileiras, que viviam e trabalhavam em fazendas, em regime de servidão por dívida. Destes, 73,5% são negros. É o alto preço da "paz no campo" defendida pela senadora Kátia Abreu, latifundiária e presidente da Confederação Nacional da Agricultura. E esse é também o preço que paga o trabalhador rural que não ingressou em um dos movimentos sociais de luta pela reforma agrária: o de ser espoliado e escravizado.

Trabalhador libertado mostra sequelas de acidentes de trabalho e a água "potável" que consumia durante a escravidão (Imagem retirada do Blog do Sakamoto)

A OnG Repórter Brasil monitora as ações de combate ao trabalho escravo e mantém atualizadas as notícias que nos mostram tratar-se de prática generalizada em todo o Brasil. O grande explorador dessa mão de obra é o agronegócio - nome moderno para nosso velho conhecido latifúndio. Na lista suja do Ministério do Trabalho, você pode comprovar que as empresas agropecuárias são as maiores infratoras das leis trabalhistas. Mas isso ocorre também nos ramos de atividade da construção civil, das confecções e dos calçados.

Uma sociedade erguida sobre as bases carcomidas do latifúndio e da escravidão, que não se dispõe a combater efetivamente essas práticas sociais, pode se dizer civilizada? Você, que compra nas Lojas Marisa e C&A, sabe que as roupas vendidas por elas são produzidas à custa do trabalho escravo de imigrantes bolivianos, no bairro do Bom Retiro, em São Paulo?

Trabalhadores escravos em oficina de costura que fornece roupas para as Lojas Marisa e C&A (imagem retirada do site Repórter Brasil)

São 40 mil brasileiros (e também estrangeiros) libertados da relação escravista. Pessoas que tiveram suas vidas roubadas, foram proibidas de sonhar, impedidas de exercer livremente seus direitos. A escravidão hoje é duplamente perversa: primeiro, pelo crime de privação da liberdade de outrem, já por si hediondo; segundo, por persistir esse crime em uma sociedade dita civilizada, que alardeia a igualdade de direitos de todos perante a lei.

Passados 122 anos da abolição oficial da escravidão no Brasil, ao ver esses dados da pesquisa do professor Paixão, ganhamos a certeza de que também esse capítulo da vida social brasileira não passa de mais um conto da carochinha da história oficial.

Quase nada mudou. Hoje Macunaíma talvez dissesse: "Latifúndio e escravidão, os males do Brasil são."

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Informação e manipulação

Agora é hora de voltar a lidar com a ausência da filha que viajou novamente. Um mês passa rápido demais quando a gente está ao lado das pessoas amadas que moram longe...

Hoje li, no Vermelho, entrevista da blogueira cubana Yoani Sánchez, cujo blog é saudado como o mais premiado no mais curto tempo de existência em toda a blogosfera. E aprendi uma lição: este espaço de reflexão e expressão pode muito bem servir para toda ordem de manipulação dos leitores. Seu blog, traduzido para 17 línguas, é um dos mais caros da web. E é de oposição, de denúncia daquilo que ela denomina as mazelas do governo cubano, tais como a falta de liberdade de expressão. Você pode visitá-lo e ver como Yoani escreve sobre tudo o que bem entende e ainda faz uma lista de grande número de blogs cubanos de oposição ao governo. E tudo isso em um país em que não há liberdade de expressão!

Isso me leva a refletir sobre o sentido de escrever aqui rotineiramente. Entre meus leitores há os que me conhecem e sabem de minhas preferências políticas. Mas também há aqueles que não fazem muita idéia de quem sou, que tipo de sociedade defendo ou em que candidatos voto.

É difícil exercer a liberdade de pensamento e expressão sem, em alguns momentos, chocar-se com a visão de mundo de outras pessoas. Esse é o risco que se corre quando se tem um blog. Por isso, é importante reafirmar sempre o respeito à pluralidade de pensamento, abrindo espaço para que os leitores possam manifestar sua discordância e seus questionamentos.

