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domingo, 17 de outubro de 2010

A política no século XXI

Quando adolescente, eu costumava fantasiar sobre como seria a vida no século XXI. Em um mundo tecnologicamente desenvolvido, eu pensava que não haveria mais pobreza, nem religião, nem concentração de riqueza e de terra, nem falta de pão e trabalho. Mas já faz muito tempo que eu tinha essas fantasias e hoje vejo que era uma adolescente com alguma fé no ser humano e naquilo que lhe dá sua qualidade intrínseca: a humanidade.

O tempo se encarregou de desmentir minhas expectativas e me obrigar a colocar os pés no chão assustador da realidade, ainda muito jovem, quando me dei conta de estar vivendo com toda a intensidade os tempos da ditadura empresarial-militar que, pela supressão das liberdades e direitos individuais e coletivos, dominou o Brasil de 1964 a 1985.

Qualquer pessoa com um mínimo de independência intelectual não hesitaria em se posicionar contra o regime empresarial-militar, em lutar pelo retorno à democracia, em apoiar os movimentos populares duramente reprimidos quando da derrubada do presidente João Goulart. Assim o fizeram milhares de estudantes secundaristas e universitários, levados pela violência do regime a adotar a luta armada. Era uma guerra, sim, o que estávamos vivendo. Guerra muito desigual, porque o lado opressor contava com a cumplicidade do capital e dos meios de comunicação. Basta dizer que as organizações Globo e Folha da Tarde (hoje Folha de São Paulo) foram notáveis colaboradoras dos militares, contribuindo para fixar no imaginário popular a imagem dos opositores como "guerrilheiros", "terroristas" e "bandidos".

Hoje vejo jovens que sequer imaginam o que é viver sob uma ditadura repetindo nas redes sociais da internet os bordões daqueles que oprimiram o povo brasileiro por duas décadas. Isso me deixa perplexa! No jogo político-eleitoral que vivenciamos, o vocabulário repressivo dos militares foi reativado nos discursos, nos artigos de jornais e nos noticiários televisivos. O quadro é claro: há de um lado o candidato dos conservadores, que pugna contra o desenvolvimento brasileiro dos últimos oito anos; de outro, a candidata que representa a manutenção e a continuidade das políticas públicas que possibilitaram esse desenvolvimento.

Neste momento importante da vida nacional, que é o segundo turno das eleições, saem das sombras atores políticos inimagináveis. As igrejas adquirem dimensão inusitada, em pleno século XXI. As acusações irresponsáveis afloram por todos os lados. Esquecem os acusadores que não estamos elegendo o líder de um estado autocrático, mas o chefe do poder executivo que deverá governar em sintonia com os demais poderes da república. Jamais um presidente ou presidenta poderá impor políticas públicas sem o respaldo desses outros poderes.

Mas não. Os arcebispos/bispos e pastores ultraconservadores preferem abusar da ignorância dos fiéis a esclarecer-lhes que não vivemos em um estado teocrático e que, durante suas escolhas, estão exercendo o mais valioso dos poderes que sua condição humana lhes permite exercer: o livre-arbítrio. Preferem embotar a mente dos que creem nos ensinamentos religiosos com o veneno do preconceito mal disfarçado de pregação religiosa.

E devagarinho, depois que grande estrago já está feito, vamos descobrindo as ligações perigosas entre as religiões e os políticos. Assim é que o pastor Malafaia surge como alvo da promessa de concessão de um canal de TV só para suas pregações; assim é que o arcebispo Fergonzini, de Guarulhos, é desmascarado por ter como financiadora da impressão de seus panfletos caluniosos uma organização integralista, ou neofascista, usando uma gráfica cuja proprietária é filiada ao mesmo partido de um dos candidatos. E mais a pergunta que não quer calar: quem financia toda essa baixaria?

Pois é. Estamos vivendo um processo político-eleitoral no século XXI cujo maior mérito é desnudar o caráter medieval que continua presidindo as relações política-igreja(s) no Brasil contemporâneo. É uma arena em que a sinceridade não tem vez e leva até os ateus mais notórios a fingirem que são candidatos ao papado e não à presidência da república. Enquanto isso a mídia acumpliciada fecha os olhos e finge não existir uma perguntinha básica, a ser respondida por um dos candidatos: quem é Paulo (Preto) Sousa e o que ele sabe?

