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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O passado é pedagógico II

As reminiscências da época da escola primária continuam.

Minha vida escolar na pequena cidade foi muito proveitosa. Na época eu não tinha ainda condições de formar a visão da escola como espaço de reprodução das práticas sociais. Mas isso ficou muito claro um pouco mais tarde, e foi a partir do que vivenciei. Educação laica? Nem pensar. Era a escola – pública – que nos preparava para a primeira comunhão, assim como era no espaço escolar que se realizavam algumas das festas da igreja. 

Um detalhe cômico: a professora que me preparou para a primeira comunhão nos passava muito medo com a possibilidade de a hóstia ficar grudada no céu-da-boca:

- Se a hóstia gruda no céu-da-boca, é sinal de que houve mentira na confissão ou não teve arrependimento sincero...
- E como é que se faz, professora? Se grudar...
- Ah, se enfiar o dedão para soltar a hóstia, é pecado! Só pode passar a língua e, se não soltar, tem de esperar até derreter.

Quem, depois disso, ia se deixar flagrar com o dedo na boca? Todo mundo ia fazer cara de anjo, com a hóstia grudada lá, fingindo que não tinha acontecido. 

 
Era o mês de maio e, um dia, eu disse a minha mãe que queria ser escolhida para coroar a nossa senhora, vestida de anjo. Eu tinha mais ou menos nove anos.

- Você, minha filha? Para mim, ninguém merece mais. Você é linda mesmo como um anjinho. Mas não vai ser escolhida...
- Por que, mãe? Eu quero tanto!
- Por que, antes de escolher a criança para fazer isso, a escola manda um bilhete pedindo autorização dos pais...
- Então?... A senhora deixa?
- É que junto com a autorização tenho de concordar em comprar a roupinha, as asas, a tiara, o véu...
- E?...
- Isso custa caro, benzinho...
- A senhora não tem dinheiro?
- Não...
- Mas eu posso vender pé-de-moleque, mãe!
- Pode, bem, mas mesmo assim o dinheiro não vai dar...

Hoje faço ideia de quanto essa conversa custava para minha mãe. Mas eu nem pensava no constrangimento dela, quando cheguei da escola, contando como havia sido a cerimônia de coroação, enquanto ela terminava de fazer o almoço.

- Ah, mãe, foi lindo demais! A santa ficava lá, bem no alto da escada toda enfeitada de flores! Flores de todas as cores. A diretora ficava bem ao lado da santa e, do outro lado, o padre. As crianças todas em fila no pátio, cantando aquelas músicas da missa - “Vestida de branco ela apareceu...”
 - Imagino...
 - E depois veio subindo a escada devagar, a Maria Augusta, vestida de anjo, com o cabelo pretinho e bem liso embaixo da tiara brilhante... até no véu tinha umas florzinhas... ela foi subindo, uma túnica de cetim branco brilhando, brilhando... foi subindo, carregando uma almofadinha vermelha, de veludo, e em cima dela a coroa, que parecia de prata, e brilhava, brilhava... Tudo brilhava muito, mãe!
 - Sei... Foi bonito, então?
- Ah, foi lindo, lindo demais!
- Pois então... quem sabe no ano que vem você vai coroar a santa...
- É, mãe, quem sabe...
 
 
E quando minha mãe se virava para o fogão, mexendo as panelas, eu a interrompia de novo:
 
- Mas, mãe, por que a Maria Augusta foi escolhida para coroar nossa senhora? Ela nem parece anjo!...
 
Minha mãe não respondia, mas eu via que, mexendo sem parar as panelas, ela suspirava.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O passado é pedagógico I


Os fatos que passo a narrar não são ficcionais. Os nomes é que foram trocados, para que ninguém se sinta molestado. Nada mais verdadeiro que o velho ditado: "recordar é viver".


Na cidade em que nasci fazer literatura dava muito prestígio social. Aquela merdinha de lugar tinha uma academia de letras e seus membros se reuniam uma vez por mês, num velho prédio que tinha um piso também velho de tábuas que rangiam. Lá, saboreavam quitutes e liam uns para os outros poemas, trechos de romances “em processo”, contos, trovinhas, essas coisas. Detalhe: não havia uma mulher no grupo e os caras vestiam ternos para ir às reuniões, que aconteciam na noite da última sexta-feira de cada mês.

