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sábado, 3 de março de 2012

O passado é pedagógico III (e último!)


Alguns dias das férias, eu os passava na casa de minha avó materna, que morava no outro lado da cidade. Ela era dessas pessoas que sabem como fazer um neto ou uma neta feliz. Tinha comigo conversas longas e me deixava livre para brincar em um córrego que cortava a rua, junto com outras crianças dali. Todos nós andávamos descalços, brincávamos na terra e na água, jogávamos bola, jogávamos pedras no mato com estilingue, subíamos em árvores, soltávamos pipa e jogávamos bolas de gude. De tardinha, banho tomado, ficávamos ouvindo as conversas dos adultos nas varandinhas das casas ou na rua mesmo.

Meninos brincando - Candido Portinari
Uma vez, ao chegar para as benditas férias, os meninos e meninas da vizinhança só falavam de uma nova vizinha. A mãe era brava e a filha era linda como um anjo, eles nunca tinham visto mais bonita. A menina quase não saía de casa. Só ia para a escola de mãos dadas com a mãe, só voltava para casa com ela. Tinha a mesma idade que eu – uns dez anos. Loira, cabelos lisos e longos, olhos muito azuis, narizinho de boneca de louça... Ficava perto da janela e nós víamos, da rua, a mãe penteando-lhe os cabelos.

Um dia me enchi de coragem e, chegando perto da janela, falei com ela:

- Quer brincar com a gente?
- Não...
- Por que?
- Minha mãe disse que vocês são todos sujos e que devem estar cheios de perebas...
- Ah!
- E também eu não brinco com meninos, só com meninas.
- Ah...
- Se você quiser brincar aqui em casa, eu peço pra minha mãe.
- Não, não precisa falar... Eu gosto de brincar é aqui fora, na rua mesmo. Com os meninos.
- Tá. Tchau.
- Tchau.

E todo dia, quando brincávamos, sempre tínhamos de parar a bola para esperar a mãe passar com a menina que parecia um bibelô.

No ginásio, a coisa não foi muito diferente. Sim, sou do tempo do ginásio e estudava inglês e francês! Pelo menos a escola pública fazia a gente conviver com a diversidade: tinha gente muito mais pobre que eu, tinha negros, tinha feios. E tinha as meninas e os meninos ricos, que pareciam mais bem vestidos, bonitos e limpos dentro do mesmo uniforme. Dos professores, alguns foram marcantes: a de língua portuguesa dos dois primeiros anos sempre jurava que iria me reprovar; a de educação moral e cívica ficava a aula inteira repetindo o discurso da ditadura militar sobre os valores da pátria e da família – era preguiçosa, não escrevia no quadro de giz e nem se levantava da cadeira. Nos dois últimos anos do ginasial, o professor de português, além de me obrigar a aprender gramática e a gostar de escrever, me ensinou também a gostar de literatura.

Escrevo hoje pensando nele, professor João Rios, que, no início de cada ano, passava uma lista de livros para serem lidos até o final do período. Ninguém precisava comprar, estavam todos na biblioteca municipal. De vez em quando a bibliotecária, uma velhinha beata, exercia seu poder de censura e não deixava a gente levar os livros que julgava impróprios para menores. Tínhamos de ouvir um sermão sobre os valores da família cristã ameaçados pela má literatura. Aí o pau comia: seu João fazia uma visita à biblioteca e, quando voltávamos, a senhorinha estava uma seda. Líamos de Dostoievsky a Jorge Amado, de Camus a Graciliano Ramos, de Flaubert a García Márquez. De vez em quando, seu João fazia uma pausa nas aulas de gramática, sorteava um dos livros da lista e falava longamente sobre ele. Entenderam? Era um professor que nos fazia ler, mas não havia prova de leitura, nem fichamento de livro para avaliação, nada dessas coisas. E quando, nessa pausa, ele falava sobre um livro que eu já havia lido era como se abrisse novas janelas para o mundo. Para entender o mundo.



