domingo, 8 de agosto de 2010

O dia em que São Paulo parou II

Ela está aturdida e apavorada. Não sabe por que está neste lugar. Lembra-se claramente de ter ido dormir e agora... isso? Anda por uma rua de cidade pequena, o dia amanhece. As casas ainda não abriram as janelas, o sol demora um pouco para surgir por inteiro atrás da pequena serra que protege as casinhas coloridas.


Vê outras pessoas vagando como ela, perplexas e confusas. Mas não se lembra de nada, pensa que sonha, belisca-se, tenta acordar. Nada. Socorro não sabe o que aconteceu. Não conhece aquele lugar, não se lembra de nada, não tem sequer um vago dejà vu.

- Deus do céu, o que me aconteceu? Como vim parar aqui?

Olha-se e percebe que está de camisola. Vê a sua volta um rapaz de pijama e outra mulher de camisola. Todos tem o olhar assustado, devem estar pensando o mesmo que Socorro:

- Que lugar é este? O que estou fazendo aqui? Cadê minha kit, minha rua, meu ônibus de todo dia?

Pensa que alguém está brincando com ela, está tendo algum tipo de ilusão ou de pesadelo do qual não consegue acordar. E precisa acordar logo, porque tem de ir para o escritório, não pode se dar o luxo de faltar ao trabalho na avenida brigadeiro, tem de estar lá para passar o dia, como todos os outros, atendendo ao telefone, transferindo ligações. Será que ficou maluca, será que o Eustáquio tem razão quando diz que telefone é máquina de fazer doido?

- Ai, Deus, amaluquei?

O rapaz de pijama chega perto dela e pergunta que cidade é esta e ela, já desesperada, diz que não sabe. E ele:

- Nem eu. Mas o que estamos fazendo aqui?

- E eu sei lá, moço? Eu estava na minha casa ontem e hoje acordei aqui.

- Ora, eu também, senhora. Me diz: onde mora? Como se chama?

- Meu nome é Socorro, moro em São Paulo... No Sacomã... E você?

- Ah, eu sou o Evaldo. Também moro em São Paulo, mas no Cambuci. Não sei como vim parar aqui. A senhora nasceu em São Paulo mesmo?

- Não, eu nasci na Bahia, mas meus pais se mudaram quando eu tinha três meses. É, praticamente, nasci em São Paulo, né? Eu, pelo menos, me considero paulistana, até no sotaque. Meus pais já morreram, não tive irmãos. Moro sozinha. E você?

- Eu também me considero paulistano. Sou filho adotivo, sabe? Minha família é de Pinheiros, meus pais me pegaram para criar com 30 dias de nascido. Tenho dois irmãos, mas eles não foram adotados, só eu.

- E que que você acha que aconteceu com a gente? Por que será que estamos aqui, neste lugar tão estranho?...

- Sei lá, dona, estou é com medo. Será que agora que fiz 18 anos o pai e a mãe se arrependeram de me adotar? Será que resolveram me devolver e ficaram com vergonha de me contar? Ah, não sei o que pensar, não sei como vim parar aqui, de pijama...

- E eu, moço, que ainda tenho de trabalhar, não posso chegar atrasada e não consigo acabar com isso... Já estou ficando desesperada!

- Calma! Vamos fazer o seguinte: bater na porta de uma das casas e pedir informação, saber que cidade é esta... De repente a gente consegue saber o que está acontecendo, né?

E lá se vai o estranho casal rumo às casas coloridas, tentar solucionar o mistério deste dia tão estranho. Quando Socorro e Evaldo começam a andar, são seguidos pelos outros que vagam pela rua, silenciosamente...

(continua...)

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O dia em que São Paulo parou

(O texto a seguir é ficcional. Qualquer semelhança com fatos ou pessoas reais não é mera coincidência, visto que a arte imita a vida e vice-versa.)

Acordou estranhando o silêncio naquela quarta-feira. Não ouviu o costumeiro barulho na cozinha, não sentiu o cheirinho do café fresco, sentiu falta de alguém cantarolando baixinho.

- Selma?... Selma!... Ué, cadê a Selma, gente? Cadê o café da manhã?

Logo veio o marido e ela estava atrapalhada na cozinha, tentando preparar o café da manhã, antes que as crianças saíssem do quarto.

- Cadê a Selma?

- Não sei, não está aqui.

