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sábado, 3 de março de 2012

O passado é pedagógico III (e último!)


Alguns dias das férias, eu os passava na casa de minha avó materna, que morava no outro lado da cidade. Ela era dessas pessoas que sabem como fazer um neto ou uma neta feliz. Tinha comigo conversas longas e me deixava livre para brincar em um córrego que cortava a rua, junto com outras crianças dali. Todos nós andávamos descalços, brincávamos na terra e na água, jogávamos bola, jogávamos pedras no mato com estilingue, subíamos em árvores, soltávamos pipa e jogávamos bolas de gude. De tardinha, banho tomado, ficávamos ouvindo as conversas dos adultos nas varandinhas das casas ou na rua mesmo.

Meninos brincando - Candido Portinari
Uma vez, ao chegar para as benditas férias, os meninos e meninas da vizinhança só falavam de uma nova vizinha. A mãe era brava e a filha era linda como um anjo, eles nunca tinham visto mais bonita. A menina quase não saía de casa. Só ia para a escola de mãos dadas com a mãe, só voltava para casa com ela. Tinha a mesma idade que eu – uns dez anos. Loira, cabelos lisos e longos, olhos muito azuis, narizinho de boneca de louça... Ficava perto da janela e nós víamos, da rua, a mãe penteando-lhe os cabelos.

Um dia me enchi de coragem e, chegando perto da janela, falei com ela:

- Quer brincar com a gente?
- Não...
- Por que?
- Minha mãe disse que vocês são todos sujos e que devem estar cheios de perebas...
- Ah!
- E também eu não brinco com meninos, só com meninas.
- Ah...
- Se você quiser brincar aqui em casa, eu peço pra minha mãe.
- Não, não precisa falar... Eu gosto de brincar é aqui fora, na rua mesmo. Com os meninos.
- Tá. Tchau.
- Tchau.

E todo dia, quando brincávamos, sempre tínhamos de parar a bola para esperar a mãe passar com a menina que parecia um bibelô.

No ginásio, a coisa não foi muito diferente. Sim, sou do tempo do ginásio e estudava inglês e francês! Pelo menos a escola pública fazia a gente conviver com a diversidade: tinha gente muito mais pobre que eu, tinha negros, tinha feios. E tinha as meninas e os meninos ricos, que pareciam mais bem vestidos, bonitos e limpos dentro do mesmo uniforme. Dos professores, alguns foram marcantes: a de língua portuguesa dos dois primeiros anos sempre jurava que iria me reprovar; a de educação moral e cívica ficava a aula inteira repetindo o discurso da ditadura militar sobre os valores da pátria e da família – era preguiçosa, não escrevia no quadro de giz e nem se levantava da cadeira. Nos dois últimos anos do ginasial, o professor de português, além de me obrigar a aprender gramática e a gostar de escrever, me ensinou também a gostar de literatura.

Escrevo hoje pensando nele, professor João Rios, que, no início de cada ano, passava uma lista de livros para serem lidos até o final do período. Ninguém precisava comprar, estavam todos na biblioteca municipal. De vez em quando a bibliotecária, uma velhinha beata, exercia seu poder de censura e não deixava a gente levar os livros que julgava impróprios para menores. Tínhamos de ouvir um sermão sobre os valores da família cristã ameaçados pela má literatura. Aí o pau comia: seu João fazia uma visita à biblioteca e, quando voltávamos, a senhorinha estava uma seda. Líamos de Dostoievsky a Jorge Amado, de Camus a Graciliano Ramos, de Flaubert a García Márquez. De vez em quando, seu João fazia uma pausa nas aulas de gramática, sorteava um dos livros da lista e falava longamente sobre ele. Entenderam? Era um professor que nos fazia ler, mas não havia prova de leitura, nem fichamento de livro para avaliação, nada dessas coisas. E quando, nessa pausa, ele falava sobre um livro que eu já havia lido era como se abrisse novas janelas para o mundo. Para entender o mundo.