Não sei como eu conseguia ler quase dez livros por ano, nos dois anos que estudei com seu João. Eu era rueira, não parava em casa, tinha colegas e amigos pela cidade toda. Gostava de nadar no clube dos pobres. Lá, de vez em quando, apareciam técnicos esportivos, que nos ensinavam natação e vôlei. Eu acho que eram contratados pela prefeitura e que o clube era público, mas nunca me preocupei com isso. Houve um tal Eli, que ensinava as modalidades de natação e promovia até competições em cidades vizinhas. Teve também um seu Raimundo, que ensinava natação e vôlei. Era um chato, mas era bom técnico. Depois de anos que saí da cidade, tive notícia dele pela Internet, sempre ligado aos esportes.

Hoje meu irmão me conta que esse era um projeto do Ministério do Exército, durante a ditadura militar. Tratava-se de não deixar os jovens enveredarem pelo caminho da política, enquanto seu tempo era todo tomado por compromisso com os treinadores, que os levavam a competições e atuavam como verdadeiros preceptores, aproveitando as lições do esporte para ensinarem também valores, geralmente os mais reacionários, hegemônicos na época da ditadura militar.

Mas acho que isso não teve influência sobre mim. Enquanto praticava esportes e era, sem perceber, manipulada para ser despolitizada, tinha, em contrapartida, um valoroso professor de literatura me abrindo janelas para entender o mundo e fazer as escolhas ideológicas que me tornaram quem sou hoje.

Por isso posso dizer que sobrevivi a duas pragas: o preconceito social e a ditadura militar.



sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O passado é pedagógico I


Os fatos que passo a narrar não são ficcionais. Os nomes é que foram trocados, para que ninguém se sinta molestado. Nada mais verdadeiro que o velho ditado: "recordar é viver".


Na cidade em que nasci fazer literatura dava muito prestígio social. Aquela merdinha de lugar tinha uma academia de letras e seus membros se reuniam uma vez por mês, num velho prédio que tinha um piso também velho de tábuas que rangiam. Lá, saboreavam quitutes e liam uns para os outros poemas, trechos de romances “em processo”, contos, trovinhas, essas coisas. Detalhe: não havia uma mulher no grupo e os caras vestiam ternos para ir às reuniões, que aconteciam na noite da última sexta-feira de cada mês.

A gente, criança, ficava na porta do prédio, na rua principal, vendo os vinte e cinco chegarem, às sete da noite. Chegavam a pé, vindo dos dois lados do quarteirão, às vezes em dois ou três. Depois que contávamos os últimos, íamos para a sessão do cinema, no prédio ao lado, assistir pela quinta ou sexta vez ao mesmo filme de faroeste. Era bom. A gente assoviava, batia os pés no assoalho de madeira acompanhando a música e torcia para a cavalaria acabar com os índios.

O cinema era quase de graça. Também o filme ficava em cartaz mais de um mês. A gente podia ir porque era baratinho. Todo mundo limpinho, cabelos penteados, sapatos engraxados. Assim era mais fácil passar pelo Xaveco, uma espécie de vigilante de menores, que não deixava entrar criança com idade menor que a indicada pela censura. Parêntese: Sim, era tempo de censura a filmes, livros e qualquer forma de arte considerada ameaçadora. Fecha parêntese. E lá dentro, no escuro, era a maior farra. Bolinhas de papel de bala, traques, até pó-de-mico uma vez soltaram no cinema. Tinha um lanterninha que de vez em quando saía puxando um pela orelha, debaixo de vaias.

Minha cidade, quando nasci há mais de meio século, não era tão pequena assim. Digo, era pequena, mas tinha certa arrogância de sociedade bem frequentada por gente de fora, que praticava esportes de elite, como o tênis. Nasci em uma estância hidromineral, com águas termais e certa tradição turística. No balneário, um hotel enorme e caro, ligado ao prédio dos banhos, domina o cenário. Era lá que meu pai trabalhava de porteiro. E minha mãe, de camareira, em outro hotel, mais modesto, frequentado por funcionários públicos do estado.

