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domingo, 16 de janeiro de 2011

A vez da Educação - Ideias para uma cidade do terceiro milênio (III)

Durante o brevíssimo período em que trabalhei na antiga Fundação Educacional do DF fiquei, por várias vezes, inconformada com certos critérios adotados pelos gestores, no que dizia respeito tanto às diretrizes curriculares quanto à carreira docente.

Havia algumas medidas que eu considerava extremamente prejudiciais ao desempenho dos professores e professoras, como, por exemplo, a política de remoção: em início de carreira, não importava o endereço, o professor/professora tinha de ir para uma escola geralmente - e invariavelmente - distante de casa. A meu ver, perdia-se algo importante para o processo de ensino e aprendizagem: o elo do professor com a comunidade escolar.

Pode não parecer, mas essa ligação é necessária. Um professor que conhece a comunidade a que pertence sua escola tem mais condições de integrar seu trabalho à realidade dos alunos. Não se pode negar que isso é desejável, para não dizer indispensável ao fortalecimento da escola cidadã e, por consequência, à boa qualidade da educação.

Um professor ou professora, algum dia, ao fazer as contas de seus gastos com transporte e alimentação enquanto trabalha tão longe de casa, pode facilmente desanimar e desistir de permanecer na rede pública. Não sei como é a política de remoção hoje, mas naquela época o tempo de serviço era o critério que possibilitava ao docente pleitear vaga em escola próxima de sua casa. Parecia proposital, às vezes parecia que mandar o professor para bem longe de sua casa era um ritual de passagem indispensável para testar sua perseverança e disposição de continuar trabalhando na educação pública. E não se admitia o questionamento de tal política, sob o argumento de que "sempre foi assim".

Outra "política" que me deixava desanimada era a prática corrente de fazer com que um professor completasse sua carga horária "tapando o buraco" da falta crônica de outro. Para vocês terem uma ideia, eu tive de ministrar a disciplina "ensino religioso" para turmas de 7ª e 8ª séries, mesmo depois de declarar formalmente à direção da escola ser ateia e ter severas restrições às religiões em geral, embora respeitasse as crenças dos alunos.

Agora, vocês conseguem me imaginar dando aulas de ensino religioso para meninos e meninas evangélicos, católicos, umbandistas e até de seitas para mim desconhecidas, como seicho-no-ie? Inimaginável, não? Obviamente, passei pela experiência de desenvolver com os alunos pesquisas em sua comunidade, sobre temas como ética, cidadania, movimentos sociais, lideranças comunitárias... Detalhe: a escola em que trabalhava era classificada como "escola rural", mas estava inserida em uma comunidade de Samambaia, bem urbana. E também recebia meninos e meninas de rua, na época denominados "menores infratores".

Foi bom enquanto durou. Mas a diretora resolveu retirar-me das aulas de ensino religioso após constatar que eu fora a única professora a não falar sobre a páscoa com os alunos, muito menos levá-los a produzir coelhinhos de cartolina, cartõezinhos coloridos para os pais, cantar com eles músicas alusivas a essa comemoração. Por quê? Eu simplesmente me esquecera, de tão ocupada que estava em tabular as respostas ao questionário que os alunos haviam aplicado, na pesquisa de campo, sobre o significado da ética em sua comunidade.

Outra coisa que me preocupa, dado que defendo o caráter laico da educação pública, é a adoção de práticas religiosas nas escolas públicas. Já narrei aqui - clique no marcador Educação, aí na coluna da direita, para ver os posts - várias situações de perda da laicidade na prática da escola pública. Lamento constatar hoje, ao acompanhar a educação de minha neta mais velha, que essas práticas nada mudaram; pelo contrário, parecem ter se radicalizado, levando para o espaço escolar a disputa por "mercado" entre as diferentes religiões.

Para não me alongar, gostaria de sugerir ao novo governo que se inicia no DF que encare corajosamente essas questões. Há numerosas outras, mas não preciso listar todas, pois sei que a nova secretária de educação as conhece e também deve se preocupar com elas. Saberá, igualmente, neutralizar o assédio das empresas fornecedoras de serviços educacionais, geralmente interessadas na venda em larga escala de material didático de qualidade para lá de ruim, como as que tem atuado junto aos governos estaduais e municipais de São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo.