- Será que ela não dormiu em casa? Mas ela nos deu "boa noite" ontem, dizendo que ia dormir...

- Pois é, não dormiu aqui. E sabe-se lá a que horas vai chegar...

Chegam as crianças, duas garotas de 10 e 12 anos, já com roupa de escola. Olham em volta e veem que é um daqueles raros dias em que a Selma não está em casa. Veem a mãe tirando queijo, leite e suco da geladeira. Pão, só o de ontem, porque a Selma é que devia ter comprado cedinho... Café tem de ser o solúvel mesmo, a água já estava fervendo no microondas.

- Engraçado, a televisão não está passando o jornal matinal - diz o pai.

- Hoje está um dia muito esquisito, querido... fala a mãe. - Estou achando o ar mais silencioso, não ouço o barulho dos ônibus e já são quase 8 horas... Será greve dos rodoviários?

- Terminaram, meninas? Então vamos, já estamos atrasadas - diz a mãe. Tchau, querido, bom dia! Depois de deixar as meninas na escola, vou fazer as compras do mês. Quando eu voltar a Selma já estará aqui, para guardar tudo e fazer o almoço.

- Tchau, querida, vejo você à noite. Ah, quem me dera poder vir almoçar com vocês... Impossível, com o trânsito de São Paulo! - falou isso com orgulho de ser paulistano.


Mal andou dois quarteirões e ele já está irritado com o trânsito, mais lento do que o normal. Não vê aquela quantidade enorme de ônibus que sempre o atrapalham, apenas três ou quatro. Mas está vendo muito mais carros na rua.

- "Deve ser greve" - pensa. "Saco! Todo dia tem alguma coisa para atrapalhar."

Atrasado, coloca o carro no estacionamento pago, a meio quarteirão do escritório. No caminho, percebe que a banca de revistas está fechada. Estranha. Sempre compra o jornal antes de entrar no centro empresarial e bate um papo rápido com seu Nonato, o dono da banca, que conhece há mais de 10 anos.

Ele sempre dá uma passadinha rápida no café do térreo do centro empresarial, compra um para viagem e sobe pelo elevador. Mas hoje só há três garçonetes, em vez das oito habituais. Fila no caixa. Desiste do café, corre para pegar o elevador. Ao descer no andar do escritório, percebe que está mais vazio. Vários colegas de trabalho ainda não chegaram: o Eustáquio, a Yoko, o Gilvan, a Socorro, o Raoni...

- É, deve ser greve mesmo. De rodoviários, metroviários, sei lá...

Mal se senta e seu celular começa a tocar. É a esposa:

- Querido, não sei o que fazer. A escola está sem um terço dos professores. A diretora não sabe o que aconteceu, ninguém avisou nada. A Clarinha tem professor para três horários e a Sofia para dois. Que que eu faço?

- Será que os professores estão em greve?! Mas não, é escola privada, não tem greve, né?

- Não, parece que eles simplesmente faltaram, não chegaram para trabalhar.

- Ah, então, leva as meninas para casa. Melhor, leva elas para as compras com você, depois vão todas para casa. Amanhã a coisa deve se normalizar.

De novo a irritação, porque o telefone do escritório toca sem parar. Droga! Despede-se rapidinho da mulher e atende, porque a Socorro não está. É a Flavinha, estagiária:

- Doutor, tô ligando pra avisar que hoje não vai dar pra chegar aí, aqui em Itaquera tá a maior confusão, trânsito parado, lojas fechadas, canteiros de obras vazios. Ninguém sabe o que está acontecendo.

- Ah, Flavinha, deve ser alguma greve...

- Não é, não, doutor. É alguma coisa estranha, estão faltando pessoas nas ruas, nas casas, nas lojas, nos prédios em construção... Tudo muito esquisito, parece que sumiu todo mundo... Os nossos vizinhos da frente saíram e deixaram a casa aberta.

- Tá bem, Flavinha, não esquenta. Se não der pra chegar aqui, fique em casa. Tchau!

Esquisito. Ele percebe que está mesmo é faltando gente na cidade. São Paulo sempre tem tanta gente nas ruas. Mas agora, olhando pela janela do escritório, ele vê bem menos gente transitando. No prédio em que trabalha, o movimento dos corredores está reduzido.

