quinta-feira, 17 de junho de 2010

Coisas de Minas... e de mineiros!

Guimarães Rosa disse que Minas é várias. E é mesmo. Aquele lugar é mais que um estado, é quase um país. Ou é uma síntese do Brasil, com todas as suas contradições.

Eu não promovo textos do tipo "ser mineiro é...", que acabam fazendo a apologia de valores reacionários e consagrando um tipo de político "raposa", daqueles capazes de acordos espúrios com as tradicionais elites mineiras para se manter no poder. Além disso, como mineira, penso que não existe um conjunto único de características para definir os mineiros, assim como não pode haver também para definir cariocas, paulistas, gaúchos, cearenses, paraenses etc.

O que existe é um grande número de pessoas que compartilham bens culturais, materiais e imateriais, alguns exclusivos da região em que habitam e que lhes dá um sentimento de unidade, como o sotaque, por exemplo. Eu adoro o sotaque mineiro, tão único e ao mesmo tempo tão variado, dependendo da região de Minas em que você esteja. Para quem não sabe, aquele jeito de escrever do Guimarães Rosa é, de verdade, o jeito de falar de muitos mineiros, que o leitor capta melhor se ler o texto em voz alta.

E o mineiro é capaz de iniciativas pioneiras, que hoje podem nos parecer ultrapassadas e antigas, mas persistem e mostram que o caminho para uma economia solidária pode ser construído. No video abaixo (valeu, Ivan Moraes, lá dos EUA!) vocês podem ver essas práticas incorporadas ao cotidiano de uma família de comerciantes da cidade de Itabirito. Deliciem-se!


sexta-feira, 11 de junho de 2010

Brasília: a quadrilha continua

Resolvi mudar o design do blog. Persigo o leiaute mais limpo, menos pesado para o leitor. Mesmo usando cores escuras. Nada é para sempre, sem mais nem menos posso mudar tudo de novo...

Tenho no vidro traseiro do carro um adesivo com os dizeres: "Fora Arruda, P.O. e quadrilha". Hoje alguém me perguntou por que não o removo, já que Arruda e Paulo Octávio estão fora do governo do DF. "O problema é que a quadrilha permanece", disse eu. Por isso, o adesivo fica.

Os brasilienses já começam a circular de carro portando adesivos de seus candidatos preferidos. Como sou observadora, não posso deixar de ler vários deles. Circulam por aí os nomes de quase todos os envolvidos nas investigações da Operação Caixa de Pandora, que não foram sequer investigados pela Câmara Legislativa do DF: Benedito Domingos, Roney Nemer, Cristiano Araújo e Benício Tavares. Esses são os nomes que já vi. Por enquanto ainda não vi ninguém com coragem de ostentar os nomes de Eurides Brito, Júnior Brunelli e Leonardo Prudente, mas consta que este último será candidato.

Vi também circulando o nome - pasmem! - de Agaciel Maia, aquele que frequentou os noticiários ano passado, por conta de todo tipo de irregularidade cometida pela diretoria do Senado Federal, lembram? (Por falar nisso, a mesa diretora do Senado continua aprontando: nesta semana quase emplacou, por debaixo dos panos, reajuste olímpico e ilegal de salários para seus servidores.) Pois é. Mais um para engrossar as fileiras daquilo que o mestre Mino Carta denominou "vanguarda do atraso" na tradicional política de Brasília.

O fato de esses nomes estarem visíveis pela cidade, faltando ainda tempo para o início legal das campanhas eleitorais, é para mim um sinal e um sintoma. Sinal de que a quadrilha continua em ação, tratando de garantir a eleição para adquirir imunidade, foro privilegiado etc. Sintoma da indigência política do eleitor do DF, capaz de consagrar Roriz nas urnas e, junto com ele, todo o bando.

Também nesta semana houve, por parte do MP, reiteração do pedido de intervenção federal no DF. É pena que parece já haver um acordo entre as forças políticas para que isso não aconteça. Pela primeira vez, desde a nomeação de Roriz como governador biônico por Sarney, tem-se a oportunidade histórica de desmantelar a quadrilha que se instalou e vem agindo até hoje. É muito mais que uma dúzia de políticos do Executivo e do Legislativo; há gente em todas as esferas e instâncias do poder. Aqui costumamos dizer que a polícia não faz greve, apenas ameaça investigar alguns para conseguir aumento de salários.

