domingo, 17 de outubro de 2010

O mundo sem José Ângelo Gaiarsa




Veio hoje a triste notícia da morte do psicanalista José Ângelo Gaiarsa. Encerrou-se assim um capítulo de avanço na história dos costumes da vida nacional.

Ângelo Gaiarsa promovia na mídia uma discussão avançadíssima, posicionando-se contra a virgindade e a favor da liberação sexual. Culpava a instituição família pela repressão da sexualidade e classificava-a como fonte de todas as neuroses e psicopatologias. Despertava a ira dos setores conservadores da sociedade - esses mesmos setores que hoje fazem campanha deslavada para Serra, como a(s) igreja(s), a TFP e a Opus Dei.

Gaiarsa foi o primeiro no Brasil a trabalhar com a psicologia analítica de Carl Gustav Jung e com a terapia da sexualidade de Wilhelm Reich. Publicou muitos livros sobre corpo, sexualidade, terapias analíticas, sempre em linguagem acessível ao público leigo, com leveza e humor, mas sem jamais perder a seriedade.

Muitas mulheres e homens da minha geração hoje são bem resolvidos graças a dois fatores importantíssimos: a invenção da pílula anticoncepcional e os textos de José Ângelo Gaiarsa. Onde quer que ele esteja agora, meu desejo é que usufrua de uma eterna felicidade orgástica!


A política no século XXI

Quando adolescente, eu costumava fantasiar sobre como seria a vida no século XXI. Em um mundo tecnologicamente desenvolvido, eu pensava que não haveria mais pobreza, nem religião, nem concentração de riqueza e de terra, nem falta de pão e trabalho. Mas já faz muito tempo que eu tinha essas fantasias e hoje vejo que era uma adolescente com alguma fé no ser humano e naquilo que lhe dá sua qualidade intrínseca: a humanidade.

O tempo se encarregou de desmentir minhas expectativas e me obrigar a colocar os pés no chão assustador da realidade, ainda muito jovem, quando me dei conta de estar vivendo com toda a intensidade os tempos da ditadura empresarial-militar que, pela supressão das liberdades e direitos individuais e coletivos, dominou o Brasil de 1964 a 1985.

Qualquer pessoa com um mínimo de independência intelectual não hesitaria em se posicionar contra o regime empresarial-militar, em lutar pelo retorno à democracia, em apoiar os movimentos populares duramente reprimidos quando da derrubada do presidente João Goulart. Assim o fizeram milhares de estudantes secundaristas e universitários, levados pela violência do regime a adotar a luta armada. Era uma guerra, sim, o que estávamos vivendo. Guerra muito desigual, porque o lado opressor contava com a cumplicidade do capital e dos meios de comunicação. Basta dizer que as organizações Globo e Folha da Tarde (hoje Folha de São Paulo) foram notáveis colaboradoras dos militares, contribuindo para fixar no imaginário popular a imagem dos opositores como "guerrilheiros", "terroristas" e "bandidos".

Hoje vejo jovens que sequer imaginam o que é viver sob uma ditadura repetindo nas redes sociais da internet os bordões daqueles que oprimiram o povo brasileiro por duas décadas. Isso me deixa perplexa! No jogo político-eleitoral que vivenciamos, o vocabulário repressivo dos militares foi reativado nos discursos, nos artigos de jornais e nos noticiários televisivos. O quadro é claro: há de um lado o candidato dos conservadores, que pugna contra o desenvolvimento brasileiro dos últimos oito anos; de outro, a candidata que representa a manutenção e a continuidade das políticas públicas que possibilitaram esse desenvolvimento.

Neste momento importante da vida nacional, que é o segundo turno das eleições, saem das sombras atores políticos inimagináveis. As igrejas adquirem dimensão inusitada, em pleno século XXI. As acusações irresponsáveis afloram por todos os lados. Esquecem os acusadores que não estamos elegendo o líder de um estado autocrático, mas o chefe do poder executivo que deverá governar em sintonia com os demais poderes da república. Jamais um presidente ou presidenta poderá impor políticas públicas sem o respaldo desses outros poderes.

Mas não. Os arcebispos/bispos e pastores ultraconservadores preferem abusar da ignorância dos fiéis a esclarecer-lhes que não vivemos em um estado teocrático e que, durante suas escolhas, estão exercendo o mais valioso dos poderes que sua condição humana lhes permite exercer: o livre-arbítrio. Preferem embotar a mente dos que creem nos ensinamentos religiosos com o veneno do preconceito mal disfarçado de pregação religiosa.

