terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Votos para um novo ano e um novo mundo

Se for para surgir um mundo em que não haja discriminação, intolerância e preconceito contra toda diferença que represente uma ameaça...

Se for para surgir um mundo em que o acúmulo de coisas não seja o metro pelo qual as pessoas são avaliadas na vida social...

Se for para surgir um mundo em que os bichos sejam amados apenas até o ponto em que não sejam mais bem tratados que as pessoas...

Se for para surgir um mundo em que todo homem e mulher tenha direito a terra, pão e trabalho...

Se for para surgir um mundo em que não haja grandes fortunas de um lado e bolsões de miséria de outro...

 

Se for para surgir um mundo em que não haja o monopólio das comunicações a serviço dos poderosos...

Se for para surgir um mundo em que não haja poderosos e todos os homens e mulheres possam viver em condições de igualdade...

Se for para surgir um mundo em que países não se atribuam direitos de invadir outros para impor seus modelos de "democracia"...

Se for para surgir um mundo em que populações inteiras não sejam enganadas por governantes que adotam discursos de austeridade administrativa...

Se for para surgir um mundo em que homens, mulheres e crianças sejam ouvidos sobre o tipo de relação que devemos estabelecer com os recursos naturais do planeta...


Se for para surgir um mundo cujos museus mostrem percursos de solidariedade e não de saques a outros povos...

Se for para surgir um mundo (espaço reservado aos leitores que queiram formular seus votos de ano novo para um novo mundo)...

 

Então, que seja verdadeira a previsão dos maias e venha 2012, o ano do fim deste mundo que fomos capazes de (des)construir e que não desejo deixar para as futuras gerações.

Porque se nossas crianças apenas suspeitarem que mundo estamos lhes legando, vai ser difícil prestar contas de todo este caos.


domingo, 11 de dezembro de 2011

De mafiosos e suas máfias

Hoje me deu vontade de passear por este blog. Reli postagens antigas, como se estivesse matando saudades de mim mesma. Reli também comentários - poucos - de leitores e confirmei o que já sabia: este é o blog menos comentado que conheço. Mas continua sendo lido, como me informam as estatísticas do blogger.

Então, se continuo sendo lida, isso reacende em mim o desejo de configurar a existência deste blog como um espaço muito necessário para minha vida. Escrever e saber que há pessoas que nos leem é muito bom e ao mesmo tempo meio intimidador.

Estou embarcando em novo projeto, que talvez resulte em novo livro. Desta vez não é pesquisa da literatura brasileira, mas resgate da memória recente do país. No tempo oportuno farei aqui a divulgação desse trabalho.

Enquanto isso, muitos assuntos rolam na velha mídia e, em maior proporção, fora dela - nos blogs e sites independentes, alguns que já foram até tachados de "sujos" por certo político.

Em nível nacional, o escândalo do momento é o livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr., denominado "A privataria tucana". Chegou dia 9/12 às livrarias e teve a primeira edição esgotada em dois dias. Você pode ler aqui e aqui sobre esse que está sendo considerado o melhor trabalho de jornalismo investigativo dos últimos dez anos. Se quiser conhecer os meandros complicadíssimos da lavagem de dinheiro pelo esquema tucano, com José Serra à frente, há um video e textos também aqui.


Em Brasília, uma sucessão de denúncias contra o governo tenta fabricar um escândalo. Há muita coisa suspeita, que Agnelo e seu grupo precisam explicar. É inadmissível que eles sejam iguais aos que durante tanto tempo combatemos na política local. Por isso, todos os denunciados até agora tem de dar explicações, não basta negar as denúncias.

Mas um detalhe chama a atenção quando comparo os dois casos, o livro-bomba de Amaury Jr. e as denúncias em Brasília, ambos relacionados com o financiamento privado das campanhas políticas: de um lado há o silêncio obsequioso da grande máfia midiática. Para jornalões como a Falha, ops, Folha de São Paulo e Correio Braziliense, é como se o livro não existisse. Nem uma linha sequer sobre seu lançamento. Já o último episódio do policial desequilibrado que invadiu a antessala da casa civil do GDF tem sido repercutido à exaustão, com cobrança indignada de explicações.

Daí que, vendo essas coisas, fico aqui pensando... Se eu fosse uma "consultora" especializada em forjar escândalos para comprometer políticos, um cuidado que tomaria diz respeito a não deixar óbvia a armação. Esse cuidado passou despercebido aos idealizadores das denúncias no GDF, que, ao tentarem incluir no rol dos incriminados o deputado Paulo Tadeu, excederam-se na espetacularização da denúncia, desnudando seu caráter falso e evidenciando a maquinação para assassinatos de reputação. Sempre contando com a cumplicidade da máfia midiática.

