
A diretora, Julie Gavras, é filha do cineasta grego Costa-Gavras e conduz, com humor e sensibilidade, a história que se narra na tela. Trata-se de uma menina de 9 anos, que nos anos de 1970 vive uma transformação radical em seu cotidiano e em sua maneira de ver o mundo, a partir da adesão dos pais ao comunismo, com toda a militância que isso implicava naquela época.
Anna de la Mesa é a garota cujo mundo organizado - casa boa e bonita, com jardim; escola católica; avós donos de terra que produz vinho - vem abaixo quando os pais assumem a militância, passando meses fora de casa, quando abraçam o sonho do socialismo e resolvem apoiar a eleição de Salvador Allende no Chile. É uma menina inteligente, reflexiva e questionadora, que cumpre uma trajetória de amadurecimento e renova sua compreensão de mundo, ao mesmo tempo em que lida com sentimentos de abandono e de perda da vida estável e sem sobressaltos que levava antes. Isso produz cenas excelentes, como aquela em que Anna discute com os camaradas do pai, um bando de "barbudos e vermelhos", como ensinara a ela a empregada que fugira de Cuba: todos com objetivo de espalhar o comunismo pelo mundo, influenciados pelo demônio que era Fidel.
Julie Gavras imprime a perspectiva da garota de 9 anos à câmera. Tudo é visto a partir do seu ângulo de visão: na passeata, onde Anna vai aprender sua "lição de solidariedade", o que as lentes mostram é apenas parte das pessoas que se aglomeram na rua, de pernas que correm, da fumaça que sobe do asfalto quando se ouvem explosões de bombas de efeito moral. É o olhar da menina recolhendo fragmentos da realidade, aquilo que lhe é permitido ver pelos olhos da infância.Se você vai curtir preguiça no feriadão de fim-de-ano, é uma boa pedida para aquele dia chuvoso.