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terça-feira, 1 de outubro de 2013

"As mais longes do mar"

Esse é o título de um livro de fotografias de Brasília. O autor-fotógrafo é Truman Macedo, cearense-brasiliense de longa data.

O livro é um presente para os brasilienses - nativos ou adotivos. A câmera de Truman Macedo captura imagens vastas do cerrado - mato e céu, árvores e flores, pássaros e outros bichos. E vai colocando tudo isso em perspectiva quando invade o espaço urbano, com um olhar instigante, ora amoroso, ora crítico, do cotidiano da cidade, que espreme a natureza em espaços de confinamento dos quais ela parece sempre a ponto de escapar.

Logo de início, o autor estabelece o contraste como componente importante de seu trabalho fotográfico, ao contrapor a amplidão do cerrado - sob a inscrição "O azul sereno do nosso céo." (L.F. Cruls, 1892) e a limitação opressiva do famoso "Buraco do Tatu", trecho subterrâneo da Rodoviária de Brasília, também denominado "Marco Zero" da cidade. E o contraste valoriza todas as fotos: entre o claro e o escuro, entre o nítido e o embaçado, entre o verde e as cores vivas de flores e pássaros, entre o céu e o concreto dos monumentos, entre o distanciamento e a proximidade dos detalhes.

Junto com as fotos, o livro traz apresentação e poemas de Nicolas Behr, cuja poesia nos faz ver a Brasília concretamente monumental como um espaço que se humaniza e acolhe aqueles que nela habitam, que nela assistem ao teatro da política, que nela convivem com a diversidade, a pluralidade e os dramas produzidos pelas agudas desigualdades e diferenças.

que cidade é essa
que vejo - espelho -
do avião?

que cidade é essa
que sangra - vermelho
da cruz?

que cidade é essa
que amo
mais do que eu?

                   (Nicolas Behr)

Na organização das fotos no livro, Truman Macedo utiliza também trechos dos textos que registram o processo de escolha do território que sediaria a capital do Brasil, como os da Missão Cruls (primeira e segunda) e da profecia de Dom Bosco. São fragmentos de registros das preocupações que remontam ao século XVII, quando João Fernandes Vieira sugere que os habitantes de Pernambuco construam sua sede em terras "as mais longes do mar" - essa que acaba por dar título à linda homenagem desse cearense a Brasília.

O livro intercala as fotos com explicações escritas pelos próprios idealizadores de Brasília, como é o caso do texto de Lúcio Costa, que nos faz entender a interação das quatro escalas urbanas que compõem a cidade: a monumental, a residencial, a gregária e a bucólica. Quantos de nós, brasilienses nativos ou de coração, conhecemos essa explicação?

As fotos de Truman Macedo ora velam, ora desvelam ângulos conhecidos dos brasilienses. Ora desvendam, ora propõem adivinhações, como esta:


Em outros momentos, vemos a vida de dentro de situações prosaicas do cotidiano, quando então temos a certeza de que esta cidade se constrói e se constitui por seres humanos, muitas vezes maltratados pela precariedade do transporte público. Ainda assim são vistos poeticamente pela lente amorosa de Truman Macedo:



O fotógrafo flagra tanto a natureza quanto as estruturas de concreto, quanto as pessoas; flagra tanto os monumentos quanto os detalhes irrelevantes deles, atribuindo-lhes clareza e importância no todo monumental da capital brasileira:


Enfim, "As mais longes do mar" é um belíssimo livro sobre Brasilia, seus ambientes, sua natureza, seus homens e mulheres, seus percursos e trajetórias, suas particularidades arquitetônicas e urbanísticas. Tudo isso é visto pela lente sensível e carinhosa de um habitante que ama sua cidade.

Se você quiser informações sobre como adquirir este belo livro, faça contato comigo na caixa de comentários.

sábado, 3 de março de 2012

O passado é pedagógico III (e último!)


Alguns dias das férias, eu os passava na casa de minha avó materna, que morava no outro lado da cidade. Ela era dessas pessoas que sabem como fazer um neto ou uma neta feliz. Tinha comigo conversas longas e me deixava livre para brincar em um córrego que cortava a rua, junto com outras crianças dali. Todos nós andávamos descalços, brincávamos na terra e na água, jogávamos bola, jogávamos pedras no mato com estilingue, subíamos em árvores, soltávamos pipa e jogávamos bolas de gude. De tardinha, banho tomado, ficávamos ouvindo as conversas dos adultos nas varandinhas das casas ou na rua mesmo.

Meninos brincando - Candido Portinari
Uma vez, ao chegar para as benditas férias, os meninos e meninas da vizinhança só falavam de uma nova vizinha. A mãe era brava e a filha era linda como um anjo, eles nunca tinham visto mais bonita. A menina quase não saía de casa. Só ia para a escola de mãos dadas com a mãe, só voltava para casa com ela. Tinha a mesma idade que eu – uns dez anos. Loira, cabelos lisos e longos, olhos muito azuis, narizinho de boneca de louça... Ficava perto da janela e nós víamos, da rua, a mãe penteando-lhe os cabelos.

Um dia me enchi de coragem e, chegando perto da janela, falei com ela:

- Quer brincar com a gente?
- Não...
- Por que?
- Minha mãe disse que vocês são todos sujos e que devem estar cheios de perebas...
- Ah!
- E também eu não brinco com meninos, só com meninas.
- Ah...
- Se você quiser brincar aqui em casa, eu peço pra minha mãe.
- Não, não precisa falar... Eu gosto de brincar é aqui fora, na rua mesmo. Com os meninos.
- Tá. Tchau.
- Tchau.

E todo dia, quando brincávamos, sempre tínhamos de parar a bola para esperar a mãe passar com a menina que parecia um bibelô.

