domingo, 20 de dezembro de 2009

Votos para 2010

Deixo a vocês, em forma de votos para o ano novo, o poema "Lista de preferências de Orge", de Bertolt Brecht, que recebi de outra Isabel, lá do Pará, minha aluna e amiga nada oculta do curso de Licenciatura em Artes da UFPI:

Alegrias, as desmedidas.
Dores, as não curtidas.

Casos, os inconcebíveis.
Conselhos, os inexequíveis.

Meninas, as veras.
Mulheres, insinceras.

Orgasmos, os múltiplos.
Ódios, os mútuos.

Domicílios, os temporários.
Adeuses, os bem sumários.

Artes, as não rentáveis.
Professores, os enterráveis.

Prazeres, os transparentes.
Projetos, os contingentes.

Inimigos, os delicados.
Amigos, os estouvados.

Cores, o rubro.
Meses, outubro.

Elementos, os fogos.
Divindades, o Logos.

Vidas, as espontâneas.
Mortes, as instantâneas.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

A opção pelos pobres...

Da UOL Notícias
Comportas fechadas na barragem da Penha para proteger a marginal ajudaram a alagar a zona leste de SP

Fabiana Uchinaka

As seis comportas da barragem da Penha, na zona leste de São Paulo, foram completamente fechadas às 2h50 do dia 8 de dezembro, dia em que a cidade enfrentou fortes temporais e viu diversos pontos alagarem como há muito tempo não se via. Somente dois dias depois, às 17h20, todas as comportas foram abertas. Os dados, fornecidos pelo engenheiro responsável pela barragem, João Sérgio, indicam que houve uma clara escolha da empresa responsável: alagar os bairros pobres da zona leste para evitar o alagamento das marginais e do Cebolão, conjunto de obras que fica no encontro dos rios Tietê e Pinheiros.

“Mesmo fechando as comportas, encheu o [córrego] Aricanduva. Se eu não tivesse fechado aqui, teria alagado as marginais e toda São Paulo”, justificou Sérgio, que explicou que a decisão vem da direção da Emae (Empresa Metropolitana de Águas e Energia). Ele acrescentou ainda que no dia 9 duas comportas foram abertas às 10h10 e mais duas às 21h.

O engenheiro argumenta que cada barragem (são quatro em São Paulo: Móvel, Penha, Mogi das Cruzes, Ponte Nova) é responsável apenas por administrar o fluxo de água do local e não sabe o que acontece nos outros pontos, porque não há comunicação. Mas ele acredita que as comportas foram abertas nas barragens de cima, em Mogi, e isso influenciou no alagamento da região da zona leste.

“Não recebo informações de outras barragens. As de cima são administradas pela Sabesp e as de baixo pela Emae. Eu só respondo por essa barragem e às ordens da Emae”, disse. “Também acho estranho o nível da água não baixar aqui e não sei por que está indo para os bairros, mas não precisa ser especialista para ver que está assoreado [o rio]“.

Ele trabalha há quase 15 anos no local e conta que desde o governo de Orestes Quércia (1987-1991) não são colocadas dragas para desassorear o rio na parte que fica acima da barragem. “O governo tentou colocar de novo, mas a própria Secretaria de Meio Ambiente não deixou, porque não tinha bota-fora [local para despejar a terra retirada]“, afirmou.

O desassoreamento do rio daria mais velocidade ao escoamento da água e aumentaria a área de reserva de água perto da barragem, o que impediria o transbordamento para os bairros adjacentes.

Para Ronaldo Delfino de Souza, coordenador do Movimento de Urbanização e Legalização do Pantanal, o governo fez uma opção. “Ou alagava a marginal ou matava as pessoas no Pantanal. E matou”, disse. “E ainda bota a culpa nas moradias. O Estado só se preocupa com o escoamento de mercadorias, só pensa em rodovia. Vida humana não importa”.

Moradores e deputados estaduais fizeram nesta quarta-feira (17) uma inspeção no local para saber se a abertura das comportas tinha relação com o alagamento no Jardim Romano e no Jardim Pantanal, que já dura nove dias.

