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terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O tédio, a mídia e o nojo

 
Sabe quando você tem a sensação de que alguma coisa, que sempre fez por prazer e interesse, de repente virou obrigação e perdeu a graça? É o que está acontecendo comigo, em relação aos noticiários de televisão. Todos os dias, talvez por força do hábito, assisto a uns três programas de notícias. Mas isso tem se tornado uma atividade cada vez mais entediante, quando não indignante.

Vamos aos porquês.

Nos dois últimos anos, passei um total de quase seis meses fora do Brasil. Tive a oportunidade de conhecer a imprensa de alguns outros países, inclusive aqueles da Europa no início da atual crise econômica. Vi ali o mesmo processo de manipulação da informação, a imprensa como cúmplice das autoridades políticas que impuseram aos povos espanhol e português o amargo pacote das tais medidas de austeridade, exigidas pela Troica - Banco Central europeu, FMI e União Europeia - para que esses países recebessem ajuda financeira. "Troica" era a palavra mais ouvida nos noticiários, que convocava seus "especialistas" para afirmar que as tais medidas eram necessárias para o enfrentamento da crise do capitalismo. Bem, isso foi em 2011 e até hoje os portugueses e espanhóis, arrochados pela austeridade fiscal e monetária de seus governantes, não lograram superar a tal crise.

 Emissários da Troica: já vimos muitas vezes essa cena no Brasil...

Ano passado, estive na Austrália. Coincidência: o período era de eleições e a primeira-ministra, Julia Gillard, concorria à reeleição. Não vi ataques ferozes da mídia a ela, mas sim o debate de temas caros aos australianos, que eram colocados em pauta pela candidata ou por seu opositor. Vejam a diferença: pelos candidatos. A partir deles, toda a mídia discutia o tema pautado. E essas discussões foram evidenciando a inconsistência das propostas neoliberais do candidato da oposição, que terminou perdendo a eleição. Isso porque os australianos quiseram garantir a continuidade das políticas sociais implementadas pelos trabalhistas. Conversei com mais de uma pessoa que elogiou as medidas assistenciais implantadas pelo governo, de proteção aos mais pobres, aos desempregados e aos aposentados. E várias outras, como por exemplo aquelas destinadas aos jovens que iniciam a vida de trabalho.

Mas. (Sempre há um "mas"...)

Tudo isso me ocorre hoje, depois de assistir pela enésima vez a uma matéria sobre o risco de racionamento de energia elétrica aqui no Brasil. O estardalhaço da mídia - minha avó diria "o frege" - quer me convencer de que VAI HAVER o tal racionamento. E, de quebra, a tão propalada redução nas contas de luz não vai ocorrer. Vi isso na Globo, na Band e na Record. Os "especialistas" convidados são sempre os caras que endossam as teses dos noticiários. A Band chegou ao cúmulo de entrevistar um diretor da CPFL - empresa paulista que se opôs ao projeto do governo federal de redução das tarifas de energia. 
 
Miriam Leitão faz escola: a prática da urubulogia está se disseminando na mídia brasileira. Proliferam os jornalistas metidos a entender de todos os assuntos. Muitos deles fazem cursos de pós-graduação e, como prêmio, recebem bolsas de estudos do Instituto Milenium e da Sociedade Interamericana de Imprensa, bastiões do pensamento da direita latino-americana (se é que se pode chamar toda essa tosquice intelectual de "pensamento"!) Na América Latina, a mídia, de fato, se transformou em partido político, que leva a reboque políticos de oposição aos governos eleitos democraticamente. No momento, a urubulogia concentra suas agourentas previsões na situação venezuelana: alguns jornalistas nem disfarçam o desejo de que Hugo Chávez morra de vez, antes de tomar posse na presidência da Venezuela.

Então. Passada a preguiça, o "boring", vem o nojo - no sentido espanhol da palavra. Por que eu tenho de aturar o Bóris Casoy babando maus agouros no horário nobre? E o arzinho de revolta alarmante do William Bonner? Ora pois!

Que nojo essa mídia e seus colunistas me provocam - com poucas exceções!  É esse nojo que acende minha indignação e renova minha disposição de continuar lendo e combatendo essa cambada de gente antipovo, antiBrasil, antidemocracia!
 


quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Reparação (simbólica) histórica

Hoje o clima no plenário da Câmara dos Deputados foi de emoção. A sessão solene de restabelecimento simbólico dos mandatos dos deputados federais cassados pela ditadura militar reuniu naquele espaço figuras importantes da história recente brasileira. Você pode ver um pouco da solenidade aqui nesta matéria.

As famílias dos que já morreram, emocionadas, aceitaram a reparação. Os que ainda vivem, após receber o diploma e o bottom da Câmara, ali se sentaram, recuperando talvez a memória do tempo em que tinham mandato popular para estarem naquele espaço. Mandato que foi usurpado pelo regime militar. O discurso da brilhante deputada Luiza Erundina foi emocionante e tão mobilizador, que me renovou a disposição para continuar oferecendo minha pequena contribuição para a luta por justiça e pela punição dos que cometeram crimes sob respaldo do estado autoritário.

Foi também inaugurada a exposição Parlamento mutilado: Deputados Federais cassados pela ditadura militar de 1964, no corredor que liga o plenário aos anexos da Câmara. Ali se veem fotos, trechos de músicas e textos alusivos ao abuso e às arbitrariedades cometidas pelos militares no período 1964-1985.

No hall de entrada que antecede o corredor das comissões, foi instalado o magnífico painel do grande artista Elifas Andreato, no qual se representa a perversão das sessões de tortura, que se tornaram banais nos porões do regime militar. 


sexta-feira, 3 de junho de 2011

Brasileiros como eu e você!

Que me perdoem os leitores por insistir no tema. Depois do post anterior, foram registradas mais duas mortes de trabalhadores do campo: Erenilton Pereira dos Santos, morador do assentamento agroextrativista Praialta Piranheira, em Nova Ipixuna (PA), no sábado (28 de maio); e, de ontem para hoje, Marcos Gomes da Silva, na zona rural de Eldorado dos Carajás, também no Pará, mesmo cenário do massacre de 19 trabalhadores sem-terra em 1993.

Marcos Gomes da Silva também teve uma orelha cortada, da mesma forma que José Cláudio e Maria do Espírito Santo. Essa é a senha usada pelos pistoleiros para provar aos mandantes dos crimes que o alvo foi abatido.