No ginásio, a coisa não foi muito diferente. Sim, sou do tempo do ginásio e estudava inglês e francês! Pelo menos a escola pública fazia a gente conviver com a diversidade: tinha gente muito mais pobre que eu, tinha negros, tinha feios. E tinha as meninas e os meninos ricos, que pareciam mais bem vestidos, bonitos e limpos dentro do mesmo uniforme. Dos professores, alguns foram marcantes: a de língua portuguesa dos dois primeiros anos sempre jurava que iria me reprovar; a de educação moral e cívica ficava a aula inteira repetindo o discurso da ditadura militar sobre os valores da pátria e da família – era preguiçosa, não escrevia no quadro de giz e nem se levantava da cadeira. Nos dois últimos anos do ginasial, o professor de português, além de me obrigar a aprender gramática e a gostar de escrever, me ensinou também a gostar de literatura.

Escrevo hoje pensando nele, professor João Rios, que, no início de cada ano, passava uma lista de livros para serem lidos até o final do período. Ninguém precisava comprar, estavam todos na biblioteca municipal. De vez em quando a bibliotecária, uma velhinha beata, exercia seu poder de censura e não deixava a gente levar os livros que julgava impróprios para menores. Tínhamos de ouvir um sermão sobre os valores da família cristã ameaçados pela má literatura. Aí o pau comia: seu João fazia uma visita à biblioteca e, quando voltávamos, a senhorinha estava uma seda. Líamos de Dostoievsky a Jorge Amado, de Camus a Graciliano Ramos, de Flaubert a García Márquez. De vez em quando, seu João fazia uma pausa nas aulas de gramática, sorteava um dos livros da lista e falava longamente sobre ele. Entenderam? Era um professor que nos fazia ler, mas não havia prova de leitura, nem fichamento de livro para avaliação, nada dessas coisas. E quando, nessa pausa, ele falava sobre um livro que eu já havia lido era como se abrisse novas janelas para o mundo. Para entender o mundo.



Não sei como eu conseguia ler quase dez livros por ano, nos dois anos que estudei com seu João. Eu era rueira, não parava em casa, tinha colegas e amigos pela cidade toda. Gostava de nadar no clube dos pobres. Lá, de vez em quando, apareciam técnicos esportivos, que nos ensinavam natação e vôlei. Eu acho que eram contratados pela prefeitura e que o clube era público, mas nunca me preocupei com isso. Houve um tal Eli, que ensinava as modalidades de natação e promovia até competições em cidades vizinhas. Teve também um seu Raimundo, que ensinava natação e vôlei. Era um chato, mas era bom técnico. Depois de anos que saí da cidade, tive notícia dele pela Internet, sempre ligado aos esportes.

Hoje meu irmão me conta que esse era um projeto do Ministério do Exército, durante a ditadura militar. Tratava-se de não deixar os jovens enveredarem pelo caminho da política, enquanto seu tempo era todo tomado por compromisso com os treinadores, que os levavam a competições e atuavam como verdadeiros preceptores, aproveitando as lições do esporte para ensinarem também valores, geralmente os mais reacionários, hegemônicos na época da ditadura militar.

Mas acho que isso não teve influência sobre mim. Enquanto praticava esportes e era, sem perceber, manipulada para ser despolitizada, tinha, em contrapartida, um valoroso professor de literatura me abrindo janelas para entender o mundo e fazer as escolhas ideológicas que me tornaram quem sou hoje.

Por isso posso dizer que sobrevivi a duas pragas: o preconceito social e a ditadura militar.



segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O passado é pedagógico II

As reminiscências da época da escola primária continuam.

Minha vida escolar na pequena cidade foi muito proveitosa. Na época eu não tinha ainda condições de formar a visão da escola como espaço de reprodução das práticas sociais. Mas isso ficou muito claro um pouco mais tarde, e foi a partir do que vivenciei. Educação laica? Nem pensar. Era a escola – pública – que nos preparava para a primeira comunhão, assim como era no espaço escolar que se realizavam algumas das festas da igreja. 

Um detalhe cômico: a professora que me preparou para a primeira comunhão nos passava muito medo com a possibilidade de a hóstia ficar grudada no céu-da-boca:

- Se a hóstia gruda no céu-da-boca, é sinal de que houve mentira na confissão ou não teve arrependimento sincero...
- E como é que se faz, professora? Se grudar...
- Ah, se enfiar o dedão para soltar a hóstia, é pecado! Só pode passar a língua e, se não soltar, tem de esperar até derreter.

Quem, depois disso, ia se deixar flagrar com o dedo na boca? Todo mundo ia fazer cara de anjo, com a hóstia grudada lá, fingindo que não tinha acontecido. 

 
Era o mês de maio e, um dia, eu disse a minha mãe que queria ser escolhida para coroar a nossa senhora, vestida de anjo. Eu tinha mais ou menos nove anos.

- Você, minha filha? Para mim, ninguém merece mais. Você é linda mesmo como um anjinho. Mas não vai ser escolhida...
- Por que, mãe? Eu quero tanto!
- Por que, antes de escolher a criança para fazer isso, a escola manda um bilhete pedindo autorização dos pais...
- Então?... A senhora deixa?
- É que junto com a autorização tenho de concordar em comprar a roupinha, as asas, a tiara, o véu...
- E?...
- Isso custa caro, benzinho...
- A senhora não tem dinheiro?
- Não...
- Mas eu posso vender pé-de-moleque, mãe!
- Pode, bem, mas mesmo assim o dinheiro não vai dar...

Hoje faço ideia de quanto essa conversa custava para minha mãe. Mas eu nem pensava no constrangimento dela, quando cheguei da escola, contando como havia sido a cerimônia de coroação, enquanto ela terminava de fazer o almoço.

- Ah, mãe, foi lindo demais! A santa ficava lá, bem no alto da escada toda enfeitada de flores! Flores de todas as cores. A diretora ficava bem ao lado da santa e, do outro lado, o padre. As crianças todas em fila no pátio, cantando aquelas músicas da missa - “Vestida de branco ela apareceu...”
 - Imagino...
 - E depois veio subindo a escada devagar, a Maria Augusta, vestida de anjo, com o cabelo pretinho e bem liso embaixo da tiara brilhante... até no véu tinha umas florzinhas... ela foi subindo, uma túnica de cetim branco brilhando, brilhando... foi subindo, carregando uma almofadinha vermelha, de veludo, e em cima dela a coroa, que parecia de prata, e brilhava, brilhava... Tudo brilhava muito, mãe!
 - Sei... Foi bonito, então?
- Ah, foi lindo, lindo demais!
- Pois então... quem sabe no ano que vem você vai coroar a santa...
- É, mãe, quem sabe...
 