Liga de novo a mulher:

- Querido, tá a maior confusão no supermercado. Faltam vários funcionários, não tem reposição de produtos, não tem açougueiro, nem padeiro, pouquíssimos caixas. Não sei como vou fazer as compras...

- É, querida, tem alguma coisa errada. Tá faltando gente em vários lugares da cidade.

- Olha, aqui tem uma televisão ligada e vai ter edição extra do jornal. Vou desligar e te ligo de novo, pode ser alguma notícia para a gente saber o que está acontecendo.

Enquanto espera, ele liga o computador e busca notícias nos portais dos principais jornais. Nada, apenas uma notícia de que o maior hospital da cidade está funcionando de forma precária, porque muitos profissionais não compareceram ao trabalho.

Volta a tocar o celular. E a mulher:

- Ai, querido, a notícia que deu na televisão é de que São Paulo amanheceu com menos de 50% da população. Será possível? Para onde foi todo mundo? Ah, liguei lá em casa e a Selma ainda não apareceu...

- Pois é, alguma coisa aconteceu e as notícias são insuficientes. Eu jurava que era alguma greve, mas agora começo a pensar que é outro ataque do PCC, sei lá...

- Ai, querido, vou pra casa agora mesmo com as crianças. Dá um jeito de ir você também, tá? Não demora, está me dando um medo...

- Calma, bem! Vai com calma, não se preocupe com as compras. Eu também vou, encontro vocês em casa.
(Continua...)

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Apenas um sonho?

Sonhei que acordava no dia 4 de outubro e, como todas as manhãs, me sentava em frente ao computador para ler as notícias. Queria saber o resultado das eleições.

Estava feliz pelo fato de o Brasil ter, pela primeira vez, uma mulher na presidência. Garantia de continuidade das políticas implementadas em dois mandatos daquele que, nos últimos quatro meses antes da eleição de 3 de outubro, fora simplesmente "desaparecido" do jornal noturno da grande rede de tv.

Mas o apagamento da imagem e dos discursos do antecessor não foi suficiente para apagá-lo da memória dos cidadãos, porque eu estava acordando em uma manhã feliz do primeiro dia do início de uma nova história.

No DF continuava a disputa. Ia ter segundo turno para que a população escolhesse entre o gangster e o médico. Mas uma coisa de bom aconteceu: todos os envolvidos nos escândalos que derrubaram o governador anterior foram varridos do mapa político da cidade. E o ex-governador que tinha nome de uma plantinha malcheirosa também havia sumido...

Fui olhar o mapa. Primeiro, no Maranhão, tive a alegria de ver que nenhum membro de uma antiga oligarquia local foi eleito. No Amapá, onde há um braço dessa oligarquia mofada, também não. São Luís estava em festa, muitas bandeiras vermelhas compunham a multidão nas ruas.


Pulei dali para o Piauí. Bom demais ver que um certo senhor bochechudo, defensor incansável de certo banqueiro dos olhos azuis, estava sem mandato. Será que os piauienses perceberam que o tal usava o mandato que lhe fora concedido pelo povo para defender interesses antipovo?
De mesma forma, um certo senador do mesmo estado, que se notabilizou por discursos nada santos de crítica ao presidente "apagado" pela mídia, também fora varrido sem dó nem piedade.

No Amazonas, bati palmas de satisfação com a varrição de um truculento boxeador que representava os amazonenses no senado. O carinha ainda tentou pular do barco que naufragava, como rato, mas não logrou enganar o povo ao tentar colar sua imagem na do governante que ofendera profundamente quando na oposição.

Em Pernambuco, foi um banho. Estavam definitivamente fora do baralho as cartas marcadas de políticos tradicionais: um muito alto e magro, caladinho, que foi vice no tempo em que o Brasil foi vendido para os estrangeiros; outro, ex-comunista direitoso que apoiou o golpe militar em Honduras.

Nas Alagoas do grande Graça, o povo soube dizer não a um colorido e violento candidato que ficou famoso por apregoar aos quatro ventos a cor de seus testículos, antes de ser expulso da presidência do país. Também foi escafedido um certo ex-governador que sucateou vergonhosamente a educação e se valia da memória do pai para angariar votos.

Eita, que esse sonho está bom demais! Voei para São Paulo e - oh surpresa! Os paulistas deram uma banana ao picolé de chuchu, contra todas as pesquisas!!! Inacreditável! Foi a remissão desse povo que passou 16 anos sob o jugo da direita mais empedernida. De quebra, espirraram vários políticos profissionais, daqueles que compõem a tradição de roubalheira e da corrupção no país. Admirável o povo de São Paulo, nossa!