Há muitos trabalhadores rurais marcados para morrer. Denúncias são feitas todos os dias, mas a garantia do direito à vida não se estende até os habitantes do Brasil profundo, terra em que a lei do capital prevalece sobre todos os princípios de defesa do meio ambiente e dos direitos humanos mais elementares. E esse Brasil profundo não está tão longe quanto você pensa, lá na longínqua floresta amazônica. Não. Ele está também em São Paulo, no Paraná, em Minas Gerais, no Tocantins, no Mato Grosso, em Alagoas, no Distrito Federal e por aí vai. Veja aqui o relato de uma trabalhadora rural jurada de morte pelos madeireiros.

Não se pode pensar que a ação dos madeireiros é isolada, porque não é. Eles são a linha de frente do avanço do latifúndio sobre a floresta. São eles que primeiro devastam as terras que irão se transformar em pastagens ou em plantações de soja. E a sanha devastadora se acelerou depois da aprovação na Câmara Federal do novo Código Florestal, com clara vitória da bancada ruralista. A certeza da impunidade tem lá seus efeitos. Leva, inclusive, uma líder da bancada ruralista no Senado Federal a dar declarações em que banaliza os assassinatos dos trabalhadores rurais.

Em apenas 10 dias, lá se foram Zé Cláudio, Maria, Dinho, Erenilton e Marcos. Nomes tão brasileiros, de brasileiros que tinham rostos, vozes, ideais. Brasileiros como eu e você!

Zé Cláudio e Maria

Adelino, o Binho

sexta-feira, 27 de maio de 2011

"Nenhum minuto de silêncio, mas toda uma vida de luta"

Tento resistir a usar apenas uma palavra para designar meu sentimento pelos acontecimentos recentes na velha guerra que se desenrola no campo brasileiro: vergonha.

Antes que me refizesse do impacto causado pela notícia do assassinato de José Cláudio e Maria do Espírito Santo, a mando de madeireiros, em Nova Ipixuna, no Pará, chega-me a informação de que ocorreu, hoje, outro assassinato: desta vez a vítima foi Dinho, sobrevivente do massacre de Corumbiara, em 1995. Dinho foi pego de surpresa pelas balas de um motoqueiro, enquanto vendia verduras perto do acampamento onde vivia com a família, na região de Porto Velho (RO).

Os companheiros dos movimentos sociais do campo realizaram manifestação na manhã de hoje na ponte rodoferroviária Carajás, sobre o rio Tocantins, em Marabá (PA), sem imaginar que poucas horas depois estariam perdendo mais um companheiro que também vinha denunciando a ação de madeireiros na região em que vivia.


Só me resta utilizar este modesto espaço de reflexão para protestar com todas as forças contra as mortes dos companheiros que lutam pela justiça no campo, e contra a repetição incessante das circunstâncias dos assassinatos. Sempre a mando da mais arcaica e atrasada modalidade de posse da terra, desde sempre na história das relações sociais brasileiras: o latifúndio.

Ou será que alguém pensa que a indústria do desmatamento não tem vinculações com os grandes proprietários de terra, aos quais interessa substituir a cobertura vegetal da região norte por capim, para alimentar as centenas de milhares de cabeças de gado que usam para ocupar ilegalmente as terras? Parece-me, inclusive, que essas mortes foram impulsionadas pela recente vitória dos ruralistas na votação das emendas ao código florestal brasileiro. Essa turma deve estar se sentindo mais poderosa do que a justiça que deixa impunes os mandantes dos assassinatos. E a impunidade é o mais claro sintoma da barbárie que se instala com estardalhaço nas relações sociais arcaicas predominantes no campo.

Impossível ficar indiferente a tanto descalabro. Enquanto nossa imprensa desvia o foco para a pretendida inadequação dos livros didáticos oferecidos pelo MEC, a guerra corre solta, cada dia com violência maior, naquele Brasil desconhecido da maioria dos brasileiros urbanos, que convenientemente não tomam conhecimento da violência e da truculência com que o latifúndio - hoje elegantemente denominado agronegócio - elimina seus opositores.

Não há minuto de silêncio dedicado a José Cláudio, Maria do Espírito Santo e Dinho; há sim a intensificação da luta pelos ideais que defenderam junto com seus companheiros e companheiras que, em todo o país, lutam pelo direito a terra, pão e trabalho.


A todos os meus amigos e amigas do MST e de todos os movimentos sociais do campo, minha irrestrita solidariedade em mais este momento de dor pela perda de tão valorosos militantes.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Ainda sobre o "livro do MEC"

- Professora, eu gosto muito das aulas de português.
- Que bom! Mas...?
- Bem, professora, essas coisas que a senhora ensina, de regência, de concordância, e tal...
- Que que tem?
- Bem, quando eu volto lá pro interior, pra fazenda do meu pai, sabe, eu não posso ficar falando do jeito que a senhora ensina aqui.
- Por que?
- Porque se eu falar com os filhos dos vaqueiros, meus amigos desde que era menino, que eu prefiro ir AO cinema A assistir À missa, eles vão falar que eu fiquei metido a besta, só porque vim estudar na cidade.
- Como assim?
- Lá, a gente tem de falar que prefere ir no cinema do que assistir missa. Senão eles pegam no pé.
- É isso. (A professora agora assumia seu ar professoral.) Você tem de saber que há situações em que pode falar errado.
- Posso?
- Pode.
- Certeza?
- Se você quiser. (A professora agora está desconfiada.) Mas também pode aproveitar e ensinar seus amigos a falarem de acordo com a norma culta que você aprende aqui na escola.
- Ah! Não, eu prefiro falar do jeito deles. Sabe como é, né? Senão eles perdem a confiança em mim.
- É uma escolha sua. Mas você sabe que, por exemplo, quando for fazer uma entrevista para emprego, não deve falar como fala quando está com seus amigos, não sabe?
- Sei sim, professora. Mas eu não vou ter esse problema não, porque eu nunca vou procurar emprego.
- Ah, não?
- Não. Eu vou é ser o dono da fazenda, quando meu pai passar ela pra mim.
- Verdade?
- Verdade. E aí eu vou fazer questão de, quando falar com eles, falar certinho, usando a norma culta.
- Mas por que?
- Ué, professora, pra marcar a diferença: patrão é patrão, né?
- É, vejo que você aprendeu bem o que significa usar a língua como instrumento de poder.
- É, graças às aulas de português.