Fica, por fim, uma sugestão: que seja criada uma Coordenação ou Departamento encarregado de mapear as práticas inovadoras de ensino e aprendizagem nas escolas públicas, que as desenvolvem pelo comprometimento de seus professores, seus alunos e sua comunidade, na busca de uma educação que não seja sinônimo de simples adestramento e padronização.


sábado, 8 de janeiro de 2011

Ideias para uma cidade do terceiro milênio (II)

Inicio agradecendo aos leitores que comentaram o post anterior, sobre mobilidade urbana. É bom ver que há pessoas que compartilham de nossas ideias e contribuem para aprimorá-las. Prossigo agora com algumas reflexões sobre a saúde pública para uma capital federal do terceiro milênio.

Fiquei revoltadíssima, ano passado, quando li matéria da CartaCapital informando que alguns governos estaduais foram pegos em auditoria do Ministério da Saúde, que flagrou recursos do SUS, repassados pelo governo federal, aplicados em contas bancárias de Minas Gerais, São Paulo, Brasília e Rio Grande do Sul. Governos demotucanos, que "coincidência"! Vejam o que diz a matéria sobre Brasília:


"O primeiro caso a ser descoberto foi o do Distrito Federal, em março de 2009, graças a uma análise preliminar nas contas do setor de farmácia básica, foco original das auditorias. No DF, havia acúmulo de recursos repassados pelo Ministério da Saúde desde 2006, ainda nas gestões dos governadores Joaquim Roriz, então do PMDB, e Maria de Lourdes Abadia, do PSDB. No governo do DEM, em vez de investir o dinheiro do SUS no sistema de atendimento, o ex-secretário da Saúde local Augusto Carvalho aplicou tudo em Certificados de Depósitos Bancários (CDBs). Em março do ano passado, essa aplicação somava 238,4 milhões de reais. Parte desse dinheiro, segundo investiga o Ministério Público Federal, pode ter sido usada no megaesquema de corrupção que resultou no afastamento e na prisão do governador José Roberto Arruda."

Pois é. Agora leio no Correio Braziliense de ontem que o novo governador do DF negociou com o Ministério da Saúde e, em vez de o governo federal retomar os recursos, deu prazo para que o GDF lhes dê sua verdadeira destinação: melhorar os serviços prestados pelos hospitais públicos de Brasília, nos quais falta de tudo: equipamentos (muitos estão armazenados em suas embalagens há mais de dois anos), médicos, enfermeiros, auxiliares, remédios, leitos, instalações adequadas etc.

O que se deve fazer primeiro é uma compra emergencial de tudo o que falta. Há pouco tempo uma mulher, minha conhecida, relatou-me que não pôde fazer o exame de prevenção contra câncer de útero por falta de - pasmem! - uma espátula para coleta de tecido epitelial. Da mesma forma, nas unidades de saúde, o atendimento odontológico está parado por falta de material. Penso então que há essa situação urgente a ser resolvida, para dar condições mínimas de trabalho às equipes de saúde.

Feito isso, há que se pensar em programas de promoção da saúde da população, pois não há nenhum funcionando. Pelo menos, não oficialmente. Alguns poucos funcionam, muito mais devido à abnegação e ao comprometimento dos profissionais do que por estímulo do poder público. Ou seja, funcionam apesar do poder público...

Daí que acho bom pensar em como deveria ser esse atendimento. E aí, a palavra chave que aparece, de uma prática responsável pela precarização dos serviços públicos em geral, é
terceirização. A primeira coisa a ser feita é extinguir contratos de terceirização dos serviços de saúde, como o escandaloso negócio feito por Augustus Camaleonicus com uma certa Sociedade Real Espanhola, contratada sem licitação para gerir o Hospital de Santa Maria.

Deve-se buscar a descentralização máxima da saúde pública, com a adoção das UPAs, nos moldes propostos pelo governo federal, em todas as regiões do DF. E também dotar os grandes hospitais com recursos para pesquisas que lhes permitam criar centros de excelência em oncologia, transplantes e tratamento de doenças crônicas em geral.

Tudo isso deve ser acompanhado de um processo incessante de profissionalização do atendimento, com investimento na formação e qualificação de profissionais da saúde, com política de pagamento de bons salários para fazer com que médicos, dentistas, enfermeiros, técnicos sintam-se comprometidos com sua nobre missão de cuidar da saúde da população, com salários dignos, compatíveis com a sua função social.

O DF tem orçamento generoso, ou melhor, dois orçamentos: o do Fundo Constitucional e a arrecadação própria de suas receitas como estado e município -
R$ 26,7 bilhões para 2011. É inaceitável que, com toda essa grana, seja mau prestador de serviços públicos, permitindo que os casos de dengue tenham aumentado este ano. E é ainda mais inaceitável que a população mantenha no poder os governantes que desviam recursos, por exemplo, para construção de obras monumentais, como ocorreu para que Brasília tivesse a Ponte JK, cujo nome deveria ser, na verdade, "Ponte dos Remédios" - foram R$ 160 milhões, a preços de 2002, grande parte deles usurpados da saúde pública. Que não voltem mais os rorizes, arrudas e quetais...