Sou de uma família pobre: salários baixos, oito bocas para alimentar e algum conformismo fizeram com que nos aboletássemos numa casa modesta, com vizinhança igual à gente mesmo. Escola pública, longas caminhadas, filhos começando a trabalhar cedo, com doze ou treze anos. Mãe fazia pé-de-moleque pra gente vender na rua: o sol quente, o caminho de poeira, os vizinhos comprando mais por solidariedade que por necessidade.

Quando entrei para a escola comecei a aprender coisas que me seguiriam por toda a vida. Não as coisas que os livros traziam, mas outras. Tive uma professora que achava uma ofensa eu ser pobre. Como é que pode, uma menina loira de olhos verdes, tipo europeu, com sobrenome italiano? Se fosse preta ou mulatinha, a gente entendia... Ah! Dona Lola, sempre mal-humorada. Um dia, fui a única da turma que, no ditado, escreveu “piscina” com o “sc”. As riquinhas, que usavam sapatos de couro, saias plissadas e blusas brancas de algodão, todas erraram. Só a pobretona da saia pregueada, blusa de poliéster e sapato de borracha acertou.

- Onde você aprendeu essa palavra, menina?
- Numa placa lá da piscina que a gente nada.
- É? E que piscina é essa?
- Do tênis clube.
- Sei... aquela da água verde-escuro?
- É sim senhora. A gente nada lá. E tem uma placa escrito assim: “No recinto da piscina, somente com roupa de banho”. Foi lá que eu aprendi.

Dona Lola estava debruçada sobre minha carteira, com os grandes olhos castanhos muito perto da minha cara. Fechou a cara por um segundo, mas logo se aprumou e jogou a cabeça para trás, gargalhando duas ou três vezes. Quando olhou novamente para a frente, estava séria.

- Quer dizer que você lê placas, né? Muito bem.

Eu tinha oito anos e não entendi o que era aquilo. Só mais tarde, juntando outros episódios da minha vida, com outros personagens, é que eu viria a vislumbrar um certo ódio, maior que o simples preconceito, que fazia as pessoas não aceitarem uma criança branca, loira, bonita e... pobre! Era um problema lidar com isso: os ricos e remediados não admitiam que eu fosse pobre e os pobres não me aceitavam porque eu parecia rica. Mas foi mais fácil conviver com a garotada que andava descalça, encatarrada e moleca, do que com as professoras, as coleguinhas ricas, os padres, os professores e todos os tipos que tinham algum prestígio na cidade.

No grupo escolar, aprendi que aluno pobre, no recreio, brincava de um lado do pátio sem invadir o outro lado, isso depois de comer o arroz-doce ralo e quase cru servido só para os que eram da “caixinha”, os que não tinham dinheiro para levar seu próprio lanche. Também as turmas eram divididas em adiantadas e atrasadas e por coincidência nas primeiras estavam os filhos dos ricos e nas segundas os filhos dos pobres. O meu caso era uma chateação, porque me destacava na leitura e na escrita, o que obrigou a diretora a me colocar na turma dos adiantados. Daí minha inadequação, que incomodava mais os outros que a mim mesma. No geral, as professoras que tive nos primeiros anos escolares foram inexpressivas: só Dona Lola me marcou, pelo preconceito declarado e assumido.


O irônico desta história é que Dona Lola não era branca. Hoje tenho a certeza de que, com seus lábios grossos e sua pele parda, minha tão sensível professora era mestiça.

domingo, 12 de junho de 2011

"Eta trem bão", essa escola!

Cada vez que vou a um evento na Escola Classe 304 Norte volto convencida de que é uma escola pública muito boa. Nela estudaram minhas filhas. Agora estuda minha neta mais velha. Sim, sim, eu sei que o tempo está passando e tenho que pintar o cabelo com cada vez mais frequência. Por isso é sempre bom registrar essas recordações, antes que se percam na areia difusa de um passado que ajudei a escrever.

