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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

"Democracia, essa palavra!"


Sinceramente, acho uma forçação de barra a aproximação que alguns conhecidos tem feito entre a ditadura egípcia e a cubana. Ao contrário do que fazem com Cuba, ninguém descia a lenha no governo egípcio antes de o povo do Egito se mobilizar para derrubar o ditador. Por que? Ora, por que... Simplesmente se tratava de uma ditadura pró-EUA e pró-Israel. Ou seja, na geopolítica mundial, o Egito é um estado estratégico para esses dois países no Oriente Médio.

As novas gerações talvez não saibam - e muitos das velhas gerações talvez tenham convenientemente se esquecido disso - mas a história recente do Egito é uma história de golpes e cooptação. O tal Mubarak estava no poder desde 7 de outubro de 1981, ou seja, tomou o governo um dia depois do assassinato do presidente Anwar El-Sadat durante um desfile militar. O ditador consolidou um governo subserviente ao ocidente e implementou as mesmas medidas econômicas adotadas pelos países subdesenvolvidos durante os anos 90, de orientação neoliberal. O empobrecimento da população foi progressivo, embora o governo recebesse grande aporte de recursos ocidentais.

Hoje se sabe que quem saiu rico dessa história recente foi Mubarak, com gorda conta bancária na Suíça, dinheiro afanado de seu próprio povo, durante um dos governos mais corruptos do planeta. Agora resta esperar o fim da festa para vermos como vai se dar a composição inicial da nascente democracia egípcia. E torcer para que a onda de levantes populares atinja outras ditaduras da região - Oriente Médio e África - todas elas alinhadas com as potências ocidentais.

Eis o que me intriga. Não se criticam os regimes da Síria (ditadura militar desde 1970), da Líbia (ditadura militar desde 1969), Arábia Saudita (monarquia absoluta desde 1992), sem falar nos sultanatos que proliferam por ali, servidos por grande número de miseráveis. Também não se criticam as ditaduras de países africanos, como o Sudão (ditadura militar desde 1989) e a Mauritânia (ditadura militar desde 1984), ou as asiáticas. Não se cobra com a mesma ênfase o respeito aos direitos humanos nesses países, não se critica a falta de liberdade de expressão, mesmo sabendo que a internet é censurada na Líbia há três anos.

- "Ditadura é ditadura, não importa se de direita ou de esquerda" - é o que ouço sempre. E concordo. O que não dá para concordar é com os pesos diferentes para fazer o julgamento desta ou daquela ditadura. A imprensa ocidental ficou 30 anos quietinha em relaçao ao Egito. E continua calada em relação a outras ditaduras. A China, por exemplo, deixou de ser cobrada por desrespeitar os direitos humanos depois que seu governante anunciou a intenção de incrementar o comércio bilateral com os EUA... Melhor exportar 200 aeronaves do que exigir que o governo chinês liberte dissidentes, não? Como num passe de mágica, a ditadura chinesa praticamente se tornou invisível nos noticiários, depois disso. Como diriam os branquelos do norte, "it's capitalism, stupid!"

Resta lembrar que prender pessoas sem direito a julgamento justo não é exclusividade das ditaduras, mas ocorre também na mais propalada democracia do mundo, que são os EUA. Guantánamo é a prova de que os direitos humanos são desrespeitados também pela grande nação americana. Nem se fale em Abu-Graib ou na prisão militar onde está sob "interrogatório", sem direito a advogado de defesa, o acusado de vazar informações para o site Wikileaks.

Que tal a gente começar a pensar nos movimentos midiáticos que nos induzem a classificar este ou aquele país como uma ditadura? Só pra começar a exercer nossa independência intelectual...

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O Pacheco esteve aqui!

Na noite da última quinta-feira, 25/11, parei tudo que me ocupava e fui para a Escola Classe da 304 Norte, a 100 metros da minha casa, participar de evento da maior importância para a educação brasiliense.

Trata-se da escola pública em que a Sofia, minha neta, vai estudar a partir do próximo ano. Nela estudaram também minhas filhas, nos anos 80 do século passado.