Ponte dos Remédios - Brasília - DF

Para finalizar, seguindo a máxima de que "recordar é viver", deixo com vocês um filminho de conhecido programa local de TV, sobre a saúde pública no DF.



quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Ideias para uma cidade do terceiro milênio (I)

Início da segunda década do terceiro milênio. Tento alinhavar algumas sugestões - nenhuma delas original, suponho - para dar início a uma reflexão sobre Brasília, capital de todos os brasileiros, mas também cidade que abriga uma população trabalhadora, originária de todos os cantos do Brasil.

A meu ver, a hora é de aproveitar a alternância de poder, que afastou os políticos de sempre, aqueles que Mino Carta denominou "vanguarda do atraso", para fazer com que Brasília retome os rumos para ela imaginados por Lúcio Costa, tornando-a uma cidade de fato moderna, funcional, acolhedora, monumental e generosa com seus habitantes.

Está sendo muito interessante acompanhar o levantamento dos estragos deixados pelos que sempre espoliaram o Distrito Federal, condenando-o a um subdesenvolvimento vergonhoso, configurando uma vitrine para o Brasil e para o mundo, que constrange seus habitantes e leva a escala baixíssima a auto-estima de seus cidadãos.

Nossa tão diligente imprensa local, que nunca se preocupou em denunciar falcatruas e desmandos dos governos anteriores, agora se desdobra para divulgar o caos generalizado que toma conta dos serviços públicos. Não me iludo com esses órgãos de comunicação: estão todos desesperados em busca de recuperar as "boquinhas" que perderam com o fim dos (des)governos passados.

Mas vamos às idéias - e conto com os comentários dos tão discretos leitores e dos 31 seguidores deste blog para aprimorá-las e ampliá-las:

1) No que diz respeito à mobilidade urbana:

Imaginem Brasília com eficientes meios de transporte de massa (ônibus, metrô, VLP, VLT), interligando todas as cidades-satélites e o Plano Piloto pelo uso de bilhete único. Sem aquele longo tempo de espera nas paradas e mini-estações, homens e mulheres trabalhadoras poderiam se deslocar mais rapidamente e ter mais tempo para curtirem suas casas, seus filhos...


Imaginem um VLP (veículo leve sobre pneus) como esse aí de cima (Zurique), deslizando pelas avenidas W3, integrando-se com outro VLP que descesse o Eixo Monumental até a Rodoviária do Plano Piloto, de onde partiriam ônibus modernos, limpos e confortáveis para as cidades-satélites, como também linhas de metrô, subterrâneas ou de superfície. E tudo isso a preço baixo, porque subsidiado pelos ricos cofres públicos, já que o desvio/sumiço/malversaçao de recursos deixaria de acontecer!

Por que não utilizar a ferrovia que passa pela Cidade Ocidental, Valparaízo etc também para transporte de passageiros, integrando-a com outros meios que possam distribuir essa população para variados destinos?

Para facilitar ainda mais a mobilidade urbana, com meios de transporte que desestimulem o uso de automóveis - lembrem-se: evitar a "paulistanização" do trânsito é essencial! - imaginem quantas ciclovias poderiam ser construídas nesta cidade, que é uma das mais planas do Brasil! Com certeza, há pessoas que prefeririam ir para o trabalho de bicicleta...

Deve-se estimular os empregadores - empresas e órgãos públicos - a manter espaços adequados para os trabalhadores que se locomovem a pé ou de bicicleta, como vestiários com duchas. Já pensaram?

Nesse caso, deveria também haver maciça campanha de educação dos motoristas de automóveis, para que respeitem o ciclista assim como são respeitados os pedestres que atravessam as ruas nas faixas, orgulho civilizador dos brasilienses. Pode ser que os donos daqueles carros enormes, cópias dos SUV americanos, passem a ser mais educados e parem de arremeter suas rodas contra os ciclistas...


Mas temos de lembrar que mobilidade urbana não diz respeito apenas a trânsito de veículos, né? Vale citar aqui algumas práticas que facilitam a mobilidade também de quem anda a pé, ou ainda, de quem necessita usar bengala, muletas ou cadeiras de rodas. Por exemplo: a manutenção adequada das calçadas, das passagens de pedestres, com a eliminação de degraus, o rebaixamento de meios-fios. Além disso, nas regiões de comércio, o espírito de urbanidade deve ser intolerante com quem invade áreas públicas, construindo "puxadinhos" ou expondo mercadorias ao ar livre.