E devagarinho, depois que grande estrago já está feito, vamos descobrindo as ligações perigosas entre as religiões e os políticos. Assim é que o pastor Malafaia surge como alvo da promessa de concessão de um canal de TV só para suas pregações; assim é que o arcebispo Fergonzini, de Guarulhos, é desmascarado por ter como financiadora da impressão de seus panfletos caluniosos uma organização integralista, ou neofascista, usando uma gráfica cuja proprietária é filiada ao mesmo partido de um dos candidatos. E mais a pergunta que não quer calar: quem financia toda essa baixaria?

Pois é. Estamos vivendo um processo político-eleitoral no século XXI cujo maior mérito é desnudar o caráter medieval que continua presidindo as relações política-igreja(s) no Brasil contemporâneo. É uma arena em que a sinceridade não tem vez e leva até os ateus mais notórios a fingirem que são candidatos ao papado e não à presidência da república. Enquanto isso a mídia acumpliciada fecha os olhos e finge não existir uma perguntinha básica, a ser respondida por um dos candidatos: quem é Paulo (Preto) Sousa e o que ele sabe?

Nunca disfarcei neste espaço a minha posição política. Todos os meus 29 leitores inscritos e também os outros não inscritos sabem que voto em Dilma Rousseff porque, neste momento, é ela que representa a continuidade do melhor governo que o Brasil já teve, o governo mais fiscalizado pela mídia, o mais criticado, o mais caluniado. Eleita, Dilma enfrentará as mesmas críticas e calúnias, agravadas pelo fato de ser mulher.


Não tenho mais ilusões. O Brasil tem demonstrado que ainda não tirou o pé do passado escravista, racista e classista. Mas temos que lutar - e muito - para termos o verdadeiro estado laico. Nenhuma religião tem propriedade exclusiva do cristianismo. É preciso não confundir a instituição "igreja(s)" com os ensinamentos que ela tão habilmente deturpa, em prejuízo do povo brasileiro.

domingo, 10 de outubro de 2010

Tem livro novo na praça...

Tenho o prazer de convidar meus 28 leitores inscritos e também os outros não inscritos para o lançamento de novo livro. Neste eu me despeço de Graciliano Ramos, com alegria, depois de quase seis anos de intensa e frutífera convivência.


São dois livros em uma caixa: um é a reedição de Homenagem a Graciliano Ramos, publicado em 1943, em apenas 500 exemplares - livro raro, portanto. Contém os discursos proferidos no jantar em homenagem ao grande Graça, que aconteceu em março de 1942, no restaurante Lido, no Rio de Janeiro.

O outro, Catálogo de benefícios: o significado de uma homenagem, traz comentário sobre o discurso de Graciliano no referido jantar, por Hermenegildo Bastos, a devida contextualização daquele evento no Brasil da época, por Leonardo Almeida Filho, e o levantamento dos dados biobibliográficos dos presentes ao jantar, por esta que vos fala, mostrando que lá estava o grosso da intelligentsia brasileira, para o devido desagravo ao escritor, que havia sido preso pela polícia política do governo Vargas.

A edição está primorosa, caprichadíssima!

O lançamento, como vocês podem ver no convite, será no Espaço do Autor da Feira do Livro de Brasília. Apareçam!

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Curso com a Turma Augusto Boal, do MST

Na semana de 12 a 18 de setembro, estive novamente com a Turma Augusto Boal, na Universidade Federal do Piauí. Foi nosso último módulo da disciplina Literatura no curso de licenciatura em Artes para os integrantes do MST.

Trabalhamos inicialmente com o texto "A nova narrativa", do nosso querido Antonio Candido, e dele retiramos alguns conceitos fundamentais para o entendimento da narrativa contemporânea. É impressionante o quanto os alunos valorizam a contribuição crítica deste que é, hoje, o maior intelectual brasileiro, militante e comprometido.


Depois de Candido, defrontamo-nos com Clarice Lispector. Primeiro, o "aperitivo": o conto "Felicidade clandestina", que motivou comentários muito interessantes, sobre as relações de dominação/opressão baseadas na posse: 1) do livro como mercadoria; 2) da literatura como arte que constitui e ao mesmo tempo resiste à forma mercadoria. Mas isso era apenas uma preparação para a grande leitura que viria:
A paixão segundo GH.