(Ai! como o tempo voa! Já sou uma pessoa que fala com a maior naturalidade de coisas que vivenciei "no século passado"!)

Já naquela época a escola reunia um grupo de pais e mães de alunos muito participativos, preocupados com a qualidade da educação. Mas preocupados, acima de tudo, em que a escola se tornasse um espaço não de reprodução das relações sociais, e sim de questionamento permanente dessas relações. Não queríamos a escola que "padronizasse" nossos filhos, mas que nos ajudasse a dar-lhes uma formação cidadã, crítica e autônoma. Notem: isso foi lá pelos idos de 1985-88.

Houve boas brigas. Fomos a primeira Associação de Pais e Mestres a utilizar o instrumento jurídico da ação popular, instituída pela Constituição de 1988, para obrigar o governo do DF a negociar com o Sindicato dos Professores, em greve havia 45 dias. O difícil foi desmentir a imprensa local, que dizia ser essa uma iniciativa para acabar com a greve, contrária ao movimento dos professores. Nossa APM também resistiu contra a exoneração da diretora da escola, nossa querida e comprometida Bete, rechaçando a vinda de uma interventora nomeada na calada da noite pela então Fundação Educacional do DF. Foram muitas reuniões, muita discussão, muitas idéias, muitas iniciativas inovadoras. Não me queixo daqueles anos: graças a esse movimento minhas filhas se tornaram boas leitoras, críticas, politizadas e sensíveis.

Mas vamos ao Pacheco. Ele foi diretor da
Escola da Ponte, em Portugal, desde sua criação, em 1976, até há pouco mais de dois anos. Não preciso falar aqui dessa escola, já por demais conhecida pelos educadores brasileiros. Suas palestras são muito concorridas, professores e estudantes gostam de ouvi-lo falar, empolgam-se com o relato de suas vivências, de como se tornou educador "por vingança", de como a escola que dirigiu deixou de ser "um lixão" para se consagrar como modelo de uma educação emancipadora, trabalhando com conceitos libertários de disciplina e responsabilidade, enfrentando a violência presente no dia-a-dia das comunidades excluídas. Pacheco fala com muita convicção, com muita paixão, com forte embasamento crítico-teórico.

Esse educador português fez questão de realçar em sua palestra o grande número de iniciativas inovadoras em educação, dizendo que há no Brasil muitas "escolas invisíveis", que conseguem bons resultados com seus alunos rompendo os padrões estabelecidos da educação alienadora. E a boa nova é que ele participará de um projeto conjunto da Escola Classe 304 Norte e a Faculdade de Educação da Universidade de Brasília, como apoiador da direção, dos professores e dos pais dos alunos, na prática educacional do diálogo, da solidariedade e da autonomia. E a minha filha faz parte do grupo de pais que correram atrás de um projeto novo para a educação de seus filhos. E é para a turminha da Sofia que primeiro se descortinarão as mil novas possibilidades de aprendizagem e de "ensinagem", como diz o Pacheco, sempre brincando com assuntos sérios.

Ao final da palestra, fui tomada por aquela sensação de estar conhecendo pessoalmente alguém com quem vinha mantendo, pela leitura de seus textos, sintonia fina, desde muito tempo. A sensação de conhecer aquele professor, de compartilhar suas expectativas, de ser solidária com sua história, com sua formação de esquerda, com suas propostas para a educação. E não pude resistir a uma pergunta emocionada:

- Onde é que você estava em dezembro de 1985, quando um grupo de jovens pais e mães de alunos desta escola iniciava intuitivamente uma revolução na forma de educar seus filhos?

Hoje, 25 anos depois de vivenciar tantas angústias, tantas dúvidas, tanta insegurança e de lutar com convicção contra a educação que tínhamos certeza de não querer, vejo que não tivemos José Pacheco - ocupadíssimo em revolucionar a educação em Portugal -, mas vieram em nosso socorro Paulo Freire, Anísio Teixeira, Darci Ribeiro, Demerval Saviani e Lauro de Oliveira Lima; com este último aprendi que "o homem está em permanente reconstrução: por isso é livre: liberdade é o direito de transformar-se".

