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sexta-feira, 3 de junho de 2011

Brasileiros como eu e você!

Que me perdoem os leitores por insistir no tema. Depois do post anterior, foram registradas mais duas mortes de trabalhadores do campo: Erenilton Pereira dos Santos, morador do assentamento agroextrativista Praialta Piranheira, em Nova Ipixuna (PA), no sábado (28 de maio); e, de ontem para hoje, Marcos Gomes da Silva, na zona rural de Eldorado dos Carajás, também no Pará, mesmo cenário do massacre de 19 trabalhadores sem-terra em 1993.

Marcos Gomes da Silva também teve uma orelha cortada, da mesma forma que José Cláudio e Maria do Espírito Santo. Essa é a senha usada pelos pistoleiros para provar aos mandantes dos crimes que o alvo foi abatido.

Há muitos trabalhadores rurais marcados para morrer. Denúncias são feitas todos os dias, mas a garantia do direito à vida não se estende até os habitantes do Brasil profundo, terra em que a lei do capital prevalece sobre todos os princípios de defesa do meio ambiente e dos direitos humanos mais elementares. E esse Brasil profundo não está tão longe quanto você pensa, lá na longínqua floresta amazônica. Não. Ele está também em São Paulo, no Paraná, em Minas Gerais, no Tocantins, no Mato Grosso, em Alagoas, no Distrito Federal e por aí vai. Veja aqui o relato de uma trabalhadora rural jurada de morte pelos madeireiros.

Não se pode pensar que a ação dos madeireiros é isolada, porque não é. Eles são a linha de frente do avanço do latifúndio sobre a floresta. São eles que primeiro devastam as terras que irão se transformar em pastagens ou em plantações de soja. E a sanha devastadora se acelerou depois da aprovação na Câmara Federal do novo Código Florestal, com clara vitória da bancada ruralista. A certeza da impunidade tem lá seus efeitos. Leva, inclusive, uma líder da bancada ruralista no Senado Federal a dar declarações em que banaliza os assassinatos dos trabalhadores rurais.

Em apenas 10 dias, lá se foram Zé Cláudio, Maria, Dinho, Erenilton e Marcos. Nomes tão brasileiros, de brasileiros que tinham rostos, vozes, ideais. Brasileiros como eu e você!

Zé Cláudio e Maria

Adelino, o Binho

quarta-feira, 2 de março de 2011

De que lado...?

São cada vez mais raras as pessoas que explicitam de peito aberto suas ideias. Quando alguma afirmação gera polêmica, parece instalar-se uma súbita desconfiança e a discussão passa a ser feita por meio de insinuações, indiretas, meias-verdades, não-ditos.

Tenho presenciado isso com muita frequência nas redes sociais de que participo. Algumas pessoas não hesitam em expor preferências como fruidoras da arte, da culinária, da leitura, da televisão, da cultura popular e até do sexo. Mas quando o assunto prevê posicionamento político, aparecem as negaças e a imprecisão. Noto que, predominantemente, os jovens de classe média, até a faixa dos 35 anos, são os que mais se negam ao debate.

Pois então. Tenho convivido, nas minhas andanças pelos movimentos sociais, também com jovens das populações excluídas e noto neles grande e profunda diferença de atitudes diante da vida. Seja na periferia das grandes cidades, seja nos espaços do campo, o que vejo é um contingente de batalhadores que perseguem incansavelmente um ideal, que pode ser tão-somente um padrão de vida melhor, com acesso a emprego, renda e bens de consumo; como pode ser também uma sociedade melhor, com justiça e igualdade de oportunidades. Tenho visto e o fato de poder ver me ajuda a entender recente pesquisa, publicada pelo Ministério da Justiça/Fundação Sangari, denominada "Mapa da Violência 2011 - Os jovens do Brasil".

Não há como não se chocar com os dados. O maior número de vítimas de homicídios no Brasil são jovens negros entre 15 e 24 anos! No link acima você encontra todas as tabelas com o resultado detalhado da pesquisa, por estados e municípios com maior concentração de mortalidade. Alagoas está em primeiro lugar, com seus eficientes grupos de extermínio. Em quarto lugar está o rico Distrito Federal.

O quadro nacional, no quesito "violência e juventude", é desalentador. Dá ao Brasil o 6º lugar no nefasto ranking internacional. E o mais grave: isso são números de genocídio. Um genocídio tanto mais consentido quanto mais nos omitimos.


É possível viver placidamente, sem se deixar afetar por informações como essas? É possível ficar com a consciência tranquila, assumir o ar blasé de quem não tem nada a ver com isso, de não-fui-eu-que-criei-essa-situação? É possível denominar "civilização" esse estado de coisas? É possível não se indignar?...