Feita a leitura nos Núcleos de Base, gastamos um dia inteiro na discussão desse romance. Posso dizer que o primeiro contato da turma com Clarice foi bastante proveitoso. A todo momento alguém lembrava do conceito de "literatura de dois gumes", também do mestre Candido, que havíamos trabalhado no módulo anterior. Foi interessante abordar a narrativa clariceana também na perspectiva do processo social brasileiro. Foi muito bom polemizar sobre o conceito de narrativa intimista. Após a leitura, uma boa produção de texto.

Depois foi a hora de enfrentar
Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa. Detivemo-nos especialmente no trecho em que Riobaldo relata o encontro dos jagunços com os catrumanos. Foi o ponto de partida para discutirmos a literatura também como representação do processo de modernização do capitalismo à brasileira.

O texto de apoio para a leitura de Grande sertão: veredas foi "O mundo misturado", de Davi Arrigucci Jr. E foi muito interessante perceber o sertão como o mundo e o mundo como o sertão: as relações e os interesses dos grupos sociais ali representados, a complexidade do processo de formação do estado brasileiro, tendo por base a violência, e o compromisso da literatura com a representação desse processo. Mas o melhor da semana ainda estava por vir: a leitura do conto "Meu tio, o iauaretê", também do Rosa. Para essa, contamos com o texto de apoio "As artes da meaça", de Hermenegildo Bastos.

A leitura desse conto foi muito instigante para a turma. O texto foi lido em voz alta, para aproveitar ao máximo a proximidade da linguagem com a oralidade. Discutimos o significado de esse conto ter sido escrito em um momento em que os movimentos campesinos começavam a se organizar no Brasil. Debatemos o fato de o personagem Tonho Tigreiro ser o último de seu povo e de, junto com ele, morrer também sua língua e sua cultura. Merece notar aqui a empatia que se estabeleceu entre os leitores e o personagem: à medida que a leitura avançava, havia gente torcendo para que ele não morresse...

No último dia, nossa aula foi - paulofreireanamente - à sombra dos cajueiros em flor. Não na UFPI, mas no local onde os alunos estavam hospedados. E a pergunta que lhes ficou, para novas leituras, foi: "Qual é a relação entre a literatura e a sociedade, hoje?"

Tenho de registrar a alegria que foi a noite cultural da quarta-feira. Nas apresentações, os alunos já evidenciaram aproveitamento das leituras dos dias anteriores. Muita música, poesia, uma mística maravilhosa, feita por essa turma que tem muitos artistas:


Mas impagável mesmo foi o momento em que a turma viu a imagem e ouviu a voz do prof. Hermenegildo via internet. Depois de ler seus textos, depois de me ouvirem mencioná-lo "n" vezes durante os cursos, todos querem conhecê-lo. Pois é, acho que ele vai acabar enfrentando o calor de Teresina, muito em breve.

Vale a pena, sempre, ir a Teresina pela Turma Augusto Boal. Eu volto a Brasília me sentindo mais humana, com a certeza de que construímos um conhecimento valioso da literatura e do Brasil. E de que, com nossa prática, estamos formando mais do que professores, simplesmente: estamos formando intelectuais orgânicos, militantes e comprometidos.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O dia em que São Paulo parou V (e último!)

Fabiana se espreguiça. Vira a cabeça para o relógio de cabeceira e, de repente, dá um pulo!

- Dez horas! Não pode ser! Como dormi até tão tarde?!

Todo dia, conta com o barulho do prédio em construção, ao lado do seu, para acordar. A peãozada começa às sete horas, infalivelmente. O canteiro de obras é o seu despertador de todas as manhãs, mas hoje, inexplicavelmente, não faz barulho. Por isso perdeu o primeiro horário na faculdade. Todos já saíram: seu pai, sua mãe e seu irmão. Nem a empregada está.

Apronta-se correndo, come uma fruta e se manda, no carro popular que ganhou de presente do pai por ter passado no vestibular para o curso de Direito. Hoje é dia de reunião do grupo de estudos. Seis meninos e meninas, primeiranistas, vão finalizar um manifesto a ser publicado na internet. O segundo, aliás. O primeiro teve boa repercussão, angariou 600 adesões. Trata da necessidade de preservar São Paulo para os paulistas. É a luta em que Fabiana está engajada e à qual dedica boa parte de seu tempo na faculdade.

No caminho para a faculdade, Fabiana nota que o prédio em construção está vazio, mas as ruas tem mais carros. Há menos ônibus circulando. Precisa parar para abastecer o carro, mas não há ninguém trabalhando no posto de gasolina perto de sua casa. Decide seguir até outro. No trajeto costumeiro, nota também a ausência dos velhinhos japoneses que costumam ocupar a praça pela manhã.