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Exercício de criatividade

Hoje não escreverei sobre nada. Apenas proponho aos leitores um exercício de criatividade, a partir da imagem que recolhi na internet e que faz alusão a acontecimentos recentes no Brasil.

Cada um tem plena liberdade de escrever aquilo que lhe vem à cabeça quando vê isto:



Então, mãos à obra. Espero receber contribuições interessantes nos comentários.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O dia em que São Paulo parou IV


- Não entendo... Como vim parar aqui?

Selma olha a sua volta e reconhece imagens guardadas em algum canto da memória. Vinte anos depois de ir para São Paulo, vê-se agora inexplicavelmente transportada para sua cidadezinha no interior do Maranhão, de onde saiu aos dezesseis anos em busca de futuro melhor.

Amanhece. Ela nota que está de chinelos e com a camisola que vestiu ao se deitar ontem. Não se lembra de mais nada, apenas de ter se deitado para dormir.

Olha em frente e lá está a rua em que morava quando criança. Não há mais a sua casa, mas no lugar dela um predinho com loja de duas portas no térreo, uma varandinha logo acima da marquise e duas janelas com cortinas claras.

- Quem será que mora aqui agora?

Faz um gesto para alcançar a campainha, mas se detém. Pensa que é muito cedo, deve ter gente ainda dormindo lá dentro. Espera.

Na outra calçada da rua sem movimento, alguém abre um portão pintado de vermelho. Uma mulher sai e fica olhando para Selma.

- Marinalva? Graças a Deus! Lembra de mim?

- Selma?! Vixe, é você mesmo? Não acredito! Mas que faz aqui, assim, de camisola? Corre, dê cá um abraço!

Amigas de infância sofrida e adolescência idem, as duas se encontram no meio da rua vazia. Um abraço demorado traz de volta antigos afetos, reconhecem-se como se o tempo não tivesse passado.

- Vem cá pra dentro, acabei de passar o café, já ia comprar o pão. Vem, amiga, a casa é sua. Eles ainda estão dormindo, meu marido e meus filhos, mas daqui a pouco acordam.

Na casa modesta Selma conta a Marinalva o que não sabe. Não sabe como veio parar ali, não se lembra do que aconteceu.

- Sabe? Agora há pouco no rádio deu uma notícia de coisas estranhas acontecendo em São Paulo. Gente que desapareceu, muita gente mesmo. Diz que a cidade está na maior confusão.

- Ah, Marinalva, então eu sou uma das pessoas que desapareceram. Não tem outra explicação.

- Toma, amiga, veste esta roupa minha, vamos até a padaria. Quem sabe a gente fica sabendo de mais alguma coisa lá?

Selma está perplexa. Quer saber onde estão as outras pessoas de sua família, que ficaram para trás quando ela fugiu para São Paulo. Pai, mãe, irmã e irmãos.

- Toda a sua família foi pra São Luís, pouco tempo depois que você sumiu. Acho que seu pai tinha esperança de encontrar você lá...

Saem rumo à padaria. No caminho, encontram outras pessoas vagando pelas ruas, desnorteadas.

- Vixe! Não foi só você que voltou, Selma! Olha ali o Nonatinho, lembra dele? Estava em São Paulo também. Aqueles outros eu não conheço, mas aquela senhora mais velha parece a mãe da Deusina, lembra? Ela largou a família e sumiu, já faz uns dez anos!

- Jesus! Que confusão é essa, amiga? O que que nós estamos fazendo aqui? Será que um poder maior despachou todos os nordestinos de São Paulo de volta pro Nordeste?

- Sei não, amiga! Vamos ver se na padaria as pessoas estão comentando alguma coisa...

O cheirinho do pão fresco no ar lembra aquele das manhãs paulistanas, quando Selma vai cedinho comprar o pãozinho para o café da manhã da família.

Na padaria, seu Manoel está em uma manhã agitada. Muita gente estranha aparece para pedir informação. Homens e mulheres querem saber o nome da cidade, dizem não saber o que fazem ali. Em meio aos aromas de pão e café, ele repete a notícia que ouviu no rádio:

- Sumiu muita gente de São Paulo. Se a senhora mora lá, então vai ver que é por isso que está aqui.