O movimento, formado por moradores de diversos bairros localizado na várzea do rio Tietê, acusa o governo do Estado e a prefeitura de manterem a água represada além do necessário como forma de obrigar as famílias a deixarem a região, onde será construído o Parque Linear da Várzea do Rio Tietê. Há anos, os moradores resistem em sair dali, porque dizem que o governo não apresenta um projeto habitacional concreto e apenas oferece uma bolsa-aluguel.

“Não era para as máquinas estarem trabalhando aqui? Cadê? Não tem um funcionário do governo aqui”, reclamou, apontando para as ilhas que aparecem no meio do rio, logo acima da barragem da Penha. As dragas são vistas somente na parte de baixo da construção.

“Os córregos do Pantanal já estavam muito cheios três dias antes da chuva. Como não abriram a barragem sabendo que ia chover?”, perguntou Souza, indignado. “O que a gente viu aqui é que não houve possibilidade de escoamento, porque a água ultrapassou o nível das comportas e não tinha velocidade para descer, não tinha gravidade”, concluiu.

Segundo os registros da barragem, no dia 8 a água ficou acima do nível das comportas por 5 a 6 horas. Sérgio explicou que a queda do rio Tietê é de apenas 4% e por isso a vazão demora cerca de 72 horas desde a barragem de Mogi das Cruzes até o centro da cidade — isso sem chuva. “É demorado, sempre foi”, disse.

“Imagina o que uma hora de comportas fechadas não faz de estrago lá no Pantanal”, falou Souza, diante dos dados. “Se fecha aqui, a água para de novo, perde velocidade e vai demorar mais 72 horas para descer”, afirmou.

Os deputados estaduais que acompanharam a inspeção concordam con a teoria dos moradores. “Foi feita uma escolha e a corda estourou do lado mais fraco”, afirmou o deputado estadual Raul Marcelo (PSOL). “É uma questão grave. A falta de comunicação e de um gerenciamento unificado são prova de uma falta de governância e de um planejamento na administração das barragens, o que levou, em grande parte, ao fato do bairro do Pantanal ter sido alagado”.

“Há uma estranha coincidência de que no momento da desocupação há um alagamento desses e ninguém consegue escoar a água. Não havia uma inundação dessas há 15 anos e o nível das águas está subindo mesmo sem chuva. É muito estranho e as autoridades têm que explicar”, completou o deputado estadual Adriano Diogo (PT).

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa...

Há dois acontecimentos importantes, simultâneos: a Conferência da ONU para a Mudança Climática, em Copenhague, e a Conferência Nacional de Comunicação, em Brasília. É interessante observar como cada um entra na pauta da mídia nacional.

O evento de Copenhague, desde ontem, tem sido realçado em telejornais e nos jornalões de circulação nacional, notadamente os de São Paulo. A chegada do governador desse estado à Conferência foi tratada como se fosse mais importante do que a atuação dos ministros brasileiros que lá estão. Deu chamada de primeira página na Folha de São Paulo e mereceu destaque no Jornal Nacional de ontem. Não faltou sequer o registro do encontro do "governador do estado mais rico do Brasil" com o "governador do estado mais rico dos Estados Unidos", Arnold Schwarzenegger.

De tudo o que foi registrado, talvez tenha sido esse o encontro mais pitoresco, porque todos se esqueceram de dizer que ambos estavam em um evento secundário da Conferência e, o mais importante, que o "José Sierra" (segundo "Schwarzy"), não tinha delegação de quem quer que fosse para falar em nome do Brasil. Tanto que, logo depois desse evento secundário, começou a reunião "de alto nível" (segundo o JN), na qual estavam os ministros Carlos Minc e Dilma Roussef. Sintomaticamente, o que mais se explorou no noticiário foi o forjado desentendimento entre ambos. Forjado porque houve edição das entrevistas para inverter as falas dos dois, dando a impressão de que eles se desentendiam, quando, na verdade, estavam bem sintonizados. Hoje, a chegada de Lula a Copenhague - saudado, sempre, como grande estadista pela imprensa estrangeira - mudou o tom da cobertura e deixou a mídia brasileira menos à vontade para manipular tão grosseiramente a cobertura.