Fica aí a primeira de uma série de possíveis ideias que, melhoradas e colocadas em prática, poderiam transformar Brasília em uma cidade do terceiro milênio.


sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Qual é a lógica, Agnelo?

Acompanho a formação do secretariado do futuro governador de Brasília, Agnelo Queiroz, com algum interesse e, também, alguma decepção. Penso que em toda indicação deve haver uma lógica, que sempre procuro entender, embora nem sempre concorde com ela.

Assim, entendo a indicação de nomes do PMDB para certos cargos. Em Brasília, todo mundo sabe quem é honesto e quem não é, no trato com a coisa pública. É possível até prever que nomes se envolverão em escândalos de denúncias, no caso dos peemedebistas escolhidos para compor o secretariado.

Como o leque das alianças foi muito amplo - desnecessariamente, a meu ver, porque era previsível que Roriz ficaria inelegível sem tempo suficiente para construir um substituto -, o futuro governador agora trata de contemplar todos os partidos que o apoiaram na campanha. Nada mais justo, desde que todos os integrantes sejam avaliados no primeiro ano de mandato e, caso não estejam à altura dos cargos que ocupam, sejam devidamente defenestrados deles.

Como vemos, leitores e leitoras, toda indicação tem sua lógica. Menos uma, a meu ver: a indicação de um integrante do PPS para o secretariado. Por mais que pense e reflita sobre isso, não consigo atinar com a lógica por trás da iniciativa. Que diabos!

O PPS é um partido que fez parte dos piores governos da história recente do DF. Basta lembrar que Augustus Contasabertas era um dos secretários do cassado Arruda. E que sobre ele pesam acusações de complicada defesa, no âmbito da Operação Caixa de Pandora. No hiato de sua saída do ex-governo Arruda e a nova eleição, os políticos do PPS ficaram sem pai nem mãe. Cães lazarentos que ninguém queria por perto. E não é que correram a se oferecer para compor a coligação que elegeria Agnelo Queiroz?...

Minha surpresa foi eles terem sido aceitos na coligação. Não eram necessários, não traziam contribuição alguma à campanha. Pelo contrário, a presença deles comprometia ainda mais a já fragilizada força ética da coligação. De fato, nem campanha fizeram. Cansei de ver carros de militantes do PPS portando adesivos que pediam votos para Agnelo e... Serra! O partido era de oposição ao governo federal, mas teve candidatos na coligação das forças políticas que combatia. Impressionante! Alguém me explica essa lógica?

Agora me surpreendo com a indicação de um deles para secretário. O outro, felizmente, não se elegeu, mas eu não me surpreenderei se voltar ao trato com a coisa pública pelas mãos do futuro secretário. E eu gostaria de alertar Agnelo para a bobagem que está fazendo: colocar esse pessoal no seu governo é trazer a oposição golpista para dentro da máquina pública, deixando-a à vontade para todo tipo de sabotagem, para dizer o mínimo.

Provavelmente Agnelo Queiroz não é leitor deste blog. Minha esperança é que alguém faça chegar a ele estas reflexões, de modo a saber que, para além das costuras políticas que o ocupam neste momento, há pessoas que esperam muito de seu governo, principalmente pela promessa ética que sua eleição descortina para o Distrito Federal.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Vai um drops aí?


Perdoem-me os pacientes leitores, mas há períodos em que a gente fica sem tempo para esta prazerosa atividade, porque outros afazeres nos chamam e prendem a atenção. Daí as lacunas entre as postagens, não sem o firme propósito de um dia vir a regularizar esta produção. Quanto mais tempo passa, mais assuntos se acumulam e não resisto a falar pelo menos um pouquinho de cada um. Então, hoje é dia de drops!

* * *

Finalmente pegaram o Gim Argello, confortavelmente instalado na relatoria da comissão de orçamento da Câmara dos Deputados, aprontando a maior lambança com os recursos públicos, de conluio com empresas de fachada, alaranjadas. Demorou, caros leitores! Se as investigações não pararem, serão descobertas coisas do arco da velha: quem viver, verá. Aliás, há outros políticos de Brasília, que também estão confortavelmente na ativa, tranquilamente reeleitos, que merecem uma investigaçãozinha básica. Quem sabe a nossa tão combativa imprensa, sempre vigilante no que é acessório mas relapsa no que é essencial, resolva fazer um pouquinho mais de jornalismo investigativo...

