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terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Votos para um novo ano e um novo mundo

Se for para surgir um mundo em que não haja discriminação, intolerância e preconceito contra toda diferença que represente uma ameaça...

Se for para surgir um mundo em que o acúmulo de coisas não seja o metro pelo qual as pessoas são avaliadas na vida social...

Se for para surgir um mundo em que os bichos sejam amados apenas até o ponto em que não sejam mais bem tratados que as pessoas...

Se for para surgir um mundo em que todo homem e mulher tenha direito a terra, pão e trabalho...

Se for para surgir um mundo em que não haja grandes fortunas de um lado e bolsões de miséria de outro...

 

Se for para surgir um mundo em que não haja o monopólio das comunicações a serviço dos poderosos...

Se for para surgir um mundo em que não haja poderosos e todos os homens e mulheres possam viver em condições de igualdade...

Se for para surgir um mundo em que países não se atribuam direitos de invadir outros para impor seus modelos de "democracia"...

Se for para surgir um mundo em que populações inteiras não sejam enganadas por governantes que adotam discursos de austeridade administrativa...

Se for para surgir um mundo em que homens, mulheres e crianças sejam ouvidos sobre o tipo de relação que devemos estabelecer com os recursos naturais do planeta...


Se for para surgir um mundo cujos museus mostrem percursos de solidariedade e não de saques a outros povos...

Se for para surgir um mundo (espaço reservado aos leitores que queiram formular seus votos de ano novo para um novo mundo)...

 

Então, que seja verdadeira a previsão dos maias e venha 2012, o ano do fim deste mundo que fomos capazes de (des)construir e que não desejo deixar para as futuras gerações.

Porque se nossas crianças apenas suspeitarem que mundo estamos lhes legando, vai ser difícil prestar contas de todo este caos.


domingo, 12 de junho de 2011

"Eta trem bão", essa escola!

Cada vez que vou a um evento na Escola Classe 304 Norte volto convencida de que é uma escola pública muito boa. Nela estudaram minhas filhas. Agora estuda minha neta mais velha. Sim, sim, eu sei que o tempo está passando e tenho que pintar o cabelo com cada vez mais frequência. Por isso é sempre bom registrar essas recordações, antes que se percam na areia difusa de um passado que ajudei a escrever.

Eu já narrei AQUI um pouco de minha vivência como mãe de alunas dessa escola, nos anos 80, quando a participação da família foi fundamental para se dar início a um projeto político-pedagógico com foco na gestão democrática e nos princípios da cidadania e da solidariedade.

Hoje, ao voltar lá para a festa junina, fico feliz ao constatar que tais parâmetros ainda norteiam o fazer educacional, o que faz dessa escola um espaço privilegiado para os estudantes poderem construir sua autonomia, em busca da emancipação.

Apenas como exemplo das ações ali desenvolvidas, vejam como foi a gincana solidária promovida antes da festa junina:


Percebem? Nessa atividade não se escamoteia a competição, mas ela é colocada a serviço de outros princípios, tais como o da solidariedade. E a premiação contempla atividades que agregarão valores a esse princípio. Registre-se que a gincana foi assim definida em reunião com todas as turmas, quando os alunos puderam opinar e suas contribuições foram incorporadas à organização do evento.

Para a comemoração junina, com apresentação de quadrilhas e comidas típicas, também houve decisão coletiva, que orientou o trabalho de pesquisa das turmas para a preparação das atividades. Assim foi que uma turma de alunos mais velhos optou por homenagear Luiz Gonzaga, entremeando a dança com a narração da vida desse artista popular, executando a coreografia dos diferentes ritmos de suas músicas: baião, xote, xaxado etc. Tudo isso acompanhado da devida criação plástica:


Já a turminha da Sofia dedicou-se a produzir um mural que dialogasse com a obra do pintor ítalo-brasileiro Alfredo Volpi. Reparem:


Agora comparem com o original:


Vício de vó professora: converso com Sofia para ver o quanto ela aprendeu com essas atividades e me surpreendo. Ela sempre aprendeu mais do que supus.

