Desde a década de 70 - por favor, não façam as contas! - viajamos pela BR 381, conhecida como "rodovia da morte". Vamos de Belo Horizonte até Governador Valadares, passando por Caeté, João Monlevade, Timóteo, Coronel Fabriciano e Ipatinga. São 310 quilômetros de uma estrada sinuosa, que sobe e desce várias serras e tem intenso tráfego de caminhões. Todo tipo de carga passa por ali, de grãos a maquinaria pesada, de carros zero km a alimentos perecíveis, de carvão a gado, de material de construção a galinhas, de turbinas gigantes a minério. Naqueles anos, a estrada não tinha acostamento: a gente tinha no máximo 50 metros para ultrapassar um caminhão. Havia uma média de três acidentes por quilômetro.
Daquela época para cá, vimos todo tipo de acidente nessa estrada. Ali se juntam todos os ingredientes da receita para acidentes fatais no trânsito: grande movimento de carros, carretas, caminhões, ônibus e vans, imperícia, imprudência, curvas acentuadas. Quando chove, os riscos, que já são altos, triplicam. Não é raro encontrar pessoas que tenham perdido parentes na "rodovia da morte". O trecho com maior número de mortes em acidentes fica na região de Caeté.
Os parentes dos mortos mobilizam-se para que seja tomada alguma providência de correção da estrada. Veja aqui. De preferência, que seja construída outra, porque a BR 381 tem traçado muito antigo. A imprensa da região clama pela duplicação, engrossando o coro dos políticos e das empreiteiras. Para esses, duplicar é garantir uma obra de longa duração e muito dinheiro dos cofres públicos circulando entre empresas e o financiamento - legal e ilegal - de campanhas políticas.
Viajar por ali é um teste de resistência física. A tensão é tão grande, a atenção tem de ser tão constante que a gente se cansa em dobro. A chegada é sempre acompanhada de dores nas costas e pescoço e a gente demora a pegar no sono, depois do estresse provocado pelo testemunho de tantos acidentes graves.
Uma particularidade dos acidentes que ocorrem na BR 381 é que, quase sempre, envolvem carretas e/ou caminhões. Em época de feriados prolongados, quando a mineirada pega a estrada, se houvesse proibição rigorosa do tráfego de cargas no primeiro e no último dias do feriadão, tenho certeza de que o número de acidentes seria bastante reduzido. Isso deveria valer também para o enorme número de "treminhões" que transportam madeira para a empresa de papel e celulose CENIBRA, no trecho entre Ipatinga e Belo Oriente.
O irônico é que corre paralelamente à BR 381 uma ferrovia, a Vitória-Minas, duplicada no trecho Itabira-Vitória, destinada exclusivamente ao transporte de minério de ferro pela Cia. Vale do Rio Doce. Li matéria de Bob Fernandes no Terra Magazine, dando conta de que, finalmente, há uma ação civil que questiona o monopólio da Vale sobre a ferrovia por onde transporta, até o litoral, o minério de ferro que exporta. Quem já viu sabe: são composições longuíssimas de vagões carregados; é muito grande o volume exportado. Mas não o suficiente para justificar o monopólio da estrada de ferro, cuja frequência de utilização está muito aquém do potencial de transporte de outras cargas e passageiros que ela pode incrementar.
Haverá brevemente, em Ipatinga, uma audiência de conciliação, na qual o promotor do Ministério Público de MG, Edmar Machado, reunirá representantes da Vale e da Agência Nacional de Transporte Terrestre - essa por "omissão" - com a autora da ação civil pública, a OnG Instituto Cidades. Explica o promotor que é inadmissível ter uma estrada que, só no ano passado, matou 130 pessoas, ao lado de uma ferrovia subutilizada, que poderia ser compartilhada para o transporte de outras cargas, aliviando assim o tráfego da BR 381.
A Vale, que foi vendida pela ninharia de R$ 1,5 bilhão, quando deixou de ser patrimônio do povo brasileiro, no governo FHC, e que se pagou somente com os lucros que obteve no primeiro ano de operação depois de privatizada, tem, como qualquer outra grande empresa, uma função social da qual não pode fugir. A ferrovia, por sua vez, é pública, mas está sob controle da mineradora desde 1997, sob a forma de Concessão do Serviço Público Federal de Transporte de Carga e Passageiros. Ora, se está subutilizada, funcionando muito aquém de sua capacidade, por que manter a concessão?
A Vale tem uma dívida para com o povo brasileiro. Podia começar a pagá-la democratizando o acesso à ferrovia Vitória-Minas.
Este é um espaço para registro de impressões e reflexões sobre o que se vive, o que se lê, o que se vê, o que se sente.
sábado, 13 de março de 2010
terça-feira, 9 de março de 2010
Novos tempos
Achei muito interessante uma pesquisa de perfil do consumidor elaborada pela empresa DataPopular, especializada no que se denomina "mercado popular". Não, não se trata de mercadões de secos e molhados distribuídos Brasil afora. Popular, aqui, é o mercado consumidor formado pelas classes C e D, que agora parecem ter dinheiro para consumir.
Consumir o quê?... Tudo. De carro seminovo a TV de plasma. De brinquedo a home theater. De material escolar a churrasqueira. De móveis a calçados e bolsas. Tudo mesmo.