* * *

Acredite, esse diálogo não é ficcional. Ele aconteceu mesmo, na sala de aula de uma escola pública que recebe alunos do interior de Minas. Se a professora acreditava que todos os alunos devem receber a mesma educação, sem discriminação de classe social, raça ou religião, ela deve ter se considerado bem sucedida no trabalho de ensinar aos alunos como lidar com as variações linguísticas. De fato, o aluno evidenciou a apreensão do conteúdo, não é verdade? O posterior questionamento de sua disposição em reproduzir práticas de dominação, fazendo da norma culta um instrumento para isso, também deve ter ocorrido. Essa professora teve, com certeza, tempo para levá-lo à reflexão e imagino que o tenha feito.

Pois bem. A professora ministrou um conteúdo previsto nos Parâmetros Curriculares Nacionais, os famosos PCNs, que é o da "variação linguística". Trata-se de fenômeno corriqueiro, mas que não é sistematizado pelos gramáticos, ciosos de seu papel de conservar, preservar e defender a língua (aqui restrita à concepção de norma culta, uma das suas variações) da corrupção e da degeneração que a fala cotidiana lhe provoca.

Pronto. É esse o campo fértil para a falsa polêmica que tomou a mídia brasileira nos últimos dias, levando-a a acusar o MEC de distribuir um livro didático que "ensina ao aluno que ele pode cometer erros de concordância." A mídia parece pensar que as escolas tem de ensinar apenas a norma culta, sonegando ao aluno o direito de saber que existem diferentes falares, diferentes registros para uma mesma e única língua. E que o registro culto é apenas um deles. Daí o escândalo, com direito à carranca do William (Homer Simpson) Bonner e beicinho da Fátima Bernardes em horário nobre. E na Band, o repórter msn(*) chega ao ponto de entrevistar um professor de gramática para concursos públicos. É muito amadorismo!

Nessa polêmica, faço minha a posição, bem como os argumentos, do linguista Marcos Bagno, que você pode ler AQUI. E também essas reflexões, do Miguel do Rosário, cujo mérito é nos lembrar da existência de grandes poetas como Patativa do Assaré e Luiz Gonzaga, que tão bem valorizaram outro registro de nossa língua, que não a tal norma culta.

Na falta de algo mais promissor a que se agarrar para atacar o governo - e também na tentativa de neutralizar uma possível candidatura à prefeitura de São Paulo -, nossa máfia midiática volta as baterias contra um livro didático. Mas sua munição tem o mesmo efeito de um traque: só barulho, nenhuma credibilidade.

Enquanto isso, leio no Correio Braziliense de hoje que, na Comissão de Educação do Senado, o oportunista Cristovam aproveita para ajudar a minar o governo por cuja base foi eleito. Mau caratismo, má fé ou ingenuidade?

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(*) muito sem noção!

segunda-feira, 25 de abril de 2011

"Siga o dinheiro!"

É tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo! O mundo da informação na internet às vezes se transforma no inferno da informação...

Enquanto vejo as loas da TV brasileira ao próximo casamento real no Reino Unido, acompanho também os protestos da comunidade acadêmica do CEFET-MG contra as retaliações do MEC, tuíto (adoro esses neologismos!) sem parar, vejo o que rola no facebook, comemoro a Revolução dos Cravos, assisto a vídeo do Chico Buarque cantando Tanto Mar,


Chico Buarque - Tanto Mar por mariusangol

leio as chamadas dos principais portais de notícias, passeio pelos blogs de todo dia, tuíto novamente, pesquiso no google, dou pitaco na polêmica sobre projeto de lei do RS que limita o uso de estrangeirismos, visito o sítio do Wikileaks para ler sobre os inocentes presos em Guantánamo, enfim, passo a manhã em atividade frenética frente ao computador.

Como processar tudo isso? É preciso não esquecer que todo esse mundo de informações circulando sem cessar tem origem em uma realidade, um chão social marcado por duríssimas disputas, por guerras, por massacres, por destruições, por ideologias, por manipulações, por imposições, por disfarces e por dissimulações.

Não sou otimista na análise do mundo e do meu país. De vez em quando bate um cansaço, uma preguiça, um desânimo, como se fosse a repetição incessante do mesmo filme: preconceitos de toda ordem são disseminados impunemente, sob o beneplácito dos meios de comunicação, das escolas, das religiões, enfim, daqueles aparelhos ideológicos que fazem com que as coisas pareçam mudar para que fiquem como sempre foram.

Mas é como disse um pensador italiano: a gente tem de ser pessimista na análise, sempre, para que a indignação e a vontade de fazer as mudanças impulsionem nossa ação, nossa interação com outras pessoas tomadas pelos mesmos sentimentos e pela mesma vontade de perseguir o que parece ser utópico, mas tem lá sua concretude a nos esperar no horizonte em construção.

Pois então. Ao mencionar preconceitos que grassam por aqui e alhures, detenho-me no sentimento que parece predominar em relação aos mais pobres. Desde que um operário foi presidente da república, o ódio de classe tão laboriosamente escondido nas relações sociais passou a aflorar em manifestações incontidas de preconceito. Porque é impensável, para o pensamento elitista, que um pobre saiba mais o que fazer para melhorar o país do que os ricos que o precederam foram capazes de saber. Porque é impensável que os pobres recusem o tratamento paternalista a eles dispensados pelos ricos, que se recusem a ser tutelados, que se recusem a viver de favores.

Sim. Porque o favor e o jeitinho são historicamente os subterfúgios utilizados pelos ricos para manter os pobres na dependência, como se não fossem capazes de gerir os próprios destinos. Vejamos algumas situações de hoje, que perpetuam esse vício arcaico da nossa sociedade.

Sérgio Bianchi, em seus filmes Quanto vale ou é por quilo? e Cronicamente inviável, representa bem essas relações, já também representadas na nossa literatura, desde Machado de Assis - o primeiro é uma adaptação do genial conto "Pai contra mãe". Depois de assistir aos filmes de Bianchi, você pode se perguntar: por que ele "desanca" as OnG (organizações não governamentais)?

Mas, se prestar atenção, verá que não são as OnG o objeto de sua crítica: elas são apenas a roupagem contemporânea da velha relação entre elite e pobreza. E não é difícil comprovar isso, no contato direto com a realidade dos pobres no Brasil. As OnG ocuparam o lugar que antes era monopolizado pela velha figura do "atravessador". Só que elas se especializaram em "atravessar" dinheiro público, obviamente em troca de um naco respeitável do recurso intermediado. Assim, os filhos das classes média e alta criam suas OnG e apresentam aos governos federal, estaduais e municipais projetos sociais, ambientais, agrícolas, que irão beneficiar pobres nas cidades, preservar o meio ambiente, ajudar os agricultores familiares, etc etc, para os quais requerem recursos.