Não sei como eu conseguia ler quase dez livros por ano, nos dois anos que estudei com seu João. Eu era rueira, não parava em casa, tinha colegas e amigos pela cidade toda. Gostava de nadar no clube dos pobres. Lá, de vez em quando, apareciam técnicos esportivos, que nos ensinavam natação e vôlei. Eu acho que eram contratados pela prefeitura e que o clube era público, mas nunca me preocupei com isso. Houve um tal Eli, que ensinava as modalidades de natação e promovia até competições em cidades vizinhas. Teve também um seu Raimundo, que ensinava natação e vôlei. Era um chato, mas era bom técnico. Depois de anos que saí da cidade, tive notícia dele pela Internet, sempre ligado aos esportes.

Hoje meu irmão me conta que esse era um projeto do Ministério do Exército, durante a ditadura militar. Tratava-se de não deixar os jovens enveredarem pelo caminho da política, enquanto seu tempo era todo tomado por compromisso com os treinadores, que os levavam a competições e atuavam como verdadeiros preceptores, aproveitando as lições do esporte para ensinarem também valores, geralmente os mais reacionários, hegemônicos na época da ditadura militar.

Mas acho que isso não teve influência sobre mim. Enquanto praticava esportes e era, sem perceber, manipulada para ser despolitizada, tinha, em contrapartida, um valoroso professor de literatura me abrindo janelas para entender o mundo e fazer as escolhas ideológicas que me tornaram quem sou hoje.

Por isso posso dizer que sobrevivi a duas pragas: o preconceito social e a ditadura militar.



sexta-feira, 1 de abril de 2011

Uma perda: o mundo sem o Prof. João Rios


Hoje eu soube da morte de um querido professor de Araxá, João Rios. A notícia chegou no momento em que saía em viagem. Sob forte emoção, antes de pegar a estrada, fomos, meu irmão e eu, dois ex-alunos, prestar-lhe a última homenagem e abraçar a esposa.

Desde a semana passada me ocorrera fazer a ele uma visita, infelizmente não concretizada. Profundo arrependimento me incomoda por não tê-lo encontrado antes do enfarte que lhe tirou a vida e privou o mundo de um intelectual cuja importância em minha formação é incomensurável.

Estive com o Prof. João por duas vezes, ano passado. A primeira foi para uma conversa agradabilíssima sobre meu primeiro livro, Graciliano Ramos, um escritor personagem. A segunda, para presenteá-lo com outro, que escrevi em coautoria com dois colegas/amigos, Catálogo de benefícios: o significado de uma homenagem, também em torno de Graciliano Ramos. Nessa ocasião, a promessa de voltar para uma terceira visita, adiada por motivos diversos, e agora definitivamente impossível...

Se há alguém que posso chamar de "meu tipo inesquecível", é João Rios. Estudei com ele dois anos seguidos, nos tempos do antigo ginasial. Era professor de língua portuguesa e iniciou-me na literatura brasileira. A cada início de ano, passava-nos uma lista de 10 livros de autores brasileiros, de diferentes períodos, todos disponíveis na biblioteca pública. A gente ia lendo e ficava esperando o dia em que ele "cobraria" a leitura, mas isso não acontecia. O que acontecia era uma aula em que o professor comentava um dos livros, trocava ideias sobre ele conosco, ajudava-nos a entender a linguagem, os significados, as relações entre a obra literária e a sociedade em que vivíamos, nos anos de chumbo da ditadura empresarial-militar que assolou o Brasil por 21 anos.

Éramos meninas e meninos de 13, 14 anos e tínhamos um professor que, além de nos ensinar a escrever bem, exercia conosco a leitura emancipadora, em pleno período de repressão política e alienação forçada da juventude. Estudar com o Professor João Rios foi garantia de nos tornarmos seres pensantes, críticos e politicamente atuantes.

Na dedicatória do segundo livro com que o presenteei, lembro-me de ter escrito: "inesquecível professor". Eis o consolo com que tento dissipar o arrependimento por não tê-lo visitado: como bom leitor que era, tenho certeza de que soube entender a importância que teve na minha vida.

Hoje, ao constatar que o mundo está sem o Professor João Rios, sinto-me um pouco órfã...

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Chico, o Jabuti é seu!

Vamos aos fatos.