Brasília é um caso crônico de podridão política. Intervenção federal aqui teria que ser ampla e profunda, suspendendo as eleições deste ano e abrindo espaço para grandes investigações, que passassem o pente fino em todos os poderes e, efetivamente, levassem à prisão os delinquentes que tanto prejuízo causam aos cofres do DF.

Pense em quanto esta cidade poderia ser melhor, se não fosse dominada por meliantes e se todos os recursos que lhe repassa o governo federal fossem de fato utilizados para humanizá-la e melhorar a qualidade de vida de seus habitantes. Se, por exemplo, os recursos do SUS fossem usados para melhorar o atendimento dos hospitais públicos, em vez de ficarem aplicados em algum banco, como foi constatado pela auditoria do Ministério da Saúde.

Brasília em aquarela - foto de Augusto Areal

Pois então. Enquanto outros motoristas circulam com os nomes de seus candidatos a esse ou aquele cargo, eu continuo circulando com meu adesivo vermelho, insistindo no apelo para que nos livremos do nosso cancro político.

INTERVENÇÃO FEDERAL RÁPIDA, AMPLA E PROFUNDA!!!

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Como está o Acre, hoje?

Recentemente tive notícias fresquinhas do Acre. Não sei por que simpatizo tanto com esse estado brasileiro; talvez porque tenha amigos acreanos e tenha também conhecido grandes cidadãos de lá. Posso dizer que tenho, hoje, grandes amigos que vivem e trabalham em Rio Branco.

E as notícias que recebo confirmam o que os amigos me dizem. O Acre de hoje é irreconhecível se comparado àquele de 15 anos atrás. Mudou inacreditavelmente.

A população acreana hoje é de 655.385, distribuída em 16.422.136,05 hectares - 464.680 em áreas urbanas e 190.705 em áreas rurais. Desses habitantes, 15.852 são indígenas, vivendo em 167 aldeias. Isso é mais do que alguns países europeus, não? Mas não é essa a mudança de que falo. Vamos aos dados.

O salário de professor do ensino fundamental no Acre é de R$ 1.498,00 por vinte horas semanais, contra R$ 863,64 em São Paulo, R$ 850,00 em Minas Gerais; R$ 504,20 no Rio Grande do Sul e R$ 827,42 em Brasília.

A posição daquele estado no Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (SAEB) passou, no período de 1999 a 2007, de 25º para 10º em Português e de 26º para 13º em Matemática (terceira série). Essa avaliação consiste em provas de matemática e português, elaboradas pelo Ministério da Educação, aplicadas a todos os alunos da rede pública, do primeiro ao terceiro ano.

O mesmo se verifica com a posição do Acre no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), que, no ensino médio, passou de 17º para 10º em Português e de 20º para 13º em Matemática.

Assim como os da Educação, também os indicadores da Saúde melhoraram, com aumento da expectativa de vida ao nascer e da expectativa de vida aos 60 anos. Trabalho e renda também apresentam índices positivos nos últimos 10 anos.

Há muitos programas de inclusão social em andamento, para além daqueles do governo federal. Um dos mais bacanas deles é o projeto de inclusão digital, denominado Floresta Digital. Vejam como é a infovia que cobre todo o estado:


Se tiver computador, a pessoa deverá apenas adquirir uma antena de R$ 80 para ter acesso à banda larga oferecida pelo governo estadual. Para os que não tem computador, há os telecentros públicos e gratuitos. Imaginem a importância disso para o estado, em que o isolamento de algumas regiões se agrava dependendo das condições climáticas.


Outra iniciativa interessante é a Escola da Floresta, que oferece cursos técnicos destinados a formar profissionais aptos ao manejo sustentável dos recursos naturais do estado. Isso é importante quando se pensa que o Acre possui reservas extrativistas, terras de propriedade do Governo Federal cujo uso é controlado pelas associações comunitárias de seringueiros e outros moradores tradicionais da floresta. Herança da luta de Chico Mendes, que dá nome a uma delas, na cidade de Xapuri.