Agora vejam uma situação que presenciei: 1) uma prefeitura, em (in)voluntária cumplicidade com uma OnG, especifica as medidas que deverão ter os alimentos a serem adquiridos para a merenda escolar do município (por força de lei, 30% desses alimentos devem ser comprados da agricultura familiar); 2) a OnG convoca uma cooperativa dos pequenos produtores para fornecer os produtos; 3) a cooperativa convoca as associações dos assentamentos para fornecerem os produtos; 4) as associações mobilizam seus assentados para suprir a demanda da prefeitura.

Primeiro problema: para atender às especificações da prefeitura, não é possível que os produtos sejam cultivados sem adubos químicos. Adeus, merenda saudável. E lá vão os pequenos agricultores aderir às práticas do latifúndio, não porque o queiram, mas por imposição da necessidade de sobrevivência.

Segundo problema: do preço contratado para a produção, 30% ficam com a OnG, 20% com a cooperativa, 10% com a associação. Sobram 50% para serem divididos entre os agricultores, proporcionalmente ao que cada um conseguir produzir. Isso os obriga a baixar os preços e os desanima de continuar fornecendo seus produtos para o município.

Agora me diga: por que um esquema desses funciona? A resposta é simples, ou, como diriam dois jornalistas americanos de antigamente: "Siga o dinheiro!"



sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

"Democracia, essa palavra!"


Sinceramente, acho uma forçação de barra a aproximação que alguns conhecidos tem feito entre a ditadura egípcia e a cubana. Ao contrário do que fazem com Cuba, ninguém descia a lenha no governo egípcio antes de o povo do Egito se mobilizar para derrubar o ditador. Por que? Ora, por que... Simplesmente se tratava de uma ditadura pró-EUA e pró-Israel. Ou seja, na geopolítica mundial, o Egito é um estado estratégico para esses dois países no Oriente Médio.

As novas gerações talvez não saibam - e muitos das velhas gerações talvez tenham convenientemente se esquecido disso - mas a história recente do Egito é uma história de golpes e cooptação. O tal Mubarak estava no poder desde 7 de outubro de 1981, ou seja, tomou o governo um dia depois do assassinato do presidente Anwar El-Sadat durante um desfile militar. O ditador consolidou um governo subserviente ao ocidente e implementou as mesmas medidas econômicas adotadas pelos países subdesenvolvidos durante os anos 90, de orientação neoliberal. O empobrecimento da população foi progressivo, embora o governo recebesse grande aporte de recursos ocidentais.

Hoje se sabe que quem saiu rico dessa história recente foi Mubarak, com gorda conta bancária na Suíça, dinheiro afanado de seu próprio povo, durante um dos governos mais corruptos do planeta. Agora resta esperar o fim da festa para vermos como vai se dar a composição inicial da nascente democracia egípcia. E torcer para que a onda de levantes populares atinja outras ditaduras da região - Oriente Médio e África - todas elas alinhadas com as potências ocidentais.

Eis o que me intriga. Não se criticam os regimes da Síria (ditadura militar desde 1970), da Líbia (ditadura militar desde 1969), Arábia Saudita (monarquia absoluta desde 1992), sem falar nos sultanatos que proliferam por ali, servidos por grande número de miseráveis. Também não se criticam as ditaduras de países africanos, como o Sudão (ditadura militar desde 1989) e a Mauritânia (ditadura militar desde 1984), ou as asiáticas. Não se cobra com a mesma ênfase o respeito aos direitos humanos nesses países, não se critica a falta de liberdade de expressão, mesmo sabendo que a internet é censurada na Líbia há três anos.

- "Ditadura é ditadura, não importa se de direita ou de esquerda" - é o que ouço sempre. E concordo. O que não dá para concordar é com os pesos diferentes para fazer o julgamento desta ou daquela ditadura. A imprensa ocidental ficou 30 anos quietinha em relaçao ao Egito. E continua calada em relação a outras ditaduras. A China, por exemplo, deixou de ser cobrada por desrespeitar os direitos humanos depois que seu governante anunciou a intenção de incrementar o comércio bilateral com os EUA... Melhor exportar 200 aeronaves do que exigir que o governo chinês liberte dissidentes, não? Como num passe de mágica, a ditadura chinesa praticamente se tornou invisível nos noticiários, depois disso. Como diriam os branquelos do norte, "it's capitalism, stupid!"

Resta lembrar que prender pessoas sem direito a julgamento justo não é exclusividade das ditaduras, mas ocorre também na mais propalada democracia do mundo, que são os EUA. Guantánamo é a prova de que os direitos humanos são desrespeitados também pela grande nação americana. Nem se fale em Abu-Graib ou na prisão militar onde está sob "interrogatório", sem direito a advogado de defesa, o acusado de vazar informações para o site Wikileaks.

Que tal a gente começar a pensar nos movimentos midiáticos que nos induzem a classificar este ou aquele país como uma ditadura? Só pra começar a exercer nossa independência intelectual...

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

"Brás Cubas, o professor e o vagabundo", por Gustavo Arnt

Em uma espécie de continuidade do post anterior, sobre Educação, publico hoje texto que recebi de um amigo, Gustavo Arnt, professor da rede pública do DF. O alerta é importante: a impressão que o GDF passa para a categoria dos professores é a de que "tudo mudou para ficar do jeito que sempre foi".

O alerta vai para a secretaria de educação, mas a questão mais grave apontada pelo autor é o sintoma da indigência política que assola a sociedade brasiliense, historicamente governada por grupos reacionários e corruptos. Se uma sociedade é o reflexo de seus governantes, eis aí o quadro analisado por Gustavo Arnt.