Nunca disfarcei neste espaço a minha posição política. Todos os meus 29 leitores inscritos e também os outros não inscritos sabem que voto em Dilma Rousseff porque, neste momento, é ela que representa a continuidade do melhor governo que o Brasil já teve, o governo mais fiscalizado pela mídia, o mais criticado, o mais caluniado. Eleita, Dilma enfrentará as mesmas críticas e calúnias, agravadas pelo fato de ser mulher.


Não tenho mais ilusões. O Brasil tem demonstrado que ainda não tirou o pé do passado escravista, racista e classista. Mas temos que lutar - e muito - para termos o verdadeiro estado laico. Nenhuma religião tem propriedade exclusiva do cristianismo. É preciso não confundir a instituição "igreja(s)" com os ensinamentos que ela tão habilmente deturpa, em prejuízo do povo brasileiro.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Apenas um sonho?

Sonhei que acordava no dia 4 de outubro e, como todas as manhãs, me sentava em frente ao computador para ler as notícias. Queria saber o resultado das eleições.

Estava feliz pelo fato de o Brasil ter, pela primeira vez, uma mulher na presidência. Garantia de continuidade das políticas implementadas em dois mandatos daquele que, nos últimos quatro meses antes da eleição de 3 de outubro, fora simplesmente "desaparecido" do jornal noturno da grande rede de tv.

Mas o apagamento da imagem e dos discursos do antecessor não foi suficiente para apagá-lo da memória dos cidadãos, porque eu estava acordando em uma manhã feliz do primeiro dia do início de uma nova história.

No DF continuava a disputa. Ia ter segundo turno para que a população escolhesse entre o gangster e o médico. Mas uma coisa de bom aconteceu: todos os envolvidos nos escândalos que derrubaram o governador anterior foram varridos do mapa político da cidade. E o ex-governador que tinha nome de uma plantinha malcheirosa também havia sumido...

Fui olhar o mapa. Primeiro, no Maranhão, tive a alegria de ver que nenhum membro de uma antiga oligarquia local foi eleito. No Amapá, onde há um braço dessa oligarquia mofada, também não. São Luís estava em festa, muitas bandeiras vermelhas compunham a multidão nas ruas.


Pulei dali para o Piauí. Bom demais ver que um certo senhor bochechudo, defensor incansável de certo banqueiro dos olhos azuis, estava sem mandato. Será que os piauienses perceberam que o tal usava o mandato que lhe fora concedido pelo povo para defender interesses antipovo?
De mesma forma, um certo senador do mesmo estado, que se notabilizou por discursos nada santos de crítica ao presidente "apagado" pela mídia, também fora varrido sem dó nem piedade.

No Amazonas, bati palmas de satisfação com a varrição de um truculento boxeador que representava os amazonenses no senado. O carinha ainda tentou pular do barco que naufragava, como rato, mas não logrou enganar o povo ao tentar colar sua imagem na do governante que ofendera profundamente quando na oposição.

Em Pernambuco, foi um banho. Estavam definitivamente fora do baralho as cartas marcadas de políticos tradicionais: um muito alto e magro, caladinho, que foi vice no tempo em que o Brasil foi vendido para os estrangeiros; outro, ex-comunista direitoso que apoiou o golpe militar em Honduras.

Nas Alagoas do grande Graça, o povo soube dizer não a um colorido e violento candidato que ficou famoso por apregoar aos quatro ventos a cor de seus testículos, antes de ser expulso da presidência do país. Também foi escafedido um certo ex-governador que sucateou vergonhosamente a educação e se valia da memória do pai para angariar votos.

Eita, que esse sonho está bom demais! Voei para São Paulo e - oh surpresa! Os paulistas deram uma banana ao picolé de chuchu, contra todas as pesquisas!!! Inacreditável! Foi a remissão desse povo que passou 16 anos sob o jugo da direita mais empedernida. De quebra, espirraram vários políticos profissionais, daqueles que compõem a tradição de roubalheira e da corrupção no país. Admirável o povo de São Paulo, nossa!

Corri ao Paraná e o que vi causou-me alegre espanto: o quase-vice campeão-do-botox-com-implante-de-cabelos ficou de fora! Incrível!