Enquanto isso, do lado de cá do Atlântico, cobertura capenga da CONFECOM. É quase como se o evento, que reúne mais de 1.600 delegados em Brasília, não existisse. Destaque para o que ocorre lá dentro, só nos blogs. E todos eles dão notícia de que há confronto aberto, para aprovação das propostas, entre os segmentos da "sociedade civil" e "empresarial". Como cada um deles tem 40% dos votos e o segmento "governo" tem 20%, esperemos saber para qual lado penderá o fiel da balança. Torcendo para que sejam aprovadas propostas que abram a possibilidade de os órgãos de imprensa manipuladores da informação poderem ser cobrados, dentro de um marco regulatório bem definido, a assumir a responsabilidade pelas manipulações e distorções das notícias.

Pergunte aos jornalistas desses veículos por que a cobertura de cada Conferência é tão diferente. A resposta que você ouvirá está no título deste texto.


segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Uma semana em Teresina!

A semana que passou foi dedicada à disciplina Literatura II, no curso de Licenciatura em Artes, da Universidade Federal do Piauí/PRONERA, Turma Augusto Boal, composta por alunos do MST.
Lemos e discutimos Antonio Candido, mais uma vez; nosso sempre atual mestre nos ensinou a ver os dois gumes da literatura. Feito isso, partimos para leitura e discussão de São Bernardo, de Graciliano Ramos.
Descobrimos como esse escritor modulou a perspectiva para que a história fosse narrada do ponto de vista de Paulo Honório, proprietário da fazenda que dá nome ao romance.
Lemos também o Auto do Frade, de João Cabral de Melo Neto, o que nos levou a discutir a necessidade de que sejam mais estudados os movimentos rebeldes registrados pela História do Brasil que, como no caso deste "poema para vozes", são captados pela literatura.

Nos diálogos disciplinares, lemos e comparamos Morte e vida severina, do mesmo João Cabral, com Mutirão em Novo Sol, peça escrita por Augusto Boal, Nélson Xavier e outros, na década de 1960.
Para concluir essa viagem teórico-analítica, foi lido e discutido o texto de Hermenegildo Bastos, A permanência da literatura.
A semana foi, de fato, muito proveitosa. Vários textos foram produzidos, junto com a discussão de diferentes problemas motivados pela leitura. O debate foi uma constante, situado em um patamar no qual as restrições da ideologia burguesa não tiveram lugar.
Nesta etapa, pude notar significativo progresso da turma, que avançou em termos de leitura e expressão escrita, assim como na qualificação das discussões e do debate.
E a turma está produzindo bastante. Vejam alguns trabalhos:






Por último, nossa foto no último dia de aula:

Apesar do calor de 40 graus, apesar da precariedade das instalações, valeu a pena! Voltei para Brasília com energia nova, acreditando no que existe de humano nas pessoas...

sábado, 12 de dezembro de 2009

Sobre os acontecimentos recentes em Brasília.

Preparem-se, que o texto é longo:

UM MENTIROSO E SEU ESQUEMÃO

Provocam alguma reflexão, além de muita indignação, os acontecimentos das últimas semanas em Brasília, com o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, acossado por denúncias de corrupção, e as imagens da repressão das manifestações pelo seu impeachment por parte do Batalhão de Cavalaria da Polícia Militar do DF.

Não se trata de denúncias em que se tem a palavra de um contra a de outro. Há cenas explícitas de distribuição de dinheiro vivo – e muitas – gravadas por um ex-secretário do governo, com autorização da Justiça, no bojo de uma investigação realizada pela Polícia Federal. Estão envolvidos, de acordo com os diálogos e imagens dessas cenas gravadas, além do governador, também o vice-governador, Paulo Octávio, e deputados distritais, a começar pelo presidente da Câmara Legislativa do DF e pelo então corregedor daquela casa, entre outros menos visíveis, mas não menos importantes líderes partidários na vida política do DF, como o secretário de saúde, Augusto Carvalho, e seu subsecretário, Fernando Antunes. Junte-se a esse bolo a decana Eurides Brito, toda cautelosa a trancar a porta do escritório antes colocar a bufunfa na bolsa. E outros, mais outros, já revelados nas gravações e ainda por revelar...

É um escândalo de grande monta, não resta dúvida, tanto do ponto de vista financeiro, posto que a distribuição de dinheiro já vem de alguns anos, quanto do ponto de vista ético, pela desfaçatez das declarações públicas dos denunciados.

Após sumiço de alguns dias, seguido de seu pedido de desligamento do DEM para evitar a expulsão, Arruda agora deixa claro que articula sua base de apoio na Câmara Legislativa para evitar o impeachment – já são oito os pedidos protocolados naquela casa.