Existe um prêmio para livros no Brasil, o Jabuti, desde 1958, que consagra os melhores de um conjunto de 21 categorias, por ano. Em 2010 tivemos a 52ª edição, que premiou escritores de diferentes áreas do conhecimento. Pois bem, na categoria Romance, o resultado divulgado pelos três jurados foi o seguinte:

1) Se eu fechar o olhos agora, de Edney Silvestre;

2) Leite derramado, de Chico Buarque de Holanda;

3) Os espiões, de Luis Fernando Veríssimo.

Além de premiar os três primeiros classificados com a famosa estatueta, o Jabuti escolhe também o "livro do ano" em cada uma das categorias. Aí é que entra a premiação em dinheiro, com 100 mil reais para o primeiro lugar. O júri que faz a escolha do livro do ano é o chamado "júri profissional": em vez dos três jurados que classificam os ganhadores da estatueta em cada uma das categorias, trata-se agora do voto de todos os associados das organizações responsáveis pelo Jabuti, ou seja, a própria Câmara Brasileira do Livro, o Sindicato Nacional dos Editores de Livros, a Associação Nacional das Livrarias e a Associação Brasileira de Difusão do Livro. Não é pouca gente, de jeito nenhum.

Este ano o Jabuti teve ainda uma novidade: o "júri popular", que contabilizou mais de 5 mil votos, via intenet.

Leite derramado, de Chico Buarque, foi vencedor tanto na votação do júri profissional quanto na do júri popular. Por isso consagrou-se como o livro do ano de 2010.



Mas um representante da Record, editora do livro de Edney Silvestre, não gostou nem um pouco do resultado que deu a vitória a Chico. Está questionando a CBL, embora tivesse conhecimento dos critérios de escolha dos vencedores com bastante antecedência à votação e divulgação do resultado. O protesto desse senhor resultou em um abaixo-assinado que circula na internet, intitulado "Devolve o Jabuti, Chico". Dei uma olhada no documento, cuja argumentação é pífia. Não convence nem a mim, quanto mais ao Chico! Além disso, passei os olhos pelos signatários e - por que não me surpreendi? Está na cara que o documento é forjado, pois se diz "informal" e dispensa as pessoas de colocar seus nomes na íntegra. Brincadeira! Ou melhor, mais uma das investidas da direita cansada, agora de dedo em riste para o Chico.


Que me perdoe o Sr. Sérgio Machado, mas seu esperneio está me parecendo mesmo "choro de perdedor", como disse o curador do prêmio Jabuti. E a Record bem que podia passar sem essa; afinal é uma honra ser vencido pelo grande escritor em que Chico se transformou, na melhor linhagem machadiana. Uma nau de arte literária em um mar em que bóiam tantos grumetes pós-modernos.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Curso com a Turma Augusto Boal, do MST

Na semana de 12 a 18 de setembro, estive novamente com a Turma Augusto Boal, na Universidade Federal do Piauí. Foi nosso último módulo da disciplina Literatura no curso de licenciatura em Artes para os integrantes do MST.

Trabalhamos inicialmente com o texto "A nova narrativa", do nosso querido Antonio Candido, e dele retiramos alguns conceitos fundamentais para o entendimento da narrativa contemporânea. É impressionante o quanto os alunos valorizam a contribuição crítica deste que é, hoje, o maior intelectual brasileiro, militante e comprometido.


Depois de Candido, defrontamo-nos com Clarice Lispector. Primeiro, o "aperitivo": o conto "Felicidade clandestina", que motivou comentários muito interessantes, sobre as relações de dominação/opressão baseadas na posse: 1) do livro como mercadoria; 2) da literatura como arte que constitui e ao mesmo tempo resiste à forma mercadoria. Mas isso era apenas uma preparação para a grande leitura que viria:
A paixão segundo GH.


Feita a leitura nos Núcleos de Base, gastamos um dia inteiro na discussão desse romance. Posso dizer que o primeiro contato da turma com Clarice foi bastante proveitoso. A todo momento alguém lembrava do conceito de "literatura de dois gumes", também do mestre Candido, que havíamos trabalhado no módulo anterior. Foi interessante abordar a narrativa clariceana também na perspectiva do processo social brasileiro. Foi muito bom polemizar sobre o conceito de narrativa intimista. Após a leitura, uma boa produção de texto.