A gente, criança, ficava na porta do prédio, na rua principal, vendo os vinte e cinco chegarem, às sete da noite. Chegavam a pé, vindo dos dois lados do quarteirão, às vezes em dois ou três. Depois que contávamos os últimos, íamos para a sessão do cinema, no prédio ao lado, assistir pela quinta ou sexta vez ao mesmo filme de faroeste. Era bom. A gente assoviava, batia os pés no assoalho de madeira acompanhando a música e torcia para a cavalaria acabar com os índios.

O cinema era quase de graça. Também o filme ficava em cartaz mais de um mês. A gente podia ir porque era baratinho. Todo mundo limpinho, cabelos penteados, sapatos engraxados. Assim era mais fácil passar pelo Xaveco, uma espécie de vigilante de menores, que não deixava entrar criança com idade menor que a indicada pela censura. Parêntese: Sim, era tempo de censura a filmes, livros e qualquer forma de arte considerada ameaçadora. Fecha parêntese. E lá dentro, no escuro, era a maior farra. Bolinhas de papel de bala, traques, até pó-de-mico uma vez soltaram no cinema. Tinha um lanterninha que de vez em quando saía puxando um pela orelha, debaixo de vaias.

Minha cidade, quando nasci há mais de meio século, não era tão pequena assim. Digo, era pequena, mas tinha certa arrogância de sociedade bem frequentada por gente de fora, que praticava esportes de elite, como o tênis. Nasci em uma estância hidromineral, com águas termais e certa tradição turística. No balneário, um hotel enorme e caro, ligado ao prédio dos banhos, domina o cenário. Era lá que meu pai trabalhava de porteiro. E minha mãe, de camareira, em outro hotel, mais modesto, frequentado por funcionários públicos do estado.

Sou de uma família pobre: salários baixos, oito bocas para alimentar e algum conformismo fizeram com que nos aboletássemos numa casa modesta, com vizinhança igual à gente mesmo. Escola pública, longas caminhadas, filhos começando a trabalhar cedo, com doze ou treze anos. Mãe fazia pé-de-moleque pra gente vender na rua: o sol quente, o caminho de poeira, os vizinhos comprando mais por solidariedade que por necessidade.

Quando entrei para a escola comecei a aprender coisas que me seguiriam por toda a vida. Não as coisas que os livros traziam, mas outras. Tive uma professora que achava uma ofensa eu ser pobre. Como é que pode, uma menina loira de olhos verdes, tipo europeu, com sobrenome italiano? Se fosse preta ou mulatinha, a gente entendia... Ah! Dona Lola, sempre mal-humorada. Um dia, fui a única da turma que, no ditado, escreveu “piscina” com o “sc”. As riquinhas, que usavam sapatos de couro, saias plissadas e blusas brancas de algodão, todas erraram. Só a pobretona da saia pregueada, blusa de poliéster e sapato de borracha acertou.

- Onde você aprendeu essa palavra, menina?
- Numa placa lá da piscina que a gente nada.
- É? E que piscina é essa?
- Do tênis clube.
- Sei... aquela da água verde-escuro?
- É sim senhora. A gente nada lá. E tem uma placa escrito assim: “No recinto da piscina, somente com roupa de banho”. Foi lá que eu aprendi.

Dona Lola estava debruçada sobre minha carteira, com os grandes olhos castanhos muito perto da minha cara. Fechou a cara por um segundo, mas logo se aprumou e jogou a cabeça para trás, gargalhando duas ou três vezes. Quando olhou novamente para a frente, estava séria.

- Quer dizer que você lê placas, né? Muito bem.

Eu tinha oito anos e não entendi o que era aquilo. Só mais tarde, juntando outros episódios da minha vida, com outros personagens, é que eu viria a vislumbrar um certo ódio, maior que o simples preconceito, que fazia as pessoas não aceitarem uma criança branca, loira, bonita e... pobre! Era um problema lidar com isso: os ricos e remediados não admitiam que eu fosse pobre e os pobres não me aceitavam porque eu parecia rica. Mas foi mais fácil conviver com a garotada que andava descalça, encatarrada e moleca, do que com as professoras, as coleguinhas ricas, os padres, os professores e todos os tipos que tinham algum prestígio na cidade.