Mas o que andou acontecendo no Brasil? Ah, tenho que correr os olhos pelas notícias de todos os estados!... Por um instante imaginei o país com novas figuras na política, com a velharia recolhida, tentando conspirar nos clubes militares, nas academias de letras, nos iates-clubes, no lions e no rotary, nas lojas maçônicas, nas associações de aposentados, nos clubes de crochê e tricô e nos bailes da terceira idade, sem sucesso.

Nesse momento, a risada que larguei no ar foi tão alta, que me acordou. Não pude terminar a viagem pelas notícias do país. Olhei em volta, decepcionada. Noite fechada, silêncio pesado. Amanhã me levantarei para lidar, mais uma vez, com toda a manipulação da mídia em favor de seus candidatos e, invariavelmente, contra o Brasil.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Brasília: a quadrilha continua

Resolvi mudar o design do blog. Persigo o leiaute mais limpo, menos pesado para o leitor. Mesmo usando cores escuras. Nada é para sempre, sem mais nem menos posso mudar tudo de novo...

Tenho no vidro traseiro do carro um adesivo com os dizeres: "Fora Arruda, P.O. e quadrilha". Hoje alguém me perguntou por que não o removo, já que Arruda e Paulo Octávio estão fora do governo do DF. "O problema é que a quadrilha permanece", disse eu. Por isso, o adesivo fica.

Os brasilienses já começam a circular de carro portando adesivos de seus candidatos preferidos. Como sou observadora, não posso deixar de ler vários deles. Circulam por aí os nomes de quase todos os envolvidos nas investigações da Operação Caixa de Pandora, que não foram sequer investigados pela Câmara Legislativa do DF: Benedito Domingos, Roney Nemer, Cristiano Araújo e Benício Tavares. Esses são os nomes que já vi. Por enquanto ainda não vi ninguém com coragem de ostentar os nomes de Eurides Brito, Júnior Brunelli e Leonardo Prudente, mas consta que este último será candidato.

Vi também circulando o nome - pasmem! - de Agaciel Maia, aquele que frequentou os noticiários ano passado, por conta de todo tipo de irregularidade cometida pela diretoria do Senado Federal, lembram? (Por falar nisso, a mesa diretora do Senado continua aprontando: nesta semana quase emplacou, por debaixo dos panos, reajuste olímpico e ilegal de salários para seus servidores.) Pois é. Mais um para engrossar as fileiras daquilo que o mestre Mino Carta denominou "vanguarda do atraso" na tradicional política de Brasília.

O fato de esses nomes estarem visíveis pela cidade, faltando ainda tempo para o início legal das campanhas eleitorais, é para mim um sinal e um sintoma. Sinal de que a quadrilha continua em ação, tratando de garantir a eleição para adquirir imunidade, foro privilegiado etc. Sintoma da indigência política do eleitor do DF, capaz de consagrar Roriz nas urnas e, junto com ele, todo o bando.

Também nesta semana houve, por parte do MP, reiteração do pedido de intervenção federal no DF. É pena que parece já haver um acordo entre as forças políticas para que isso não aconteça. Pela primeira vez, desde a nomeação de Roriz como governador biônico por Sarney, tem-se a oportunidade histórica de desmantelar a quadrilha que se instalou e vem agindo até hoje. É muito mais que uma dúzia de políticos do Executivo e do Legislativo; há gente em todas as esferas e instâncias do poder. Aqui costumamos dizer que a polícia não faz greve, apenas ameaça investigar alguns para conseguir aumento de salários.

Brasília é um caso crônico de podridão política. Intervenção federal aqui teria que ser ampla e profunda, suspendendo as eleições deste ano e abrindo espaço para grandes investigações, que passassem o pente fino em todos os poderes e, efetivamente, levassem à prisão os delinquentes que tanto prejuízo causam aos cofres do DF.

Pense em quanto esta cidade poderia ser melhor, se não fosse dominada por meliantes e se todos os recursos que lhe repassa o governo federal fossem de fato utilizados para humanizá-la e melhorar a qualidade de vida de seus habitantes. Se, por exemplo, os recursos do SUS fossem usados para melhorar o atendimento dos hospitais públicos, em vez de ficarem aplicados em algum banco, como foi constatado pela auditoria do Ministério da Saúde.

Brasília em aquarela - foto de Augusto Areal

Pois então. Enquanto outros motoristas circulam com os nomes de seus candidatos a esse ou aquele cargo, eu continuo circulando com meu adesivo vermelho, insistindo no apelo para que nos livremos do nosso cancro político.