Brás Cubas, o professor e o vagabundo

Como é de conhecimento da maioria, infelizmente o governador Agnelo (a quem apoiei durante as campanhas e de quem ainda espero que faça um governo responsável) começou metendo os pés pelas mãos no que diz respeito à educação do Distrito Federal. Depois de nomear uma diretora morta, a Secretaria de Educação conseguiu a proeza de se superar: no dia 20 de janeiro, em quarenta minutos, convocou e “desconvocou” 1545 professores aprovados em concurso público para tomarem posse entre os dias 24 e 27 de janeiro. Sem ao menos apresentar um pedido de desculpas formal, a Secretaria simplesmente informou que não há verba para a contratação dos professores efetivos – embora desde o ano passado a equipe de transição já soubesse da enorme carência de professores na rede e pudesse ter incluído a verba necessária no orçamento; embora a mesma secretaria tenha realizado um concurso para mais de 6 mil professores temporários no dia 16 de janeiro; e embora tenha dinheiro para estádio de futebol, criação de novas secretarias, propaganda na televisão, etc., etc.

Hoje, dia 24 de janeiro, um grande grupo formado por professores aprovados no concurso, por professores efetivos do quadro da Secretaria de Educação e por representantes do SINPRO e do SINPROEP se reuniu em frente ao Palácio do Buriti para fazer uma manifestação e cobrar a nomeação imediata dos professores – em respeito aos aprovados, em respeito à categoria e em respeito aos alunos, que não podem começar o ano letivo com 1545 professores a menos em sala de aula.

Assim como costumavam fazer seus antecessores Arruda e Roriz, o governador Agnelo não apareceu, tampouco a secretária de educação, Regina Vinhaes. No entanto, mandaram seus legítimos representantes, amplamente capacitados para lidar com situações que dizem respeito aos direitos dos cidadãos: os gentis policiais! Esses, que em sua maioria enviam seus filhos para a escola pública, se viram na curiosa posição de ter de garantir que os professores que dariam aula para seus filhos não se manifestassem! Felizmente, no entanto, o movimento dos professores conseguiu se manter vivo e continuou o seu protesto, que, adianto, não alcançou o resultado esperado, já que a comissão de negociação conseguiu apenas a promessa de uma nova reunião na próxima semana, a sete dias do início do ano letivo... Em nome dos estudantes que começarão o ano letivo sem professor, gostaria, portanto, de parabenizar o governo pela agilidade e competência com que trata as questões relativas à área que ele alega ser uma de suas prioridades.

Contudo, apesar desse quadro surreal instaurado na educação do DF, o que motivou este texto não foram apenas as peripécias do governo. Fiquei particularmente tocado com a manifestação de dezenas de motoristas que passavam nas poucas faixas do Eixão liberadas pelos manifestantes. Feridos no seu direito de transitar a toda velocidade pelas pistas largas da capital, Brás Cubas e companhia, do interior do conforto de seus carros com ar-condicionado e vidro fumê, bradavam: “Vagabundos!”; “Vão trabalhar!”; “Seus desocupados!”. Alguns professores, indignados, reagiam, lançando impropérios de volta, embora seus ofensores já não pudessem mais ouvi-los. Dado o alto número de manifestações simpáticas da população motorizada, é evidente que não se trata de um gesto isolado, mas de uma ideologia amplamente difundida e arraigada, presente tanto na voz dos motoristas quanto na fala de apresentadores de televisão (quem não se lembra de Alexandre Garcia chamando professores grevistas de vagabundos e do Correio Braziliense argumentando que esses mesmos professores eram criminosos?) e na opinião até de pais e alunos, alimentados ferozmente pelo discurso dessa mídia.

Ensina um velho pensador morto, sepultado e, não esqueçam, inequivocamente superado (seria ele também um vadio?), a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante. Sendo assim, vale a pena rastrear alguns dos fundamentos históricos que sustentam os gritos que acusam os professores de serem vagabundos. Ora, segundo a definição corrente, vagabundo é aquele que leva a vida no ócio, é indolente, vadio, não tem ocupação ou não trabalha (confesso não conhecer professor assim). Vocês vão se lembrar de que já no Império, em 1830, com medo dos efeitos do crescente aumento da população negra livre no país, a elite brasileira tratou de publicar a Lei da Vadiagem, que condenava aqueles que não tivessem ocupação honesta e útil para subsistir após advertidos por um juiz! Por incrível que pareça, a vadiagem continua sendo crime (contravenção) no Brasil – lembrem-se de que não há desemprego neste país -, constando no artigo 59 da Lei de Contravenções do Código Penal. Para aumentar ainda mais a desfaçatez, o ato ainda é inafiançável!

Como se diz na TV – e o excelentíssimo ministro do STF Gilmar Mendes não se cansa de repetir -, a justiça está acima dos interesses prementes da população (aqui entenda-se pobres), devendo prezar, acima de tudo, pelo cumprimento da Lei (entenda-se prezar pelos interesses dos ricos). Essa boa mentalidade é o que levou, por exemplo, a prefeitura de Assis, no Estado de São Paulo, a voltar a aplicar severamente a Lei da Vadiagem. Essa boa mentalidade é o que certamente levaria os tão justamente indignados motoristas do Eixão a clamarem pela prisão imediata daquela “Cambada de vagabundos!” que se manifestava em frente ao palácio do governo pedindo emprego!

Pensemos, porém, um pouco mais no significado da Lei da Vadiagem. Sob a justificativa de proteger toda a população do convívio com “vadios”, “desocupados” e “mendigos”, as elites, por meio de seu aparelho jurídico e repressivo, encontram na dita lei mais um meio de criminalizar a pobreza – afinal, se um brasileiro não tem emprego, certamente é por opção! Prova inequívoca do caráter de classe da lei (que desde sua origem esteve vinculada à raça – os vadios eram os negros) e dos impropérios é o fato de que os Brás Cubas que vivem do patrimônio familiar, da terra usurpada aos trabalhadores rurais, da mais-valia, etc. jamais são ou seriam enquadrados nessa lei. Curioso também notar que os simpáticos motoristas não notaram que eles próprios, às dez da manhã ou às três horas da tarde de uma segunda-feira, não estavam trabalhando, ao passo que os professores “Vagabundos!” estavam reivindicando o seu direito de trabalhar!

Isso me deixou confuso, leitor. Quem é, afinal, o vagabundo?

Gustavo Arnt – preto, pobre e professor

P.S.: Conclamo que compareçam à próxima manifestação, que ocorrerá na segunda-feira (31), às 9h, em frente ao Palácio do Buriti!

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Qual é a lógica, Agnelo?

Acompanho a formação do secretariado do futuro governador de Brasília, Agnelo Queiroz, com algum interesse e, também, alguma decepção. Penso que em toda indicação deve haver uma lógica, que sempre procuro entender, embora nem sempre concorde com ela.