Depois foi a hora de enfrentar
Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa. Detivemo-nos especialmente no trecho em que Riobaldo relata o encontro dos jagunços com os catrumanos. Foi o ponto de partida para discutirmos a literatura também como representação do processo de modernização do capitalismo à brasileira.

O texto de apoio para a leitura de Grande sertão: veredas foi "O mundo misturado", de Davi Arrigucci Jr. E foi muito interessante perceber o sertão como o mundo e o mundo como o sertão: as relações e os interesses dos grupos sociais ali representados, a complexidade do processo de formação do estado brasileiro, tendo por base a violência, e o compromisso da literatura com a representação desse processo. Mas o melhor da semana ainda estava por vir: a leitura do conto "Meu tio, o iauaretê", também do Rosa. Para essa, contamos com o texto de apoio "As artes da meaça", de Hermenegildo Bastos.

A leitura desse conto foi muito instigante para a turma. O texto foi lido em voz alta, para aproveitar ao máximo a proximidade da linguagem com a oralidade. Discutimos o significado de esse conto ter sido escrito em um momento em que os movimentos campesinos começavam a se organizar no Brasil. Debatemos o fato de o personagem Tonho Tigreiro ser o último de seu povo e de, junto com ele, morrer também sua língua e sua cultura. Merece notar aqui a empatia que se estabeleceu entre os leitores e o personagem: à medida que a leitura avançava, havia gente torcendo para que ele não morresse...

No último dia, nossa aula foi - paulofreireanamente - à sombra dos cajueiros em flor. Não na UFPI, mas no local onde os alunos estavam hospedados. E a pergunta que lhes ficou, para novas leituras, foi: "Qual é a relação entre a literatura e a sociedade, hoje?"

Tenho de registrar a alegria que foi a noite cultural da quarta-feira. Nas apresentações, os alunos já evidenciaram aproveitamento das leituras dos dias anteriores. Muita música, poesia, uma mística maravilhosa, feita por essa turma que tem muitos artistas:


Mas impagável mesmo foi o momento em que a turma viu a imagem e ouviu a voz do prof. Hermenegildo via internet. Depois de ler seus textos, depois de me ouvirem mencioná-lo "n" vezes durante os cursos, todos querem conhecê-lo. Pois é, acho que ele vai acabar enfrentando o calor de Teresina, muito em breve.

Vale a pena, sempre, ir a Teresina pela Turma Augusto Boal. Eu volto a Brasília me sentindo mais humana, com a certeza de que construímos um conhecimento valioso da literatura e do Brasil. E de que, com nossa prática, estamos formando mais do que professores, simplesmente: estamos formando intelectuais orgânicos, militantes e comprometidos.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Pausa para meditação


(Dizem que uma pausa valoriza qualquer narrativa. Eu penso que não é tanto a pausa em si, mas o silêncio do narrador quando os leitores estão ávidos pela continuidade.

Penso nos jornais do século XIX, que traziam os capítulos de folhetins escritos por José de Alencar, aguardados avidamente pelas leitoras - sim, a maioria era de leitoras! Assim é que foram publicados inicialmente livros como Cinco minutos, A viuvinha e O guarani. Joaquim Manuel de Macedo (A moreninha), Machado de Assis (Helena, por exemplo) e Manoel Antônio de Almeida (Memórias de um sargento de milícias) foram escritores que iniciaram a publicação de suas obras nos jornais, capítulo a capítulo, brincando com a curiosidade dos leitores.

Daí se dizer que as novelas de televisão são hoje o nosso folhetim eletrônico. Guardadas as diferenças históricas e tecnológicas, o princípio é o mesmo dos folhetins de antanho. Mas que perderam em profundidade, ah! com certeza! São tão superficiais as telenovelas que basta a gente assistir aos capítulos da primeira e da última semanas para dominar toda a trama!

Mas o que eu faço aqui não é um folhetim eletrônico, penso. Trata-se apenas de um exercício de imaginação, motivado por uma manifestação explícita do preconceito dos jovens de uma turminha de classe média alta de São Paulo. Socializada na internet, essa manifestação conseguiu 600 adesões, o que é de assustar.

Na minha despretensiosa narrativa, estou lidando com a desorientação, a confusão e a insegurança resultantes de um acontecimento mágico: o desaparecimento dos migrantes de uma megalópole, de um dia para o outro. Como diria minha saudosa avó, eles "anoiteceram mas não amanheceram" na cidade.