- Sumiu como, Seu Manoel? Aqui, encontrei a Selma, que saiu daqui há vinte anos... Ela foi pra São Paulo e apareceu lá na rua em que a gente morava!

- Eu eu sei, Marinalva? Só sei que esse povo todo apareceu na cidade de manhãzinha, todo mundo meio tonto, desnorteado. O que eu posso fazer é repetir a notícia que deu no rádio hoje cedo. Diz que São Paulo amanheceu bem vazia...

- Será que os nordestinos todos resolveram voltar? Mas a Selma nem sabe como veio parar aqui...

- Disse no rádio que não foram só os nordestinos, não. Todo mundo que não era de lá sumiu.

- Meu Deus! Ai, Marinalva, que que eu faço? Eu tenho uma vida lá em São Paulo!

- Então, amiga! Vamos lá em casa ligar a televisão e ver se tem mais alguma notícia. Já está na hora de começarem os jornais. Mas me conta, como é sua vida lá?

Selma quase começa a contar sua história em São Paulo, mas alguma coisa a faz se calar. Pensa que Marinalva está lá, no mesmo lugar, com sua casa, seu marido e seus filhos. E ela? Durante todo esse tempo, ficou trabalhando de casa em casa, até parar mais tempo com uma família. De seu, tem apenas o que cabe no quarto de empregada. Ah, para que contar isso a alguém?

Sua cidade natal está bem maior agora, tem asfalto, energia elétrica, comércio. Dói pensar que talvez devesse ter ficado. Fugiu em busca de futuro, vive em São Paulo uma vida apagada, sempre trabalhando e morando nas casas de outros. E se tivesse ficado? Será que teria uma vida igual à de Marinalva?...

Pela TV, as amigas veem: São Paulo está parada, vazia, caótica. Como uma cidade amanhece assim, sem metade de sua população, da noite para o dia?

(continua...)

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O dia em que São Paulo parou III

Ela tenta chegar a casa com as crianças. Mas o trânsito está confuso. Há carros abandonados nas ruas, com as portas abertas. Qualquer obstáculo torna muito lenta a ida para seu condomínio nos Jardins.

Embora a cidade esteja estranhamente vazia de gente nas ruas, está também estranhamente desorganizada, com lojas fechadas, semáforos desligados, aparência de abandono. Era para o trânsito ser mais ágil, mas ocorre o contrário.

Liga o rádio e tem de apertar várias vezes o botão, até conseguir sintonizar uma emissora. Apenas música. Nada de noticiário. Continua dirigindo. No banco de trás, uma das meninas pergunta:

- Mãe, por que está tudo diferente hoje? Não tem ônibus e táxi, só uns poucos...

- Não sei, filha, só sei que temos de chegar em casa rápido e ficar lá, esperando tudo voltar ao normal. Quem sabe a Selma já chegou?

Já é quase meio-dia, quando começa a descer a rua onde fica seu prédio. Olha para um e outro lado e percebe que o lugar, sempre movimentado, tem as lojinhas fechadas e pouca gente a pé. Mas vê que a padaria de seu Alonso está aberta. Dá uma paradinha, abre o vidro do carro e vê o dono lá dentro, com ar de desorientação.

- Ei, seu Alonso, tudo bem aí?

- Hem?... Ah, sim, tá tudo bem... acho... não sei. Os empregados não vieram, nem o padeiro que contratei em Minas apareceu, hoje não pude vender pão...

- Olha, seu Alonso, estão dizendo que está tendo ataque do PCC pela cidade. Acho melhor o senhor fechar a padaria e ir para casa...

Acelerou sem esperar resposta, porque uma buzina tocava atrás de seu carro.

Acionou o controle remoto para abrir o portão de entrada do condomínio e percebeu que o porteiro não estava. Chegava finalmente à segurança do prédio, dentro em pouco estaria em casa com as meninas. Era só esperar que o marido também chegasse.