Assim, entendo a indicação de nomes do PMDB para certos cargos. Em Brasília, todo mundo sabe quem é honesto e quem não é, no trato com a coisa pública. É possível até prever que nomes se envolverão em escândalos de denúncias, no caso dos peemedebistas escolhidos para compor o secretariado.

Como o leque das alianças foi muito amplo - desnecessariamente, a meu ver, porque era previsível que Roriz ficaria inelegível sem tempo suficiente para construir um substituto -, o futuro governador agora trata de contemplar todos os partidos que o apoiaram na campanha. Nada mais justo, desde que todos os integrantes sejam avaliados no primeiro ano de mandato e, caso não estejam à altura dos cargos que ocupam, sejam devidamente defenestrados deles.

Como vemos, leitores e leitoras, toda indicação tem sua lógica. Menos uma, a meu ver: a indicação de um integrante do PPS para o secretariado. Por mais que pense e reflita sobre isso, não consigo atinar com a lógica por trás da iniciativa. Que diabos!

O PPS é um partido que fez parte dos piores governos da história recente do DF. Basta lembrar que Augustus Contasabertas era um dos secretários do cassado Arruda. E que sobre ele pesam acusações de complicada defesa, no âmbito da Operação Caixa de Pandora. No hiato de sua saída do ex-governo Arruda e a nova eleição, os políticos do PPS ficaram sem pai nem mãe. Cães lazarentos que ninguém queria por perto. E não é que correram a se oferecer para compor a coligação que elegeria Agnelo Queiroz?...

Minha surpresa foi eles terem sido aceitos na coligação. Não eram necessários, não traziam contribuição alguma à campanha. Pelo contrário, a presença deles comprometia ainda mais a já fragilizada força ética da coligação. De fato, nem campanha fizeram. Cansei de ver carros de militantes do PPS portando adesivos que pediam votos para Agnelo e... Serra! O partido era de oposição ao governo federal, mas teve candidatos na coligação das forças políticas que combatia. Impressionante! Alguém me explica essa lógica?

Agora me surpreendo com a indicação de um deles para secretário. O outro, felizmente, não se elegeu, mas eu não me surpreenderei se voltar ao trato com a coisa pública pelas mãos do futuro secretário. E eu gostaria de alertar Agnelo para a bobagem que está fazendo: colocar esse pessoal no seu governo é trazer a oposição golpista para dentro da máquina pública, deixando-a à vontade para todo tipo de sabotagem, para dizer o mínimo.

Provavelmente Agnelo Queiroz não é leitor deste blog. Minha esperança é que alguém faça chegar a ele estas reflexões, de modo a saber que, para além das costuras políticas que o ocupam neste momento, há pessoas que esperam muito de seu governo, principalmente pela promessa ética que sua eleição descortina para o Distrito Federal.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O Pacheco esteve aqui!

Na noite da última quinta-feira, 25/11, parei tudo que me ocupava e fui para a Escola Classe da 304 Norte, a 100 metros da minha casa, participar de evento da maior importância para a educação brasiliense.

Trata-se da escola pública em que a Sofia, minha neta, vai estudar a partir do próximo ano. Nela estudaram também minhas filhas, nos anos 80 do século passado.

(Ai! como o tempo voa! Já sou uma pessoa que fala com a maior naturalidade de coisas que vivenciei "no século passado"!)

Já naquela época a escola reunia um grupo de pais e mães de alunos muito participativos, preocupados com a qualidade da educação. Mas preocupados, acima de tudo, em que a escola se tornasse um espaço não de reprodução das relações sociais, e sim de questionamento permanente dessas relações. Não queríamos a escola que "padronizasse" nossos filhos, mas que nos ajudasse a dar-lhes uma formação cidadã, crítica e autônoma. Notem: isso foi lá pelos idos de 1985-88.

Houve boas brigas. Fomos a primeira Associação de Pais e Mestres a utilizar o instrumento jurídico da ação popular, instituída pela Constituição de 1988, para obrigar o governo do DF a negociar com o Sindicato dos Professores, em greve havia 45 dias. O difícil foi desmentir a imprensa local, que dizia ser essa uma iniciativa para acabar com a greve, contrária ao movimento dos professores. Nossa APM também resistiu contra a exoneração da diretora da escola, nossa querida e comprometida Bete, rechaçando a vinda de uma interventora nomeada na calada da noite pela então Fundação Educacional do DF. Foram muitas reuniões, muita discussão, muitas idéias, muitas iniciativas inovadoras. Não me queixo daqueles anos: graças a esse movimento minhas filhas se tornaram boas leitoras, críticas, politizadas e sensíveis.

Mas vamos ao Pacheco. Ele foi diretor da
Escola da Ponte, em Portugal, desde sua criação, em 1976, até há pouco mais de dois anos. Não preciso falar aqui dessa escola, já por demais conhecida pelos educadores brasileiros. Suas palestras são muito concorridas, professores e estudantes gostam de ouvi-lo falar, empolgam-se com o relato de suas vivências, de como se tornou educador "por vingança", de como a escola que dirigiu deixou de ser "um lixão" para se consagrar como modelo de uma educação emancipadora, trabalhando com conceitos libertários de disciplina e responsabilidade, enfrentando a violência presente no dia-a-dia das comunidades excluídas. Pacheco fala com muita convicção, com muita paixão, com forte embasamento crítico-teórico.

Esse educador português fez questão de realçar em sua palestra o grande número de iniciativas inovadoras em educação, dizendo que há no Brasil muitas "escolas invisíveis", que conseguem bons resultados com seus alunos rompendo os padrões estabelecidos da educação alienadora. E a boa nova é que ele participará de um projeto conjunto da Escola Classe 304 Norte e a Faculdade de Educação da Universidade de Brasília, como apoiador da direção, dos professores e dos pais dos alunos, na prática educacional do diálogo, da solidariedade e da autonomia. E a minha filha faz parte do grupo de pais que correram atrás de um projeto novo para a educação de seus filhos. E é para a turminha da Sofia que primeiro se descortinarão as mil novas possibilidades de aprendizagem e de "ensinagem", como diz o Pacheco, sempre brincando com assuntos sérios.

Ao final da palestra, fui tomada por aquela sensação de estar conhecendo pessoalmente alguém com quem vinha mantendo, pela leitura de seus textos, sintonia fina, desde muito tempo. A sensação de conhecer aquele professor, de compartilhar suas expectativas, de ser solidária com sua história, com sua formação de esquerda, com suas propostas para a educação. E não pude resistir a uma pergunta emocionada:

- Onde é que você estava em dezembro de 1985, quando um grupo de jovens pais e mães de alunos desta escola iniciava intuitivamente uma revolução na forma de educar seus filhos?