Corri ao Paraná e o que vi causou-me alegre espanto: o quase-vice campeão-do-botox-com-implante-de-cabelos ficou de fora! Incrível!

Mas o que andou acontecendo no Brasil? Ah, tenho que correr os olhos pelas notícias de todos os estados!... Por um instante imaginei o país com novas figuras na política, com a velharia recolhida, tentando conspirar nos clubes militares, nas academias de letras, nos iates-clubes, no lions e no rotary, nas lojas maçônicas, nas associações de aposentados, nos clubes de crochê e tricô e nos bailes da terceira idade, sem sucesso.

Nesse momento, a risada que larguei no ar foi tão alta, que me acordou. Não pude terminar a viagem pelas notícias do país. Olhei em volta, decepcionada. Noite fechada, silêncio pesado. Amanhã me levantarei para lidar, mais uma vez, com toda a manipulação da mídia em favor de seus candidatos e, invariavelmente, contra o Brasil.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Enquanto isso, no Maranhão...

A propósito de tudo o que escrevi no post anterior, não posso deixar de divulgar aqui uma notícia que nos deixa mais que perplexos - deixa-nos estarrecidos. Como a velha mídia não cumpre seu papel de noticiar e tem deixado essa tarefa para as mídias independentes na internet, os blogueiros tem se transformado em alvos de forte repressão, com o auxílio da pesada mão da "justiça". Vejam o que ocorre no Maranhão, sob a batuta da velha oligarquia Sarney:

Juiz censura jornalista no Maranhão, numa decisão proferida em dois minutos

O juiz Alexandre Lopes de Abreu, diretor do Fórum Sarney Costa em São Luís e respondendo pela 6ª Vara Cível, decidiu censurar o blog do jornalista Itevaldo Júnior, atendendo um pedido de liminar do juiz Nemias Nunes Carvalho, da 2ª Vara Cível da capital. A decisão de Alexandre Abreu determina que o jornalista retire imediatamente do blog www.itevaldo.com uma reportagem onde ele revela que o juiz Nemias Carvalho comprou uma fazenda de 101,19 hectares, de um acusado que o próprio magistrado revogara a prisão. A ré estava foragida quando da revogação da prisão, mas, em seguida, negociou a propriedade por R$ 5.ooo,00 às margens da BR-316. A decisão liminar foi proferida na última sexta-feira, dia 16. O juiz Alexandre Abreu decidiu em dois minutos, o deferimento, como comprova a movimentação processual disponível no site do Tribunal de Justiça do Maranhão:

“Às 14:00:48 – CONCLUSOS PARA DESPACHO / DECISÃO. sem informação.
Às 14:02:39 – CONCEDIDA A MEDIDA LIMINAR”.

Na decisão, o juiz da 6ª Vara Cível ordena que o jornalista retire imediatamente do blog a matéria “JUIZ NEMIAS CARVALHO: NOUTRA POLÊMICA”, publicada no último dia 12. O juiz determinou ainda que o blog “se abstenha de proceder a qualquer alusão ou referência ao nome do autor, até decisão final da causa”. Além de estipular uma multa diária de R$ 500,00, caso seja descumprida a decisão liminar. O jornalista cumpriu a determinação judicial, hoje, logo após ser notificado às 7h05 da manhã em sua residência. Ainda em sua decisão, o juiz afirma que “a dignidade da pessoa” é um “bem maior” que a “liberdade de manifestação”. Itevaldo Júnior afirmou que recorrerá da rápida decisão. “A celeridade dessa decisão é de fazer inveja ao velocista jamaicano Usaih Bolt”, ironizou o jornalista.


(Retirado do blog Brasília, eu vi - de Leandro Fortes)

Não é novidade, sabem? Luís Nassif, Paulo Henrique Amorim e outros blogueiros respondem a numerosos processos judiciais, de autoria - pasmem! - de órgãos de imprensa como a Veja e a Falha de São Paulo. Parece que querem aniquilar a concorrência, sem melhorar a qualidade da imprensa que praticam, simplesmente calando quem faz a crítica que todo leitor gostaria de encontrar nas revistas e jornalões. É ou não censura?

terça-feira, 20 de julho de 2010

O fim da velha mídia

Quando passo muito tempo sem escrever geralmente há duas razões: perplexidade ou tristeza. Mas pode ser que as duas ocorram simultaneamente, no meio do turbilhão que é o cotidiano com suas 684 tarefas.