* * *

Por falar em políticos de Brasília, vocês precisam ver - e aqueles que já viram hão de concordar comigo - o quanto esta cidade está abandonada. O mato está mais crescido do que nas áreas de proteção ambiental! Na minha quadra, ontem, tive que ficar de olho para a Laurinha não se afastar de mim durante o passeio, com receio de que ela se perdesse no matagal que viceja sob minhas janelas... Controle de pragas? Não, não há! Varrição de rua e coleta de lixo? Tsc, tsc! Desentupimento das bocas-de-lobo para escoar a água da chuva? Também não! Buracos no asfalto, que se agravam nesta época do ano? Cheiiiinho! Enquanto isso, o governador-tampão Rogério Rosso apressa o envio de projetos, no mínimo, suspeitos para a Câmara Legislativa. Recentemente foi revogado o decreto que obrigava às eleições diretas nas escolas públicas, porque estava na cara que era um jeitinho de acomodar as bases rorizistas nos cargos de diretores, na maior cara-dura! Eita ano que não termina! (Perdoe-me o Zuenir Ventura, mas o ano que não terminou não foi apenas 1968, para o bem e para o mal...)
* * *
Isso sem falar na proliferação das cracolândias. A população está abandonada, sem política de saúde pública, de moradia, de transporte, de educação. A escalada das drogas é visível, também nas ruas do Plano Piloto, não é mais exclusividade da periferia. Abandono é a palavra para definir Brasília hoje.
* * *
Fico sempre desolada quando alguma escola pública obriga os alunos a participarem daquelas festinhas pseudo-educacionais, mas sempre de cunho religioso. Educação laica. Qualquer dia destes vou escrever sobre esse assunto. Hoje eu soube que um conhecido, temeroso de colocar seu filho em uma escola pública que não respeite a sua não-crença, estará acionando o MP para tentar garantir que não haja abordagem da religião nas escolas. Esta semana vou entrar em contato com ele para oferecer meu apoio nessa solicitação. A polêmica promete ser boa, com aqueles pais que preferem terceirizar o ensino religioso e pensam que a escola é que tem obrigação de fazer isso. É ou não é uma interferência indevida das atividades privadas sobre o espaço público?...
* * *
Lidar com perdas é a coisa mais difícil, né não? Perder a hora, um brinco, uma roupa que não fecha mais, um sapato que quebra o salto, a comida esquecida no fundo da geladeira, a flor que secou porque me esqueci de regar, o dinheiro que caiu do bolso por descuido, o telefone celular esquecido no balcão da farmácia, tudo isso tem conserto, tem remédio, tem jeito, tem superação rápida da frustração. O que não dá é para lidar com a perda de pessoas, seus afetos, seus trejeitos, suas risadas, seus humores, suas brigas, suas mágoas, seus amores. Ai, como dói!
* * *
"Tá relampiando, cadê nenen?
Tá vendendo drops no sinal pra alguém..."
(Lenine)

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Brasília: a quadrilha continua

Resolvi mudar o design do blog. Persigo o leiaute mais limpo, menos pesado para o leitor. Mesmo usando cores escuras. Nada é para sempre, sem mais nem menos posso mudar tudo de novo...

Tenho no vidro traseiro do carro um adesivo com os dizeres: "Fora Arruda, P.O. e quadrilha". Hoje alguém me perguntou por que não o removo, já que Arruda e Paulo Octávio estão fora do governo do DF. "O problema é que a quadrilha permanece", disse eu. Por isso, o adesivo fica.

Os brasilienses já começam a circular de carro portando adesivos de seus candidatos preferidos. Como sou observadora, não posso deixar de ler vários deles. Circulam por aí os nomes de quase todos os envolvidos nas investigações da Operação Caixa de Pandora, que não foram sequer investigados pela Câmara Legislativa do DF: Benedito Domingos, Roney Nemer, Cristiano Araújo e Benício Tavares. Esses são os nomes que já vi. Por enquanto ainda não vi ninguém com coragem de ostentar os nomes de Eurides Brito, Júnior Brunelli e Leonardo Prudente, mas consta que este último será candidato.

Vi também circulando o nome - pasmem! - de Agaciel Maia, aquele que frequentou os noticiários ano passado, por conta de todo tipo de irregularidade cometida pela diretoria do Senado Federal, lembram? (Por falar nisso, a mesa diretora do Senado continua aprontando: nesta semana quase emplacou, por debaixo dos panos, reajuste olímpico e ilegal de salários para seus servidores.) Pois é. Mais um para engrossar as fileiras daquilo que o mestre Mino Carta denominou "vanguarda do atraso" na tradicional política de Brasília.