Hoje, 25 anos depois de vivenciar tantas angústias, tantas dúvidas, tanta insegurança e de lutar com convicção contra a educação que tínhamos certeza de não querer, vejo que não tivemos José Pacheco - ocupadíssimo em revolucionar a educação em Portugal -, mas vieram em nosso socorro Paulo Freire, Anísio Teixeira, Darci Ribeiro, Demerval Saviani e Lauro de Oliveira Lima; com este último aprendi que "o homem está em permanente reconstrução: por isso é livre: liberdade é o direito de transformar-se".

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Chico, o Jabuti é seu!

Vamos aos fatos.

Existe um prêmio para livros no Brasil, o Jabuti, desde 1958, que consagra os melhores de um conjunto de 21 categorias, por ano. Em 2010 tivemos a 52ª edição, que premiou escritores de diferentes áreas do conhecimento. Pois bem, na categoria Romance, o resultado divulgado pelos três jurados foi o seguinte:

1) Se eu fechar o olhos agora, de Edney Silvestre;

2) Leite derramado, de Chico Buarque de Holanda;

3) Os espiões, de Luis Fernando Veríssimo.

Além de premiar os três primeiros classificados com a famosa estatueta, o Jabuti escolhe também o "livro do ano" em cada uma das categorias. Aí é que entra a premiação em dinheiro, com 100 mil reais para o primeiro lugar. O júri que faz a escolha do livro do ano é o chamado "júri profissional": em vez dos três jurados que classificam os ganhadores da estatueta em cada uma das categorias, trata-se agora do voto de todos os associados das organizações responsáveis pelo Jabuti, ou seja, a própria Câmara Brasileira do Livro, o Sindicato Nacional dos Editores de Livros, a Associação Nacional das Livrarias e a Associação Brasileira de Difusão do Livro. Não é pouca gente, de jeito nenhum.

Este ano o Jabuti teve ainda uma novidade: o "júri popular", que contabilizou mais de 5 mil votos, via intenet.

Leite derramado, de Chico Buarque, foi vencedor tanto na votação do júri profissional quanto na do júri popular. Por isso consagrou-se como o livro do ano de 2010.



Mas um representante da Record, editora do livro de Edney Silvestre, não gostou nem um pouco do resultado que deu a vitória a Chico. Está questionando a CBL, embora tivesse conhecimento dos critérios de escolha dos vencedores com bastante antecedência à votação e divulgação do resultado. O protesto desse senhor resultou em um abaixo-assinado que circula na internet, intitulado "Devolve o Jabuti, Chico". Dei uma olhada no documento, cuja argumentação é pífia. Não convence nem a mim, quanto mais ao Chico! Além disso, passei os olhos pelos signatários e - por que não me surpreendi? Está na cara que o documento é forjado, pois se diz "informal" e dispensa as pessoas de colocar seus nomes na íntegra. Brincadeira! Ou melhor, mais uma das investidas da direita cansada, agora de dedo em riste para o Chico.


Que me perdoe o Sr. Sérgio Machado, mas seu esperneio está me parecendo mesmo "choro de perdedor", como disse o curador do prêmio Jabuti. E a Record bem que podia passar sem essa; afinal é uma honra ser vencido pelo grande escritor em que Chico se transformou, na melhor linhagem machadiana. Uma nau de arte literária em um mar em que bóiam tantos grumetes pós-modernos.

domingo, 17 de outubro de 2010

A política no século XXI

Quando adolescente, eu costumava fantasiar sobre como seria a vida no século XXI. Em um mundo tecnologicamente desenvolvido, eu pensava que não haveria mais pobreza, nem religião, nem concentração de riqueza e de terra, nem falta de pão e trabalho. Mas já faz muito tempo que eu tinha essas fantasias e hoje vejo que era uma adolescente com alguma fé no ser humano e naquilo que lhe dá sua qualidade intrínseca: a humanidade.

O tempo se encarregou de desmentir minhas expectativas e me obrigar a colocar os pés no chão assustador da realidade, ainda muito jovem, quando me dei conta de estar vivendo com toda a intensidade os tempos da ditadura empresarial-militar que, pela supressão das liberdades e direitos individuais e coletivos, dominou o Brasil de 1964 a 1985.

Qualquer pessoa com um mínimo de independência intelectual não hesitaria em se posicionar contra o regime empresarial-militar, em lutar pelo retorno à democracia, em apoiar os movimentos populares duramente reprimidos quando da derrubada do presidente João Goulart. Assim o fizeram milhares de estudantes secundaristas e universitários, levados pela violência do regime a adotar a luta armada. Era uma guerra, sim, o que estávamos vivendo. Guerra muito desigual, porque o lado opressor contava com a cumplicidade do capital e dos meios de comunicação. Basta dizer que as organizações Globo e Folha da Tarde (hoje Folha de São Paulo) foram notáveis colaboradoras dos militares, contribuindo para fixar no imaginário popular a imagem dos opositores como "guerrilheiros", "terroristas" e "bandidos".

Hoje vejo jovens que sequer imaginam o que é viver sob uma ditadura repetindo nas redes sociais da internet os bordões daqueles que oprimiram o povo brasileiro por duas décadas. Isso me deixa perplexa! No jogo político-eleitoral que vivenciamos, o vocabulário repressivo dos militares foi reativado nos discursos, nos artigos de jornais e nos noticiários televisivos. O quadro é claro: há de um lado o candidato dos conservadores, que pugna contra o desenvolvimento brasileiro dos últimos oito anos; de outro, a candidata que representa a manutenção e a continuidade das políticas públicas que possibilitaram esse desenvolvimento.

Neste momento importante da vida nacional, que é o segundo turno das eleições, saem das sombras atores políticos inimagináveis. As igrejas adquirem dimensão inusitada, em pleno século XXI. As acusações irresponsáveis afloram por todos os lados. Esquecem os acusadores que não estamos elegendo o líder de um estado autocrático, mas o chefe do poder executivo que deverá governar em sintonia com os demais poderes da república. Jamais um presidente ou presidenta poderá impor políticas públicas sem o respaldo desses outros poderes.