 
E quando minha mãe se virava para o fogão, mexendo as panelas, eu a interrompia de novo:
 
- Mas, mãe, por que a Maria Augusta foi escolhida para coroar nossa senhora? Ela nem parece anjo!...
 
Minha mãe não respondia, mas eu via que, mexendo sem parar as panelas, ela suspirava.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Nossa festa de fim-de-ano no Rio

Pela primeira vez, eu e Gilson passamos a virada do ano no Rio de Janeiro, famoso em todo o mundo pela festa de fogos de artifício e também pelos shows que promove nas areias claras da belíssima praia de Copacabana.

Chegamos à cidade no dia 28 e tratamos de passear um pouco antes da tão esperada festa. Primeiro demos um pulo até Petrópolis e visitamos lugares lindos, museus e a famosa rua Teresa, todinha cheia de lojas. Gilson jura que nós, mulheres, entramos em todas elas, mas vocês sabem como os homens são exagerados quando nos acompanham nas compras...

Impressionante como naquela cidade tudo gira em torno do passado monárquico brasileiro. Fiz questão de visitar minha xará mais famosa:



 Andando pela cidade, a gente pode até brincar com os vestígios do passado monárquico. Pensem no padre dentro desse confessionário, deve ter ficado louco com dois agnósticos falando ao mesmo tempo. Reparem na fisionomia de beatitude do João, parece até que se converteu:


Ao final da visita, depois de arrastar pantufas de feltro pelo enorme Museu Imperial, tivemos de fazer um esforço descomunal para não sermos tragados pelo passado, porque ainda faltava percorrer a rua das compras:


O retorno ao Rio foi uma aventura à parte, por causa da rodoviária carioca, que é um mundo caótico, onde é quase impossível conseguir um táxi sem cair nas mãos de algum grupo organizado, que não usa taxímetro, para poder furar o olho do freguês! Ainda bem que fomos salvos por um taxista que tinha ido deixar passageiros, honesto e simpático.

No dia seguinte, já de volta à casa da Priscila e do Elmar, na Gávea, aproveitamos o céu nublado e a garoa intermitente para dar uma volta pelo Jardim Botânico. Acreditem, foi bom demais! Aquilo lá é lindo mesmo! Não é à-toa que o grande Tom Jobim encontrava ali inspiração para compor:


Há recantos deliciosos de se ver e estar, como o lago das vitórias-régias:


E flores lindas para a gente fotografar:

No sábado descansamos o dia todo, guardando-nos para a festa da virada de ano. Pernas para cima, TV ligada, estripulias do Baco - o cãozinho da Priscila e do Elmar - e preparação de uma lasanha que ficou nos esperando em casa.

A parte engraçada foi que nos aprontamos para a festa, encaramos a chuva e a caminhada que nos levaria à praia. Táxi, nem pensar! Tínhamos de vencer 6 km até Copa. Saímos de casa por volta das 9 horas. Em frente ao clube do Flamengo demos a sorte de conseguir um táxi para um pedacinho do caminho. Ao retomar a caminhada, a gente se juntou a uma multidão vestida de branco, que andava debaixo da chuva sem se importar com ela, todo mundo no mesmo rumo: a praia em frente ao tradicional hotel Copacabana Pálace.

Pois bem. Nessa altura, eu já tinha dúvida sobre se o programa seria bom mesmo ou se estaria embarcando num programa de índio - força de expressão, porque penso que os programas dos índios nas noites de ano novo devem ser uma baita festa! Cheguei a perguntar ao Gilson se ele não pensava a mesma coisa, mas ele estava tranquilo: "A gente veio aqui foi para isso mesmo, né?" 

Enfim, desvia daqui, desvia dali, pula uma poça aqui, pula outra ali, molha os pés aqui, escorrega ali... Lá fomos nós, no meio da multidão toda branca. Eu tinha a vaga sensação de estar participando de algum ritual muito antigo e o leve incômodo de não saber bem dar sentido a essa  participação. O jeito era, como boa mineira, aproveitar a caminhada para "reparar" os tipos, as roupas, os sapatos, as fisionomias. Sim, porque mineiro não observa: repara.

Enfim chegamos! Praia lotada, mais cheia do que em dia de sol! Todo mundo já no clima da festa: muita alegria, bebidas e... chuva, chuva!
Sem dificuldade, alugamos quatro cadeiras e um guarda-sol e nos alojamos na areia, com nossos guardachuvas também abertos, porque a chuva estava insistente. Ficamos ali sentados, reparando tudo, conversando e tomando caipirinha - só Madá e eu. E a muvuca só aumentando. Quando foi chegando a hora dos fogos, o povo foi se juntando mais e quase que o espetáculo começa sem o Gilson, que tinha ido ao banheiro. Mal chegou aonde estávamos, iniciou-se a música e os foguetes pipocaram. Naquela hora, debaixo da chuva mesmo, tive a certeza de que tudo valeu a pena. Até filmei os momentos iniciais, que foram os mais lindos:



Foi lindo mesmo! E toda essa lindeza que coroou a chegada do nosso ano novo teve alguns momentos pitorescos, que nos fizeram rir até doer as bochechas. Como quando a Madá entrou em um boteco copo-sujo e pagou R$ 2 para usar o banheiro lá no fundo, entulhado de engradados e garrafas vazias; ou como quando, na volta para casa, ao aparecer um táxi que cobrava R$ 30 para nos levar até a Gávea - já estávamos na metade do caminho -, ao serem perguntados se pagariam, todos responderam em coro: "Claro!!!" Acho que todos estavam pensando naquela lasanha, que nos esperava no forno...