Ando triste porque uma grande amiga está doente. Penso nela diariamente, várias vezes ao dia. Isso me dispersa, me dá vontade de fugir do dia-a-dia, ficar num canto, quieta, esperando notícias que melhorem a cor do mundo...

Mas também tenho andado perplexa. Prometi alguns posts atrás que escreveria sobre o fim da velha mídia no Brasil. Acho que chegou a hora, tendo em vista a notícia de que o Jornal do Brasil suspendeu sua tiragem impressa, passando a existir apenas na web. Veja aqui como a Falha de São Paulo divulgou a matéria. Pobres cariocas! Agora eles tem apenas O Globo... (não que o JB fosse um excelente jornal, bem entendido)

Isso pode ser um sintoma e um sinal. Algum tempo atrás analisei os órgãos de imprensa brasileiros como uma associação mafiosa-partidária. E o que tenho lido e ouvido confirma essa impressão. No momento em que se inicia no país mais uma campanha eleitoral, nossa imprensa vela verdades e desvela-se para o leitor/espectador como pura tentativa de manipulação.

Penso que seria mais honesto se todos os jornais, revistas, emissoras de rádio e canais de televisão explicitassem para o leitor/espectador sua preferência por este ou aquele candidato, embasando seus argumentos em uma análise criteriosa do perfil do escolhido. Mas uma análise séria, não a repetição de clichês e de preconceitos.

Que eu saiba, apenas uma revista semanal teve a coragem de fazer isso. E foi logo acusada de querer se beneficiar em um eventual governo do partido que diz apoiar. Mas confesso que me sinto mais confortável lendo essa revista, que assume claramente uma posição, do que outras que, sob o manto de uma fictícia imparcialidade, enganam seus leitores.

Aprendi por aí que a imparcialidade no jornalismo é um mito. Não se trata propriamente de uma novidade, para quem viveu a história recente do Brasil - e olhem que não sou tão velha assim! Mas me lembro perfeitamente da primeira eleição direta para presidente depois da ditadura empresarial-militar que nos sufocou por longos anos. Lembro-me claramente como a imprensa, capitaneada pelas Organizações Globo, construiu e vendeu como sabonete a imagem de um caçador de marajás, vindo das plagas alagoanas. E de como um debate entre os dois candidatos a presidente, no segundo turno, foi editado para ir ao ar no JN na véspera da eleição, favorecendo aquele que, depois de empossado e de ter apregoado que tinha "aquilo roxo", protagonizaria o primeiro caso de impeachment da história republicana brasileira. O diabo é que me lembro disso cristalinamente! E de vez em quando revejo essa história, como aqui (esse documentário está dividido em 10 partes, todas muito interessantes):



É duro ter memória, sabem? Talvez fosse mais cômodo a gente esquecer o que ficou para trás, seguir vivendo feliz, com a mente entorpecida pelas telenovelas, pelos sonhos de consumo, pelas reportagens que escurecem com a nódoa do ódio de classe a realidade. Talvez fosse mais fácil alienar-se, dar uma guinada para o conservadorismo que ignora a pobreza, adota o discurso do mérito e da competência; talvez fosse mais doce olhar o abismo social que divide as classes no Brasil como resultado da falta de esforço, da secular preguiça dos brasileiros. E tachar os militantes do MST de baderneiros. Talvez fosse mais fácil ignorar que este é um povo trabalhador, que deseja apenas ter acesso a uma vida digna, com educação de qualidade, condições de moradia, de saúde, de mobilidade, de segurança alimentar. E que este é um país que reúne todas as condições físicas e materiais de proporcionar isso a seus cidadãos.

Um brasileiro "preguiçoso"

Analisando a mídia de hoje a gente entende por que o Brasil demorou tanto tempo a tomar o rumo das mudanças que provocaram transformações visíveis no cotidiano da maioria da população. Os mesmos jornais, revistas, estações de rádio e televisão estão aí, a repetirem o tipo de "jornalismo" que faziam há dez anos: comprometido com os poderosos, forjando notícias que não resistem a uma confrontação com a realidade, assassinando reputações daqueles que contrariam seus interesses, apoiando veladamente seus candidatos nas próximas eleições... Posso citar muitos exemplos, desde uma certa ficha policial falsa até "reportagens" alertando para uma eventual queda do valor das ações da Petrobrás.