O DataPopular tem uma interessante apresentação, que você pode ver aqui. Nela já se delineia o perfil da classe popular: a que anda de busão, assiste ao programa do Ratinho, tem emprego informal, faz da ida ao supermercado um programa de toda a família, usa celular pré-pago, tem carro seminovo "zerado".
Esse pessoal se diferencia das classes A e B em alguns aspectos importantes: a) movimenta R$ 550 bilhões/ano; b) não tem curso superior; c) tem renda familiar de até R$ 3.500/mês; d) detém 71% do consumo. É um mercado maior do que o da Argentina, Chile e Uruguai juntos.
Impressionantes esses dados, não? Essas classes abrangem 88% da população brasileira. São mais ou menos 170 milhões de pessoas que antes estavam alijadas do mercado de consumo e hoje enchem os olhos do setor produtivo. São elas que esgotam estoques da linha branca de eletrodomésticos quando o IPI é reduzido, são elas que acabam com o sorvete e os ventiladores no inclemente verão brasileiro, são elas que levam para dentro de suas casas, pequenas e mal-acabadas, aparelhos de som e de TV sofisticados.
É para elas que muita gente das classes A e B torce o nariz, quando censura a empregada doméstica por comprar um home theather melhor do que o da patroa ou um liquidificador de marca mais cara do que aquele da casa em que trabalha. Diz que esse povinho não sabe consumir, não pensa no futuro, compra televisão cara para assistir Ratinho e Sílvio Santos. Um absurdo.
Mal sabe a gente das classes A e B que o DataPopular identificou entre o alto e a base da pirâmide social (na sempre em moda terminologia do "márquetingue") algumas diferenças de fundo, cruciais para a gente entender essa nova onda do consumo dos últimos quatro anos. 40% dessa população são de analfabetos funcionais, quer dizer, sabem assinar o nome, mas tem capacidade de leitura reduzida e não dominam as operações aritméticas fundamentais.
Diz a pesquisa que o pessoal "de baixo" construiu várias redes sociais baseadas na solidariedade. Todo mundo ajuda todo mundo e espera ser ajudado em momentos de dificuldade. A família, a igreja e a comunidade formam essa rede social, a base de apoio das pessoas das classes C e D. Por exemplo, nas comunidades 44% cuidam de criança do vizinho que sai para o trabalho, contra 6,5% da classe A. Nas classes populares, a reciprocidade é um princípio estruturante da vida social. Se uma vizinha leva para a outra uma travessa com um bolo feito em casa, a travessa nunca será devolvida vazia, sempre haverá dentro dela uma retribuição. Esse é um exemplo com coisas miúdas do cotidiano, mas esse princípio está presente também nos momentos de aflição por doença ou dívida.
Estou romantizando a visão das classes C e D? Não. Quando vi os dados da pesquisa, vieram-me à memória cenas de um tempo que já vivi, lembranças de uma rede de solidariedade vivenciada há muitos anos. Recordei-me também das tentativas, já na cidade grande, de construir boas relações de vizinhança e bases comunitárias de convivência. Mas a intolerância com a diversidade cultural típica de Brasília, aliada ao urbanismo que compele as pessoas ao isolamento, impediu que qualquer iniciativa vingasse. Quando deixei Brasília para passar alguns anos em Belo Horizonte, levei um susto, quando constatei, no meio da mineirada, o quanto eu me tornara arredia a vizinhos, depois de 19 anos na capital federal. Tive de reaprender essa convivência.
De qualquer modo, saber que as classes C e D praticam o consumo com o objetivo inclusivo, como mostra a pesquisa do DataPopular, é alvissareiro. Torço para que o maior acesso a bens de consumo não contribua para eliminar o espírito que caracteriza a convivência dentro das comunidades populares. Que se mantenham e, mais, se ampliem as redes de solidariedade.
Em resumo: os pobres estão comprando mais. Além de estarem entrando para a universidade, tendo mais empregos e demonstrando mais confiança no futuro. Dá para entender por que a mídia brasileira tenta, todos os dias, desqualificar os programas sociais do governo.
Consumir o quê?... Tudo. De carro seminovo a TV de plasma. De brinquedo a home theater. De material escolar a churrasqueira. De móveis a calçados e bolsas. Tudo mesmo.
O DataPopular tem uma interessante apresentação, que você pode ver aqui. Nela já se delineia o perfil da classe popular: a que anda de busão, assiste ao programa do Ratinho, tem emprego informal, faz da ida ao supermercado um programa de toda a família, usa celular pré-pago, tem carro seminovo "zerado".
Esse pessoal se diferencia das classes A e B em alguns aspectos importantes: a) movimenta R$ 550 bilhões/ano; b) não tem curso superior; c) tem renda familiar de até R$ 3.500/mês; d) detém 71% do consumo. É um mercado maior do que o da Argentina, Chile e Uruguai juntos.
Impressionantes esses dados, não? Essas classes abrangem 88% da população brasileira. São mais ou menos 170 milhões de pessoas que antes estavam alijadas do mercado de consumo e hoje enchem os olhos do setor produtivo. São elas que esgotam estoques da linha branca de eletrodomésticos quando o IPI é reduzido, são elas que acabam com o sorvete e os ventiladores no inclemente verão brasileiro, são elas que levam para dentro de suas casas, pequenas e mal-acabadas, aparelhos de som e de TV sofisticados.