Além disso, estou lidando também com o cotidiano: reforma, mudança, organização de minha biblioteca, doação de livros para movimentos sociais, leituras, viagens, tentativas de escrever, convivência com minha família, carinho para as netas...

Ufa!!! A vida é cheia de afazeres, não? Por isso, apelo a meus 28 leitores para que não percam a paciência. A vida, ops! a história não parou, ela vai ter um desfecho.)

domingo, 20 de junho de 2010

O mundo sem Saramago

Escrevo ainda inconformada com a morte de José Saramago. A literatura ficou manca e o mundo ficou mais pobre. Sem sua lucidez, sua mordacidade, sua crítica dialética, seu pessimismo mobilizador amplia-se o espaço para a invasão da mediocridade, da desonestidade intelectual, da alienação travestida de reflexão, do veto à crítica da democracia moderna.

Sem Saramago, resta-nos reler e reler suas obras, com cada vez maior sentimento de orfandade. Procurar na jangada ibérica a gênese de nossa história, na cegueira a lucidez, no evangelho o homem comum, capaz de resgatar aquilo que ainda nos resta, hoje, de humano e que ficou perdido nos desvãos da torturada alma de Ricardo Reis.


Sem Saramago, talvez não encontremos homens com coragem de fazer a crítica apaixonada e ao mesmo tempo rigorosa das relações internacionais contemporâneas. Poucos terão a coragem de dizer aos intelectuais de Israel que levantem suas vozes contra o holocausto do povo palestino confinado no gueto da faixa de Gaza, como fez Saramago. Poucos terão a coragem de se proclamar comunista e ateu, escrever um livro sobre Jesus Cristo e representar literariamente a corrosão pela base do grande projeto da civilização cristã ocidental.

Poucos farão a crítica da esquerda e das utopias como a fez Saramago:

“O único lugar que existe é o dia de amanhã, a nossa utopia é fazer alguma transformação já. Não há tempo para gastar em discussões e movimentos de mobilização que resultarão em alguma melhora na qualidade global de vida somente em 2043 ou, pior, daqui a 150 anos. Quem nos garante que no futuro as pessoas estarão interessadas naquilo em que agora estamos? Para as cinco bilhões de pessoas que vivem na miséria, utopia é nada”.

Poucos, alguns, nenhuns. Sem Saramago o mundo ficou mais pobre. Leiamos Saramago.




sábado, 6 de março de 2010

Refletindo em dropes...

Tenho muito para falar sobre a realidade, mas às vezes ela me causa tanto mal-estar que preciso me recolher. Tento me preservar um pouco, nesse processo de reflexão sobre nossa sociedade.

Estou pensando em mudar meu projeto de pesquisa, depois de uma releitura de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda (veja resenha aqui). Em uma contradição aparente, o que me motivou a essa mudança foi sua abordagem dos processos de colonização do Brasil e dos demais países latino-americanos, marcados por profundas diferenças, resultantes essas da crise da cultura ibérica nos séculos XVII e XVIII.

Retomei um ensaio, que assino junto com H. Bastos, na revista Terceira Margem, intitulado "História literária entre acumulação e resíduo: o eixo Graciliano-Rulfo" (clique aqui para ler). Agora penso em examinar a possibilidade de existirem outros eixos, na relação entre escritores brasileiros e peruanos, venezuelanos, argentinos. Penso que é possível descobrir, pela literatura, o que nos separa e o que nos aproxima de nossos irmãos latino-americanos, para além da barreira linguística e da cordilheira dos Andes.

Compartilhamos o destino dos países colonizados, eis aí um ponto que nos aproxima. Espanha e Portugal tiveram ênfases diferentes em seus processos de colonização: povoamento e exploração, respectivamente; eis um ponto que nos diferencia. Mas genocídios, modernização capitalista e repressão a levantes populares são fatores que temos em comum. Concentração da terra e da riqueza, depreciação da cultura popular e imposição da cultura letrada são outros fatores a analisar.