Há uma lição preciosa no livro do Amaury: a de que existe forte cumplicidade entre a mídia corporativa, os especuladores do grande capital, os grandes empresários e os políticos que os representam. Essa cumplicidade é responsável por fazer com que, por exemplo, até as pessoas mais esclarecidas tenham o senso crítico embotado e se deixem enganar pelas notícias e pelos comentaristas dos meios de comunicação. Hoje mais do que nunca estou convencida de que, no Brasil, a imprensa não "dá" as notícias, mas as fabrica.

Alternativas? Procurar notícias em alguns poucos veículos estrangeiros - dado que essa cumplicidade parece ser global, basta ver como a imprensa tem tratado os golpes de estado dos bancos contra a democracia na Europa. Mas, principalmente, frequentar sites e blogs de pessoas, jornalistas ou não, que corram atrás da notícia, em seu sentido original de "acontecimento digno de disseminação, reflexão e discussão".

domingo, 20 de novembro de 2011

O mundo sem meu pai

Minhas desculpas aos leitores pelo sumiço. Fui pega pela roda da vida e não tive, do dia 4 de setembro para cá, tempo/vontade de escrever. Explico.

Hoje faz um mês que meu pai morreu. E não está sendo nada fácil lidar com isso.

Eu sempre pensei que saberia enfrentar esse momento, pois a morte de alguém querido é sempre um fato previsível quando estamos em idade avançada. Meu pai se foi dez dias antes de completar 93 anos. E estava lúcido e consciente, lutando para não se entregar à fraqueza que insistia em derrubá-lo.

(Foto de Diogo Brunacci)

Mas a sensação de perda é inevitável. O luto pela ausência é doloroso. Hoje eu me flagro pensando em meu pai todos os dias. Quando ele estava vivo e eu tinha certeza de que podia lhe falar a qualquer hora, sua imagem não vinha a todo momento em minha mente. Hoje vem. Não passei um dia sequer sem pensar nele.

Há em mim, permanentemente, vaga sensação de que perdi alguma referência. Isso é meio contraditório, porque meu pai e eu discordávamos em muita coisa. Conversávamos sobre quase tudo e às vezes até brigávamos, mas nunca tivemos raiva um do outro. Um buraco, um vão, um oco foi o que me restou, agora que não o tenho mais aqui.

Nestes dias, tenho vivido situação paradoxal: o vazio que meu pai deixou tem me preenchido mais do que a presença dele, quando vivo. Acho que o luto é isso: é a gente vivenciar a ausência com tanta intensidade que, em um dado momento, essa ausência adquire dimensão de presença, é quando deixa de ser falta para ser "um estar em mim", nas palavras do poeta.

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

(Carlos Drummond de Andrade)


Assim é: meu pai, Júlio Brunacci, estará sempre nas minhas lembranças, nas imagens que compõem minha memória afetiva, nos traços físicos que dele herdei, na matéria amorosa que constitui minha existência, de minhas filhas, de minhas netas...

Sempre!

domingo, 4 de setembro de 2011

Um dia de campo

Um bom programa de fim-de-semana foi a visita que fizemos às chácaras do Grupo Vida e Preservação, nas proximidades de Padre Bernardo. É uma associação de produtores de verduras, legumes e frutas cultivadas sem o uso de agrotóxicos, que são entregues na minha casa toda semana.


Em iniciativa inédita, esses produtores convidaram os consumidores para passarem a manhã de sábado no assentamento, onde conheceram as plantações e puderam comprovar o uso de técnicas de cultivo tradicionais, inclusive com o controle biológico de pragas. Muito interessante.

Antes de conhecermos as chácaras, assistimos ao filme "Mosaico de olhares", que relata a luta desses agricultores familiares para comercializarem diretamente a produção, sem a exploração de outra "praga biológica" que são os atravessadores, os que, nos esquemas tradicionais de comercialização, lucram mais do que os trabalhadores que labutam de sol a sol nas plantações.

Quem mais gostou do programa foram as crianças, que aprenderam de onde vem as verduras que os adultos se esforçam para fazê-las comer. Comeram morangos e carambolas, alface americana colhida na hora, cenouras e muitos outros produtos.


A visita foi encerrada com delicioso almoço: salada variadíssima, legumes também variados, um delicioso angu de milho verde, creme de espinafre e galinha caipira, tudo isso acompanhado por sucos de morango, laranja e acerola. Bom demais. Foi um sábado tranquilo, em que conhecemos pessoas muito boas, trabalhadoras, cujas iniciativas nos dão bela lição de associativismo.