Fico feliz porque o processo que iniciamos nos anos 80 continua. Como é próprio do fazer educacional, não há como considerar que isso é tudo a ser desenvolvido. Não há finalização possível, porque sempre se agregam mais conteúdos e valores, em um exercício permanente de educação laica, que forma os alunos para a vida. Não qualquer vida: aquela que se faz espaço permanente de crítica, de autonomia, de cidadania.

Nessa escola, o princípio da gestão democrática, do qual estão imbuídos o corpo docente, a direção e o movimento de pais e mães de alunos, nada tem a ver com organizar eventos para arrecadar dinheiro. Ele é mais um momento marcante de integração e de aprendizado, que não se restringe ao espaço intramuros, mas age também sobre a sociedade fora da escola, assim como recebe a influência dessa sociedade e se constitui em lugar de reflexão e questionamento da vida social.

Essa é uma experiência que deve ser socializada e proporcionada a todas as escolas da rede pública de Brasília, não tenho dúvida.

O tema da festa junina foi "Eta trem bão!" Trem bão de festa, trem bão de escola!!!


segunda-feira, 25 de abril de 2011

"Siga o dinheiro!"

É tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo! O mundo da informação na internet às vezes se transforma no inferno da informação...

Enquanto vejo as loas da TV brasileira ao próximo casamento real no Reino Unido, acompanho também os protestos da comunidade acadêmica do CEFET-MG contra as retaliações do MEC, tuíto (adoro esses neologismos!) sem parar, vejo o que rola no facebook, comemoro a Revolução dos Cravos, assisto a vídeo do Chico Buarque cantando Tanto Mar,


Chico Buarque - Tanto Mar por mariusangol

leio as chamadas dos principais portais de notícias, passeio pelos blogs de todo dia, tuíto novamente, pesquiso no google, dou pitaco na polêmica sobre projeto de lei do RS que limita o uso de estrangeirismos, visito o sítio do Wikileaks para ler sobre os inocentes presos em Guantánamo, enfim, passo a manhã em atividade frenética frente ao computador.

Como processar tudo isso? É preciso não esquecer que todo esse mundo de informações circulando sem cessar tem origem em uma realidade, um chão social marcado por duríssimas disputas, por guerras, por massacres, por destruições, por ideologias, por manipulações, por imposições, por disfarces e por dissimulações.

Não sou otimista na análise do mundo e do meu país. De vez em quando bate um cansaço, uma preguiça, um desânimo, como se fosse a repetição incessante do mesmo filme: preconceitos de toda ordem são disseminados impunemente, sob o beneplácito dos meios de comunicação, das escolas, das religiões, enfim, daqueles aparelhos ideológicos que fazem com que as coisas pareçam mudar para que fiquem como sempre foram.

Mas é como disse um pensador italiano: a gente tem de ser pessimista na análise, sempre, para que a indignação e a vontade de fazer as mudanças impulsionem nossa ação, nossa interação com outras pessoas tomadas pelos mesmos sentimentos e pela mesma vontade de perseguir o que parece ser utópico, mas tem lá sua concretude a nos esperar no horizonte em construção.

Pois então. Ao mencionar preconceitos que grassam por aqui e alhures, detenho-me no sentimento que parece predominar em relação aos mais pobres. Desde que um operário foi presidente da república, o ódio de classe tão laboriosamente escondido nas relações sociais passou a aflorar em manifestações incontidas de preconceito. Porque é impensável, para o pensamento elitista, que um pobre saiba mais o que fazer para melhorar o país do que os ricos que o precederam foram capazes de saber. Porque é impensável que os pobres recusem o tratamento paternalista a eles dispensados pelos ricos, que se recusem a ser tutelados, que se recusem a viver de favores.