Assim foi nossa estada no Rio. Praia com sol, só no último dia. Aproveitamos os dias de chuva para passear no centro antigo da cidade, com direito a almoço na Confeitaria Colombo, num dia, 


e no Bar Luiz, no outro. 


A gente se divertiu muito, enquanto vivenciava um pouco do cotidiano do povo carioca. E foi bom aproveitar esses momentos junto com pessoas com as quais temos afinidades, como é o caso do João e da Madá. Valeu!

Em tempo: O Rio de Janeiro continua LINDO!!!

domingo, 20 de novembro de 2011

O mundo sem meu pai

Minhas desculpas aos leitores pelo sumiço. Fui pega pela roda da vida e não tive, do dia 4 de setembro para cá, tempo/vontade de escrever. Explico.

Hoje faz um mês que meu pai morreu. E não está sendo nada fácil lidar com isso.

Eu sempre pensei que saberia enfrentar esse momento, pois a morte de alguém querido é sempre um fato previsível quando estamos em idade avançada. Meu pai se foi dez dias antes de completar 93 anos. E estava lúcido e consciente, lutando para não se entregar à fraqueza que insistia em derrubá-lo.

(Foto de Diogo Brunacci)

Mas a sensação de perda é inevitável. O luto pela ausência é doloroso. Hoje eu me flagro pensando em meu pai todos os dias. Quando ele estava vivo e eu tinha certeza de que podia lhe falar a qualquer hora, sua imagem não vinha a todo momento em minha mente. Hoje vem. Não passei um dia sequer sem pensar nele.

Há em mim, permanentemente, vaga sensação de que perdi alguma referência. Isso é meio contraditório, porque meu pai e eu discordávamos em muita coisa. Conversávamos sobre quase tudo e às vezes até brigávamos, mas nunca tivemos raiva um do outro. Um buraco, um vão, um oco foi o que me restou, agora que não o tenho mais aqui.

Nestes dias, tenho vivido situação paradoxal: o vazio que meu pai deixou tem me preenchido mais do que a presença dele, quando vivo. Acho que o luto é isso: é a gente vivenciar a ausência com tanta intensidade que, em um dado momento, essa ausência adquire dimensão de presença, é quando deixa de ser falta para ser "um estar em mim", nas palavras do poeta.

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

(Carlos Drummond de Andrade)


Assim é: meu pai, Júlio Brunacci, estará sempre nas minhas lembranças, nas imagens que compõem minha memória afetiva, nos traços físicos que dele herdei, na matéria amorosa que constitui minha existência, de minhas filhas, de minhas netas...

Sempre!

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Uma perda: o mundo sem o Prof. João Rios


Hoje eu soube da morte de um querido professor de Araxá, João Rios. A notícia chegou no momento em que saía em viagem. Sob forte emoção, antes de pegar a estrada, fomos, meu irmão e eu, dois ex-alunos, prestar-lhe a última homenagem e abraçar a esposa.

Desde a semana passada me ocorrera fazer a ele uma visita, infelizmente não concretizada. Profundo arrependimento me incomoda por não tê-lo encontrado antes do enfarte que lhe tirou a vida e privou o mundo de um intelectual cuja importância em minha formação é incomensurável.

Estive com o Prof. João por duas vezes, ano passado. A primeira foi para uma conversa agradabilíssima sobre meu primeiro livro, Graciliano Ramos, um escritor personagem. A segunda, para presenteá-lo com outro, que escrevi em coautoria com dois colegas/amigos, Catálogo de benefícios: o significado de uma homenagem, também em torno de Graciliano Ramos. Nessa ocasião, a promessa de voltar para uma terceira visita, adiada por motivos diversos, e agora definitivamente impossível...

Se há alguém que posso chamar de "meu tipo inesquecível", é João Rios. Estudei com ele dois anos seguidos, nos tempos do antigo ginasial. Era professor de língua portuguesa e iniciou-me na literatura brasileira. A cada início de ano, passava-nos uma lista de 10 livros de autores brasileiros, de diferentes períodos, todos disponíveis na biblioteca pública. A gente ia lendo e ficava esperando o dia em que ele "cobraria" a leitura, mas isso não acontecia. O que acontecia era uma aula em que o professor comentava um dos livros, trocava ideias sobre ele conosco, ajudava-nos a entender a linguagem, os significados, as relações entre a obra literária e a sociedade em que vivíamos, nos anos de chumbo da ditadura empresarial-militar que assolou o Brasil por 21 anos.

Éramos meninas e meninos de 13, 14 anos e tínhamos um professor que, além de nos ensinar a escrever bem, exercia conosco a leitura emancipadora, em pleno período de repressão política e alienação forçada da juventude. Estudar com o Professor João Rios foi garantia de nos tornarmos seres pensantes, críticos e politicamente atuantes.

Na dedicatória do segundo livro com que o presenteei, lembro-me de ter escrito: "inesquecível professor". Eis o consolo com que tento dissipar o arrependimento por não tê-lo visitado: como bom leitor que era, tenho certeza de que soube entender a importância que teve na minha vida.

Hoje, ao constatar que o mundo está sem o Professor João Rios, sinto-me um pouco órfã...

domingo, 12 de dezembro de 2010

Vai um drops aí?


Perdoem-me os pacientes leitores, mas há períodos em que a gente fica sem tempo para esta prazerosa atividade, porque outros afazeres nos chamam e prendem a atenção. Daí as lacunas entre as postagens, não sem o firme propósito de um dia vir a regularizar esta produção. Quanto mais tempo passa, mais assuntos se acumulam e não resisto a falar pelo menos um pouquinho de cada um. Então, hoje é dia de drops!

* * *

Finalmente pegaram o Gim Argello, confortavelmente instalado na relatoria da comissão de orçamento da Câmara dos Deputados, aprontando a maior lambança com os recursos públicos, de conluio com empresas de fachada, alaranjadas. Demorou, caros leitores! Se as investigações não pararem, serão descobertas coisas do arco da velha: quem viver, verá. Aliás, há outros políticos de Brasília, que também estão confortavelmente na ativa, tranquilamente reeleitos, que merecem uma investigaçãozinha básica. Quem sabe a nossa tão combativa imprensa, sempre vigilante no que é acessório mas relapsa no que é essencial, resolva fazer um pouquinho mais de jornalismo investigativo...