Eleger o corpus das obras para análise entre escritores latino-americanos é um trabalho complexo, para o qual ter clareza do marco teórico é fundamental. Enfim, é o que estou fazendo por agora, é a razão pela qual fiquei sem escrever neste blog tantos dias.

Mas não foi só isso que fiquei fazendo, não. Também tive a companhia das menininhas aqui em casa em quase todas as tardes. Socorro de vó em dias de aperto doméstico, sabem? Bom demais.

* * *

Apertam-me o coração as notícias recorrentes sobre a sucessão de tremores de terra no Chile. Isso parece não ter fim... Como se não bastasse o grande número de mortos, há também os problemas sociais decorrentes da destruição, como o desabastecimento e os saques. Ajuda internacional é bem vinda.

* * *

Leio por aí que o ator Sean Penn foi criticado nos EUA por ter visitado o Haiti logo após o grande terremoto, levando seus dois filhos, de 16 e 18 anos, e algumas mochilas carregadas de dinheiro para doação. Em resposta, desejou que seus críticos tenham "dolorosa morte por cancro retal".

* * *

Leio também que o STF decidiu manter preso o governador afastado do DF, Arruda. Seu advogado queixou-se de que o cliente está encarcerado em uma verdadeira "masmorra", sem direito ao mínimo bem-estar. E fico sabendo que as masmorras de hoje tem ar condicionado, persianas verticais, mesa de trabalho com cadeira giratória, cama e sofá. Veja as fotos aqui.

* * *

Para o senador goiano Demóstenes Torres, do impoluto DEMocratas, a miscigenação dos brancos e negros no Brasil não se deu como resultado do estupro e da violência, mas de uma relação consensual entre o branco livre e a negra escrava, “ainda que sob dominação”. Essa afirmativa arrancou um "ohhhh" de espanto da sonolenta platéia da audiência pública promovida pelo ministro Lewandovski para ouvir a sociedade sobre os programas de cotas nas universidades brasileiras. Eu adorei saber que as escravas faziam sexo de livre e espontânea vontade com seus senhores, só pra pirraçar as sinhás...

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Das artes e das artimanhas

Fui ver a exposição sobre Clarice Lispector no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília. Além de emocionar pela captação da contraditória relação da escritora com as palavras, a exposição dá acesso a originais de cartas trocadas entre Clarice e vários escritores e intelectuais brasileiros. Há um enorme gaveteiro em uma das salas da exposição e, dentro das gavetas que a gente vai abrindo, há essas cartas - íntimas umas, formais outras -, rascunhos angustiados, fotografias, bilhetes familiares, junto com exemplares das primeiras edições de seus livros. Tudo isso vai descortinando o complexo painel da vida dessa que é a maior escritora brasileira. Por fim, há uma sala de projeção, onde se pode assistir ao vídeo da entrevista concedida por Clarice a Júlio Lerner, em 1977, poucos meses antes de sua morte.


Nessa entrevista, em que aborda os mais variados assuntos, Clarice nos conta, intrigada, de quando foi procurada por um professor de literatura, que lhe confessou que lia e relia
A paixão segundo GH mas não conseguia entender o livro para poder trabalhá-lo com seus alunos. Em contrapartida, conheceu uma menina de 17 anos que lhe declarou ter A paixão... como livro de cabeceira, que, a cada leitura, lhe revelava novos sentidos para a vida. Mas a escritora evita extrair dessa observação qualquer conclusão apressada, como que deixando a resolução de um enigma a cargo do expectador.

Essa mostra fica no CCBB até o dia 14 de março. A entrada é franca. Se você não viu, ainda há tempo.

* * *

E o CCBB inaugura, ainda em março, a mostra de grafites dos irmãos Otávio e Gustavo Pandolfo, conhecidos como
Os gêmeos. Pela amostra, será muito interessante, aguardemos:



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Artimanhas

Leio hoje nos jornais que o agressivo advogado do governador licenciado - e ainda preso - José Roberto Arruda está negociando com a Justiça a sua libertação, em troca de permanecer afastado do governo do DF até que se concluam as investigações da Operação Caixa de Pandora.

Esse escândalo da corrupção no DF está desnudando aspectos inéditos da relação entre criminosos e Justiça... Desde quando esse tipo de negociação é possível? Alguém acredita que, livre em Brasília, ainda que afastado do governo, Arruda cessará suas ações para obstruir as investigações?