Sim. Porque o favor e o jeitinho são historicamente os subterfúgios utilizados pelos ricos para manter os pobres na dependência, como se não fossem capazes de gerir os próprios destinos. Vejamos algumas situações de hoje, que perpetuam esse vício arcaico da nossa sociedade.

Sérgio Bianchi, em seus filmes Quanto vale ou é por quilo? e Cronicamente inviável, representa bem essas relações, já também representadas na nossa literatura, desde Machado de Assis - o primeiro é uma adaptação do genial conto "Pai contra mãe". Depois de assistir aos filmes de Bianchi, você pode se perguntar: por que ele "desanca" as OnG (organizações não governamentais)?

Mas, se prestar atenção, verá que não são as OnG o objeto de sua crítica: elas são apenas a roupagem contemporânea da velha relação entre elite e pobreza. E não é difícil comprovar isso, no contato direto com a realidade dos pobres no Brasil. As OnG ocuparam o lugar que antes era monopolizado pela velha figura do "atravessador". Só que elas se especializaram em "atravessar" dinheiro público, obviamente em troca de um naco respeitável do recurso intermediado. Assim, os filhos das classes média e alta criam suas OnG e apresentam aos governos federal, estaduais e municipais projetos sociais, ambientais, agrícolas, que irão beneficiar pobres nas cidades, preservar o meio ambiente, ajudar os agricultores familiares, etc etc, para os quais requerem recursos.

Agora vejam uma situação que presenciei: 1) uma prefeitura, em (in)voluntária cumplicidade com uma OnG, especifica as medidas que deverão ter os alimentos a serem adquiridos para a merenda escolar do município (por força de lei, 30% desses alimentos devem ser comprados da agricultura familiar); 2) a OnG convoca uma cooperativa dos pequenos produtores para fornecer os produtos; 3) a cooperativa convoca as associações dos assentamentos para fornecerem os produtos; 4) as associações mobilizam seus assentados para suprir a demanda da prefeitura.

Primeiro problema: para atender às especificações da prefeitura, não é possível que os produtos sejam cultivados sem adubos químicos. Adeus, merenda saudável. E lá vão os pequenos agricultores aderir às práticas do latifúndio, não porque o queiram, mas por imposição da necessidade de sobrevivência.

Segundo problema: do preço contratado para a produção, 30% ficam com a OnG, 20% com a cooperativa, 10% com a associação. Sobram 50% para serem divididos entre os agricultores, proporcionalmente ao que cada um conseguir produzir. Isso os obriga a baixar os preços e os desanima de continuar fornecendo seus produtos para o município.

Agora me diga: por que um esquema desses funciona? A resposta é simples, ou, como diriam dois jornalistas americanos de antigamente: "Siga o dinheiro!"



quarta-feira, 2 de março de 2011

De que lado...?

São cada vez mais raras as pessoas que explicitam de peito aberto suas ideias. Quando alguma afirmação gera polêmica, parece instalar-se uma súbita desconfiança e a discussão passa a ser feita por meio de insinuações, indiretas, meias-verdades, não-ditos.

Tenho presenciado isso com muita frequência nas redes sociais de que participo. Algumas pessoas não hesitam em expor preferências como fruidoras da arte, da culinária, da leitura, da televisão, da cultura popular e até do sexo. Mas quando o assunto prevê posicionamento político, aparecem as negaças e a imprecisão. Noto que, predominantemente, os jovens de classe média, até a faixa dos 35 anos, são os que mais se negam ao debate.

Pois então. Tenho convivido, nas minhas andanças pelos movimentos sociais, também com jovens das populações excluídas e noto neles grande e profunda diferença de atitudes diante da vida. Seja na periferia das grandes cidades, seja nos espaços do campo, o que vejo é um contingente de batalhadores que perseguem incansavelmente um ideal, que pode ser tão-somente um padrão de vida melhor, com acesso a emprego, renda e bens de consumo; como pode ser também uma sociedade melhor, com justiça e igualdade de oportunidades. Tenho visto e o fato de poder ver me ajuda a entender recente pesquisa, publicada pelo Ministério da Justiça/Fundação Sangari, denominada "Mapa da Violência 2011 - Os jovens do Brasil".