* * *

Por falar em políticos de Brasília, vocês precisam ver - e aqueles que já viram hão de concordar comigo - o quanto esta cidade está abandonada. O mato está mais crescido do que nas áreas de proteção ambiental! Na minha quadra, ontem, tive que ficar de olho para a Laurinha não se afastar de mim durante o passeio, com receio de que ela se perdesse no matagal que viceja sob minhas janelas... Controle de pragas? Não, não há! Varrição de rua e coleta de lixo? Tsc, tsc! Desentupimento das bocas-de-lobo para escoar a água da chuva? Também não! Buracos no asfalto, que se agravam nesta época do ano? Cheiiiinho! Enquanto isso, o governador-tampão Rogério Rosso apressa o envio de projetos, no mínimo, suspeitos para a Câmara Legislativa. Recentemente foi revogado o decreto que obrigava às eleições diretas nas escolas públicas, porque estava na cara que era um jeitinho de acomodar as bases rorizistas nos cargos de diretores, na maior cara-dura! Eita ano que não termina! (Perdoe-me o Zuenir Ventura, mas o ano que não terminou não foi apenas 1968, para o bem e para o mal...)
* * *
Isso sem falar na proliferação das cracolândias. A população está abandonada, sem política de saúde pública, de moradia, de transporte, de educação. A escalada das drogas é visível, também nas ruas do Plano Piloto, não é mais exclusividade da periferia. Abandono é a palavra para definir Brasília hoje.
* * *
Fico sempre desolada quando alguma escola pública obriga os alunos a participarem daquelas festinhas pseudo-educacionais, mas sempre de cunho religioso. Educação laica. Qualquer dia destes vou escrever sobre esse assunto. Hoje eu soube que um conhecido, temeroso de colocar seu filho em uma escola pública que não respeite a sua não-crença, estará acionando o MP para tentar garantir que não haja abordagem da religião nas escolas. Esta semana vou entrar em contato com ele para oferecer meu apoio nessa solicitação. A polêmica promete ser boa, com aqueles pais que preferem terceirizar o ensino religioso e pensam que a escola é que tem obrigação de fazer isso. É ou não é uma interferência indevida das atividades privadas sobre o espaço público?...
* * *
Lidar com perdas é a coisa mais difícil, né não? Perder a hora, um brinco, uma roupa que não fecha mais, um sapato que quebra o salto, a comida esquecida no fundo da geladeira, a flor que secou porque me esqueci de regar, o dinheiro que caiu do bolso por descuido, o telefone celular esquecido no balcão da farmácia, tudo isso tem conserto, tem remédio, tem jeito, tem superação rápida da frustração. O que não dá é para lidar com a perda de pessoas, seus afetos, seus trejeitos, suas risadas, seus humores, suas brigas, suas mágoas, seus amores. Ai, como dói!
* * *
"Tá relampiando, cadê nenen?
Tá vendendo drops no sinal pra alguém..."
(Lenine)

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Pausa para meditação


(Dizem que uma pausa valoriza qualquer narrativa. Eu penso que não é tanto a pausa em si, mas o silêncio do narrador quando os leitores estão ávidos pela continuidade.

Penso nos jornais do século XIX, que traziam os capítulos de folhetins escritos por José de Alencar, aguardados avidamente pelas leitoras - sim, a maioria era de leitoras! Assim é que foram publicados inicialmente livros como Cinco minutos, A viuvinha e O guarani. Joaquim Manuel de Macedo (A moreninha), Machado de Assis (Helena, por exemplo) e Manoel Antônio de Almeida (Memórias de um sargento de milícias) foram escritores que iniciaram a publicação de suas obras nos jornais, capítulo a capítulo, brincando com a curiosidade dos leitores.

Daí se dizer que as novelas de televisão são hoje o nosso folhetim eletrônico. Guardadas as diferenças históricas e tecnológicas, o princípio é o mesmo dos folhetins de antanho. Mas que perderam em profundidade, ah! com certeza! São tão superficiais as telenovelas que basta a gente assistir aos capítulos da primeira e da última semanas para dominar toda a trama!

Mas o que eu faço aqui não é um folhetim eletrônico, penso. Trata-se apenas de um exercício de imaginação, motivado por uma manifestação explícita do preconceito dos jovens de uma turminha de classe média alta de São Paulo. Socializada na internet, essa manifestação conseguiu 600 adesões, o que é de assustar.

Na minha despretensiosa narrativa, estou lidando com a desorientação, a confusão e a insegurança resultantes de um acontecimento mágico: o desaparecimento dos migrantes de uma megalópole, de um dia para o outro. Como diria minha saudosa avó, eles "anoiteceram mas não amanheceram" na cidade.

Além disso, estou lidando também com o cotidiano: reforma, mudança, organização de minha biblioteca, doação de livros para movimentos sociais, leituras, viagens, tentativas de escrever, convivência com minha família, carinho para as netas...

Ufa!!! A vida é cheia de afazeres, não? Por isso, apelo a meus 28 leitores para que não percam a paciência. A vida, ops! a história não parou, ela vai ter um desfecho.)

terça-feira, 10 de agosto de 2010

O mundo sem Betta


Hoje o luto chegou com força ao meu coração. O mundo perdeu Betta e eu me vejo tristemente obrigada a viver neste planeta sem poder vê-la e falar com ela.

Betta era cheia de vida, gramsciana de formação, antropóloga querida pelos educadores indígenas.

Escrevo para me despedir, mal vejo meu texto, tenho a vista embaçada por lágrimas que não consigo segurar.

Adeus, querida Betta. Guardo aqui, para sempre, o texto que você usou para se apresentar a quem quisesse sua amizade, seu afeto, seu carinho incondicional. Jamais esquecerei o privilégio de ter sido sua amiga.