Nada da Selma, nenhum telefonema, nenhuma explicação. Resolve olhar o quarto da empregada. Tudo está como se ela não tivesse saído: a cama desarrumada - "Engraçado, parece que ela se deitou ontem à noite e depois resolveu sair..." - as roupas no armário, os sapatos na pequena prateleira do canto, a bolsa sobre o criadinho, com tudo dentro: carteira, dinheiro, documentos. Começa a pensar que a Selma não saiu à noite, parece ter sido levada.

O marido chega depois de alguns minutos. Está com cara de incrédulo, tem um ar de perplexidade.

- Querida, você não imagina como está a cidade. Parece que não tem gente suficiente para garantir que tudo continue funcionando! Está um caos!

- Ah, sabe o que eu acho? Isso não é coisa do PCC, de jeito nenhum! Parece que milhões de pessoas simplesmente desapareceram. Sumiram! A Sofia está na internet, conversando com as amiguinhas e elas estão dizendo a mesma coisa: que sumiu muita gente.

- Pois é, lá no escritório, algumas pessoas não apareceram. A dona Socorro, a Yoko, o Eustáquio... Engraçado, são todos funcionários que tem famílias em outros estados! Mas será...?

Ele não quer acreditar no que acaba de pensar. Será que sumiram só os que não são de São Paulo?!

- Peraí! O porteiro do nosso prédio é do Ceará... A dona Socorro uma vez me disse que nasceu na Bahia... O Eustáquio veio de Minas há um ano... A Yoko foi contratada quando ainda morava em Curitiba, onde nasceu... Será que é isso?!

- Você quer dizer que sumiram todos os que não são de São Paulo? Ih, pode ser isso mesmo... O seu Alonso da padaria disse que o padeiro, que também é de Minas, não apareceu. Ai, meu Deus! A Selma é do Maranhão, vai ver foi por isso que desapareceu! Tudo dela está lá no quarto, do jeitinho que ela deixou ontem, quando foi dormir!

Correram os dois para a frente da TV, exatamente no momento em que o noticiário mostrava uma São Paulo como eles nunca tinham visto: milhares de carros abandonados nas ruas, semáforos desligados, linhas do metrô com trens parados.

- Muda o canal, vamos ver mais!

Hospitais com muitos leitos vazios e com falta de muitos funcionários; escolas, colégios e universidades sem funcionar por falta de muitos alunos, professores, funcionários... Prédios inteiros de apartamentos completamente vazios, casas abandonadas com as portas abertas...

- Que loucura! Jamais pensei que fosse ver São Paulo assim!

Nesta tarde, ficam em casa, com a TV fica ligada. Todos parecem perplexos e intrigados. Buscam explicações para o fenômeno do desaparecimento dos migrantes da cidade. Até alguns apresentadores de programas televisivos estão ausentes, as transmissões são precárias, porque faltam muitos funcionários também nos meios de comunicação.

Enquanto esperam, tentam imaginar a cidade tão enorme, tão cosmopolita, agora meio vazia, ou meio cheia, depende do ponto de vista: cheia de paulistanos da gema, vazia de todos os migrantes que a fazem funcionar. Quase instintivamente, o casal chega à janela do apartamento.


Pela primeira vez marido e mulher não sabem explicar por que, mas sentem no ar uma sombra de perigo e ameaça, indefinida...

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O dia em que São Paulo parou

(O texto a seguir é ficcional. Qualquer semelhança com fatos ou pessoas reais não é mera coincidência, visto que a arte imita a vida e vice-versa.)

Acordou estranhando o silêncio naquela quarta-feira. Não ouviu o costumeiro barulho na cozinha, não sentiu o cheirinho do café fresco, sentiu falta de alguém cantarolando baixinho.

- Selma?... Selma!... Ué, cadê a Selma, gente? Cadê o café da manhã?

Logo veio o marido e ela estava atrapalhada na cozinha, tentando preparar o café da manhã, antes que as crianças saíssem do quarto.

- Cadê a Selma?

- Não sei, não está aqui.

- Será que ela não dormiu em casa? Mas ela nos deu "boa noite" ontem, dizendo que ia dormir...