Não há como não se chocar com os dados. O maior número de vítimas de homicídios no Brasil são jovens negros entre 15 e 24 anos! No link acima você encontra todas as tabelas com o resultado detalhado da pesquisa, por estados e municípios com maior concentração de mortalidade. Alagoas está em primeiro lugar, com seus eficientes grupos de extermínio. Em quarto lugar está o rico Distrito Federal.

O quadro nacional, no quesito "violência e juventude", é desalentador. Dá ao Brasil o 6º lugar no nefasto ranking internacional. E o mais grave: isso são números de genocídio. Um genocídio tanto mais consentido quanto mais nos omitimos.


É possível viver placidamente, sem se deixar afetar por informações como essas? É possível ficar com a consciência tranquila, assumir o ar blasé de quem não tem nada a ver com isso, de não-fui-eu-que-criei-essa-situação? É possível denominar "civilização" esse estado de coisas? É possível não se indignar?...

O lado mais frágil dessa briga - que nós, jurássicos assumidos, chamamos "luta de classes" - sempre foram os mais pobres. Os grupos de extermínio, geralmente braços clandestinos das polícias - e das políticas locais -, agem com o aval daqueles que querem um mundo sem pobres, não um mundo sem pobreza. Maceió está aí para confirmar isso: não passa uma noite sem que pelo menos um morador de rua seja executado.

Queiramos ou não, este é apenas mais um modelo de "civilização" que o homem criou desde que começou a se agrupar na Terra. E, pelo visto, mais um modelo de civilização que descambou em barbárie. A pergunta é: o que virá depois? Que mundo iremos legar para as próximas gerações?

Com a palavra, os milhões de jovens pobres - negros, brancos ou índios - historicamente marginalizados neste país.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Apenas um sonho?

Sonhei que acordava no dia 4 de outubro e, como todas as manhãs, me sentava em frente ao computador para ler as notícias. Queria saber o resultado das eleições.

Estava feliz pelo fato de o Brasil ter, pela primeira vez, uma mulher na presidência. Garantia de continuidade das políticas implementadas em dois mandatos daquele que, nos últimos quatro meses antes da eleição de 3 de outubro, fora simplesmente "desaparecido" do jornal noturno da grande rede de tv.

Mas o apagamento da imagem e dos discursos do antecessor não foi suficiente para apagá-lo da memória dos cidadãos, porque eu estava acordando em uma manhã feliz do primeiro dia do início de uma nova história.

No DF continuava a disputa. Ia ter segundo turno para que a população escolhesse entre o gangster e o médico. Mas uma coisa de bom aconteceu: todos os envolvidos nos escândalos que derrubaram o governador anterior foram varridos do mapa político da cidade. E o ex-governador que tinha nome de uma plantinha malcheirosa também havia sumido...

Fui olhar o mapa. Primeiro, no Maranhão, tive a alegria de ver que nenhum membro de uma antiga oligarquia local foi eleito. No Amapá, onde há um braço dessa oligarquia mofada, também não. São Luís estava em festa, muitas bandeiras vermelhas compunham a multidão nas ruas.


Pulei dali para o Piauí. Bom demais ver que um certo senhor bochechudo, defensor incansável de certo banqueiro dos olhos azuis, estava sem mandato. Será que os piauienses perceberam que o tal usava o mandato que lhe fora concedido pelo povo para defender interesses antipovo?
De mesma forma, um certo senador do mesmo estado, que se notabilizou por discursos nada santos de crítica ao presidente "apagado" pela mídia, também fora varrido sem dó nem piedade.

No Amazonas, bati palmas de satisfação com a varrição de um truculento boxeador que representava os amazonenses no senado. O carinha ainda tentou pular do barco que naufragava, como rato, mas não logrou enganar o povo ao tentar colar sua imagem na do governante que ofendera profundamente quando na oposição.