Tem muita coisa rolando e fazendo com que o Acre se torne um lugar cada vez melhor para se viver. O estado tratou de proteger as manifestações culturais e a medicina popular, registrando patentes de todo o patrimônio material e imaterial de seu povo. Isso evita que aconteça o que aconteceu com produtos brasileiros que tiveram suas patentes registradas por estrangeiros, como ocorreu com a rapadura e o cupuaçu, ocasionando batalhas judiciais em foros internacionais.

Se eu já fui ao Acre? Não... Mas ainda vou lá, com certeza! Preciso ver de perto essas mudanças, conversar com as pessoas, fotografar. Por falar em fotografias, deixo aqui duas no estilo "antes x depois", para vocês terem uma idéia das mudanças físicas na cidade de Rio Branco:

Canal da Maternidade - Antes

Canal da Maternidade - Depois

Se você quiser ver mais fotos comparativas, clique aqui. As do palácio do governo são de cair o queixo, tamanha a transformação.

Pois então. Faltou dizer que os homens e mulheres acreanos que conheci tem orgulho da história de seu estado. Hoje, recuperaram a auto-estima de cidadãos, além de terem avançado visivelmente na qualidade de vida. Mas ainda há muito por fazer, com certeza. Ainda há problemas históricos, cuja resolução não depende apenas das prefeituras e governo estadual, pois dizem respeito à desigualdade estrutural da sociedade brasileira. Mas, também com certeza, os tempos dos políticos-bandidos, manejadores de motosserra, ficaram para trás. Espero que definitivamente.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Da realidade e da copa do mundo

Leio por aí que a logomarca da Copa do Mundo de Futebol de 2014, que acontecerá no Brasil, "vazou" na internet logo depois de aprovada pela FIFA. O júri que escolheu o trabalho "artístico" foi formado por ninguém mais ninguém menos que os luminares Paulo Coelho, Gisele Bündchen, Ivete Sangalo e Hans Donner. Vejam a "belezura":

Liiiiiinnnnda, não? Quem sou eu para criticar tão complexa obra de (m)AR(k)T(ing)E, escolhida por júri tão especializado, de forma tão democrática e transparente? Pobre Jules Rimet, que sufoco!

Por falar em Copa do Mundo, canalizo com força total para a seleção canarinho na África do Sul todas as minhas energias positivas. Chego a ficar em posição de lótus, murmurando um mantra que tem o poder supersupramegametafísico de estabelecer uma ponte mística sobre o oceano Atlântico, transportando toda a energia que sou capaz de catalisar no meu poderosíssimo cérebro de torcedora. Porque a seleção brasileira vai precisar muito disso, vocês não acham? Espero ardentemente que o Sr. Carlos Caetano, também conhecido como Dunga (valeu, Clélia!), bote os meninos para jogar e não para praticarem aquela estratégia que nos garante paz mas não vitória, tão sua conhecida: a retranca. Coragem, Dunga!!!

* * *

Há períodos em que acho que este blog está ficando sisudo demais. É que, para mim, escrever é exercer a crítica. De crítica em crítica, a gente vai passando idéia de que só sabe ver a realidade com overdose de negativismo, de que nada está certo no mundo. O leitor vai sentindo um peso, inicialmente indefinido, mas aos poucos mais palpável. É o peso do mundo, o peso das coisas fora do lugar, do desequilíbrio, da desigualdade.

Juro que tento escrever com leveza, humor e ironia fina. Tento mesmo. Mas a realidade me esbofeteia, joga na minha cara imagens duras e cruas, que inicialmente me deixam perplexa, em seguida me entristecem, mas logo depois despertam minha indignação, motor que move minha pena (lindo isso, não? hoje é o teclado...) para continuar expressando a relação que mantenho com isso que alguns chamam de "realidade", mas que, para Slavoj Zizek, filósofo esloveno, é o "deserto do real".