É para elas que muita gente das classes A e B torce o nariz, quando censura a empregada doméstica por comprar um home theather melhor do que o da patroa ou um liquidificador de marca mais cara do que aquele da casa em que trabalha. Diz que esse povinho não sabe consumir, não pensa no futuro, compra televisão cara para assistir Ratinho e Sílvio Santos. Um absurdo.
Mal sabe a gente das classes A e B que o DataPopular identificou entre o alto e a base da pirâmide social (na sempre em moda terminologia do "márquetingue") algumas diferenças de fundo, cruciais para a gente entender essa nova onda do consumo dos últimos quatro anos. 40% dessa população são de analfabetos funcionais, quer dizer, sabem assinar o nome, mas tem capacidade de leitura reduzida e não dominam as operações aritméticas fundamentais.
Diz a pesquisa que o pessoal "de baixo" construiu várias redes sociais baseadas na solidariedade. Todo mundo ajuda todo mundo e espera ser ajudado em momentos de dificuldade. A família, a igreja e a comunidade formam essa rede social, a base de apoio das pessoas das classes C e D. Por exemplo, nas comunidades 44% cuidam de criança do vizinho que sai para o trabalho, contra 6,5% da classe A. Nas classes populares, a reciprocidade é um princípio estruturante da vida social. Se uma vizinha leva para a outra uma travessa com um bolo feito em casa, a travessa nunca será devolvida vazia, sempre haverá dentro dela uma retribuição. Esse é um exemplo com coisas miúdas do cotidiano, mas esse princípio está presente também nos momentos de aflição por doença ou dívida.
Estou romantizando a visão das classes C e D? Não. Quando vi os dados da pesquisa, vieram-me à memória cenas de um tempo que já vivi, lembranças de uma rede de solidariedade vivenciada há muitos anos. Recordei-me também das tentativas, já na cidade grande, de construir boas relações de vizinhança e bases comunitárias de convivência. Mas a intolerância com a diversidade cultural típica de Brasília, aliada ao urbanismo que compele as pessoas ao isolamento, impediu que qualquer iniciativa vingasse. Quando deixei Brasília para passar alguns anos em Belo Horizonte, levei um susto, quando constatei, no meio da mineirada, o quanto eu me tornara arredia a vizinhos, depois de 19 anos na capital federal. Tive de reaprender essa convivência.
De qualquer modo, saber que as classes C e D praticam o consumo com o objetivo inclusivo, como mostra a pesquisa do DataPopular, é alvissareiro. Torço para que o maior acesso a bens de consumo não contribua para eliminar o espírito que caracteriza a convivência dentro das comunidades populares. Que se mantenham e, mais, se ampliem as redes de solidariedade.
Em resumo: os pobres estão comprando mais. Além de estarem entrando para a universidade, tendo mais empregos e demonstrando mais confiança no futuro. Dá para entender por que a mídia brasileira tenta, todos os dias, desqualificar os programas sociais do governo.
sábado, 6 de março de 2010
Refletindo em dropes...
Tenho muito para falar sobre a realidade, mas às vezes ela me causa tanto mal-estar que preciso me recolher. Tento me preservar um pouco, nesse processo de reflexão sobre nossa sociedade.
Estou pensando em mudar meu projeto de pesquisa, depois de uma releitura de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda (veja resenha aqui). Em uma contradição aparente, o que me motivou a essa mudança foi sua abordagem dos processos de colonização do Brasil e dos demais países latino-americanos, marcados por profundas diferenças, resultantes essas da crise da cultura ibérica nos séculos XVII e XVIII.
Retomei um ensaio, que assino junto com H. Bastos, na revista Terceira Margem, intitulado "História literária entre acumulação e resíduo: o eixo Graciliano-Rulfo" (clique aqui para ler). Agora penso em examinar a possibilidade de existirem outros eixos, na relação entre escritores brasileiros e peruanos, venezuelanos, argentinos. Penso que é possível descobrir, pela literatura, o que nos separa e o que nos aproxima de nossos irmãos latino-americanos, para além da barreira linguística e da cordilheira dos Andes.
Compartilhamos o destino dos países colonizados, eis aí um ponto que nos aproxima. Espanha e Portugal tiveram ênfases diferentes em seus processos de colonização: povoamento e exploração, respectivamente; eis um ponto que nos diferencia. Mas genocídios, modernização capitalista e repressão a levantes populares são fatores que temos em comum. Concentração da terra e da riqueza, depreciação da cultura popular e imposição da cultura letrada são outros fatores a analisar.
Eleger o corpus das obras para análise entre escritores latino-americanos é um trabalho complexo, para o qual ter clareza do marco teórico é fundamental. Enfim, é o que estou fazendo por agora, é a razão pela qual fiquei sem escrever neste blog tantos dias.
Mas não foi só isso que fiquei fazendo, não. Também tive a companhia das menininhas aqui em casa em quase todas as tardes. Socorro de vó em dias de aperto doméstico, sabem? Bom demais.
Apertam-me o coração as notícias recorrentes sobre a sucessão de tremores de terra no Chile. Isso parece não ter fim... Como se não bastasse o grande número de mortos, há também os problemas sociais decorrentes da destruição, como o desabastecimento e os saques. Ajuda internacional é bem vinda.
Leio por aí que o ator Sean Penn foi criticado nos EUA por ter visitado o Haiti logo após o grande terremoto, levando seus dois filhos, de 16 e 18 anos, e algumas mochilas carregadas de dinheiro para doação. Em resposta, desejou que seus críticos tenham "dolorosa morte por cancro retal".