Em Pernambuco, foi um banho. Estavam definitivamente fora do baralho as cartas marcadas de políticos tradicionais: um muito alto e magro, caladinho, que foi vice no tempo em que o Brasil foi vendido para os estrangeiros; outro, ex-comunista direitoso que apoiou o golpe militar em Honduras.

Nas Alagoas do grande Graça, o povo soube dizer não a um colorido e violento candidato que ficou famoso por apregoar aos quatro ventos a cor de seus testículos, antes de ser expulso da presidência do país. Também foi escafedido um certo ex-governador que sucateou vergonhosamente a educação e se valia da memória do pai para angariar votos.

Eita, que esse sonho está bom demais! Voei para São Paulo e - oh surpresa! Os paulistas deram uma banana ao picolé de chuchu, contra todas as pesquisas!!! Inacreditável! Foi a remissão desse povo que passou 16 anos sob o jugo da direita mais empedernida. De quebra, espirraram vários políticos profissionais, daqueles que compõem a tradição de roubalheira e da corrupção no país. Admirável o povo de São Paulo, nossa!

Corri ao Paraná e o que vi causou-me alegre espanto: o quase-vice campeão-do-botox-com-implante-de-cabelos ficou de fora! Incrível!

Mas o que andou acontecendo no Brasil? Ah, tenho que correr os olhos pelas notícias de todos os estados!... Por um instante imaginei o país com novas figuras na política, com a velharia recolhida, tentando conspirar nos clubes militares, nas academias de letras, nos iates-clubes, no lions e no rotary, nas lojas maçônicas, nas associações de aposentados, nos clubes de crochê e tricô e nos bailes da terceira idade, sem sucesso.

Nesse momento, a risada que larguei no ar foi tão alta, que me acordou. Não pude terminar a viagem pelas notícias do país. Olhei em volta, decepcionada. Noite fechada, silêncio pesado. Amanhã me levantarei para lidar, mais uma vez, com toda a manipulação da mídia em favor de seus candidatos e, invariavelmente, contra o Brasil.

domingo, 20 de junho de 2010

O mundo sem Saramago

Escrevo ainda inconformada com a morte de José Saramago. A literatura ficou manca e o mundo ficou mais pobre. Sem sua lucidez, sua mordacidade, sua crítica dialética, seu pessimismo mobilizador amplia-se o espaço para a invasão da mediocridade, da desonestidade intelectual, da alienação travestida de reflexão, do veto à crítica da democracia moderna.

Sem Saramago, resta-nos reler e reler suas obras, com cada vez maior sentimento de orfandade. Procurar na jangada ibérica a gênese de nossa história, na cegueira a lucidez, no evangelho o homem comum, capaz de resgatar aquilo que ainda nos resta, hoje, de humano e que ficou perdido nos desvãos da torturada alma de Ricardo Reis.


Sem Saramago, talvez não encontremos homens com coragem de fazer a crítica apaixonada e ao mesmo tempo rigorosa das relações internacionais contemporâneas. Poucos terão a coragem de dizer aos intelectuais de Israel que levantem suas vozes contra o holocausto do povo palestino confinado no gueto da faixa de Gaza, como fez Saramago. Poucos terão a coragem de se proclamar comunista e ateu, escrever um livro sobre Jesus Cristo e representar literariamente a corrosão pela base do grande projeto da civilização cristã ocidental.

Poucos farão a crítica da esquerda e das utopias como a fez Saramago:

“O único lugar que existe é o dia de amanhã, a nossa utopia é fazer alguma transformação já. Não há tempo para gastar em discussões e movimentos de mobilização que resultarão em alguma melhora na qualidade global de vida somente em 2043 ou, pior, daqui a 150 anos. Quem nos garante que no futuro as pessoas estarão interessadas naquilo em que agora estamos? Para as cinco bilhões de pessoas que vivem na miséria, utopia é nada”.