No segundo posto de gasolina, há somente um frentista para atender às quatro bombas. Não dá para esperar que a fila de carros ande. Fabiana segue em frente, com o ponteirinho do marcador de gasolina indicando o tanque na reserva.

- Paciência, dá pra chegar na faculdade. Abasteço depois.

Enfia o fone no ouvido e segue, ouvindo suas músicas favoritas no i-pod. No caminho, nota que o trânsito está mais fluido, que há pouca gente na rua, que quase não há ônibus circulando, que as barraquinhas dos ambulantes estão vazias.

- Ah, que beleza! É assim que esta cidade deveria ser todos os dias!

Na faculdade, percebe um dia atípico: há pouquíssimos estudantes circulando, embora seja horário de intervalo. Nem acredita que chegou em vinte minutos! Mas onde está todo mundo? Olha em volta e acha tudo muito quieto. Segue para a sala da reunião do grupo de estudos, percebe corredores mais vazios e até mesmo algumas salas de aula.

Na sala de reuniões, estão apenas o Lincoln e a Mércia, fazendo a revisão da minuta do manifesto.

- Bom dia, gente, desculpa o atraso. Perdi a hora hoje. Ué, cadê os outros?

- O Décio ligou - diz Mércia - avisando que não pode vir. Parece que o bisavô dele, que é bem velhinho, sumiu. A família toda está procurando por ele.

- Ah, o velho deve ser gagá e não consegue voltar pra casa. Aposto que vai aparecer logo. Se bem que não é aconselhável se perder em São Paulo... E os outros? Ninguém mais ligou?

- Não... Nem a Sandra, nem o Rodolfo, nem a Fernanda. Ninguém deu notícia.

Lincoln inicia uma conversa esclarecedora para Fabiana:

- Vocês viram como as ruas estão? Ouvi no rádio, enquanto vinha para cá, que sumiu muita gente... A cidade só não parou porque todo mundo tirou os carros da garagem. Eu mesmo não respeitei o rodízio, depois de ficar quase uma hora esperando o ônibus voltei pra casa e peguei o carro.

- Ih, lá no meu bairro tá a maior confusão! - completa Mércia - A padaria não abriu hoje, os porteiros dos prédios sumiram, não tem policiamento...

- Ué, até aqui, na facu, tá faltando muita gente. Vocês viram? Tem sala de aula vazia, vários professores e muitos alunos não apareceram. Os funcionários da limpeza também sumiram, até a moça da cantina...

- Nossa! - Fabiana se espanta - O que será que está acontecendo? Vou sintonizar uma rádio de notícias, pra gente saber melhor.

O noticiário das 11 dá uma idéia do caos instalado na cidade. Tudo continua funcionando, mas muito precariamente. Hospitais, escolas, empresas, indústrias. O prejuízo vai ser enorme, diz o apresentador do jornal, porque atividades que não podem parar estão ameaçadas.

- Uau! Mas por que sumiu tanta gente? Como? Pra onde foram?

Neste momento, passa pela mente de Fabiana um pensamento que ela logo repele. "Não pode ser." Na noite anterior, antes de dormir, fizera uma releitura do primeiro manifesto. Estava muito brando, muito enquadrado no politicamente correto. O grupo havia tratado todos os migrantes pela régua da igualdade. Na verdade, era mais para não chocar, para não parecerem preconceituosos. Defenderam a exclusão de todos os migrantes, sem importar a origem. Mas depois das 600 adesões, Fabiana se sentia mais encorajada a assumir que o alvo eram apenas os nordestinos. Era contra a permanência deles na cidade que a garota queria dirigir o manifesto. Ao apagar a luz, pensou: "Amanhã vou propor que o segundo manifesto seja específico para os imigrantes nordestinos. Eles é que atrapalham o progresso de São Paulo, não os outros..."

O mesmo pensamento teima em voltar à mente de Fabiana. "Será possível?..." Na noite anterior, feliz com a repercussão do primeiro manifesto, dormira tão feliz! Desejara com todas as suas forças que a grandiosa metrópole se livrasse dos migrantes que impediam seu progresso. Dormira pensando nisso, desejando, desejando, desejando!

- Ah! Mas não era pra sumir todos! Só os nordestinos! - exclama quase sem querer.