As vezes sou mansa outras viro o cão
Algumas vezes me penso louca

noutras acho que não

sou fria, calculista,
sentimental, enamorada...

fico triste tipo vazia

fico brocha, fico pilhada
sou tantas coisas, quase tudo
sou também um quase nada
sou cada cheiro e perfume que respiro

sou poeira e asfalto

lama e concreto

objecto directo

linha reta mal traçada
sou efêmera e eterna

sou triste e engraçada

sou antiga e moderna

amorosa e leviana

boa e malvada

discuto filosofia, falo besteira

sou profunda e superficial
sou italiana, sou brasileira

mas não gosto de carnaval
bebo cachaça, bebo cerveja

há quem me veja bebendo licor

é um horror mas sou consumista,
sou elitista e aristocrata

luto pelo planeta
leio poesia e faço versos
escrevo músicas azuis

já plantei árvore,
já corri de vaca
já corri de cobra e quase morri

já amei bastante

já chorei demais

já sorri, gargalhei e dei risada

essa latinidade aflorada

esse ranço judaico-cristão

sou lógica e contraditória

mas tudo é estoria inventada

terça-feira, 20 de julho de 2010

O fim da velha mídia

Quando passo muito tempo sem escrever geralmente há duas razões: perplexidade ou tristeza. Mas pode ser que as duas ocorram simultaneamente, no meio do turbilhão que é o cotidiano com suas 684 tarefas.

Ando triste porque uma grande amiga está doente. Penso nela diariamente, várias vezes ao dia. Isso me dispersa, me dá vontade de fugir do dia-a-dia, ficar num canto, quieta, esperando notícias que melhorem a cor do mundo...

Mas também tenho andado perplexa. Prometi alguns posts atrás que escreveria sobre o fim da velha mídia no Brasil. Acho que chegou a hora, tendo em vista a notícia de que o Jornal do Brasil suspendeu sua tiragem impressa, passando a existir apenas na web. Veja aqui como a Falha de São Paulo divulgou a matéria. Pobres cariocas! Agora eles tem apenas O Globo... (não que o JB fosse um excelente jornal, bem entendido)

Isso pode ser um sintoma e um sinal. Algum tempo atrás analisei os órgãos de imprensa brasileiros como uma associação mafiosa-partidária. E o que tenho lido e ouvido confirma essa impressão. No momento em que se inicia no país mais uma campanha eleitoral, nossa imprensa vela verdades e desvela-se para o leitor/espectador como pura tentativa de manipulação.

Penso que seria mais honesto se todos os jornais, revistas, emissoras de rádio e canais de televisão explicitassem para o leitor/espectador sua preferência por este ou aquele candidato, embasando seus argumentos em uma análise criteriosa do perfil do escolhido. Mas uma análise séria, não a repetição de clichês e de preconceitos.

Que eu saiba, apenas uma revista semanal teve a coragem de fazer isso. E foi logo acusada de querer se beneficiar em um eventual governo do partido que diz apoiar. Mas confesso que me sinto mais confortável lendo essa revista, que assume claramente uma posição, do que outras que, sob o manto de uma fictícia imparcialidade, enganam seus leitores.

Aprendi por aí que a imparcialidade no jornalismo é um mito. Não se trata propriamente de uma novidade, para quem viveu a história recente do Brasil - e olhem que não sou tão velha assim! Mas me lembro perfeitamente da primeira eleição direta para presidente depois da ditadura empresarial-militar que nos sufocou por longos anos. Lembro-me claramente como a imprensa, capitaneada pelas Organizações Globo, construiu e vendeu como sabonete a imagem de um caçador de marajás, vindo das plagas alagoanas. E de como um debate entre os dois candidatos a presidente, no segundo turno, foi editado para ir ao ar no JN na véspera da eleição, favorecendo aquele que, depois de empossado e de ter apregoado que tinha "aquilo roxo", protagonizaria o primeiro caso de impeachment da história republicana brasileira. O diabo é que me lembro disso cristalinamente! E de vez em quando revejo essa história, como aqui (esse documentário está dividido em 10 partes, todas muito interessantes):



É duro ter memória, sabem? Talvez fosse mais cômodo a gente esquecer o que ficou para trás, seguir vivendo feliz, com a mente entorpecida pelas telenovelas, pelos sonhos de consumo, pelas reportagens que escurecem com a nódoa do ódio de classe a realidade. Talvez fosse mais fácil alienar-se, dar uma guinada para o conservadorismo que ignora a pobreza, adota o discurso do mérito e da competência; talvez fosse mais doce olhar o abismo social que divide as classes no Brasil como resultado da falta de esforço, da secular preguiça dos brasileiros. E tachar os militantes do MST de baderneiros. Talvez fosse mais fácil ignorar que este é um povo trabalhador, que deseja apenas ter acesso a uma vida digna, com educação de qualidade, condições de moradia, de saúde, de mobilidade, de segurança alimentar. E que este é um país que reúne todas as condições físicas e materiais de proporcionar isso a seus cidadãos.

Um brasileiro "preguiçoso"

Analisando a mídia de hoje a gente entende por que o Brasil demorou tanto tempo a tomar o rumo das mudanças que provocaram transformações visíveis no cotidiano da maioria da população. Os mesmos jornais, revistas, estações de rádio e televisão estão aí, a repetirem o tipo de "jornalismo" que faziam há dez anos: comprometido com os poderosos, forjando notícias que não resistem a uma confrontação com a realidade, assassinando reputações daqueles que contrariam seus interesses, apoiando veladamente seus candidatos nas próximas eleições... Posso citar muitos exemplos, desde uma certa ficha policial falsa até "reportagens" alertando para uma eventual queda do valor das ações da Petrobrás.

O jornalismo de esgoto que hoje se pratica abundantemente no Brasil não se preocupa com as consequências: cria pânico para provocar corridas massivas a postos de vacinação; preconiza fracassos em todas as empreitadas que o governo tem pela frente, como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016; defende escancaradamente interesses estrangeiros na discussão sobre a exploração do petróleo do pré-sal; debocha de programas sociais como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida; é maledicente e difamador. Mantém "especialistas" de plantão para dar entrevistas que desqualificam as políticas públicas em curso no Brasil. Enfim, é um "jornalismo" que torce contra o Brasil.