O jornalismo de esgoto que hoje se pratica abundantemente no Brasil não se preocupa com as consequências: cria pânico para provocar corridas massivas a postos de vacinação; preconiza fracassos em todas as empreitadas que o governo tem pela frente, como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016; defende escancaradamente interesses estrangeiros na discussão sobre a exploração do petróleo do pré-sal; debocha de programas sociais como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida; é maledicente e difamador. Mantém "especialistas" de plantão para dar entrevistas que desqualificam as políticas públicas em curso no Brasil. Enfim, é um "jornalismo" que torce contra o Brasil.

Por isso penso que está próximo o fim da velha mídia, essa que hoje identificamos como sabotadora e golpista, afinada com os interesses udenistas que ainda impregnam a ideologia da elite brasileira, vendida e vendilhona (se é que existe essa palavra....), com o apoio inestimável de uma Justiça que privilegia a visão de mundo da classe dominante: o sagrado direito à propriedade privada, em detrimento do direito da maioria à justiça social.

Mas voltemos ao sintoma e ao sinal. O sintoma nos mostra que o jornalismo está em crise no Brasil, com o surgimento de novas mídias, notadamente as que utilizam a internet e se valem das redes sociais. O sinal nos dá a certeza de que os brasileiros, à medida que tem acesso a essas novas mídias, tendem a dispensar o conservadorismo caduco da velha mídia, abrindo mão primeiramente da leitura das versões impressas. Chegará o dia em que os canais de televisão públicos substituirão a também caduca programação das emissoras tradicionais.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Eu queria ser amiga do Chico Buarque

Tinha 14 anos quando ouvi falar do Chico Buarque pela primeira vez. Uma professora de Educação Moral e Cívica (eram os tempos da ditadura empresarial-militar) anunciou que ele, o rapaz autor de A Banda, iria visitar Araxá. E ficaria hospedado na casa dela.

Não sei se o então rapaz Chico ficou mesmo hospedado na casa daquela velhinha reacionária. Sei que, numa tarde, eu menina fiquei com o rosto colado à grade da casa de esquina, na rua Boa Vista, esperando ver o carinha no alpendre. E vi. Conversando animado, com uma das filhas da professora e outro cara que não pude saber quem era. Vi um sorriso que iluminava o rosto inteiro e me lembro de ter achado lindo o compositor carioca, que naquela época era assim:


Naquela época eu curtia suas músicas numa tal Rádio Mundial, que captava em ondas curtas no velho rádio lá de casa. Ou seja, minha história com o Chico estava apenas começando. Mal sabia eu o quanto ele se faria presente em minha vida.

Ao longo de todo o período dos anos de chumbo, eu compraria cada disco seu para procurar mensagens políticas cifradas, que nos davam ânimo para resistir. Vibrei quando Chico adotou o pseudônimo de Julinho da Adelaide para driblar a censura. Acompanhei sua carreira quando morou na Itália. Para mim, assim como para milhares de outras, Chico era lindo, inteligente, politizado e grande compositor.

Chico sabia falar à alma feminina com perfeição. E o mais importante: sabia - sabe ainda! - traduzir como ninguém a alma feminina. As letras de suas músicas cabem perfeitamente em muitas das situações vividas pelas mulheres, desde as mais prosaicas até as mais trágicas! Penso em João e Maria e Valsinha, de um lado, e em Gota d'água e Ana de Amsterdam, de outro.



Há quem critique as fãs do Chico. Há os caras que sentem ciúmes, porque suas mulheres dizem amar o Chico. Há os que reconhecem que invejam o Chico, porque gostariam de ser como ele: bonito, legal, grande compositor e excelente escritor - no mais, um intelectual que não perdeu o vínculo com o país e seu povo. Eu adorei uma cena de um documentário sobre o Chico, quando um rapaz, ao encontrá-lo na rua, ligou para a mulher, dizendo: "Amor, adivinha quem está aqui na minha frente?" E depois entregou o celular ao Chico, para que falasse com ela. O Chico é assim, adorável.