Leio também que o STF decidiu manter preso o governador afastado do DF, Arruda. Seu advogado queixou-se de que o cliente está encarcerado em uma verdadeira "masmorra", sem direito ao mínimo bem-estar. E fico sabendo que as masmorras de hoje tem ar condicionado, persianas verticais, mesa de trabalho com cadeira giratória, cama e sofá. Veja as fotos aqui.
Para o senador goiano Demóstenes Torres, do impoluto DEMocratas, a miscigenação dos brancos e negros no Brasil não se deu como resultado do estupro e da violência, mas de uma relação consensual entre o branco livre e a negra escrava, “ainda que sob dominação”. Essa afirmativa arrancou um "ohhhh" de espanto da sonolenta platéia da audiência pública promovida pelo ministro Lewandovski para ouvir a sociedade sobre os programas de cotas nas universidades brasileiras. Eu adorei saber que as escravas faziam sexo de livre e espontânea vontade com seus senhores, só pra pirraçar as sinhás...
Estou pensando em mudar meu projeto de pesquisa, depois de uma releitura de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda (veja resenha aqui). Em uma contradição aparente, o que me motivou a essa mudança foi sua abordagem dos processos de colonização do Brasil e dos demais países latino-americanos, marcados por profundas diferenças, resultantes essas da crise da cultura ibérica nos séculos XVII e XVIII.
Retomei um ensaio, que assino junto com H. Bastos, na revista Terceira Margem, intitulado "História literária entre acumulação e resíduo: o eixo Graciliano-Rulfo" (clique aqui para ler). Agora penso em examinar a possibilidade de existirem outros eixos, na relação entre escritores brasileiros e peruanos, venezuelanos, argentinos. Penso que é possível descobrir, pela literatura, o que nos separa e o que nos aproxima de nossos irmãos latino-americanos, para além da barreira linguística e da cordilheira dos Andes.
Compartilhamos o destino dos países colonizados, eis aí um ponto que nos aproxima. Espanha e Portugal tiveram ênfases diferentes em seus processos de colonização: povoamento e exploração, respectivamente; eis um ponto que nos diferencia. Mas genocídios, modernização capitalista e repressão a levantes populares são fatores que temos em comum. Concentração da terra e da riqueza, depreciação da cultura popular e imposição da cultura letrada são outros fatores a analisar.
Eleger o corpus das obras para análise entre escritores latino-americanos é um trabalho complexo, para o qual ter clareza do marco teórico é fundamental. Enfim, é o que estou fazendo por agora, é a razão pela qual fiquei sem escrever neste blog tantos dias.
Mas não foi só isso que fiquei fazendo, não. Também tive a companhia das menininhas aqui em casa em quase todas as tardes. Socorro de vó em dias de aperto doméstico, sabem? Bom demais.
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Apertam-me o coração as notícias recorrentes sobre a sucessão de tremores de terra no Chile. Isso parece não ter fim... Como se não bastasse o grande número de mortos, há também os problemas sociais decorrentes da destruição, como o desabastecimento e os saques. Ajuda internacional é bem vinda.
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Leio por aí que o ator Sean Penn foi criticado nos EUA por ter visitado o Haiti logo após o grande terremoto, levando seus dois filhos, de 16 e 18 anos, e algumas mochilas carregadas de dinheiro para doação. Em resposta, desejou que seus críticos tenham "dolorosa morte por cancro retal".
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Leio também que o STF decidiu manter preso o governador afastado do DF, Arruda. Seu advogado queixou-se de que o cliente está encarcerado em uma verdadeira "masmorra", sem direito ao mínimo bem-estar. E fico sabendo que as masmorras de hoje tem ar condicionado, persianas verticais, mesa de trabalho com cadeira giratória, cama e sofá. Veja as fotos aqui.
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Para o senador goiano Demóstenes Torres, do impoluto DEMocratas, a miscigenação dos brancos e negros no Brasil não se deu como resultado do estupro e da violência, mas de uma relação consensual entre o branco livre e a negra escrava, “ainda que sob dominação”. Essa afirmativa arrancou um "ohhhh" de espanto da sonolenta platéia da audiência pública promovida pelo ministro Lewandovski para ouvir a sociedade sobre os programas de cotas nas universidades brasileiras. Eu adorei saber que as escravas faziam sexo de livre e espontânea vontade com seus senhores, só pra pirraçar as sinhás...
segunda-feira, 1 de março de 2010
De terremoto e corrupção
Atualizando as informações da última postagem: passam de 700 os mortos no terremoto do Chile. A origem dos tremores foi localizada a uma profundidade de 54 km e não em torno de 30 km, como havia sido informado nas primeiras horas depois da catástrofe.
Hoje na Falha, ops! Folha de S. Paulo, Clóvis Rossi faz análise semelhante à minha, ressaltando a ausência do poder público no Haiti após a tragédia. Aliás, esse poder público já era praticamente ausente de fato, antes do grande abalo sísmico, e por isso o país se configura mais como um aglomerado de gente do que como uma nação. Daí o título da matéria: "Um país resiste melhor do que um aglomerado".
Analisando essas últimas informações, é possível supor que as consequências do terremoto no Chile só não atingiram as mesmas proporções do Haiti por causa da profundidade das placas tectônicas em movimentação. E também por causa da legislação da construção civil, que resulta em construções mais resistentes aos abalos sísmicos.