Por isso penso que está próximo o fim da velha mídia, essa que hoje identificamos como sabotadora e golpista, afinada com os interesses udenistas que ainda impregnam a ideologia da elite brasileira, vendida e vendilhona (se é que existe essa palavra....), com o apoio inestimável de uma Justiça que privilegia a visão de mundo da classe dominante: o sagrado direito à propriedade privada, em detrimento do direito da maioria à justiça social.

Mas voltemos ao sintoma e ao sinal. O sintoma nos mostra que o jornalismo está em crise no Brasil, com o surgimento de novas mídias, notadamente as que utilizam a internet e se valem das redes sociais. O sinal nos dá a certeza de que os brasileiros, à medida que tem acesso a essas novas mídias, tendem a dispensar o conservadorismo caduco da velha mídia, abrindo mão primeiramente da leitura das versões impressas. Chegará o dia em que os canais de televisão públicos substituirão a também caduca programação das emissoras tradicionais.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Eu queria ser amiga do Chico Buarque

Tinha 14 anos quando ouvi falar do Chico Buarque pela primeira vez. Uma professora de Educação Moral e Cívica (eram os tempos da ditadura empresarial-militar) anunciou que ele, o rapaz autor de A Banda, iria visitar Araxá. E ficaria hospedado na casa dela.

Não sei se o então rapaz Chico ficou mesmo hospedado na casa daquela velhinha reacionária. Sei que, numa tarde, eu menina fiquei com o rosto colado à grade da casa de esquina, na rua Boa Vista, esperando ver o carinha no alpendre. E vi. Conversando animado, com uma das filhas da professora e outro cara que não pude saber quem era. Vi um sorriso que iluminava o rosto inteiro e me lembro de ter achado lindo o compositor carioca, que naquela época era assim:


Naquela época eu curtia suas músicas numa tal Rádio Mundial, que captava em ondas curtas no velho rádio lá de casa. Ou seja, minha história com o Chico estava apenas começando. Mal sabia eu o quanto ele se faria presente em minha vida.

Ao longo de todo o período dos anos de chumbo, eu compraria cada disco seu para procurar mensagens políticas cifradas, que nos davam ânimo para resistir. Vibrei quando Chico adotou o pseudônimo de Julinho da Adelaide para driblar a censura. Acompanhei sua carreira quando morou na Itália. Para mim, assim como para milhares de outras, Chico era lindo, inteligente, politizado e grande compositor.

Chico sabia falar à alma feminina com perfeição. E o mais importante: sabia - sabe ainda! - traduzir como ninguém a alma feminina. As letras de suas músicas cabem perfeitamente em muitas das situações vividas pelas mulheres, desde as mais prosaicas até as mais trágicas! Penso em João e Maria e Valsinha, de um lado, e em Gota d'água e Ana de Amsterdam, de outro.



Há quem critique as fãs do Chico. Há os caras que sentem ciúmes, porque suas mulheres dizem amar o Chico. Há os que reconhecem que invejam o Chico, porque gostariam de ser como ele: bonito, legal, grande compositor e excelente escritor - no mais, um intelectual que não perdeu o vínculo com o país e seu povo. Eu adorei uma cena de um documentário sobre o Chico, quando um rapaz, ao encontrá-lo na rua, ligou para a mulher, dizendo: "Amor, adivinha quem está aqui na minha frente?" E depois entregou o celular ao Chico, para que falasse com ela. O Chico é assim, adorável.

Quanto mais passa o tempo, mais a produção poético-musical e literária do Chico me parece melhor. Um exercício misto de sensibilidade e leitura do processo social brasileiro, de entendimento da nossa história e da nossa sociedade, em perspectiva permanentemente crítica.



Por isso tudo, eu queria muito ser amiga do Chico Buarque. Não para dar uma de fanzoca, daquelas que viram os olhos e soltam gritinhos ao vê-lo. Eu queria mesmo era sentar por meia hora com o Chico para tomar um café, no Rio de Janeiro ou em qualquer outro lugar. E com ele conversar, como boa amiga, sobre qualquer assunto. Talvez até nem conversar, apenas saborear o café, enquanto penso em como é bom ser amiga do Chico Buarque!


domingo, 20 de junho de 2010

O mundo sem Saramago

Escrevo ainda inconformada com a morte de José Saramago. A literatura ficou manca e o mundo ficou mais pobre. Sem sua lucidez, sua mordacidade, sua crítica dialética, seu pessimismo mobilizador amplia-se o espaço para a invasão da mediocridade, da desonestidade intelectual, da alienação travestida de reflexão, do veto à crítica da democracia moderna.

Sem Saramago, resta-nos reler e reler suas obras, com cada vez maior sentimento de orfandade. Procurar na jangada ibérica a gênese de nossa história, na cegueira a lucidez, no evangelho o homem comum, capaz de resgatar aquilo que ainda nos resta, hoje, de humano e que ficou perdido nos desvãos da torturada alma de Ricardo Reis.


Sem Saramago, talvez não encontremos homens com coragem de fazer a crítica apaixonada e ao mesmo tempo rigorosa das relações internacionais contemporâneas. Poucos terão a coragem de dizer aos intelectuais de Israel que levantem suas vozes contra o holocausto do povo palestino confinado no gueto da faixa de Gaza, como fez Saramago. Poucos terão a coragem de se proclamar comunista e ateu, escrever um livro sobre Jesus Cristo e representar literariamente a corrosão pela base do grande projeto da civilização cristã ocidental.

Poucos farão a crítica da esquerda e das utopias como a fez Saramago:

“O único lugar que existe é o dia de amanhã, a nossa utopia é fazer alguma transformação já. Não há tempo para gastar em discussões e movimentos de mobilização que resultarão em alguma melhora na qualidade global de vida somente em 2043 ou, pior, daqui a 150 anos. Quem nos garante que no futuro as pessoas estarão interessadas naquilo em que agora estamos? Para as cinco bilhões de pessoas que vivem na miséria, utopia é nada”.