Pois então. Continuarei escrevendo minha tentativa de crítica aqui neste espaço. Não padeço daquele clássico mal que aflige alguns escritores e que os faz começar um texto com a clássica frase: "Por muito tempo olhei para a tela em branco, a exigir de mim que a preenchesse com palavras, mas não conseguia pensar em nada sobre o que escrever." Tenho sobre o que falar e farei aqui uma pequena lista:

1) o PIB do Brasil circula sobre pneus;
2) Israel pratica genocídio?
3) a educação em Minas Gerais não melhorou nos últimos 10 anos;
4) a quadrilha que domina Brasília continua em liberdade e agindo para eleger o próximo governador;
5) o que eu diria a Marina Silva se a encontrasse na feira?
6) diálogos com duas meninas amorosas;
7) o fim da velha mídia no Brasil;
8) como está o Acre, hoje?
9) eu queria ser amiga do Chico Buarque;
10) ai, que saudade da comidinha da mamãe!

Taí, leitor/leitora! Nas próximas semanas tentarei escrever sobre os assuntos listados acima, não necessariamente naquela ordem. Enquanto isso não ocorre, você pode ler também minha colaboração no blog 50 anos depois da pílula. É só esta semana.

Até mais!

quarta-feira, 19 de maio de 2010

"Não somos racistas"

Neste mês em que se comemora a abolição da escravatura no Brasil, o professor Marcelo Paixão, da UFRJ, divulgou interessantíssimo trabalho de pesquisa.

Mostra-nos ele, entre outras coisas, que os negros e mestiços continuam em desvantagem: têm em média 2 anos menos de escolaridade que os brancos; a média salarial das pessoas negras/mestiças é 50% menor que a das pessoas brancas; o percentual de negros nas universidades públicas é ainda muito pequeno, apesar da adoção das políticas afirmativas.

Tudo isso é sabido e consabido. Esses números podem ser piores, se focarmos especificamente a situação das mulheres negras, pois a ela se soma a desvantagem da discriminação de gênero, além da cor da pele.

Esses dados são divulgados todos os anos e mostram melhoras muito lentas na situação dos negros/mestiços no Brasil. São indignantes e servem para nos mobilizar na luta pela superação da herança escravista.

Mas neste ano foi divulgado um dado pra lá de indignante, escandaloso mesmo: o professor Paixão nos mostra que, de 2003 a 2009, foram libertados do trabalho escravo 40 mil brasileiros e brasileiras, que viviam e trabalhavam em fazendas, em regime de servidão por dívida. Destes, 73,5% são negros. É o alto preço da "paz no campo" defendida pela senadora Kátia Abreu, latifundiária e presidente da Confederação Nacional da Agricultura. E esse é também o preço que paga o trabalhador rural que não ingressou em um dos movimentos sociais de luta pela reforma agrária: o de ser espoliado e escravizado.

Trabalhador libertado mostra sequelas de acidentes de trabalho e a água "potável" que consumia durante a escravidão (Imagem retirada do Blog do Sakamoto)

A OnG Repórter Brasil monitora as ações de combate ao trabalho escravo e mantém atualizadas as notícias que nos mostram tratar-se de prática generalizada em todo o Brasil. O grande explorador dessa mão de obra é o agronegócio - nome moderno para nosso velho conhecido latifúndio. Na lista suja do Ministério do Trabalho, você pode comprovar que as empresas agropecuárias são as maiores infratoras das leis trabalhistas. Mas isso ocorre também nos ramos de atividade da construção civil, das confecções e dos calçados.

Uma sociedade erguida sobre as bases carcomidas do latifúndio e da escravidão, que não se dispõe a combater efetivamente essas práticas sociais, pode se dizer civilizada? Você, que compra nas Lojas Marisa e C&A, sabe que as roupas vendidas por elas são produzidas à custa do trabalho escravo de imigrantes bolivianos, no bairro do Bom Retiro, em São Paulo?