O lado mais frágil dessa briga - que nós, jurássicos assumidos, chamamos "luta de classes" - sempre foram os mais pobres. Os grupos de extermínio, geralmente braços clandestinos das polícias - e das políticas locais -, agem com o aval daqueles que querem um mundo sem pobres, não um mundo sem pobreza. Maceió está aí para confirmar isso: não passa uma noite sem que pelo menos um morador de rua seja executado.

Queiramos ou não, este é apenas mais um modelo de "civilização" que o homem criou desde que começou a se agrupar na Terra. E, pelo visto, mais um modelo de civilização que descambou em barbárie. A pergunta é: o que virá depois? Que mundo iremos legar para as próximas gerações?

Com a palavra, os milhões de jovens pobres - negros, brancos ou índios - historicamente marginalizados neste país.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Enquanto isso, no Maranhão...

A propósito de tudo o que escrevi no post anterior, não posso deixar de divulgar aqui uma notícia que nos deixa mais que perplexos - deixa-nos estarrecidos. Como a velha mídia não cumpre seu papel de noticiar e tem deixado essa tarefa para as mídias independentes na internet, os blogueiros tem se transformado em alvos de forte repressão, com o auxílio da pesada mão da "justiça". Vejam o que ocorre no Maranhão, sob a batuta da velha oligarquia Sarney:

Juiz censura jornalista no Maranhão, numa decisão proferida em dois minutos

O juiz Alexandre Lopes de Abreu, diretor do Fórum Sarney Costa em São Luís e respondendo pela 6ª Vara Cível, decidiu censurar o blog do jornalista Itevaldo Júnior, atendendo um pedido de liminar do juiz Nemias Nunes Carvalho, da 2ª Vara Cível da capital. A decisão de Alexandre Abreu determina que o jornalista retire imediatamente do blog www.itevaldo.com uma reportagem onde ele revela que o juiz Nemias Carvalho comprou uma fazenda de 101,19 hectares, de um acusado que o próprio magistrado revogara a prisão. A ré estava foragida quando da revogação da prisão, mas, em seguida, negociou a propriedade por R$ 5.ooo,00 às margens da BR-316. A decisão liminar foi proferida na última sexta-feira, dia 16. O juiz Alexandre Abreu decidiu em dois minutos, o deferimento, como comprova a movimentação processual disponível no site do Tribunal de Justiça do Maranhão:

“Às 14:00:48 – CONCLUSOS PARA DESPACHO / DECISÃO. sem informação.
Às 14:02:39 – CONCEDIDA A MEDIDA LIMINAR”.

Na decisão, o juiz da 6ª Vara Cível ordena que o jornalista retire imediatamente do blog a matéria “JUIZ NEMIAS CARVALHO: NOUTRA POLÊMICA”, publicada no último dia 12. O juiz determinou ainda que o blog “se abstenha de proceder a qualquer alusão ou referência ao nome do autor, até decisão final da causa”. Além de estipular uma multa diária de R$ 500,00, caso seja descumprida a decisão liminar. O jornalista cumpriu a determinação judicial, hoje, logo após ser notificado às 7h05 da manhã em sua residência. Ainda em sua decisão, o juiz afirma que “a dignidade da pessoa” é um “bem maior” que a “liberdade de manifestação”. Itevaldo Júnior afirmou que recorrerá da rápida decisão. “A celeridade dessa decisão é de fazer inveja ao velocista jamaicano Usaih Bolt”, ironizou o jornalista.


(Retirado do blog Brasília, eu vi - de Leandro Fortes)

Não é novidade, sabem? Luís Nassif, Paulo Henrique Amorim e outros blogueiros respondem a numerosos processos judiciais, de autoria - pasmem! - de órgãos de imprensa como a Veja e a Falha de São Paulo. Parece que querem aniquilar a concorrência, sem melhorar a qualidade da imprensa que praticam, simplesmente calando quem faz a crítica que todo leitor gostaria de encontrar nas revistas e jornalões. É ou não censura?

terça-feira, 20 de abril de 2010

Os meninos de Luziânia

No meu sossego, ouvindo Zeca Baleiro - um dos meus preferidos na MPB hoje - não consigo deixar de pensar nos meninos de Luziânia...

[De você sei quase nada
Pra onde vai ou por que veio...]