Poucos, alguns, nenhuns. Sem Saramago o mundo ficou mais pobre. Leiamos Saramago.




segunda-feira, 7 de junho de 2010

Como está o Acre, hoje?

Recentemente tive notícias fresquinhas do Acre. Não sei por que simpatizo tanto com esse estado brasileiro; talvez porque tenha amigos acreanos e tenha também conhecido grandes cidadãos de lá. Posso dizer que tenho, hoje, grandes amigos que vivem e trabalham em Rio Branco.

E as notícias que recebo confirmam o que os amigos me dizem. O Acre de hoje é irreconhecível se comparado àquele de 15 anos atrás. Mudou inacreditavelmente.

A população acreana hoje é de 655.385, distribuída em 16.422.136,05 hectares - 464.680 em áreas urbanas e 190.705 em áreas rurais. Desses habitantes, 15.852 são indígenas, vivendo em 167 aldeias. Isso é mais do que alguns países europeus, não? Mas não é essa a mudança de que falo. Vamos aos dados.

O salário de professor do ensino fundamental no Acre é de R$ 1.498,00 por vinte horas semanais, contra R$ 863,64 em São Paulo, R$ 850,00 em Minas Gerais; R$ 504,20 no Rio Grande do Sul e R$ 827,42 em Brasília.

A posição daquele estado no Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (SAEB) passou, no período de 1999 a 2007, de 25º para 10º em Português e de 26º para 13º em Matemática (terceira série). Essa avaliação consiste em provas de matemática e português, elaboradas pelo Ministério da Educação, aplicadas a todos os alunos da rede pública, do primeiro ao terceiro ano.

O mesmo se verifica com a posição do Acre no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), que, no ensino médio, passou de 17º para 10º em Português e de 20º para 13º em Matemática.

Assim como os da Educação, também os indicadores da Saúde melhoraram, com aumento da expectativa de vida ao nascer e da expectativa de vida aos 60 anos. Trabalho e renda também apresentam índices positivos nos últimos 10 anos.

Há muitos programas de inclusão social em andamento, para além daqueles do governo federal. Um dos mais bacanas deles é o projeto de inclusão digital, denominado Floresta Digital. Vejam como é a infovia que cobre todo o estado:


Se tiver computador, a pessoa deverá apenas adquirir uma antena de R$ 80 para ter acesso à banda larga oferecida pelo governo estadual. Para os que não tem computador, há os telecentros públicos e gratuitos. Imaginem a importância disso para o estado, em que o isolamento de algumas regiões se agrava dependendo das condições climáticas.


Outra iniciativa interessante é a Escola da Floresta, que oferece cursos técnicos destinados a formar profissionais aptos ao manejo sustentável dos recursos naturais do estado. Isso é importante quando se pensa que o Acre possui reservas extrativistas, terras de propriedade do Governo Federal cujo uso é controlado pelas associações comunitárias de seringueiros e outros moradores tradicionais da floresta. Herança da luta de Chico Mendes, que dá nome a uma delas, na cidade de Xapuri.

Tem muita coisa rolando e fazendo com que o Acre se torne um lugar cada vez melhor para se viver. O estado tratou de proteger as manifestações culturais e a medicina popular, registrando patentes de todo o patrimônio material e imaterial de seu povo. Isso evita que aconteça o que aconteceu com produtos brasileiros que tiveram suas patentes registradas por estrangeiros, como ocorreu com a rapadura e o cupuaçu, ocasionando batalhas judiciais em foros internacionais.

Se eu já fui ao Acre? Não... Mas ainda vou lá, com certeza! Preciso ver de perto essas mudanças, conversar com as pessoas, fotografar. Por falar em fotografias, deixo aqui duas no estilo "antes x depois", para vocês terem uma idéia das mudanças físicas na cidade de Rio Branco:

Canal da Maternidade - Antes

Canal da Maternidade - Depois

Se você quiser ver mais fotos comparativas, clique aqui. As do palácio do governo são de cair o queixo, tamanha a transformação.