- Pois é, não dormiu aqui. E sabe-se lá a que horas vai chegar...

Chegam as crianças, duas garotas de 10 e 12 anos, já com roupa de escola. Olham em volta e veem que é um daqueles raros dias em que a Selma não está em casa. Veem a mãe tirando queijo, leite e suco da geladeira. Pão, só o de ontem, porque a Selma é que devia ter comprado cedinho... Café tem de ser o solúvel mesmo, a água já estava fervendo no microondas.

- Engraçado, a televisão não está passando o jornal matinal - diz o pai.

- Hoje está um dia muito esquisito, querido... fala a mãe. - Estou achando o ar mais silencioso, não ouço o barulho dos ônibus e já são quase 8 horas... Será greve dos rodoviários?

- Terminaram, meninas? Então vamos, já estamos atrasadas - diz a mãe. Tchau, querido, bom dia! Depois de deixar as meninas na escola, vou fazer as compras do mês. Quando eu voltar a Selma já estará aqui, para guardar tudo e fazer o almoço.

- Tchau, querida, vejo você à noite. Ah, quem me dera poder vir almoçar com vocês... Impossível, com o trânsito de São Paulo! - falou isso com orgulho de ser paulistano.


Mal andou dois quarteirões e ele já está irritado com o trânsito, mais lento do que o normal. Não vê aquela quantidade enorme de ônibus que sempre o atrapalham, apenas três ou quatro. Mas está vendo muito mais carros na rua.

- "Deve ser greve" - pensa. "Saco! Todo dia tem alguma coisa para atrapalhar."

Atrasado, coloca o carro no estacionamento pago, a meio quarteirão do escritório. No caminho, percebe que a banca de revistas está fechada. Estranha. Sempre compra o jornal antes de entrar no centro empresarial e bate um papo rápido com seu Nonato, o dono da banca, que conhece há mais de 10 anos.

Ele sempre dá uma passadinha rápida no café do térreo do centro empresarial, compra um para viagem e sobe pelo elevador. Mas hoje só há três garçonetes, em vez das oito habituais. Fila no caixa. Desiste do café, corre para pegar o elevador. Ao descer no andar do escritório, percebe que está mais vazio. Vários colegas de trabalho ainda não chegaram: o Eustáquio, a Yoko, o Gilvan, a Socorro, o Raoni...

- É, deve ser greve mesmo. De rodoviários, metroviários, sei lá...

Mal se senta e seu celular começa a tocar. É a esposa:

- Querido, não sei o que fazer. A escola está sem um terço dos professores. A diretora não sabe o que aconteceu, ninguém avisou nada. A Clarinha tem professor para três horários e a Sofia para dois. Que que eu faço?

- Será que os professores estão em greve?! Mas não, é escola privada, não tem greve, né?

- Não, parece que eles simplesmente faltaram, não chegaram para trabalhar.

- Ah, então, leva as meninas para casa. Melhor, leva elas para as compras com você, depois vão todas para casa. Amanhã a coisa deve se normalizar.

De novo a irritação, porque o telefone do escritório toca sem parar. Droga! Despede-se rapidinho da mulher e atende, porque a Socorro não está. É a Flavinha, estagiária:

- Doutor, tô ligando pra avisar que hoje não vai dar pra chegar aí, aqui em Itaquera tá a maior confusão, trânsito parado, lojas fechadas, canteiros de obras vazios. Ninguém sabe o que está acontecendo.

- Ah, Flavinha, deve ser alguma greve...

- Não é, não, doutor. É alguma coisa estranha, estão faltando pessoas nas ruas, nas casas, nas lojas, nos prédios em construção... Tudo muito esquisito, parece que sumiu todo mundo... Os nossos vizinhos da frente saíram e deixaram a casa aberta.

- Tá bem, Flavinha, não esquenta. Se não der pra chegar aqui, fique em casa. Tchau!

Esquisito. Ele percebe que está mesmo é faltando gente na cidade. São Paulo sempre tem tanta gente nas ruas. Mas agora, olhando pela janela do escritório, ele vê bem menos gente transitando. No prédio em que trabalha, o movimento dos corredores está reduzido.