Flávio Augusto Fernandes, 14 anos; Paulo Vitor de Azevedo Lima, 16 anos; Márcio Luiz Souza Lopes, 19; Diego Alves Rodrigues, 13 anos; Divino Luiz Lopes, 16 anos; George Rabelo dos Santos, 17 anos

Olho para cada um desses rostos e penso que futuro lhe estaria reservado, que expectativas teria para sua vida, que tristezas enfrentaria, que alegrias o fariam rir, que imenso era o amor que tinha pela família, que curiosidades levava para a escola, que sonhos alimentavam sua alma, que dores o fariam sofrer...

[Céu azul, rio anil, dorme a serpente...]

Capturo e tento decifrar cada um desses olhares. Eles deviam me dizer que promessas lhes foram feitas, que palavras os seduziram, que gestos lhes desarmaram os espíritos. Que canto de sereia jorrou da psicopata garganta?

[O meu boy morreu, que será de mim?...]

A polícia de Luziânia... ah! a polícia! Mero pau-porrete-cassetete-instrumento da Justiça de classe. Investigar o quê? Meninos sumidos, escafedidos, liquefeitos, desintegrados? Investigar pra quê? Ocupada demais em proteger as cercas, as casas, os jardins, o latifúndio, a propriedade privada, os direitos dos ricos...

[não vi ninguém abrir a boca
mas ouvi o grito...]

Meninos pobres não tem vez, meninos pobres não tem voz, chama a Federal! Só a Federal foi capaz de ver quem lhes roubou a vez de viver, a voz de gritar, o olhar de futuro. Porque no oligárquico goiás a polícia não vê, não ouve, não fala: oprime, reprime, suprime!

[não se move uma montanha
por um pálido pedido...]

Trágicas mortes, de quem buscava acreditar... sabe-se lá em quê! E a incompetente tutela deixa que se mate o matador: morte matada by himself? Não se sabe, não se saberá. O território da morte é confortável demais.

[É perigoso viver sim senhor
Tem espinho e tem flor]

Adeus, meninos.

[De você sei quase nada
Pra onde vai ou porque veio
Nem mesmo sei
Qual é a parte da tua estrada
No meu caminho]


quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Nova pesquisa

Estou começando um novo trabalho de pesquisa, que deve resultar em mais um livro, a ser publicado em 2011, se tudo correr dentro do esperado.

O que me motivou foi uma frase do professor Antônio Olavo, quando entrevistado no documentário
Sobreviventes - Filhos da guerra de canudos, de Paulo Fontenele (veja o trailer aqui):

"- É uma tradição da elite brasileira cortar as cabeças das lideranças populares. Foi assim com Tiradentes, com Zumbi dos Palmares, com Lampião e com Antônio Conselheiro."

Resolvi, então, voltar a ler
Os Sertões, de Euclides da Cunha, e me detive nas numerosas cenas de degola que ele descreve. De homens e mulheres, jovens e velhos.

Foto-símbolo de Antonio Olavo

No caso desse livro, há uma intenção explícita do autor de fazer a denúncia da barbárie que vitimou toda uma população. Canudos era, então, a segunda maior cidade da Bahia, com 25 mil habitantes, atrás apenas da capital.


Há obras literárias em que não há explicitação do desejo de denunciar esse ato bárbaro, mas ele está lá presente. Acontece em romances históricos de Érico Veríssimo, por exemplo.

Por isso resolvi investigar como as obras literárias captam esses momentos da vida social. Eles existem historicamente e, como a literatura está em relação com o chão social em que é produzida, não pode deixar de dar a ver esse processo, mesmo quando o oculta. Esses momentos são formas objetivas da realidade e, como tal, são também componentes da matéria que produz a literatura e é produzida por ela.

Aprendi com o mestre Antonio Candido que pode haver uma linha de continuidade histórica da violência do processo civilizatório brasileiro que é captada pela literatura. Essa violência vai, ao longo dessa linha, mudando de configuração: de tosca e brutal na luta de classes explícita a refinada e subliminar no estágio do capitalismo desenvolvido.

Vou, então, delinear essa linha de continuidade por meio das obras literárias, desde Euclides da Cunha até a década de 70. A degola, mas não apenas ela - também o esquartejamento, o enforcamento - é um ato simbólico, cuja exemplaridade visa a manter o populacho intimidado e domesticado. Cortar a cabeça é eliminar a parcela pensante de um corpo; matar um líder popular é eliminar a "cabeça" de um movimento social.

Se formos estudar as rebeliões e os levantes populares no Brasil, veremos que a repressão pela violência é uma constante. Meu livro será sobre a violência como forma objetiva captada pela literatura e a degola será um dos seus tristes capítulos.