Assim, exonerou de seus cargos no governo dois secretários para que voltem â Câmara: Eliana Pedrosa – já investigada por envolvimento no escândalo da terceirização do cemitério de Brasília – e Paulo Roriz.

Os deputados denunciados, em vez de se declararem impedidos de continuar exercendo seus mandatos e, mais, de votar o impedimento do governador de cujo esquema de corrupção participaram, voltaram serelepes a ocupar suas cadeiras naquela casa legislativa, após breve e silencioso sumiço, prontos para votar de acordo com a orientação do governador. Já que provar inocência nessas acusações, tão clara e cristalinamente provadas, será difícil, trata-se agora de unificar o discurso de que não houve crime de corrupção, mas apenas arrecadação de dinheiro para a campanha política que se aproxima; por isso circulou tanto dinheiro vivo de mão em mão, com direito até ao ritual de oração para agradecimento da rica dádiva. Mais uma vez se anuncia, no âmbito dos poderes locais, a grande disposição para a fabricação de enorme e indigesta pizza! Ou panetone?...

Perfil de um mentiroso compulsivo

No meio de tudo isso, vale a pena parar um momento para refletir sobre o perfil desse senhor, José Roberto Arruda, especialista em espetaculares performances midiáticas, laboriosamente calculadas para reconstruir e reafirmar sua imagem de bom moço, seriamente danificada após o conhecido episódio de violação do painel de votações do Senado Federal, em parceria com o senador Antonio Carlos Magalhães, à época em que esse bom moço era líder do governo FHC naquela casa legislativa.

Naquela ocasião, Arruda mentiu e sustentou até o último minuto sua mentira. Foi à tribuna do Senado, tentou transferir a culpa a servidores da Casa, chorou, jurou, só faltou espernear. Pode ter comovido alguns de seus pares, mas, alertado por ACM de que a cassação seria inevitável, dada a transparência de seu comportamento delinquente – muito mais que simples quebra de decoro parlamentar –, antecipou-se e apresentou seu pedido de renúncia ao cargo de senador.

Mas não se afastou da vida política. Sem lugar no PSDB das vestais de fachada, bandeou-se para o então PFL – hoje autodenominado Democratas, em vã tentativa de apagar a história de sua origem na ditadura militar.

No trabalho de reconstrução da imagem pública dedicou-se a arregimentar, imagine-se com que métodos, cabos eleitorais na periferia de Brasília. Esmerou-se o atual governador em agradar a classe média do Plano Piloto, especialmente os mais jovens. Entre suas conquistas, sobressai o número de turmas de formandos que apadrinhou, inclusive na mesma Universidade na qual estudam hoje os mesmos estudantes que fazem manifestações de repúdio ao seu governo. Certa vez, ao questionar um formando da turma de Ciência Política, sobre o porquê de Arruda ter sido convidado para paraninfo, recebi a seguinte resposta: “Ele paga a festa e o churrasco”. Essa imagem reconstruída foi endossada alegremente pela mídia local, que via no ex-senador o candidato ideal para enfrentar Geraldo Magela, do PT, nas eleições do Distrito Federal.

Elegeu-se em 2006 o único governador do DEM. Governou até duas semanas atrás com o irrestrito apoio da mídia local: jornais e emissoras de TV raramente apresentam matérias com críticas a Arruda; quando o fazem, forçados pela alta visibilidade de algum problema de sua administração, ouvem e reproduzem enfaticamente a versão governamental, em atitude cúmplice, minimizando sua responsabilidade. Basta lembrar que, quando estourou este último escândalo, não houve sequer uma chamada de primeira página no Correio Braziliense, que apenas iniciou timidamente sua cobertura dois dias após a divulgação das gravações, quando não havia mais como justificar seu silêncio.

Lembro que Arruda, em um programa do horário político de sua campanha para governador, abordou o assunto da violação do painel do Senado. Chorou, reconheceu que havia cometido um erro e pediu perdão à população do Distrito Federal, jurando que havia se regenerado, que havia aprendido a ser humilde após o episódio. Prometeu que a palavra de ordem de seu governo seria “honestidade”. Assim amealhou, com apoio maciço da mídia local e de generosas doações de campanha – declaradas e não declaradas, sabe-se hoje –, a maioria dos votos dos eleitores, que lhe deram a implorada “segunda chance”.