Pois então. Faltou dizer que os homens e mulheres acreanos que conheci tem orgulho da história de seu estado. Hoje, recuperaram a auto-estima de cidadãos, além de terem avançado visivelmente na qualidade de vida. Mas ainda há muito por fazer, com certeza. Ainda há problemas históricos, cuja resolução não depende apenas das prefeituras e governo estadual, pois dizem respeito à desigualdade estrutural da sociedade brasileira. Mas, também com certeza, os tempos dos políticos-bandidos, manejadores de motosserra, ficaram para trás. Espero que definitivamente.

terça-feira, 9 de março de 2010

Novos tempos

Achei muito interessante uma pesquisa de perfil do consumidor elaborada pela empresa DataPopular, especializada no que se denomina "mercado popular". Não, não se trata de mercadões de secos e molhados distribuídos Brasil afora. Popular, aqui, é o mercado consumidor formado pelas classes C e D, que agora parecem ter dinheiro para consumir.

Consumir o quê?... Tudo. De carro seminovo a TV de plasma. De brinquedo a home theater. De material escolar a churrasqueira. De móveis a calçados e bolsas. Tudo mesmo.

O DataPopular tem uma interessante apresentação, que você pode ver aqui. Nela já se delineia o perfil da classe popular: a que anda de busão, assiste ao programa do Ratinho, tem emprego informal, faz da ida ao supermercado um programa de toda a família, usa celular pré-pago, tem carro seminovo "zerado".

Esse pessoal se diferencia das classes A e B em alguns aspectos importantes: a) movimenta R$ 550 bilhões/ano; b) não tem curso superior; c) tem renda familiar de até R$ 3.500/mês; d) detém 71% do consumo. É um mercado maior do que o da Argentina, Chile e Uruguai juntos.

Impressionantes esses dados, não? Essas classes abrangem 88% da população brasileira. São mais ou menos 170 milhões de pessoas que antes estavam alijadas do mercado de consumo e hoje enchem os olhos do setor produtivo. São elas que esgotam estoques da linha branca de eletrodomésticos quando o IPI é reduzido, são elas que acabam com o sorvete e os ventiladores no inclemente verão brasileiro, são elas que levam para dentro de suas casas, pequenas e mal-acabadas, aparelhos de som e de TV sofisticados.

É para elas que muita gente das classes A e B torce o nariz, quando censura a empregada doméstica por comprar um home theather melhor do que o da patroa ou um liquidificador de marca mais cara do que aquele da casa em que trabalha. Diz que esse povinho não sabe consumir, não pensa no futuro, compra televisão cara para assistir Ratinho e Sílvio Santos. Um absurdo.

Mal sabe a gente das classes A e B que o DataPopular identificou entre o alto e a base da pirâmide social (na sempre em moda terminologia do "márquetingue") algumas diferenças de fundo, cruciais para a gente entender essa nova onda do consumo dos últimos quatro anos. 40% dessa população são de analfabetos funcionais, quer dizer, sabem assinar o nome, mas tem capacidade de leitura reduzida e não dominam as operações aritméticas fundamentais.

Diz a pesquisa que o pessoal "de baixo" construiu várias redes sociais baseadas na solidariedade. Todo mundo ajuda todo mundo e espera ser ajudado em momentos de dificuldade. A família, a igreja e a comunidade formam essa rede social, a base de apoio das pessoas das classes C e D. Por exemplo, nas comunidades 44% cuidam de criança do vizinho que sai para o trabalho, contra 6,5% da classe A. Nas classes populares, a reciprocidade é um princípio estruturante da vida social. Se uma vizinha leva para a outra uma travessa com um bolo feito em casa, a travessa nunca será devolvida vazia, sempre haverá dentro dela uma retribuição. Esse é um exemplo com coisas miúdas do cotidiano, mas esse princípio está presente também nos momentos de aflição por doença ou dívida.