Os jornais dão notícia de que houve "racha" entre os advogados do governador. Afastaram-se os "eminentes" juristas de Brasília - quatro ao todo - para dar lugar exclusivo ao escritório do carioca Nélio Machado, notório por atuar em defesa de Daniel Dantas, entre outros criminosos endinheirados menos conhecidos.

Por seu lado, Paulo Octávio, que nesta semana se desfiliou do DEM e renunciou ao cargo de governador substituto, agora está sem pai nem mãe, perdeu a imunidade parlamentar. Mas como diz a sabedoria popular, "rico não vai para a cadeia." Aguardemos para saber como será a defesa de um dos homens mais ricos do DF, dono de uma fortuna amealhada sempre à sombra do poder público, que o beneficiou de todas as formas ilegais imagináveis e por imaginar.

Enquanto isso, a Câmara Legislativa tenta mostrar trabalho, aceitando os pedidos de impeachment do governador licenciado e abrindo processo interno contra três dos oito deputados distritais implicados no esquema, apenas os que foram flagrados pelas câmeras de Durval Barbosa. A CLDF tenta evitar a intervenção federal, que agora é tida como certa. Meio tarde, não? A essa altura, a população de Brasília já sabe que não pode confiar nessas vestais da (i)moralidade pública.

Enquanto isso, o novo governador Wilson Lima vê os fatos desabonadores de seu passado político serem trazidos à tona. E que passado cabeludo, hem, gente? Claro que o jornalismo investigativo sobre ele não está sendo feito pelo Correio Braziliense, que, de tão comprometido, venda os olhos enquanto sua reputação rola esgoto abaixo.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Nova pesquisa

Estou começando um novo trabalho de pesquisa, que deve resultar em mais um livro, a ser publicado em 2011, se tudo correr dentro do esperado.

O que me motivou foi uma frase do professor Antônio Olavo, quando entrevistado no documentário
Sobreviventes - Filhos da guerra de canudos, de Paulo Fontenele (veja o trailer aqui):

"- É uma tradição da elite brasileira cortar as cabeças das lideranças populares. Foi assim com Tiradentes, com Zumbi dos Palmares, com Lampião e com Antônio Conselheiro."

Resolvi, então, voltar a ler
Os Sertões, de Euclides da Cunha, e me detive nas numerosas cenas de degola que ele descreve. De homens e mulheres, jovens e velhos.

Foto-símbolo de Antonio Olavo

No caso desse livro, há uma intenção explícita do autor de fazer a denúncia da barbárie que vitimou toda uma população. Canudos era, então, a segunda maior cidade da Bahia, com 25 mil habitantes, atrás apenas da capital.


Há obras literárias em que não há explicitação do desejo de denunciar esse ato bárbaro, mas ele está lá presente. Acontece em romances históricos de Érico Veríssimo, por exemplo.

Por isso resolvi investigar como as obras literárias captam esses momentos da vida social. Eles existem historicamente e, como a literatura está em relação com o chão social em que é produzida, não pode deixar de dar a ver esse processo, mesmo quando o oculta. Esses momentos são formas objetivas da realidade e, como tal, são também componentes da matéria que produz a literatura e é produzida por ela.

Aprendi com o mestre Antonio Candido que pode haver uma linha de continuidade histórica da violência do processo civilizatório brasileiro que é captada pela literatura. Essa violência vai, ao longo dessa linha, mudando de configuração: de tosca e brutal na luta de classes explícita a refinada e subliminar no estágio do capitalismo desenvolvido.

Vou, então, delinear essa linha de continuidade por meio das obras literárias, desde Euclides da Cunha até a década de 70. A degola, mas não apenas ela - também o esquartejamento, o enforcamento - é um ato simbólico, cuja exemplaridade visa a manter o populacho intimidado e domesticado. Cortar a cabeça é eliminar a parcela pensante de um corpo; matar um líder popular é eliminar a "cabeça" de um movimento social.

Se formos estudar as rebeliões e os levantes populares no Brasil, veremos que a repressão pela violência é uma constante. Meu livro será sobre a violência como forma objetiva captada pela literatura e a degola será um dos seus tristes capítulos.