O fato de esses nomes estarem visíveis pela cidade, faltando ainda tempo para o início legal das campanhas eleitorais, é para mim um sinal e um sintoma. Sinal de que a quadrilha continua em ação, tratando de garantir a eleição para adquirir imunidade, foro privilegiado etc. Sintoma da indigência política do eleitor do DF, capaz de consagrar Roriz nas urnas e, junto com ele, todo o bando.

Também nesta semana houve, por parte do MP, reiteração do pedido de intervenção federal no DF. É pena que parece já haver um acordo entre as forças políticas para que isso não aconteça. Pela primeira vez, desde a nomeação de Roriz como governador biônico por Sarney, tem-se a oportunidade histórica de desmantelar a quadrilha que se instalou e vem agindo até hoje. É muito mais que uma dúzia de políticos do Executivo e do Legislativo; há gente em todas as esferas e instâncias do poder. Aqui costumamos dizer que a polícia não faz greve, apenas ameaça investigar alguns para conseguir aumento de salários.

Brasília é um caso crônico de podridão política. Intervenção federal aqui teria que ser ampla e profunda, suspendendo as eleições deste ano e abrindo espaço para grandes investigações, que passassem o pente fino em todos os poderes e, efetivamente, levassem à prisão os delinquentes que tanto prejuízo causam aos cofres do DF.

Pense em quanto esta cidade poderia ser melhor, se não fosse dominada por meliantes e se todos os recursos que lhe repassa o governo federal fossem de fato utilizados para humanizá-la e melhorar a qualidade de vida de seus habitantes. Se, por exemplo, os recursos do SUS fossem usados para melhorar o atendimento dos hospitais públicos, em vez de ficarem aplicados em algum banco, como foi constatado pela auditoria do Ministério da Saúde.

Brasília em aquarela - foto de Augusto Areal

Pois então. Enquanto outros motoristas circulam com os nomes de seus candidatos a esse ou aquele cargo, eu continuo circulando com meu adesivo vermelho, insistindo no apelo para que nos livremos do nosso cancro político.

INTERVENÇÃO FEDERAL RÁPIDA, AMPLA E PROFUNDA!!!

sábado, 17 de abril de 2010

Intervenção já!!!

Ocorreu hoje a sessão da Câmara Legislativa do Distrito Federal que indicou o governador-tampão para substituir o governador cassado José Roberto Arruda.

Aqui em Brasília correu a conversa de que o governador em exercício, Wilson Lima, havia feito acordo com os parlamentares da base de sustentação de Roriz e Arruda para permanecer no cargo, pelo qual se comprometeu a não investigar e também não demitir servidores do Executivo ligados a esses políticos. Tudo isso com o discretíssimo apoio do ex-vice governador Paulo Octávio.

Mas parece que toda essa movimentação foi apenas para impedir que se percebesse a verdadeira articulação: aquela que daria a vitória a Rogério Rosso e à vice Ivelise Longhi, rorizistas de carteirinha e conhecidos da população de Brasília há longo tempo. Os dois, o eleito e sua vice, atuaram com Roriz e com Arruda.

Agora vejam os deputados distritais que votaram na dupla: Aguinaldo de Jesus, Alírio Neto, Ailton Gomes, Batista das Cooperativas, Benedito Domingos, Benício Tavares, Cristiano Araújo, Dr. Charles, Eurides Brito, Geraldo Naves, Pedro do Ovo, Rogério Ulysses e Roney Nemer. Entre eles, gente envolvida no esquemão que derrubou Arruda; pelo menos um deles estava preso até há poucos dias e hoje estava no plenário votando. Dá para aceitar tamanha desfaçatez?!


A esta hora, imagino Arruda e Roriz fazendo brindes para comemorar a vitória...

Não é aceitável qualquer eleição indireta. A gente pensava que esse instrumento antidemocrático, de triste memória da época da ditadura empresarial-militar, estivesse extinto. Mas não... ele persiste em Brasília.

O que lamento é o fato de os partidos de oposição a Arruda/Roriz terem aceitado participar desse processo, indicando seus candidatos a governador do DF. Legitimaram um procedimento espúrio, quando deveriam ter se negado a isso, denunciando as articulações desses políticos barra pesada.

Para vocês terem uma idéia do tamanho das fortunas que essa turma do Arruda/Roriz trata de proteger, vejam a matéria "Lobisomens de Brasília", que saiu no último número da revista RollingStone. (Valeu, Ícaro!) Ela nos conta de um empreendimento imobiliário caro - e bota caro nisso! - a Paulo Octávio.

Foto: Índio San - RollingStone

São tão rentáveis os negócios escusos desses políticos, que Dona Eurides Brito, adventista do sétimo dia, transgrediu a lei de sua igreja e se fez presente no plenário da CLDF, votando no candidato vencedor!