Quanto a mim, principalmente depois do lançamento do último filme de Sílvio Tendler - O veneno está na mesa -, estou mais do que nunca convicta da necessidade de consumir sempre produtos da agricultura familiar, os chamados "orgânicos", pois está comprovado: ao latifúndio não interessa que o Brasil deixe de ser o campeão mundial no uso de agrotóxicos.

Se você tem interesse em comprar os produtos do Grupo Vida e Preservação, coloque um comentário depois deste post, deixando seu e-mail, que eu lhe mando o número do telefone para encomendas.


sexta-feira, 12 de agosto de 2011

A pedagogia do turismo

De volta a Brasília, depois de exatos 58 dias fora do Brasil, curto a delícia de estar em casa, novamente senhora do meu ambiente, completamente livre da sensação incômoda de estar incomodando alguém ou de estar em ambientes diferentes, quando não totalmente estranhos.

A viagem foi muito boa. O tempo maior de permanência em Paris teve razão afetivo-familiar. O giro por Portugal e Espanha foi divertido, relaxante e - como direi? - pedagógico.

A gente aprende muito quando anda por outras plagas. Aprende a reconhecer a alteridade e os limites da diversidade, que não é pequena, mas é restrita, se é que me entendem. A cada vez que vou à Europa, percebo o aumento do número de migrantes, que intensifica o colorido de roupas e peles nas ruas das metrópoles. É uma diversidade festejada, comemorada, mas, ao mesmo tempo, com "cada um no seu quadrado". Uma coisa é diversidade, mas daí a se falar em miscigenação vai distância grande.

A diversidade em Paris, nas comemorações do 14 de julho

Chegamos a Portugal na semana em que os noticiários alarmavam a população com a crise econômica. Em decorrência da crise grega, os bancos portugueses, que haviam emprestado muito dinheiro ao governo grego, viram-se ameaçados. E retraíram o crédito em Portugal. O noticiário falava insistentemente na reunião de uma certa "troica", que ocorreria na Bélgica, para cuidar da crise portuguesa. Descubro que a "troica" era, na verdade, formada pelos representantes do FMI, Banco Mundial e Banco Central Europeu.

Dessa reunião participaram também a primeira-ministra da Alemanha e o presidente francês. Decidiu-se pela injeção de alguns bilhões de euros na economia portuguesa, mas com as devidas contrapartidas, pelo governo português, de redução dos gastos do estado - e consequentemente de seu papel regulador das atividades econômicas. Era a velha cartilha neoliberal, imposta sempre que um país endividado ameaça calote.

Após essa solução, diziam os noticiários que os portugueses podiam respirar aliviados, porque o estado saberia gerir a crise com os recursos liberados pela União Europeia. Eis que então os banqueiros saem da moita e vão a público cobrar do governo português que saldasse seus débitos, se quisesse garantir a volta da oferta de crédito. Chantagem pura e simples, via meios de comunicação. Mas os portugueses, ao que parece, já respiravam aliviados. De férias, nas praias.


Depois de curtir quatro dias em Lisboa e três no Porto, rumamos para a Espanha. Uma viagem muito interessante, de ônibus, até Madri, observando as mudanças na paisagem enquanto adentrávamos mais e mais a península ibérica. Extensas plantações de oliveiras às vezes tornam monótona a vista.

Também a Espanha começava a se preocupar com o rebote da crise grega sobre sua economia. As medidas propostas pelo governo eram as mesmas do receituário português: corte de gastos públicos, aumento de idade para aposentadoria, redução de gastos com benefícios sociais etc.

O campo devastado do interior da Espanha

Ficou claro que o tratamento recebido pelos dois países nas reuniões dos organismos financeiros da Comunidade Européia deve-se a que se trata de duas economias periféricas na Europa. Impressionou-me o porte autoritário da primeira-ministra alemã e a desenvoltura do presidente francês, servilmente ladeados pelo pândego primeiro-ministro da Itália, também ele às voltas com a falência iminente do estado.

As imagens eram claras: no jogo de forças em que se debate a União Europeia, o poder está com a Alemanha e a França. Esses dois países coordenaram as reuniões que discutiam a crise econômica e deram solenemente seu aval para as propostas de empréstimos aos primos pobres. Poder: essa é a palavra.