INTERVENÇÃO FEDERAL RÁPIDA, AMPLA E PROFUNDA!!!

sábado, 17 de abril de 2010

Intervenção já!!!

Ocorreu hoje a sessão da Câmara Legislativa do Distrito Federal que indicou o governador-tampão para substituir o governador cassado José Roberto Arruda.

Aqui em Brasília correu a conversa de que o governador em exercício, Wilson Lima, havia feito acordo com os parlamentares da base de sustentação de Roriz e Arruda para permanecer no cargo, pelo qual se comprometeu a não investigar e também não demitir servidores do Executivo ligados a esses políticos. Tudo isso com o discretíssimo apoio do ex-vice governador Paulo Octávio.

Mas parece que toda essa movimentação foi apenas para impedir que se percebesse a verdadeira articulação: aquela que daria a vitória a Rogério Rosso e à vice Ivelise Longhi, rorizistas de carteirinha e conhecidos da população de Brasília há longo tempo. Os dois, o eleito e sua vice, atuaram com Roriz e com Arruda.

Agora vejam os deputados distritais que votaram na dupla: Aguinaldo de Jesus, Alírio Neto, Ailton Gomes, Batista das Cooperativas, Benedito Domingos, Benício Tavares, Cristiano Araújo, Dr. Charles, Eurides Brito, Geraldo Naves, Pedro do Ovo, Rogério Ulysses e Roney Nemer. Entre eles, gente envolvida no esquemão que derrubou Arruda; pelo menos um deles estava preso até há poucos dias e hoje estava no plenário votando. Dá para aceitar tamanha desfaçatez?!


A esta hora, imagino Arruda e Roriz fazendo brindes para comemorar a vitória...

Não é aceitável qualquer eleição indireta. A gente pensava que esse instrumento antidemocrático, de triste memória da época da ditadura empresarial-militar, estivesse extinto. Mas não... ele persiste em Brasília.

O que lamento é o fato de os partidos de oposição a Arruda/Roriz terem aceitado participar desse processo, indicando seus candidatos a governador do DF. Legitimaram um procedimento espúrio, quando deveriam ter se negado a isso, denunciando as articulações desses políticos barra pesada.

Para vocês terem uma idéia do tamanho das fortunas que essa turma do Arruda/Roriz trata de proteger, vejam a matéria "Lobisomens de Brasília", que saiu no último número da revista RollingStone. (Valeu, Ícaro!) Ela nos conta de um empreendimento imobiliário caro - e bota caro nisso! - a Paulo Octávio.

Foto: Índio San - RollingStone

São tão rentáveis os negócios escusos desses políticos, que Dona Eurides Brito, adventista do sétimo dia, transgrediu a lei de sua igreja e se fez presente no plenário da CLDF, votando no candidato vencedor!

Wilson Lima, Roriz, Arruda, Paulo Octávio e demais bandidos da quadrilha: tudo farinha do mesmo saco! Que agora conta também com Rogério Rosso e Ivelise Longhi.


É isso que queremos para Brasília? Mais um (des)governo Roriz?

INTERVENÇÃO FEDERAL JÁ!!!!


quinta-feira, 15 de abril de 2010

Brasília e a indigência política

Os dias estão sendo bons em Araxá. Não faz calor e o frio começa a chegar. A casa de meus pais se encheu de movimento, barulho e riso.

Leio as notícias de Brasília e não me surpreendo com o curso dos acontecimentos após a soltura do governador cassado José Roberto Arruda.

Por que não me surpreendo? Porque qualquer cidadão com alguns anos de observação da política de Brasília sabe que essa turma, instalada no poder desde o início da Era Roriz, não larga facilmente o osso. E acredita na impunidade acima de todas as coisas.

A Câmara Legislativa, flagrada na criminalidade e na falta de vontade no combate à corrupção, correu a se organizar para garantir a eleição indireta do novo governador. Agora, às vésperas de indicar o novo governador, tenta mudar as regras, com o jogo em movimento! Isso porque os aliados de Roriz, Arruda, PO e demais criminosos perceberam que, ao permitirem a inscrição de diversos representantes dos partidos que apóiam essa corja, correm o risco de perderem as eleições para a oposição, pela fragmentação dos votos de sua base. Agora já falam em unificar chapas, ao arrepio da lei que a própria CLDF elaborou e aprovou...