Wilson Lima, Roriz, Arruda, Paulo Octávio e demais bandidos da quadrilha: tudo farinha do mesmo saco! Que agora conta também com Rogério Rosso e Ivelise Longhi.


É isso que queremos para Brasília? Mais um (des)governo Roriz?

INTERVENÇÃO FEDERAL JÁ!!!!


terça-feira, 16 de março de 2010

Série: Mentiras mafiomidiáticas

Uma leitura dos jornais hoje foi suficiente para reforçar uma idéia que há tempos venho matutando para este blog: criar uma série dedicada a mostrar as mentiras e manipulações da imprensa brasileira.

Há pouco tempo realizou-se em Brasília a II Conferência Nacional da Cultura. Vocês viram notícias desse evento nos jornalões impressos e nos jornais de televisão? Não? Nem eu! À exceção da rádio Nacional FM de Brasília e do canais de TV NBR e TV Brasil, para a máfia midiática brasileira foi como se a Conferência não tivesse existido. No máximo, uma ou outra notinha escondida em páginas menos lidas.

Isso porque os eixos de discussão incluíram a expressão "quebra de monopólio". Sabem vocês que isso dá arrepios e provoca alucinações paranóides em todos no baronato encastelado nas redações Brasil afora. Quebra nº 1: monopólio das produções culturais, cujo financiamento se concentra, majoritariamente, nas produções das regiões sul e sudeste. Quebra nº 2: monopólio da comunicação, concentrado nas mãos de mais ou menos 12 famiglias de mídia, no Brasil todo.

Daí o boicote. Primeiro, os grupos mafiomidiáticos boicotaram - e tentaram desqualificar - a Conferência Nacional da Comunicação. Agora fazem o mesmo com a Conferência Nacional da Cultura. Devem achar detestável essa mania do governo Lula de fazer conferências municipais, regionais e estaduais, que mobilizam muita gente e, depois, enviam seus delegados para a conferência nacional. Esta última é que elabora as diretrizes da política pública para a área contemplada. Tem sido assim com as políticas para a educação, para as mulheres, para os negros e para a saúde. Por que não fazer o mesmo com a comunicação e com a cultura? - Porque não pode, responde a grande mídia ultrapassada pelo processo social. E não pode porque ameaça privilégios e os lucros das fábricas de notícias.

Então o que faz a mafia midiática? Realiza em São Paulo um convescote travestido de ciclo de conferências sobre a "Liberdade de expressão" (Clique para ver os novos significados mafiomidiáticos dessa expressão, conforme o jornalista Washington Araújo). Vários nomes da fina flor do reacionarismo fazem suas palestras. O tema? "O que a imprensa deve fazer para impedir que certa candidata a presidente seja eleita." Isso foi dito com todas as letras nas conferências(?) de Arnaldo Jabor, Reinaldo Azevedo, Roberto Civitta, William Waack e pelos intelectuais-pitbuls a serviço da grande mídia Demétrio Magnoli e Denis Rosenfeld, entre outros.

O evento mafiomidiático foi bastante badalado pela mafiomídia e contou também com a presença de dignos representantes do DEMOcratas, do PSDB, da Opus Dei e da TFP de priscas eras. Tivesse caído ali um meteoro destruidor, o Brasil ficaria sem direita... e quiçá sem grande imprensa!

Resumindo: naquele evento do tal Instituto Millenium foi tudo combinado: daqui para a frente a imprensa vira um partido político em defesa do seu candidato a presidente do Brasil, José Serra. E teve início o vale-tudo para desqualificar adversários, concorram eles a presidente, governador e/ou deputado/senador. E a artilharia pesada já começou. Vale qualquer tipo de associação de candidatos da esquerda com práticas ilícitas ou criminosas, mesmo que essas práticas sejam aquelas da velha direitona. Querem um exemplo?

Correio Braziliense de hoje, 16 de março de 2010, caderno Cidades, página 25: Petistas frente a frente - Agnelo e Magela participam hoje à noite do único debate antes da prévia que definirá o candidato do PT ao Buriti. A matéria é assinada por Ana Maria Campos.

Detalhe: no alto da página, à esquerda, vem um título: "Caixa de Pandora".

O leitor arguto se perguntará: Mas que sabujice é essa? Qual é a relação que existe entre os dois pré-candidatos do PT ao governo do DF e a Operação Caixa de Pandora da PF, que flagrou o governador licenciado Arruda e sua quadrilha com a mão na cumbuca? Por que esse jornal quer forçar uma associação a que ninguém se referiu, pois inexistente?