É como diz o Clóvis Rossi: "É cruel, mas é um fato: em qualquer desastre natural, os mais pobres são sempre as maiores vítimas. E não há, nas Américas, maior número de pobres, em relação à população, do que no Haiti."
Hoje, ao ler notícia da mesma Falha, ops!, Folha de S. Paulo sobre o detento governador licenciado Arruda - que disparou ameaças a seus ex-correligionários, usando como moleque de recados o secretário Alberto Fraga -, constatei que o jornal anda promovendo a mudança de classe gramatical da palavra "supostamente".
Na verdade, a matéria é sobre a intenção do deputado Fraga de se candidatar a governador do DF nas próximas eleições. Deus nos acuda! Ele liderou a campanha do "Não" quando houve o referendo nacional, em 2005, sobre a proibição da comercialização de armas de fogo e munições. É um dos membros da chamada "bancada da bala" no Congresso Nacional, grupo de parlamentares que defende os interesses dos fabricantes de armas e munições, cujas campanhas foram financiadas por esse segmento industrial. Se chegar a governador, sua perspectiva de governo será, sem dúvida, pelo prisma da segurança pública, no que esse tema suscita de mais reacionário. E o deputado ainda coloca seu palanque à disposição de José Serra, provável (?) candidato do PSDB à presidência da república.
Mas, voltando ao uso das palavras "suposto/a" e "supostamente", é interessante notar como a mídia se acautela ao noticiar a corrupção de seus aliados. Na matéria citada, aparece o seguinte trecho, sobre o deputado distrital Júnior Brunelli:
"Ele aparece num dos vídeos de Durval recebendo supostamente propina."
Sobre outro corrupto, Geraldo Naves, preso na Papuda:
" Naves está preso, acusado de ser um dos intermediários da suposta tentativa de suborno a uma das testemunhas do escândalo."
Sobre a deputada Eurides Brito:
"... a Câmara Legislativa deverá se concentrar nos processos contra a deputada Eurides Brito (PMDB), flagrada recebendo supostamente propina de Durval, e no de Arruda."
E o Correio Braziliense, então? Vejam só:
"As gravações entregues por Durval ao Ministério Público revelaram ainda personagens que só atuavam nos bastidores, como o policial aposentado Marcelo Toledo e o empresário Renato Malcotti, apontados como operadores dos supostos esquemas de corrupção do Executivo."
"Enrolado em denúncias de corrupção, pagamento de propina, desvios de recursos, suposto suborno e falsidade ideológica, o governador — que nas últimas eleições venceu no primeiro turno — não será aceito em nenhum palanque de candidatos. Neste momento, está liquidado politicamente."
Usando as palavras com toda essa cautela, a mídia parece acreditar que um dia a situação em que se encontra Arruda pode ser revertida, ele poderá voltar triunfante ao poder e poderá ser exaltado como exemplo de administrador público!
Hoje na Falha, ops! Folha de S. Paulo, Clóvis Rossi faz análise semelhante à minha, ressaltando a ausência do poder público no Haiti após a tragédia. Aliás, esse poder público já era praticamente ausente de fato, antes do grande abalo sísmico, e por isso o país se configura mais como um aglomerado de gente do que como uma nação. Daí o título da matéria: "Um país resiste melhor do que um aglomerado".
Analisando essas últimas informações, é possível supor que as consequências do terremoto no Chile só não atingiram as mesmas proporções do Haiti por causa da profundidade das placas tectônicas em movimentação. E também por causa da legislação da construção civil, que resulta em construções mais resistentes aos abalos sísmicos.
É como diz o Clóvis Rossi: "É cruel, mas é um fato: em qualquer desastre natural, os mais pobres são sempre as maiores vítimas. E não há, nas Américas, maior número de pobres, em relação à população, do que no Haiti."
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Hoje, ao ler notícia da mesma Falha, ops!, Folha de S. Paulo sobre o detento governador licenciado Arruda - que disparou ameaças a seus ex-correligionários, usando como moleque de recados o secretário Alberto Fraga -, constatei que o jornal anda promovendo a mudança de classe gramatical da palavra "supostamente".
Na verdade, a matéria é sobre a intenção do deputado Fraga de se candidatar a governador do DF nas próximas eleições. Deus nos acuda! Ele liderou a campanha do "Não" quando houve o referendo nacional, em 2005, sobre a proibição da comercialização de armas de fogo e munições. É um dos membros da chamada "bancada da bala" no Congresso Nacional, grupo de parlamentares que defende os interesses dos fabricantes de armas e munições, cujas campanhas foram financiadas por esse segmento industrial. Se chegar a governador, sua perspectiva de governo será, sem dúvida, pelo prisma da segurança pública, no que esse tema suscita de mais reacionário. E o deputado ainda coloca seu palanque à disposição de José Serra, provável (?) candidato do PSDB à presidência da república.
Mas, voltando ao uso das palavras "suposto/a" e "supostamente", é interessante notar como a mídia se acautela ao noticiar a corrupção de seus aliados. Na matéria citada, aparece o seguinte trecho, sobre o deputado distrital Júnior Brunelli:
"Ele aparece num dos vídeos de Durval recebendo supostamente propina."