É por essas e outras que defendo a intervenção federal. Tenho certeza de que as articulações continuam sendo feitas para garantir a permanência desse grupo no poder. Mudam os nomes e caras, mas o grupo de criminosos a manipular a máquina estatal continua o mesmo. Apenas com intervenção federal total e com a "limpeza" das polícias locais Brasília conseguirá se livrar desses políticos que vem, em todos estes anos, estimulando a indigência política de sua população, para se perpetuar no poder. E não basta cassar os mandatos desse pessoal: é preciso também bloquear contas bancárias e patrimônio físico. Só assim o produto dos roubos poderá voltar aos cofres públicos.

É necessária a intervenção federal, acompanhada de uma "operação mãos limpas" em todos os poderes - executivo, judiciário e legislativo - e também nos órgãos policiais. Será descoberta uma rede enorme de conexões, que ligam integrantes desses poderes e das polícias, um emaranhado complexíssimo de relações de proteção mútua que garante a impunidade de uns e outros. Mas é preciso ir fundo nas investigações e retroceder no tempo, para neutralizar o capo dos capos, antes que ele volte triunfante à cena política do DF.

Antes de abordar o próximo assunto deste blog - a prisão do assassino dos adolescentes em Luziânia -, lembro a todos que essa é a cidade com o maior número de assassinatos no Brasil, proporcionalmente à população. E é também o local onde se originou um certo tipo de político que Brasília conhece tão bem.

Até mais!

terça-feira, 16 de março de 2010

Série: Mentiras mafiomidiáticas

Uma leitura dos jornais hoje foi suficiente para reforçar uma idéia que há tempos venho matutando para este blog: criar uma série dedicada a mostrar as mentiras e manipulações da imprensa brasileira.

Há pouco tempo realizou-se em Brasília a II Conferência Nacional da Cultura. Vocês viram notícias desse evento nos jornalões impressos e nos jornais de televisão? Não? Nem eu! À exceção da rádio Nacional FM de Brasília e do canais de TV NBR e TV Brasil, para a máfia midiática brasileira foi como se a Conferência não tivesse existido. No máximo, uma ou outra notinha escondida em páginas menos lidas.

Isso porque os eixos de discussão incluíram a expressão "quebra de monopólio". Sabem vocês que isso dá arrepios e provoca alucinações paranóides em todos no baronato encastelado nas redações Brasil afora. Quebra nº 1: monopólio das produções culturais, cujo financiamento se concentra, majoritariamente, nas produções das regiões sul e sudeste. Quebra nº 2: monopólio da comunicação, concentrado nas mãos de mais ou menos 12 famiglias de mídia, no Brasil todo.

Daí o boicote. Primeiro, os grupos mafiomidiáticos boicotaram - e tentaram desqualificar - a Conferência Nacional da Comunicação. Agora fazem o mesmo com a Conferência Nacional da Cultura. Devem achar detestável essa mania do governo Lula de fazer conferências municipais, regionais e estaduais, que mobilizam muita gente e, depois, enviam seus delegados para a conferência nacional. Esta última é que elabora as diretrizes da política pública para a área contemplada. Tem sido assim com as políticas para a educação, para as mulheres, para os negros e para a saúde. Por que não fazer o mesmo com a comunicação e com a cultura? - Porque não pode, responde a grande mídia ultrapassada pelo processo social. E não pode porque ameaça privilégios e os lucros das fábricas de notícias.

Então o que faz a mafia midiática? Realiza em São Paulo um convescote travestido de ciclo de conferências sobre a "Liberdade de expressão" (Clique para ver os novos significados mafiomidiáticos dessa expressão, conforme o jornalista Washington Araújo). Vários nomes da fina flor do reacionarismo fazem suas palestras. O tema? "O que a imprensa deve fazer para impedir que certa candidata a presidente seja eleita." Isso foi dito com todas as letras nas conferências(?) de Arnaldo Jabor, Reinaldo Azevedo, Roberto Civitta, William Waack e pelos intelectuais-pitbuls a serviço da grande mídia Demétrio Magnoli e Denis Rosenfeld, entre outros.

O evento mafiomidiático foi bastante badalado pela mafiomídia e contou também com a presença de dignos representantes do DEMOcratas, do PSDB, da Opus Dei e da TFP de priscas eras. Tivesse caído ali um meteoro destruidor, o Brasil ficaria sem direita... e quiçá sem grande imprensa!