Lincoln e Mércia levam um susto. Estão preocupados, na revisão do segundo manifesto, em não deixar transparecer um ataque específico a esta ou aquela origem dos migrantes. Agora, a exclamação de Fabiana lhes deixa claro o preconceito, a real motivação do primeiro manifesto, que ela redigira sozinha, laboriosamente disfarçada pela seleção cuidadosa das palavras.

Entreolham-se. Intimamente decidem se querem continuar a publicar manifestos em defesa de "São Paulo para os paulistas", sob a liderança de Fabiana. Mércia lembra que, se seu bisavô italiano fosse vivo, também estaria sumido agora, como o bisavô de Décio. Aonde teria ido parar toda essa gente desaparecida? Lincoln deixa aflorar o incômodo que sentira desde o início do contato com Fabiana. Então era para isso que entrara no curso de Direito? Sem dizer nada, os dois entregam a minuta a Fabiana e saem da sala.

Fabiana fica ali, absorta com o noticiário do rádio no i-pod. A notícia agora, da editoria internacional, é o estranho aparecimento de milhares de velhinhos em várias cidades japonesas... Mas a menina de classe média, estudante de direito em uma faculdade tradicional, nem se toca. Está feliz porque alguma força mágica realizou seu grande desejo.



sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Pausa para meditação


(Dizem que uma pausa valoriza qualquer narrativa. Eu penso que não é tanto a pausa em si, mas o silêncio do narrador quando os leitores estão ávidos pela continuidade.

Penso nos jornais do século XIX, que traziam os capítulos de folhetins escritos por José de Alencar, aguardados avidamente pelas leitoras - sim, a maioria era de leitoras! Assim é que foram publicados inicialmente livros como Cinco minutos, A viuvinha e O guarani. Joaquim Manuel de Macedo (A moreninha), Machado de Assis (Helena, por exemplo) e Manoel Antônio de Almeida (Memórias de um sargento de milícias) foram escritores que iniciaram a publicação de suas obras nos jornais, capítulo a capítulo, brincando com a curiosidade dos leitores.

Daí se dizer que as novelas de televisão são hoje o nosso folhetim eletrônico. Guardadas as diferenças históricas e tecnológicas, o princípio é o mesmo dos folhetins de antanho. Mas que perderam em profundidade, ah! com certeza! São tão superficiais as telenovelas que basta a gente assistir aos capítulos da primeira e da última semanas para dominar toda a trama!

Mas o que eu faço aqui não é um folhetim eletrônico, penso. Trata-se apenas de um exercício de imaginação, motivado por uma manifestação explícita do preconceito dos jovens de uma turminha de classe média alta de São Paulo. Socializada na internet, essa manifestação conseguiu 600 adesões, o que é de assustar.

Na minha despretensiosa narrativa, estou lidando com a desorientação, a confusão e a insegurança resultantes de um acontecimento mágico: o desaparecimento dos migrantes de uma megalópole, de um dia para o outro. Como diria minha saudosa avó, eles "anoiteceram mas não amanheceram" na cidade.

Além disso, estou lidando também com o cotidiano: reforma, mudança, organização de minha biblioteca, doação de livros para movimentos sociais, leituras, viagens, tentativas de escrever, convivência com minha família, carinho para as netas...

Ufa!!! A vida é cheia de afazeres, não? Por isso, apelo a meus 28 leitores para que não percam a paciência. A vida, ops! a história não parou, ela vai ter um desfecho.)

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O dia em que São Paulo parou IV


- Não entendo... Como vim parar aqui?

Selma olha a sua volta e reconhece imagens guardadas em algum canto da memória. Vinte anos depois de ir para São Paulo, vê-se agora inexplicavelmente transportada para sua cidadezinha no interior do Maranhão, de onde saiu aos dezesseis anos em busca de futuro melhor.

Amanhece. Ela nota que está de chinelos e com a camisola que vestiu ao se deitar ontem. Não se lembra de mais nada, apenas de ter se deitado para dormir.

Olha em frente e lá está a rua em que morava quando criança. Não há mais a sua casa, mas no lugar dela um predinho com loja de duas portas no térreo, uma varandinha logo acima da marquise e duas janelas com cortinas claras.

- Quem será que mora aqui agora?

Faz um gesto para alcançar a campainha, mas se detém. Pensa que é muito cedo, deve ter gente ainda dormindo lá dentro. Espera.

Na outra calçada da rua sem movimento, alguém abre um portão pintado de vermelho. Uma mulher sai e fica olhando para Selma.

- Marinalva? Graças a Deus! Lembra de mim?