Sobre outro corrupto, Geraldo Naves, preso na Papuda:
" Naves está preso, acusado de ser um dos intermediários da suposta tentativa de suborno a uma das testemunhas do escândalo."
Sobre a deputada Eurides Brito:
"... a Câmara Legislativa deverá se concentrar nos processos contra a deputada Eurides Brito (PMDB), flagrada recebendo supostamente propina de Durval, e no de Arruda."
E o Correio Braziliense, então? Vejam só:
"As gravações entregues por Durval ao Ministério Público revelaram ainda personagens que só atuavam nos bastidores, como o policial aposentado Marcelo Toledo e o empresário Renato Malcotti, apontados como operadores dos supostos esquemas de corrupção do Executivo."
"Enrolado em denúncias de corrupção, pagamento de propina, desvios de recursos, suposto suborno e falsidade ideológica, o governador — que nas últimas eleições venceu no primeiro turno — não será aceito em nenhum palanque de candidatos. Neste momento, está liquidado politicamente."
Usando as palavras com toda essa cautela, a mídia parece acreditar que um dia a situação em que se encontra Arruda pode ser revertida, ele poderá voltar triunfante ao poder e poderá ser exaltado como exemplo de administrador público!
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Chile e Haiti
São terríveis as imagens do terremoto que arrasou a região centro-sul do Chile hoje. Segundo os especialistas, a origem do tremor de 8,8 graus na escala Richter localiza-se a mais ou menos 30 km de profundidade, diferentemente daquele ocorrido no Haiti, cujo ponto de origem foi a uma profundidade de 10 km.
Não há como ficar indiferente ao desespero do povo chileno, ainda atordoado pela tragédia, procurando sobreviventes e contando seus mortos. Mais uma vez é preciso formar a corrente de solidariedade para a ajudar nossos irmãos latino-americanos.
Mas algumas reflexões se impõem neste momento doloroso, quando todos os meios de comunicação fazem a cobertura incessante do cataclisma e de suas consequências para os países vizinhos, por causa do alerta de tsunami provocado pelos tremores. É inevitável a comparação com o que ocorreu no Haiti, país sabidamente muito mais pobre do que o Chile.
No Haiti, as construções não tem a solidez das construções chilenas, erguidas de acordo com normas observadas em países que se sabem sujeitos a tremores de terra. Os prédios e casas haitianos foram erguidos com material mais barato, utilizando técnicas nada modernas de construção civil. Evidentemente, são construções mais vulneráveis a tremores de terra, como o que recentemente arrasou aquele país, provocando mais de 200 mil mortes.
No Chile, até o momento, tem-se notícia de algo em torno de 200 mortes e muitos estragos e prejuízos. Além da maior segurança proporcionada pela engenharia civil chilena, é certo que os danos e mortes não foram maiores graças à profundidade em que se originou o tremor. No Haiti, além da precariedade das construções, ainda se deu que essa profundidade foi menor, tornando o terremoto, portanto, muito mais arrasador.
Obra do acaso, que fez com que o Chile ficasse menos exposto do que o Haiti? Sim, pode haver a mão do acaso nisso. Mas não se pode negar que a muito maior extensão da tragédia haitiana tem relação direta com a pobreza do país, cuja população foi muito mais prejudicada e continua muito mais desassistida do que a população chilena, já que a defesa civil do Chile é mais bem equipada e preparada para lidar com esse tipo de desastre natural.
Graças à maior solidez também da democracia chilena, seu povo não corre o risco de que tropas internacionais sejam deslocadas para lá, a pretexto de levar "ajuda humanitária", como ocorreu no Haiti, que hoje pode ser caracterizado como um país ocupado pelas forças armadas dos EUA, enquanto sua desesperada e pobre população luta para estabelecer um mínimo de normalidade em seu cotidiano.
Não há como ficar indiferente ao desespero do povo chileno, ainda atordoado pela tragédia, procurando sobreviventes e contando seus mortos. Mais uma vez é preciso formar a corrente de solidariedade para a ajudar nossos irmãos latino-americanos.
Mas algumas reflexões se impõem neste momento doloroso, quando todos os meios de comunicação fazem a cobertura incessante do cataclisma e de suas consequências para os países vizinhos, por causa do alerta de tsunami provocado pelos tremores. É inevitável a comparação com o que ocorreu no Haiti, país sabidamente muito mais pobre do que o Chile.
No Haiti, as construções não tem a solidez das construções chilenas, erguidas de acordo com normas observadas em países que se sabem sujeitos a tremores de terra. Os prédios e casas haitianos foram erguidos com material mais barato, utilizando técnicas nada modernas de construção civil. Evidentemente, são construções mais vulneráveis a tremores de terra, como o que recentemente arrasou aquele país, provocando mais de 200 mil mortes.
No Chile, até o momento, tem-se notícia de algo em torno de 200 mortes e muitos estragos e prejuízos. Além da maior segurança proporcionada pela engenharia civil chilena, é certo que os danos e mortes não foram maiores graças à profundidade em que se originou o tremor. No Haiti, além da precariedade das construções, ainda se deu que essa profundidade foi menor, tornando o terremoto, portanto, muito mais arrasador.
Obra do acaso, que fez com que o Chile ficasse menos exposto do que o Haiti? Sim, pode haver a mão do acaso nisso. Mas não se pode negar que a muito maior extensão da tragédia haitiana tem relação direta com a pobreza do país, cuja população foi muito mais prejudicada e continua muito mais desassistida do que a população chilena, já que a defesa civil do Chile é mais bem equipada e preparada para lidar com esse tipo de desastre natural.