Mas não. Os arcebispos/bispos e pastores ultraconservadores preferem abusar da ignorância dos fiéis a esclarecer-lhes que não vivemos em um estado teocrático e que, durante suas escolhas, estão exercendo o mais valioso dos poderes que sua condição humana lhes permite exercer: o livre-arbítrio. Preferem embotar a mente dos que creem nos ensinamentos religiosos com o veneno do preconceito mal disfarçado de pregação religiosa.

E devagarinho, depois que grande estrago já está feito, vamos descobrindo as ligações perigosas entre as religiões e os políticos. Assim é que o pastor Malafaia surge como alvo da promessa de concessão de um canal de TV só para suas pregações; assim é que o arcebispo Fergonzini, de Guarulhos, é desmascarado por ter como financiadora da impressão de seus panfletos caluniosos uma organização integralista, ou neofascista, usando uma gráfica cuja proprietária é filiada ao mesmo partido de um dos candidatos. E mais a pergunta que não quer calar: quem financia toda essa baixaria?

Pois é. Estamos vivendo um processo político-eleitoral no século XXI cujo maior mérito é desnudar o caráter medieval que continua presidindo as relações política-igreja(s) no Brasil contemporâneo. É uma arena em que a sinceridade não tem vez e leva até os ateus mais notórios a fingirem que são candidatos ao papado e não à presidência da república. Enquanto isso a mídia acumpliciada fecha os olhos e finge não existir uma perguntinha básica, a ser respondida por um dos candidatos: quem é Paulo (Preto) Sousa e o que ele sabe?

Nunca disfarcei neste espaço a minha posição política. Todos os meus 29 leitores inscritos e também os outros não inscritos sabem que voto em Dilma Rousseff porque, neste momento, é ela que representa a continuidade do melhor governo que o Brasil já teve, o governo mais fiscalizado pela mídia, o mais criticado, o mais caluniado. Eleita, Dilma enfrentará as mesmas críticas e calúnias, agravadas pelo fato de ser mulher.


Não tenho mais ilusões. O Brasil tem demonstrado que ainda não tirou o pé do passado escravista, racista e classista. Mas temos que lutar - e muito - para termos o verdadeiro estado laico. Nenhuma religião tem propriedade exclusiva do cristianismo. É preciso não confundir a instituição "igreja(s)" com os ensinamentos que ela tão habilmente deturpa, em prejuízo do povo brasileiro.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Curso com a Turma Augusto Boal, do MST

Na semana de 12 a 18 de setembro, estive novamente com a Turma Augusto Boal, na Universidade Federal do Piauí. Foi nosso último módulo da disciplina Literatura no curso de licenciatura em Artes para os integrantes do MST.

Trabalhamos inicialmente com o texto "A nova narrativa", do nosso querido Antonio Candido, e dele retiramos alguns conceitos fundamentais para o entendimento da narrativa contemporânea. É impressionante o quanto os alunos valorizam a contribuição crítica deste que é, hoje, o maior intelectual brasileiro, militante e comprometido.


Depois de Candido, defrontamo-nos com Clarice Lispector. Primeiro, o "aperitivo": o conto "Felicidade clandestina", que motivou comentários muito interessantes, sobre as relações de dominação/opressão baseadas na posse: 1) do livro como mercadoria; 2) da literatura como arte que constitui e ao mesmo tempo resiste à forma mercadoria. Mas isso era apenas uma preparação para a grande leitura que viria:
A paixão segundo GH.


Feita a leitura nos Núcleos de Base, gastamos um dia inteiro na discussão desse romance. Posso dizer que o primeiro contato da turma com Clarice foi bastante proveitoso. A todo momento alguém lembrava do conceito de "literatura de dois gumes", também do mestre Candido, que havíamos trabalhado no módulo anterior. Foi interessante abordar a narrativa clariceana também na perspectiva do processo social brasileiro. Foi muito bom polemizar sobre o conceito de narrativa intimista. Após a leitura, uma boa produção de texto.

Depois foi a hora de enfrentar
Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa. Detivemo-nos especialmente no trecho em que Riobaldo relata o encontro dos jagunços com os catrumanos. Foi o ponto de partida para discutirmos a literatura também como representação do processo de modernização do capitalismo à brasileira.

O texto de apoio para a leitura de Grande sertão: veredas foi "O mundo misturado", de Davi Arrigucci Jr. E foi muito interessante perceber o sertão como o mundo e o mundo como o sertão: as relações e os interesses dos grupos sociais ali representados, a complexidade do processo de formação do estado brasileiro, tendo por base a violência, e o compromisso da literatura com a representação desse processo. Mas o melhor da semana ainda estava por vir: a leitura do conto "Meu tio, o iauaretê", também do Rosa. Para essa, contamos com o texto de apoio "As artes da meaça", de Hermenegildo Bastos.

A leitura desse conto foi muito instigante para a turma. O texto foi lido em voz alta, para aproveitar ao máximo a proximidade da linguagem com a oralidade. Discutimos o significado de esse conto ter sido escrito em um momento em que os movimentos campesinos começavam a se organizar no Brasil. Debatemos o fato de o personagem Tonho Tigreiro ser o último de seu povo e de, junto com ele, morrer também sua língua e sua cultura. Merece notar aqui a empatia que se estabeleceu entre os leitores e o personagem: à medida que a leitura avançava, havia gente torcendo para que ele não morresse...

No último dia, nossa aula foi - paulofreireanamente - à sombra dos cajueiros em flor. Não na UFPI, mas no local onde os alunos estavam hospedados. E a pergunta que lhes ficou, para novas leituras, foi: "Qual é a relação entre a literatura e a sociedade, hoje?"

Tenho de registrar a alegria que foi a noite cultural da quarta-feira. Nas apresentações, os alunos já evidenciaram aproveitamento das leituras dos dias anteriores. Muita música, poesia, uma mística maravilhosa, feita por essa turma que tem muitos artistas:


Mas impagável mesmo foi o momento em que a turma viu a imagem e ouviu a voz do prof. Hermenegildo via internet. Depois de ler seus textos, depois de me ouvirem mencioná-lo "n" vezes durante os cursos, todos querem conhecê-lo. Pois é, acho que ele vai acabar enfrentando o calor de Teresina, muito em breve.

Vale a pena, sempre, ir a Teresina pela Turma Augusto Boal. Eu volto a Brasília me sentindo mais humana, com a certeza de que construímos um conhecimento valioso da literatura e do Brasil. E de que, com nossa prática, estamos formando mais do que professores, simplesmente: estamos formando intelectuais orgânicos, militantes e comprometidos.