Trabalhadores escravos em oficina de costura que fornece roupas para as Lojas Marisa e C&A (imagem retirada do site Repórter Brasil)

São 40 mil brasileiros (e também estrangeiros) libertados da relação escravista. Pessoas que tiveram suas vidas roubadas, foram proibidas de sonhar, impedidas de exercer livremente seus direitos. A escravidão hoje é duplamente perversa: primeiro, pelo crime de privação da liberdade de outrem, já por si hediondo; segundo, por persistir esse crime em uma sociedade dita civilizada, que alardeia a igualdade de direitos de todos perante a lei.

Passados 122 anos da abolição oficial da escravidão no Brasil, ao ver esses dados da pesquisa do professor Paixão, ganhamos a certeza de que também esse capítulo da vida social brasileira não passa de mais um conto da carochinha da história oficial.

Quase nada mudou. Hoje Macunaíma talvez dissesse: "Latifúndio e escravidão, os males do Brasil são."

segunda-feira, 17 de maio de 2010

De volta pro meu aconchego

Não, este blog não foi desativado. Apenas tive algumas atribulações que me impediram de escrever com a frequência desejada. Junte a elas certa falta de inspiração, provocada pela perplexidade com alguns acontecimentos recentes.

A realidade brasileira supera a ficção. Se lesse em algum romance sobre um país distante cuja grande imprensa se dedica laboriosamente a desconstruir os fatos, em vez de apresentá-los aos leitores, eu encararia tudo como uma narrativa ficcional. Mas não há romance sobre isso. Há, sim, no Brasil, um trabalho concertado e coordenado dos meios de comunicação para distorcer, desqualificar e/ou minimizar tudo que possa contribuir para o aumento da auto-estima dos brasileiros, pelo orgulho de pertencer a um país que pouco a pouco se afirma como nação soberana no cenário internacional.

Por isso, o acordo assinado com o Irã e a Turquia para o controle do enriquecimento de urânio, que acaba por esvaziar a proposta dos EUA de aplicar sanções econômicas ao país islâmico de 75 milhões de habitantes, não passou de um "golpe diplomático" para a mídia nativa. A pergunta mais frequente nos debates televisivos era "o que o Brasil ganha com isso?" A paz internacional - não aquele embuste conhecido como "pax americana" - não significa nada para os barões da imprensa, que ridicularizam o protagonismo do Brasil nesse episódio, na contramão da imprensa internacional. Aqui sim temos o "golpe midiático" da desinformação... Mais um.

* * *

Hoje pela manhã ouvíamos na rádio Câmara um programa de uma série sobre as pessoas portadoras de invisibilidade social. A primeira entrevista foi com uma moradora de rua de Brasília, ex-professora de piano, mulher muito culta e de discurso bem articulado. Anda carregada de livros. Por que está na rua? Pela sucessão de problemas que a levaram a perder tudo que tinha. Define-se como uma migrante, uma andarilha.

Você pensa que apenas mendigos, bêbados e drogaditos vivem nas ruas das cidades brasileiras?
Pois aprendi que há todo tipo de gente, inclusive aquelas pessoas que estão na rua por opção.


Pensando bem, é um direito das pessoas estarem na rua, se esta for sua escolha. Cabe ao poder público prover o apoio necessário a quem vive sem teto: abrigos onde as pessoas possam tomar banho, fazer refeições e tenham pequenos armários para guardarem o pouco que possuem.

Agora voltemos ao uso da expressão "invisibilidade social", que me parece apenas mais um modo de escamotear a questão implícita na existência dessas pessoas. Serão elas invisíveis ou a sociedade é que está cega, não as enxerga? Elas se expõem nas ruas, perambulam, esbarram na gente o tempo todo. Como podemos não vê-las?

* * *

Onde andam James Cameron e Sigourney Weaver, que, por conta do sucesso do filme Avatar, considerado um libelo ecológico pelos jornais brasileiros, andaram dando declarações e fazendo súplicas ao governo brasileiro para que não construa a usina hidrelétrica de Belo Monte?