Liga de novo a mulher:

- Querido, tá a maior confusão no supermercado. Faltam vários funcionários, não tem reposição de produtos, não tem açougueiro, nem padeiro, pouquíssimos caixas. Não sei como vou fazer as compras...

- É, querida, tem alguma coisa errada. Tá faltando gente em vários lugares da cidade.

- Olha, aqui tem uma televisão ligada e vai ter edição extra do jornal. Vou desligar e te ligo de novo, pode ser alguma notícia para a gente saber o que está acontecendo.

Enquanto espera, ele liga o computador e busca notícias nos portais dos principais jornais. Nada, apenas uma notícia de que o maior hospital da cidade está funcionando de forma precária, porque muitos profissionais não compareceram ao trabalho.

Volta a tocar o celular. E a mulher:

- Ai, querido, a notícia que deu na televisão é de que São Paulo amanheceu com menos de 50% da população. Será possível? Para onde foi todo mundo? Ah, liguei lá em casa e a Selma ainda não apareceu...

- Pois é, alguma coisa aconteceu e as notícias são insuficientes. Eu jurava que era alguma greve, mas agora começo a pensar que é outro ataque do PCC, sei lá...

- Ai, querido, vou pra casa agora mesmo com as crianças. Dá um jeito de ir você também, tá? Não demora, está me dando um medo...

- Calma, bem! Vai com calma, não se preocupe com as compras. Eu também vou, encontro vocês em casa.
(Continua...)

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Casa de vó

Todas as crianças deveriam poder exercer a liberdade de serem crianças, fase que é vivida, na nossa sociedade, somente até o momento em que são levadas à escola pela primeira vez.

Digo isso porque há crianças que, antes de irem à escola e mesmo depois que atingem a idade escolar, são vítimas da necessidade que as obriga a trabalhar. Essas não podem, definitiva e irreversivelmente, exercer a liberdade de serem crianças, que lhes é inerente. Ela lhes é sonegada enquanto vivem a vida que lhes é permitido viver, em seu universo regido pelo signo da pobreza.

Cartaz do Ministério do Trabalho, da campanha contra o trabalho infantil

Se todas as crianças tivessem assegurados os direitos a uma vida plena, seria encantador ver em todas elas o exercício da liberdade. Esse encantamento, provavelmente, duraria apenas até o momento em que seu comportamento começa a ser moldado para que se transformem em cidadãos. É assim que a mídia denomina os consumidores de hoje e é nisso que serão transformadas as crianças após passarem pelo aparelho ideológico da escola: bons consumidores, bons leitores de rótulos.

Na escola elas aprendem a ler, a escrever e a fazer contas. Começam a conhecer o funcionamento do mundo, da natureza, da sociedade em que vivem. São, também, adestradas para se enquadrarem perfeitamente nos papéis que essa sociedade lhes reserva.


Enquadrar. Essa é a palavra para designar a função preponderante das instituições que frequentamos durante a vida. Na sociedade produtora de mercadorias, como a nossa, essa função é uma das que integram o processo pelo qual nos transformamos em coisas. E, como coisas, valemos tanto quanto somos capazes de consumir. Quanto mais temos, mais valemos. Assim somos vistos nas instituições que presidem nossas vidas: na escola, no trabalho, no culto religioso, no condomínio, na academia de ginástica, no trânsito...

Ainda bem que a educação tem dois gumes: ao mesmo tempo em que aliena e enquadra, pode fazer germinar, pelo conhecimento, a emancipação. Por isso nem sempre a escola, por si só, é eficaz para alienar. Ela pode ser, também, espaço para questionar a própria educação e a sociedade. É o que aprendemos com Paulo Freire.

Enquanto essas idéias me ocorrem, aguardo o momento em que acenarei para minha neta, que me vê à janela do apartamento, enquanto brinca no parquinho do jardim de infância. Ao me ver, lá de dentro do espaço escolar, ela sabe que aqui é um lugar onde pode exercer sua liberdade.