No grupo escolar, aprendi que aluno pobre, no recreio, brincava de um lado do pátio sem invadir o outro lado, isso depois de comer o arroz-doce ralo e quase cru servido só para os que eram da “caixinha”, os que não tinham dinheiro para levar seu próprio lanche. Também as turmas eram divididas em adiantadas e atrasadas e por coincidência nas primeiras estavam os filhos dos ricos e nas segundas os filhos dos pobres. O meu caso era uma chateação, porque me destacava na leitura e na escrita, o que obrigou a diretora a me colocar na turma dos adiantados. Daí minha inadequação, que incomodava mais os outros que a mim mesma. No geral, as professoras que tive nos primeiros anos escolares foram inexpressivas: só Dona Lola me marcou, pelo preconceito declarado e assumido.


O irônico desta história é que Dona Lola não era branca. Hoje tenho a certeza de que, com seus lábios grossos e sua pele parda, minha tão sensível professora era mestiça.

domingo, 12 de junho de 2011

"Eta trem bão", essa escola!

Cada vez que vou a um evento na Escola Classe 304 Norte volto convencida de que é uma escola pública muito boa. Nela estudaram minhas filhas. Agora estuda minha neta mais velha. Sim, sim, eu sei que o tempo está passando e tenho que pintar o cabelo com cada vez mais frequência. Por isso é sempre bom registrar essas recordações, antes que se percam na areia difusa de um passado que ajudei a escrever.

Eu já narrei AQUI um pouco de minha vivência como mãe de alunas dessa escola, nos anos 80, quando a participação da família foi fundamental para se dar início a um projeto político-pedagógico com foco na gestão democrática e nos princípios da cidadania e da solidariedade.

Hoje, ao voltar lá para a festa junina, fico feliz ao constatar que tais parâmetros ainda norteiam o fazer educacional, o que faz dessa escola um espaço privilegiado para os estudantes poderem construir sua autonomia, em busca da emancipação.

Apenas como exemplo das ações ali desenvolvidas, vejam como foi a gincana solidária promovida antes da festa junina:


Percebem? Nessa atividade não se escamoteia a competição, mas ela é colocada a serviço de outros princípios, tais como o da solidariedade. E a premiação contempla atividades que agregarão valores a esse princípio. Registre-se que a gincana foi assim definida em reunião com todas as turmas, quando os alunos puderam opinar e suas contribuições foram incorporadas à organização do evento.

Para a comemoração junina, com apresentação de quadrilhas e comidas típicas, também houve decisão coletiva, que orientou o trabalho de pesquisa das turmas para a preparação das atividades. Assim foi que uma turma de alunos mais velhos optou por homenagear Luiz Gonzaga, entremeando a dança com a narração da vida desse artista popular, executando a coreografia dos diferentes ritmos de suas músicas: baião, xote, xaxado etc. Tudo isso acompanhado da devida criação plástica:


Já a turminha da Sofia dedicou-se a produzir um mural que dialogasse com a obra do pintor ítalo-brasileiro Alfredo Volpi. Reparem:


Agora comparem com o original:


Vício de vó professora: converso com Sofia para ver o quanto ela aprendeu com essas atividades e me surpreendo. Ela sempre aprendeu mais do que supus.

Fico feliz porque o processo que iniciamos nos anos 80 continua. Como é próprio do fazer educacional, não há como considerar que isso é tudo a ser desenvolvido. Não há finalização possível, porque sempre se agregam mais conteúdos e valores, em um exercício permanente de educação laica, que forma os alunos para a vida. Não qualquer vida: aquela que se faz espaço permanente de crítica, de autonomia, de cidadania.

Nessa escola, o princípio da gestão democrática, do qual estão imbuídos o corpo docente, a direção e o movimento de pais e mães de alunos, nada tem a ver com organizar eventos para arrecadar dinheiro. Ele é mais um momento marcante de integração e de aprendizado, que não se restringe ao espaço intramuros, mas age também sobre a sociedade fora da escola, assim como recebe a influência dessa sociedade e se constitui em lugar de reflexão e questionamento da vida social.

Essa é uma experiência que deve ser socializada e proporcionada a todas as escolas da rede pública de Brasília, não tenho dúvida.

O tema da festa junina foi "Eta trem bão!" Trem bão de festa, trem bão de escola!!!