Hoje as notícias mais confiáveis estão na internet, não nos portais da velha grande mídia, mas nesses espaços ocupados por jornalistas independentes, professores e quaisquer pessoas que se disponham a apreender a realidade e a expressar suas reflexões, como forma de reação ao viés alienante das redes de televisão e dos jornalões. Há quem preveja o fim irreversível da imprensa tradicional, derrotada pela cada vez maior circulação de notícias via internet.

Some-se a isso a corrosão da credibilidade jornalística dos veículos que não mais conseguem disfarçar sua parcialidade em relação ao momento político que vive o Brasil. A manipulação corre solta: desde a seleção de conteúdos negativos a determinado candidato até os perigosos truques metodológicos dos institutos de pesquisa de intenção de votos, ligados a jornais e emissoras de televisão; desde as entrevistas cordiais com um candidato até a agressão verbal com outro.

Em suma, a imprensa se transformou, no Brasil, no maior partido de oposição, como bem definiu a presidente da Associação Nacional de Jornais: Na situação atual, em que os partidos de oposição estão muito fracos, cabe a nós dos jornais exercer o papel dos partidos. Por isso estamos fazendo.

Isso foi dito por Judith Brito, presidente da ANJ e funcionária do grupo Falha, ops! Folha de São Paulo. Sinal de que o jogo, principalmente neste período pré-eleitoral, vai ser pesado. Preparemo-nos.


Imagem retirada de http://glaucocortez.com/tag/jornalismo/

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Casa de vó

Todas as crianças deveriam poder exercer a liberdade de serem crianças, fase que é vivida, na nossa sociedade, somente até o momento em que são levadas à escola pela primeira vez.

Digo isso porque há crianças que, antes de irem à escola e mesmo depois que atingem a idade escolar, são vítimas da necessidade que as obriga a trabalhar. Essas não podem, definitiva e irreversivelmente, exercer a liberdade de serem crianças, que lhes é inerente. Ela lhes é sonegada enquanto vivem a vida que lhes é permitido viver, em seu universo regido pelo signo da pobreza.

Cartaz do Ministério do Trabalho, da campanha contra o trabalho infantil

Se todas as crianças tivessem assegurados os direitos a uma vida plena, seria encantador ver em todas elas o exercício da liberdade. Esse encantamento, provavelmente, duraria apenas até o momento em que seu comportamento começa a ser moldado para que se transformem em cidadãos. É assim que a mídia denomina os consumidores de hoje e é nisso que serão transformadas as crianças após passarem pelo aparelho ideológico da escola: bons consumidores, bons leitores de rótulos.

Na escola elas aprendem a ler, a escrever e a fazer contas. Começam a conhecer o funcionamento do mundo, da natureza, da sociedade em que vivem. São, também, adestradas para se enquadrarem perfeitamente nos papéis que essa sociedade lhes reserva.


Enquadrar. Essa é a palavra para designar a função preponderante das instituições que frequentamos durante a vida. Na sociedade produtora de mercadorias, como a nossa, essa função é uma das que integram o processo pelo qual nos transformamos em coisas. E, como coisas, valemos tanto quanto somos capazes de consumir. Quanto mais temos, mais valemos. Assim somos vistos nas instituições que presidem nossas vidas: na escola, no trabalho, no culto religioso, no condomínio, na academia de ginástica, no trânsito...

Ainda bem que a educação tem dois gumes: ao mesmo tempo em que aliena e enquadra, pode fazer germinar, pelo conhecimento, a emancipação. Por isso nem sempre a escola, por si só, é eficaz para alienar. Ela pode ser, também, espaço para questionar a própria educação e a sociedade. É o que aprendemos com Paulo Freire.

Enquanto essas idéias me ocorrem, aguardo o momento em que acenarei para minha neta, que me vê à janela do apartamento, enquanto brinca no parquinho do jardim de infância. Ao me ver, lá de dentro do espaço escolar, ela sabe que aqui é um lugar onde pode exercer sua liberdade.