Sintomaticamente, não vi nenhuma declaração deles sobre o recente desastre ecológico, por derramamento de óleo no mar, ocorrido na costa dos EUA. Aqui no Brasil as declarações dos dois foram repercutidas pelos jornalões e noticiários de TV, com o reforço da candidata verde à presidência da república, Marina Silva. Bem, é assim: no quintal, vale todo tipo de ingerência,
já que o histórico complexo de vira-lata da elite brasileira faz com que essas declarações sejam até valorizadas e usadas para fazer oposição a projetos de investimento no setor de energia elétrica. Já quando o problema é na própria cozinha, o negócio é abafar a fumaça...

quinta-feira, 29 de abril de 2010

"Caía a tarde feito um viaduto..."

Uma gripe danada me pegou. Estou de molho, assistindo à TV Justiça, que transmite a apreciação, pelo STF, da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental, a ADPF nº 153. Ou seja, revisão da lei de anistia. Placar final: sete contra e dois a favor.

Isso quer dizer que a nossa corte judiciária máxima deliberou que a lei nº 6683/79 - a lei da anistia - não contraria a Constituição Federal de 1988. Portanto, não se deve permitir a punição daqueles que cometeram crimes comuns durante a ditadura empresarial-militar, como os crimes de homicídio e tortura, que foram definidos pela lei como "crimes conexos".


Confesso meu desânimo. Por causa da gripe? O físico, sim. Mas o da alma deve-se ao espetáculo midiático proporcionado pela togada corte. Conservadora ao extremo, legitimando a covardia dos agentes do arbítrio e reafirmando a tradição brasileira de tudo resolver pela conciliação artificial própria dos pactos da elite dirigente deste país.

O argumento mais utilizado é o de que a lei de anistia "foi bilateral". Quem viveu os anos 1970 sabe que, naquele contexto, qualquer decisão "bilateral" foi resultado da imposição das armas. Ou os opositores do regime concordavam ou concordavam. Não havia escolha.

Hoje sinto que o STF está negando ao país a oportunidade histórica de responsabilizar os agentes da tortura e da violência que marcaram a vida nacional naquele período. Havia os que sabiam que os militares estavam a serviço do setor empresarial, que seus governos não combateram a corrupção, que sua política econômica aumentou a pobreza e o endividamento externo, que sua arbitrariedade tirou vidas de brasileiros que ousaram pensar por si mesmos.

Jornalista Vladimir Herzog, assassinado no DOI-CODI de S. Paulo, em outubro de 1975

Os agentes da ditadura empresarial-militar intimidaram trabalhadores, professores, jornalistas, artistas. Forçaram muitas pessoas ao exílio. Forçaram a violência como resposta para a violência da prisão, tortura e morte dos opositores do regime. Fecharam o Congresso Nacional, cassaram juízes e desembargadores, senadores e deputados. Para que os presos fossem libertados e os exilados voltassem, foi necessária a negociação da lei da anistia. Negociação desigual, entre a força dos tacões dos coturnos e as famílias de homens e mulheres prisioneiros e maltratados.

O operário Manoel Fiel Filho, assassinado em 17/01/1976, nas dependências do II Exército

Ao se recusar a fazer a revisão da lei da anistia, o STF passa a borracha sobre o passado autoritário e sinaliza a não responsabilização dos criminosos, dos apaniguados do poder, dos empresários que financiaram o golpe, dos políticos que ainda hoje circulam com desenvoltura pelos corredores dos poderes executivo e legislativo, esfregando na cara da gente sua impunidade.

Você reconhece algum desses rostos?...

Tanta resistência, tanta luta, tantos protestos... Apoio ao movimento sindical, campanha das
Diretas já, passeatas e manifestações, sempre sob o olho atento dos militares, suas ameaças veladas: "General reclama de bandeiras vermelhas em comício das diretas". Quem não se lembra? Quem não se lembra da Rede Globo omitindo do noticiário o grande comício que reuniu um milhão de pessoas no Rio de Janeiro? Hoje muitos dos que colaboraram com a repressão gritam na imprensa contra o governo. Já viram o Alexandre Garcia, no jornal matutino? Deve estar neste momento aplaudindo a decisão do STF.

Então, é isso. A charge do Latuff, de 2008, continua atual, infelizmente:


E a gente vai levando a vida, teimando em não esquecer, como diria o saudoso Henfil.

A Graúna, do Henfil