Graças à maior solidez também da democracia chilena, seu povo não corre o risco de que tropas internacionais sejam deslocadas para lá, a pretexto de levar "ajuda humanitária", como ocorreu no Haiti, que hoje pode ser caracterizado como um país ocupado pelas forças armadas dos EUA, enquanto sua desesperada e pobre população luta para estabelecer um mínimo de normalidade em seu cotidiano.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Das artes e das artimanhas
Fui ver a exposição sobre Clarice Lispector no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília. Além de emocionar pela captação da contraditória relação da escritora com as palavras, a exposição dá acesso a originais de cartas trocadas entre Clarice e vários escritores e intelectuais brasileiros. Há um enorme gaveteiro em uma das salas da exposição e, dentro das gavetas que a gente vai abrindo, há essas cartas - íntimas umas, formais outras -, rascunhos angustiados, fotografias, bilhetes familiares, junto com exemplares das primeiras edições de seus livros. Tudo isso vai descortinando o complexo painel da vida dessa que é a maior escritora brasileira. Por fim, há uma sala de projeção, onde se pode assistir ao vídeo da entrevista concedida por Clarice a Júlio Lerner, em 1977, poucos meses antes de sua morte.

Nessa entrevista, em que aborda os mais variados assuntos, Clarice nos conta, intrigada, de quando foi procurada por um professor de literatura, que lhe confessou que lia e relia A paixão segundo GH mas não conseguia entender o livro para poder trabalhá-lo com seus alunos. Em contrapartida, conheceu uma menina de 17 anos que lhe declarou ter A paixão... como livro de cabeceira, que, a cada leitura, lhe revelava novos sentidos para a vida. Mas a escritora evita extrair dessa observação qualquer conclusão apressada, como que deixando a resolução de um enigma a cargo do expectador.
Essa mostra fica no CCBB até o dia 14 de março. A entrada é franca. Se você não viu, ainda há tempo.
E o CCBB inaugura, ainda em março, a mostra de grafites dos irmãos Otávio e Gustavo Pandolfo, conhecidos como Os gêmeos. Pela amostra, será muito interessante, aguardemos:

Leio hoje nos jornais que o agressivo advogado do governador licenciado - e ainda preso - José Roberto Arruda está negociando com a Justiça a sua libertação, em troca de permanecer afastado do governo do DF até que se concluam as investigações da Operação Caixa de Pandora.
Esse escândalo da corrupção no DF está desnudando aspectos inéditos da relação entre criminosos e Justiça... Desde quando esse tipo de negociação é possível? Alguém acredita que, livre em Brasília, ainda que afastado do governo, Arruda cessará suas ações para obstruir as investigações?
Os jornais dão notícia de que houve "racha" entre os advogados do governador. Afastaram-se os "eminentes" juristas de Brasília - quatro ao todo - para dar lugar exclusivo ao escritório do carioca Nélio Machado, notório por atuar em defesa de Daniel Dantas, entre outros criminosos endinheirados menos conhecidos.
Por seu lado, Paulo Octávio, que nesta semana se desfiliou do DEM e renunciou ao cargo de governador substituto, agora está sem pai nem mãe, perdeu a imunidade parlamentar. Mas como diz a sabedoria popular, "rico não vai para a cadeia." Aguardemos para saber como será a defesa de um dos homens mais ricos do DF, dono de uma fortuna amealhada sempre à sombra do poder público, que o beneficiou de todas as formas ilegais imagináveis e por imaginar.
Enquanto isso, a Câmara Legislativa tenta mostrar trabalho, aceitando os pedidos de impeachment do governador licenciado e abrindo processo interno contra três dos oito deputados distritais implicados no esquema, apenas os que foram flagrados pelas câmeras de Durval Barbosa. A CLDF tenta evitar a intervenção federal, que agora é tida como certa. Meio tarde, não? A essa altura, a população de Brasília já sabe que não pode confiar nessas vestais da (i)moralidade pública.
Enquanto isso, o novo governador Wilson Lima vê os fatos desabonadores de seu passado político serem trazidos à tona. E que passado cabeludo, hem, gente? Claro que o jornalismo investigativo sobre ele não está sendo feito pelo Correio Braziliense, que, de tão comprometido, venda os olhos enquanto sua reputação rola esgoto abaixo.

Nessa entrevista, em que aborda os mais variados assuntos, Clarice nos conta, intrigada, de quando foi procurada por um professor de literatura, que lhe confessou que lia e relia A paixão segundo GH mas não conseguia entender o livro para poder trabalhá-lo com seus alunos. Em contrapartida, conheceu uma menina de 17 anos que lhe declarou ter A paixão... como livro de cabeceira, que, a cada leitura, lhe revelava novos sentidos para a vida. Mas a escritora evita extrair dessa observação qualquer conclusão apressada, como que deixando a resolução de um enigma a cargo do expectador.
Essa mostra fica no CCBB até o dia 14 de março. A entrada é franca. Se você não viu, ainda há tempo.
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E o CCBB inaugura, ainda em março, a mostra de grafites dos irmãos Otávio e Gustavo Pandolfo, conhecidos como Os gêmeos. Pela amostra, será muito interessante, aguardemos:

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ArtimanhasLeio hoje nos jornais que o agressivo advogado do governador licenciado - e ainda preso - José Roberto Arruda está negociando com a Justiça a sua libertação, em troca de permanecer afastado do governo do DF até que se concluam as investigações da Operação Caixa de Pandora.