Veem que sutileza, leitores? Os capos mafiomidiáticos e seus perdigueiros pensam que somos todos tontos. E manipuláveis.

Por essas e outras decidi criar uma série neste blogue, dedicada a mostrar as mentiras e manipulações da máfia detentora dos meios de comunicação no Brasil.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Brasília e as máfias políticas

Os acontecimentos recentes na vida política do Distrito Federal são assombrosos. Em 24 horas uma CPI da Câmara Legislativa foi desinstalada e reinstalada. Manobras inacreditáveis são executadas pelo grupo ligado ao governador Arruda, enquanto o presidente afastado da CLDF, Prudente-do-dinheiro-na-meia, recorre ao STF para permanecer no cargo e garantir, assim, autoridade para continuar manobrando contra a apuração dos crimes da quadrilha.

O grande medo é que no depoimento de Durval Barbosa, o ex-secretário que entregou a rapadura à PF, novas informações e/ou novos vídeos venham a público. Essa turma tem muito o que esconder, para além, muito além daquilo que já foi divulgado na mídia.

Eu acho que já disse neste espaço como vejo o problema da criminalidade nos meios políticos do DF. Isso não é de hoje, vem de muito tempo. Quando não havia autonomia política e o governador daqui era indicado - o último dos "biônicos" foi Roriz, indicado por Sarney - a farra também era comum. Grilagem de terras públicas era corriqueiro, desvio dos recursos repassados pela União também. A corrupção aqui é antiga, só que jamais houve apuração de coisa alguma.

Com a autonomia, os métodos se sofisticaram. O crime organizado foi estabelecendo seus asseclas no Judiciário local (aqui se sabe à boca pequena de muitos juízes, desembargadores e outros togados que tem casas em condomínios e loteamentos irregulares), na Câmara (Pasmem: o famoso Pedro Passos, indiciado por grilagem de terras públicas e estelionato, eleito deputado distrital, foi presidir a comissão de assuntos fundiários da Casa!) e, claro, no Executivo, muito bem aparelhado pelos mafiosos.

De máfia em máfia, descendo os diversos níveis da "escala do trabalho", como diria o Bóris Casoy, os quadrilheiros foram se estabelecendo: tem os do ramo imobiliário, de construções e incorporações (cujo principal capo é Paulo Octávio, junto com outros famosos empreiteiros e incorporadores), tem os da grilagem e venda de terras públicas da União e/ou do GDF, aplicando o manjadíssimo golpe de lotear, construir, ocupar e reclamar pela regularização dos condomínios rurais; tem os do transporte público, que, por sinal, é o mais caro e o pior do Brasil e cujo domínio garante o monopólio de todas as linhas; tem os da área de segurança, que vendem serviços para os órgãos públicos, desobrigando o efetivo policial do DF de fazer esse trabalho, para que seus integrantes possam se transformar em deputados distritais (duvida? conte quantos deles são oriundos da polícia civil e/ou militar...)

Essas máfias "do alto" se desdobram em várias máfias mais embaixo: de onde surgiu o deputado Batista das cooperativas? Aqui tem cooperativas habitacionais como as de Águas Claras, cooperativas de transporte-pirata e qual mais? A qual escândalo de venda de imóveis em Águas Claras você pensa que este cara está ligado? Tem também a máfia dos cemitérios, cuja representante é Eliana Pedrosa, recentemente exonerada por Arruda do cargo de secretária do Desenvolvimento Social e Transferência de Renda (pergunto eu: renda de quem para quem? Irônico, não?) para voltar aos afazeres de deputada distrital da base governista e ajudar a impedir as investigações da CPI...

Estão vendo? Todos eles, se a gente for escarafunchar, tem participação em alguma máfia "do topo" ou "da base" da "escala do trabalho". Alírio Neto, delegado da polícia civil que tentou ontem desinstalar a CPI, vai às barras da comissão de ética do "ético" PPS de Augusto Carvalho e Roberto Freire. Imaginem... O vice-governador, Paulo Octávio, declarou ontem o apoio do diretório regional do também "ético" DEM a Arruda, provocando a ira de Ronaldo Caiado, logo amansado por Rodrigo Maia, que quer deixar para abril a decisão da executiva nacional do partido - pune ou não pune? Até abril, ele certamente espera que tudo tenha esfriado.

Como você vê, são todos anjos e todos muito "éticos". A gente é que os avalia pela nossa moral "torta". E não dá para entender por que o povo de Brasília, com exceção dos bravos estudantes, anda tão apático quanto a esse escândalo.