Estou romantizando a visão das classes C e D? Não. Quando vi os dados da pesquisa, vieram-me à memória cenas de um tempo que já vivi, lembranças de uma rede de solidariedade vivenciada há muitos anos. Recordei-me também das tentativas, já na cidade grande, de construir boas relações de vizinhança e bases comunitárias de convivência. Mas a intolerância com a diversidade cultural típica de Brasília, aliada ao urbanismo que compele as pessoas ao isolamento, impediu que qualquer iniciativa vingasse. Quando deixei Brasília para passar alguns anos em Belo Horizonte, levei um susto, quando constatei, no meio da mineirada, o quanto eu me tornara arredia a vizinhos, depois de 19 anos na capital federal. Tive de reaprender essa convivência.

De qualquer modo, saber que as classes C e D praticam o consumo com o objetivo inclusivo, como mostra a pesquisa do DataPopular, é alvissareiro. Torço para que o maior acesso a bens de consumo não contribua para eliminar o espírito que caracteriza a convivência dentro das comunidades populares. Que se mantenham e, mais, se ampliem as redes de solidariedade.

Em resumo: os pobres estão comprando mais. Além de estarem entrando para a universidade, tendo mais empregos e demonstrando mais confiança no futuro. Dá para entender por que a mídia brasileira tenta, todos os dias, desqualificar os programas sociais do governo.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Nova pesquisa

Estou começando um novo trabalho de pesquisa, que deve resultar em mais um livro, a ser publicado em 2011, se tudo correr dentro do esperado.

O que me motivou foi uma frase do professor Antônio Olavo, quando entrevistado no documentário
Sobreviventes - Filhos da guerra de canudos, de Paulo Fontenele (veja o trailer aqui):

"- É uma tradição da elite brasileira cortar as cabeças das lideranças populares. Foi assim com Tiradentes, com Zumbi dos Palmares, com Lampião e com Antônio Conselheiro."

Resolvi, então, voltar a ler
Os Sertões, de Euclides da Cunha, e me detive nas numerosas cenas de degola que ele descreve. De homens e mulheres, jovens e velhos.

Foto-símbolo de Antonio Olavo

No caso desse livro, há uma intenção explícita do autor de fazer a denúncia da barbárie que vitimou toda uma população. Canudos era, então, a segunda maior cidade da Bahia, com 25 mil habitantes, atrás apenas da capital.


Há obras literárias em que não há explicitação do desejo de denunciar esse ato bárbaro, mas ele está lá presente. Acontece em romances históricos de Érico Veríssimo, por exemplo.

Por isso resolvi investigar como as obras literárias captam esses momentos da vida social. Eles existem historicamente e, como a literatura está em relação com o chão social em que é produzida, não pode deixar de dar a ver esse processo, mesmo quando o oculta. Esses momentos são formas objetivas da realidade e, como tal, são também componentes da matéria que produz a literatura e é produzida por ela.

Aprendi com o mestre Antonio Candido que pode haver uma linha de continuidade histórica da violência do processo civilizatório brasileiro que é captada pela literatura. Essa violência vai, ao longo dessa linha, mudando de configuração: de tosca e brutal na luta de classes explícita a refinada e subliminar no estágio do capitalismo desenvolvido.

Vou, então, delinear essa linha de continuidade por meio das obras literárias, desde Euclides da Cunha até a década de 70. A degola, mas não apenas ela - também o esquartejamento, o enforcamento - é um ato simbólico, cuja exemplaridade visa a manter o populacho intimidado e domesticado. Cortar a cabeça é eliminar a parcela pensante de um corpo; matar um líder popular é eliminar a "cabeça" de um movimento social.

Se formos estudar as rebeliões e os levantes populares no Brasil, veremos que a repressão pela violência é uma constante. Meu livro será sobre a violência como forma objetiva captada pela literatura e a degola será um dos seus tristes capítulos.