Esse escândalo da corrupção no DF está desnudando aspectos inéditos da relação entre criminosos e Justiça... Desde quando esse tipo de negociação é possível? Alguém acredita que, livre em Brasília, ainda que afastado do governo, Arruda cessará suas ações para obstruir as investigações?
Os jornais dão notícia de que houve "racha" entre os advogados do governador. Afastaram-se os "eminentes" juristas de Brasília - quatro ao todo - para dar lugar exclusivo ao escritório do carioca Nélio Machado, notório por atuar em defesa de Daniel Dantas, entre outros criminosos endinheirados menos conhecidos.
Por seu lado, Paulo Octávio, que nesta semana se desfiliou do DEM e renunciou ao cargo de governador substituto, agora está sem pai nem mãe, perdeu a imunidade parlamentar. Mas como diz a sabedoria popular, "rico não vai para a cadeia." Aguardemos para saber como será a defesa de um dos homens mais ricos do DF, dono de uma fortuna amealhada sempre à sombra do poder público, que o beneficiou de todas as formas ilegais imagináveis e por imaginar.
Enquanto isso, a Câmara Legislativa tenta mostrar trabalho, aceitando os pedidos de impeachment do governador licenciado e abrindo processo interno contra três dos oito deputados distritais implicados no esquema, apenas os que foram flagrados pelas câmeras de Durval Barbosa. A CLDF tenta evitar a intervenção federal, que agora é tida como certa. Meio tarde, não? A essa altura, a população de Brasília já sabe que não pode confiar nessas vestais da (i)moralidade pública.
Enquanto isso, o novo governador Wilson Lima vê os fatos desabonadores de seu passado político serem trazidos à tona. E que passado cabeludo, hem, gente? Claro que o jornalismo investigativo sobre ele não está sendo feito pelo Correio Braziliense, que, de tão comprometido, venda os olhos enquanto sua reputação rola esgoto abaixo.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Cai mais um
O governador do DF em exercício, Paulo Octávio, acaba de anunciar sua renúncia ao cargo, conforme previ aqui em post anterior. Absolutamente previsível, depois que se avolumaram as denúncias contra Arruda e seu vice, com a investigação do esquema de propina para a concessão de lotes do programa de industrialização do DF, o Pró-DF - gerenciado pela secretaria de responsabilidade de Paulo Octávio.
"Gerenciado" é eufemismo para o tipo de gestão que se instalou aqui durante a administração do DEM. Corre nas rodas de conversas que existe até tabela de preços, diferenciados para cada tipo de lote, conforme a localização. Não se trata do preço do lote, não... Trata-se do preço da propina a ser paga pela concessão!
É bom lembrar que, se for mesmo puxado o fio das concessões de lotes do Pró-DF, muita "gente boa" vai ser obrigada a se colocar "de costas para a parede". Já ouviram falar de um certo IDP - Instituto Brasiliense de Direito Público? Pois é, encontra-se em área nobre de Brasília. Sabe quem são os donos? Já viu quem são os professores que dão cursos nessa instituição? Sabia que o lote para sua construção foi concedido pelo Pró-DF? Pois é...
Os que defendem a intervenção federal no governo do GDF o fazem porque sabem que a corrupção quadrilheira está tão, mas tão enraizada em todas as instâncias e instituições, que não há como acreditar na superação do colapso institucional, por obra e graça da Câmara Legislativa, das polícias e dos políticos locais. Impossível.
Agora, pela Lei Orgânica do DF, o cargo vago tem de ser ocupado pelo presidente da Câmara Legislativa, Wilson Lima. Você o conhece? Quando conhecê-lo, não se espante. É o típico subproduto da cultura política local, patrocinada pela "vanguarda do atraso".
Aguardemos, pois.
"Gerenciado" é eufemismo para o tipo de gestão que se instalou aqui durante a administração do DEM. Corre nas rodas de conversas que existe até tabela de preços, diferenciados para cada tipo de lote, conforme a localização. Não se trata do preço do lote, não... Trata-se do preço da propina a ser paga pela concessão!
É bom lembrar que, se for mesmo puxado o fio das concessões de lotes do Pró-DF, muita "gente boa" vai ser obrigada a se colocar "de costas para a parede". Já ouviram falar de um certo IDP - Instituto Brasiliense de Direito Público? Pois é, encontra-se em área nobre de Brasília. Sabe quem são os donos? Já viu quem são os professores que dão cursos nessa instituição? Sabia que o lote para sua construção foi concedido pelo Pró-DF? Pois é...
Os que defendem a intervenção federal no governo do GDF o fazem porque sabem que a corrupção quadrilheira está tão, mas tão enraizada em todas as instâncias e instituições, que não há como acreditar na superação do colapso institucional, por obra e graça da Câmara Legislativa, das polícias e dos políticos locais. Impossível.
Agora, pela Lei Orgânica do DF, o cargo vago tem de ser ocupado pelo presidente da Câmara Legislativa, Wilson Lima. Você o conhece? Quando conhecê-lo, não se espante. É o típico subproduto da cultura política local, patrocinada pela "vanguarda do atraso".
Aguardemos, pois.
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