Flagrado novamente em “desvio ético” – eufemismo que começa a aparecer nas colunas de alguns jornalistas –, Arruda volta a mentir. Mente tanto e com tal sinceridade que chega a acreditar nas mentiras que conta, com os olhos marejados. No discurso de desligamento do DEM, atribui a adversários políticos o trampo em que se meteu, pois o querem fora da disputa do governo em 2010. Mais uma vez põe-se a reconstruir com afinco a imagem de bom moço. Esconde o favorecimento de seu governo à empresa que tem como sócio um filho seu; esconde o cargo comissionado de sua filha, de alto salário, no Judiciário do DF, na tentativa de esconder a rede de favores que estabeleceu com “amigos” nos tribunais. A reconstrução de sua imagem só se pode efetivar pelo ato recorrente de esconder fatos e informações, acostumado que está a esconder também o dinheiro que recebeu ao longo desses anos e o aumento desproporcional de seu patrimônio declarado.

No caso do governador do DEM, vale a máxima, com pequena alteração: “quem sai aos seus não se regenera.” Arruda pensa que pode continuar a mentir, pois quem acredita nas próprias mentiras pensa que não está mentindo. Cabe ao cidadão do Distrito Federal decidir se acredita ou não em suas mentiras: se o deixa quietinho no cargo, escondendo impunemente o que há para se esconder, ou se vai para as ruas, gritando de peito aberto pela sua cassação e de todos os que participaram com ele de mais um “esquemão”.



Inaugurando nova fase

Depois da viagem à Austrália, que foi boa demais, ficamos com pena de desativar este blogue. Ele se mostrou um canal eficaz de comunicação com nossos amigos e parentes enquanto estivemos fora.
Por isso, resolvemos mantê-lo, mudando um pouco o foco: agora as viagens serão todas as que fizermos e que tiverem coisas interessantes para serem mostradas aqui. Mas não só isso: vamos também comentar aqui os assuntos do momento, nas áreas de arte, literatura, cinema e política.
É uma nova fase do blogue. Daqui a um tempo, pararemos para avaliar se continuamos com ele ou se paramos definitivamente. Enquanto isso, continuem nos acompanhando...


E apreciem esta belíssima foto, de autoria do Ripper, que nos mostra que a afetividade existe em meio à dureza da vida.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Impressões de viagem

Austrália é um país rico.

Depois dessa viagem, quando disserem que é um Brasil que deu certo, não concordarei. Não há parâmetro de comparação para afirmar isso. São processos de formação e projetos de nação muito diferentes.

A Austrália me pareceu mais uma extensão da Inglaterra no portal de entrada para a Ásia. Ocupa ali uma posição estratégica de defesa dos interesses ingleses e americanos. É alinhada com a política estadunidense: tem tropas no Afeganistão e no Iraque, faz parte da Comunidade Britânica, é parlamentarista e cultua a rainha da Inglaterra.

Possui área quase do tamanho do Brasil, mas não tem mais que 25 milhões de habitantes, a maioria concentrada nas cidades do litoral. Os jogos de azar são liberados, os australianos são apostadores contumazes e há grande número de viciados em jogos. Conhecemos dois grandes cassinos e vimos muitas casas pequenas de apostas. Eles apostam mais em corridas de cavalos e corridas de cachorros.

A leitura dos jornais mostra que no país há escândalos de corrupção e também o crime organizado ligado à jogatina. Há pessoas riquíssimas, tipo megaempresários, mas não há, pelo menos aparentemente, o lado oposto da pobreza extrema. Dá a impressão de ser um país de classe média: consumismo e alienação, mas também qualidade de vida.

O processo de aniquilamento dos aborígenes é visível. Hoje eles são minoria, vivem de bolsas do Estado, sofrem com as doenças típicas dos brancos: alcoolismo e depressão, com alto índice de suicídios. Contraditoriamente, é a arte aborígene que parece ser a mais autêntica expressão da Austrália. Vimos nos museus mais arte aborígene do que a produzida pelos australianos de origem anglo-saxônica. É a preservação da cultura de um povo em extinção, que morre na realidade mas se mantém presente na arte.