Poucos, alguns, nenhuns. Sem Saramago o mundo ficou mais pobre. Leiamos Saramago.




quinta-feira, 17 de junho de 2010

Coisas de Minas... e de mineiros!

Guimarães Rosa disse que Minas é várias. E é mesmo. Aquele lugar é mais que um estado, é quase um país. Ou é uma síntese do Brasil, com todas as suas contradições.

Eu não promovo textos do tipo "ser mineiro é...", que acabam fazendo a apologia de valores reacionários e consagrando um tipo de político "raposa", daqueles capazes de acordos espúrios com as tradicionais elites mineiras para se manter no poder. Além disso, como mineira, penso que não existe um conjunto único de características para definir os mineiros, assim como não pode haver também para definir cariocas, paulistas, gaúchos, cearenses, paraenses etc.

O que existe é um grande número de pessoas que compartilham bens culturais, materiais e imateriais, alguns exclusivos da região em que habitam e que lhes dá um sentimento de unidade, como o sotaque, por exemplo. Eu adoro o sotaque mineiro, tão único e ao mesmo tempo tão variado, dependendo da região de Minas em que você esteja. Para quem não sabe, aquele jeito de escrever do Guimarães Rosa é, de verdade, o jeito de falar de muitos mineiros, que o leitor capta melhor se ler o texto em voz alta.

E o mineiro é capaz de iniciativas pioneiras, que hoje podem nos parecer ultrapassadas e antigas, mas persistem e mostram que o caminho para uma economia solidária pode ser construído. No video abaixo (valeu, Ivan Moraes, lá dos EUA!) vocês podem ver essas práticas incorporadas ao cotidiano de uma família de comerciantes da cidade de Itabirito. Deliciem-se!


segunda-feira, 12 de abril de 2010

Outra viagem

Hoje estou em Timóteo-MG, depois de passar o fim de semana em Belo Horizonte e Governador Valadares. Estamos percorrendo com Natália o circuito familiar mineiro. Hora de matar a saudade dos avós, tios, tias, primos e primas.

No sábado sigo para Brasília, quando espero ter tempo para atualizar este blog. Há dois assuntos que quero abordar: a libertação do governador licenciado José Roberto Arruda e o desvendamento dos desaparecimentos de adolescentes em Luziânia-GO.

Em relação ao primeiro, quero refletir sobre o tema intervenção federal. Em relação ao segundo, vamos analisar a inoperância da polícia goiana quando se trata de investigar crimes contra os pobres e o que significou a entrada da PF nas investigações.

No mais, ao longo desta semana, estarei curtindo a culinária mineira e trocando abraços afetuosos com nossos parentes. Este post é apenas para tranquilizar meus 24 seguidores e demais leitores: não fiquem ansiosos, o Pedra - Palavra - Voz continua!

Até mais!

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Menininhas

Hoje deixei de lado minhas leituras e escrituras, ando meio cansada de pesquisar a violência estrutural do Brasil na Literatura. Precisava de um tempo.

Foi por isso que trouxe as meninas para cá. Sofia e Laura me animam, colocam sorrisos em meu rosto, arrancam gargalhadas do meu peito.

Sofia já está crescida e às voltas com seu desafio atual: dominar os jogos na internet. Passa horas jogando, chamando "Vó, vem ver que legal!". E eu vou e curto com ela alguns clássicos dos games, especialmente o Mário Bros. e o Sonic.

Mas se invento de a gente fazer pão-de-queijo juntas, lá vem elas me ajudar. Sofia quebra os ovos e Laura fica esperando que eu termine de sovar a massa para ajudar a fazer as bolinhas. Ainda está aprendendo a falar, mas domina bem os diminutivos e repete sempre a última sílaba da última palavra das perguntas que a gente faz. "Você quer dormir?" E ela: "Mi". "Você comeu?" Ela: "Meu". "Vamos passear?" "Siá".

Lindinhas demais, essas meninas.

Às vezes fico a pensar em como seria minha vida se elas não existissem. Com suas vidinhas ainda tão breves preencheram intensamente um espaço na vida de minhas já preguiçosas retinas. Se a mãe delas tivesse ido para o exterior; se não tivesse conhecido o marido, se eu não morasse em Brasília... Se, se, se... Mas é tão intensa essa presença que já não é mais possível imaginar como teria sido a vida sem elas. Nessas tentativas a gente vê que o "se" não vale nada, mesmo. O que vale é o que é, não o que poderia ter sido nem o que parece ser.

Às vezes são elas que me educam.

"Vó, você tá desperdiçando a água do planeta."

Matar uma maria-fedida que entra no apartamento? Nem pensar.
"Tem que pegar a bichinha com um papel e devolver pra natureza, vó!"

Aí chega minha vez de educar.
"Vó, pra onde a gente vai quando morre?"
"Ah, a gente é devolvida pra natureza, querida!"
"É? A gente vira terra?"
"Melhor: a gente vira adubo para as plantas."
"Legal!"

Aos seis anos, esse é um diálogo possível. E honesto. Nada de virar estrelinha, nada de ir para um lugar maravilhoso chamado céu. Simples assim: adubo. Quer coisa melhor?

Levo-as para visitar nosso vizinho Davi, de um ano e três meses. Laura abraça e beija com tanta força o menino que o derruba para trás e cai por cima. Não choram, pelo contrário, dão risada com o tombo. Depois ela lhe tira da mão uma argola que ele levava à boca, dizendo algo como "Sujo!". Chuta a bola colorida e grita "Gol". E chama: "Maninha". Quando a mana atende, não quer nada, já esqueceu que chamou, distraída com os brinquedos e o menininho.

Dou risada durante todo o tempo em que estou com elas. Esqueço a violência estrutural apreendida pela Literatura, nas obras que vem desde
Os sertões.

Mas sei que, enquanto curto esse presente que a vida me deu, ela, a violência, continua lá fora...