Quanto mais passa o tempo, mais a produção poético-musical e literária do Chico me parece melhor. Um exercício misto de sensibilidade e leitura do processo social brasileiro, de entendimento da nossa história e da nossa sociedade, em perspectiva permanentemente crítica.



Por isso tudo, eu queria muito ser amiga do Chico Buarque. Não para dar uma de fanzoca, daquelas que viram os olhos e soltam gritinhos ao vê-lo. Eu queria mesmo era sentar por meia hora com o Chico para tomar um café, no Rio de Janeiro ou em qualquer outro lugar. E com ele conversar, como boa amiga, sobre qualquer assunto. Talvez até nem conversar, apenas saborear o café, enquanto penso em como é bom ser amiga do Chico Buarque!


domingo, 27 de junho de 2010

O PIB sobre pneus

Penso que não passou despercebido o anúncio de que o PIB brasileiro cresceu 9% no primeiro trimestre deste ano. Essa informação esteve em todos os jornais escritos e falados no início deste mês (veja aqui, por exemplo).

Dei-me ao trabalho de pesquisar o que é isso e achei uma boa explicação aqui:

Principal indicador da atividade econômica, o PIB - Produto Interno Bruto - exprime o valor da produção realizada dentro das fronteiras geográficas de um país, num determinado período, independentemente da nacionalidade das unidades produtoras. Em outras palavras, o PIB sintetiza o resultado final da atividade produtiva, expressando monetariamente a produção, sem duplicações, de todos os produtores residentes nos limites da nação avaliada. A soma dos valores é feita com base nos preços finais de mercado. A produção da economia informal não é computada no cálculo do PIB nacional.

Então. Alvíssaras! Bom para o Brasil, não? Resultado dos estímulos ao aquecimento da economia, com criação de mais empregos, aumento da produção e do consumo etc. Toda essa produção circula por aí, uma parte dentro do país, outra parte destinada à exportação. Bom, bom mesmo, não é?

Pois bem. Mas eu leio por aí que uma carreta carregando bobinas de aço tombou sobre dois carros e matou NOVE pessoas! Nove pessoas! Adivinhem onde... Na já conhecida "rodovia da morte", a BR 381, em Minas Gerais. Para variar, o acidente ocorreu nas curvas próximas a Caeté, cidade que já perdeu muitos de seus filhos em acidentes naquela estrada. Veja a matéria aqui.

Abundam por aí as notícias sobre acidentes gravíssimos envolvendo caminhões e carretas. Veja algumas aqui, aqui e aqui. E isso se dá no Brasil todo, tornando as rodovias superperigosas. Quem viaja por nossas estradas pode observar todo tipo de caminhão e carreta circulando. Tem aqueles que são novos e modernos, mas também existem os antigos, velhos, muito usados e em péssimas condições de conservação.

Imagine viajar atrás de um desses, em uma estrada cheia de curvas...

Uma vez andávamos pela BR 381 e nos chamou a atenção um caminhão carregado de carvão. Estava com a carga muito alta e visivelmente desequilibrada para o lado direito. Estávamos atrás dele e tratamos de nos distanciar, para não correr o risco de que a carga caísse na estrada bem na nossa frente.

Eu já discuti neste blog o problema da BR 381, que mata mais do que qualquer outra rodovia brasileira e corre paralela a uma ferrovia, concedida graciosamente à Vale do Rio Doce para transportar seu minério. Subutilizada, quando poderia ser compartilhada para transporte de outras cargas, aliviando assim a estrada e contribuindo para diminuir os acidentes em que se envolvem caminhões e carretas.

Mas é preciso parar para refletir: em que momento da nossa história o Brasil abriu mão de uma malha ferroviária para transporte de carga? Até que ponto o
lobby dos fabricantes de caminhões é influente nessa decisão? E a indústria do frete, tem participação nesse lobby? Como são as condições de trabalho dos motoristas de caminhões e carretas? É verdade que trabalham permanentemente pressionados por curtíssimos prazos de entrega?

Tudo isso e alguna cosita más deve ser objeto de reflexão e de impulso de alguma ação concreta que tenha por objetivo fortalecer o transporte ferroviário e ajudar a tornar nossas estradas menos perigosas e mais bem conservadas.

Festejemos o crescimento do PIB brasileiro, mas sem esquecer os homens, mulheres e crianças que morrem todos os anos nas estradas que o transportam.