O mundo assiste à desintegração do dólar, ameaçando pela primeira vez em décadas a hegemonia americana. A União Europeia tem de cuidar para que não seja abalada pela crise, sob pena de também ter sua hegemonia ameaçada. Cuidar-se significa socorrer os países em processo falimentar e tentar manter uma unidade econômica para não sucumbir às crises cíclicas do capitalismo. Mesmo que para isso os países da periferia europeia tenham de abrir mão de sua soberania.

Barcelona: a rebeldia no ar

Em tempo, um recado a alguns portugueses de Lisboa que deixaram claro, por atitudes, que não gostam de brasileiros: o Brasil de hoje - e os brasileiros que para aí vão, em busca de oportunidades - é aquilo que Portugal, como nação que protagonizou a expansão do capitalismo europeu, foi capaz de produzir. Sorry!

sábado, 9 de julho de 2011

Da falta que a internet faz

Este é um post breve, apenas para avisar a meus 37 leitores inscritos e aos demais leitores eventuais que minhas atividades neste blog encontram-se em recesso forçado.

Encontrar sinal de wi-fi pelas paragens francesas é raro. Pensei que o acesso a internet aqui fosse mais democratizado, mas qual!

Por isso peço-lhes paciência; qualquer dia desses volto a escrever com tempo.

Au revoir!!!

domingo, 12 de junho de 2011

"Eta trem bão", essa escola!

Cada vez que vou a um evento na Escola Classe 304 Norte volto convencida de que é uma escola pública muito boa. Nela estudaram minhas filhas. Agora estuda minha neta mais velha. Sim, sim, eu sei que o tempo está passando e tenho que pintar o cabelo com cada vez mais frequência. Por isso é sempre bom registrar essas recordações, antes que se percam na areia difusa de um passado que ajudei a escrever.

Eu já narrei AQUI um pouco de minha vivência como mãe de alunas dessa escola, nos anos 80, quando a participação da família foi fundamental para se dar início a um projeto político-pedagógico com foco na gestão democrática e nos princípios da cidadania e da solidariedade.

Hoje, ao voltar lá para a festa junina, fico feliz ao constatar que tais parâmetros ainda norteiam o fazer educacional, o que faz dessa escola um espaço privilegiado para os estudantes poderem construir sua autonomia, em busca da emancipação.

Apenas como exemplo das ações ali desenvolvidas, vejam como foi a gincana solidária promovida antes da festa junina:


Percebem? Nessa atividade não se escamoteia a competição, mas ela é colocada a serviço de outros princípios, tais como o da solidariedade. E a premiação contempla atividades que agregarão valores a esse princípio. Registre-se que a gincana foi assim definida em reunião com todas as turmas, quando os alunos puderam opinar e suas contribuições foram incorporadas à organização do evento.

Para a comemoração junina, com apresentação de quadrilhas e comidas típicas, também houve decisão coletiva, que orientou o trabalho de pesquisa das turmas para a preparação das atividades. Assim foi que uma turma de alunos mais velhos optou por homenagear Luiz Gonzaga, entremeando a dança com a narração da vida desse artista popular, executando a coreografia dos diferentes ritmos de suas músicas: baião, xote, xaxado etc. Tudo isso acompanhado da devida criação plástica:


Já a turminha da Sofia dedicou-se a produzir um mural que dialogasse com a obra do pintor ítalo-brasileiro Alfredo Volpi. Reparem:


Agora comparem com o original:


Vício de vó professora: converso com Sofia para ver o quanto ela aprendeu com essas atividades e me surpreendo. Ela sempre aprendeu mais do que supus.

Fico feliz porque o processo que iniciamos nos anos 80 continua. Como é próprio do fazer educacional, não há como considerar que isso é tudo a ser desenvolvido. Não há finalização possível, porque sempre se agregam mais conteúdos e valores, em um exercício permanente de educação laica, que forma os alunos para a vida. Não qualquer vida: aquela que se faz espaço permanente de crítica, de autonomia, de cidadania.

Nessa escola, o princípio da gestão democrática, do qual estão imbuídos o corpo docente, a direção e o movimento de pais e mães de alunos, nada tem a ver com organizar eventos para arrecadar dinheiro. Ele é mais um momento marcante de integração e de aprendizado, que não se restringe ao espaço intramuros, mas age também sobre a sociedade fora da escola, assim como recebe a influência dessa sociedade e se constitui em lugar de reflexão e questionamento da vida social.

Essa é uma experiência que deve ser socializada e proporcionada a todas as escolas da rede pública de Brasília, não tenho dúvida.

O tema da festa junina foi "Eta trem bão!" Trem bão de festa, trem bão de escola!!!