Resumindo: naquele evento do tal Instituto Millenium foi tudo combinado: daqui para a frente a imprensa vira um partido político em defesa do seu candidato a presidente do Brasil, José Serra. E teve início o vale-tudo para desqualificar adversários, concorram eles a presidente, governador e/ou deputado/senador. E a artilharia pesada já começou. Vale qualquer tipo de associação de candidatos da esquerda com práticas ilícitas ou criminosas, mesmo que essas práticas sejam aquelas da velha direitona. Querem um exemplo?

Correio Braziliense de hoje, 16 de março de 2010, caderno Cidades, página 25: Petistas frente a frente - Agnelo e Magela participam hoje à noite do único debate antes da prévia que definirá o candidato do PT ao Buriti. A matéria é assinada por Ana Maria Campos.

Detalhe: no alto da página, à esquerda, vem um título: "Caixa de Pandora".

O leitor arguto se perguntará: Mas que sabujice é essa? Qual é a relação que existe entre os dois pré-candidatos do PT ao governo do DF e a Operação Caixa de Pandora da PF, que flagrou o governador licenciado Arruda e sua quadrilha com a mão na cumbuca? Por que esse jornal quer forçar uma associação a que ninguém se referiu, pois inexistente?

Veem que sutileza, leitores? Os capos mafiomidiáticos e seus perdigueiros pensam que somos todos tontos. E manipuláveis.

Por essas e outras decidi criar uma série neste blogue, dedicada a mostrar as mentiras e manipulações da máfia detentora dos meios de comunicação no Brasil.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Bônus demográfico

Você sabe o que é bônus demográfico?

Eu soube hoje, no blog do Nassif, quando ele comentou matéria d'
O Estado de São Paulo, relatando que se trata "de um período no qual a população economicamente ativa supera largamente a de dependentes, composta por idosos e crianças. Segundo especialistas, é uma condição propícia ao desenvolvimento de uma economia."

Diz o jornal que essa situação é algo raro na história econômica de um país. É uma "janela de oportunidade" para o crescimento econômico e acontece apenas uma vez. É como naqueles filmes em que há um portal para outra dimensão: se o herói perde o
timing, o portal se fecha e ele fica preso para sempre em uma dimensão inferior. Para aproveitar bem o bônus econômico, o país tem de "absorver a mão de obra disponível e incentivar as potencialidades da alta proporção de pessoas capazes de contribuir para a elevação da produção e da produtividade.”

A notícia boa é que o Brasil tem hoje 67,6% da população no grupo das pessoas aptas a ingressarem no mundo do trabalho, contra 32,4% de crianças e idosos, ou seja, aqueles que ainda não podem produzir e os que já deixaram seus postos de trabalho. A estimativa é que em 2020, a população trabalhadora atinja 70,4% do total da população brasileira. É um cenário futuro muito promissor, se o país souber aproveitar o bônus demográfico. Para isso, tem de investir na criação de empregos, na educação e na saúde dos brasileiros.

Notícia boa, não? Deixou-me animada e esperançosa.

Também me fez refletir. O próximo ano é de eleições para presidente e governadores. Dos candidatos autodeclarados, não declarados e totalmente no armário, tanto para o executivo federal quanto para os estaduais, preciso escolher aqueles cujo compromisso com esse investimento vá além da retórica de campanha.

Não será suficiente o discurso da competência, porque esse é facilmente desmascarado pelas notícias sobre como os governadores vem atuando nas mais diferentes situações, especialmente aquelas mais aflitivas para os cidadãos pobres. Poses marqueteiras estão dispensadas, o que vai contar é o trabalho e o resultado efetivo dele. Palavrório como "choque de gestão", "choque de capitalismo", "estado paquidérmico", essas coisas típicas do neoliberalismo, não cola mais.

Papo de experiência, como o que Serra usou contra Lula na campanha passada, esse não cola mais também. Lula provou que, mesmo sem experiência em poder executivo e com toda a mídia contra ele, é possível fazer um bom governo. (Claro que com muitas ressalvas: bom quando comparado com os que o antecederam no período pós-ditadura, dentro das regras da democracia burguesa. Mas, para minhas aspirações, teria que ser revolucionário mesmo, fazendo a reforma agrária e quebrando de vez privilégios históricos.)

Então está aí um dado para que comecemos a pensar, enquanto o bolo alimentar dos panetones mal-digeridos teima em nos dar azia.