- Selma?! Vixe, é você mesmo? Não acredito! Mas que faz aqui, assim, de camisola? Corre, dê cá um abraço!

Amigas de infância sofrida e adolescência idem, as duas se encontram no meio da rua vazia. Um abraço demorado traz de volta antigos afetos, reconhecem-se como se o tempo não tivesse passado.

- Vem cá pra dentro, acabei de passar o café, já ia comprar o pão. Vem, amiga, a casa é sua. Eles ainda estão dormindo, meu marido e meus filhos, mas daqui a pouco acordam.

Na casa modesta Selma conta a Marinalva o que não sabe. Não sabe como veio parar ali, não se lembra do que aconteceu.

- Sabe? Agora há pouco no rádio deu uma notícia de coisas estranhas acontecendo em São Paulo. Gente que desapareceu, muita gente mesmo. Diz que a cidade está na maior confusão.

- Ah, Marinalva, então eu sou uma das pessoas que desapareceram. Não tem outra explicação.

- Toma, amiga, veste esta roupa minha, vamos até a padaria. Quem sabe a gente fica sabendo de mais alguma coisa lá?

Selma está perplexa. Quer saber onde estão as outras pessoas de sua família, que ficaram para trás quando ela fugiu para São Paulo. Pai, mãe, irmã e irmãos.

- Toda a sua família foi pra São Luís, pouco tempo depois que você sumiu. Acho que seu pai tinha esperança de encontrar você lá...

Saem rumo à padaria. No caminho, encontram outras pessoas vagando pelas ruas, desnorteadas.

- Vixe! Não foi só você que voltou, Selma! Olha ali o Nonatinho, lembra dele? Estava em São Paulo também. Aqueles outros eu não conheço, mas aquela senhora mais velha parece a mãe da Deusina, lembra? Ela largou a família e sumiu, já faz uns dez anos!

- Jesus! Que confusão é essa, amiga? O que que nós estamos fazendo aqui? Será que um poder maior despachou todos os nordestinos de São Paulo de volta pro Nordeste?

- Sei não, amiga! Vamos ver se na padaria as pessoas estão comentando alguma coisa...

O cheirinho do pão fresco no ar lembra aquele das manhãs paulistanas, quando Selma vai cedinho comprar o pãozinho para o café da manhã da família.

Na padaria, seu Manoel está em uma manhã agitada. Muita gente estranha aparece para pedir informação. Homens e mulheres querem saber o nome da cidade, dizem não saber o que fazem ali. Em meio aos aromas de pão e café, ele repete a notícia que ouviu no rádio:

- Sumiu muita gente de São Paulo. Se a senhora mora lá, então vai ver que é por isso que está aqui.

- Sumiu como, Seu Manoel? Aqui, encontrei a Selma, que saiu daqui há vinte anos... Ela foi pra São Paulo e apareceu lá na rua em que a gente morava!

- Eu eu sei, Marinalva? Só sei que esse povo todo apareceu na cidade de manhãzinha, todo mundo meio tonto, desnorteado. O que eu posso fazer é repetir a notícia que deu no rádio hoje cedo. Diz que São Paulo amanheceu bem vazia...

- Será que os nordestinos todos resolveram voltar? Mas a Selma nem sabe como veio parar aqui...

- Disse no rádio que não foram só os nordestinos, não. Todo mundo que não era de lá sumiu.

- Meu Deus! Ai, Marinalva, que que eu faço? Eu tenho uma vida lá em São Paulo!

- Então, amiga! Vamos lá em casa ligar a televisão e ver se tem mais alguma notícia. Já está na hora de começarem os jornais. Mas me conta, como é sua vida lá?

Selma quase começa a contar sua história em São Paulo, mas alguma coisa a faz se calar. Pensa que Marinalva está lá, no mesmo lugar, com sua casa, seu marido e seus filhos. E ela? Durante todo esse tempo, ficou trabalhando de casa em casa, até parar mais tempo com uma família. De seu, tem apenas o que cabe no quarto de empregada. Ah, para que contar isso a alguém?

Sua cidade natal está bem maior agora, tem asfalto, energia elétrica, comércio. Dói pensar que talvez devesse ter ficado. Fugiu em busca de futuro, vive em São Paulo uma vida apagada, sempre trabalhando e morando nas casas de outros. E se tivesse ficado? Será que teria uma vida igual à de Marinalva?...

Pela TV, as amigas veem: São Paulo está parada, vazia, caótica. Como uma cidade amanhece assim, sem metade de sua população, da noite para o dia?

(continua...)