Eu já narrei AQUI um pouco de minha vivência como mãe de alunas dessa escola, nos anos 80, quando a participação da família foi fundamental para se dar início a um projeto político-pedagógico com foco na gestão democrática e nos princípios da cidadania e da solidariedade.

Hoje, ao voltar lá para a festa junina, fico feliz ao constatar que tais parâmetros ainda norteiam o fazer educacional, o que faz dessa escola um espaço privilegiado para os estudantes poderem construir sua autonomia, em busca da emancipação.

Apenas como exemplo das ações ali desenvolvidas, vejam como foi a gincana solidária promovida antes da festa junina:


Percebem? Nessa atividade não se escamoteia a competição, mas ela é colocada a serviço de outros princípios, tais como o da solidariedade. E a premiação contempla atividades que agregarão valores a esse princípio. Registre-se que a gincana foi assim definida em reunião com todas as turmas, quando os alunos puderam opinar e suas contribuições foram incorporadas à organização do evento.

Para a comemoração junina, com apresentação de quadrilhas e comidas típicas, também houve decisão coletiva, que orientou o trabalho de pesquisa das turmas para a preparação das atividades. Assim foi que uma turma de alunos mais velhos optou por homenagear Luiz Gonzaga, entremeando a dança com a narração da vida desse artista popular, executando a coreografia dos diferentes ritmos de suas músicas: baião, xote, xaxado etc. Tudo isso acompanhado da devida criação plástica:


Já a turminha da Sofia dedicou-se a produzir um mural que dialogasse com a obra do pintor ítalo-brasileiro Alfredo Volpi. Reparem:


Agora comparem com o original:


Vício de vó professora: converso com Sofia para ver o quanto ela aprendeu com essas atividades e me surpreendo. Ela sempre aprendeu mais do que supus.

Fico feliz porque o processo que iniciamos nos anos 80 continua. Como é próprio do fazer educacional, não há como considerar que isso é tudo a ser desenvolvido. Não há finalização possível, porque sempre se agregam mais conteúdos e valores, em um exercício permanente de educação laica, que forma os alunos para a vida. Não qualquer vida: aquela que se faz espaço permanente de crítica, de autonomia, de cidadania.

Nessa escola, o princípio da gestão democrática, do qual estão imbuídos o corpo docente, a direção e o movimento de pais e mães de alunos, nada tem a ver com organizar eventos para arrecadar dinheiro. Ele é mais um momento marcante de integração e de aprendizado, que não se restringe ao espaço intramuros, mas age também sobre a sociedade fora da escola, assim como recebe a influência dessa sociedade e se constitui em lugar de reflexão e questionamento da vida social.

Essa é uma experiência que deve ser socializada e proporcionada a todas as escolas da rede pública de Brasília, não tenho dúvida.

O tema da festa junina foi "Eta trem bão!" Trem bão de festa, trem bão de escola!!!


terça-feira, 17 de maio de 2011

Ainda sobre o "livro do MEC"

- Professora, eu gosto muito das aulas de português.
- Que bom! Mas...?
- Bem, professora, essas coisas que a senhora ensina, de regência, de concordância, e tal...
- Que que tem?
- Bem, quando eu volto lá pro interior, pra fazenda do meu pai, sabe, eu não posso ficar falando do jeito que a senhora ensina aqui.
- Por que?
- Porque se eu falar com os filhos dos vaqueiros, meus amigos desde que era menino, que eu prefiro ir AO cinema A assistir À missa, eles vão falar que eu fiquei metido a besta, só porque vim estudar na cidade.
- Como assim?
- Lá, a gente tem de falar que prefere ir no cinema do que assistir missa. Senão eles pegam no pé.
- É isso. (A professora agora assumia seu ar professoral.) Você tem de saber que há situações em que pode falar errado.
- Posso?
- Pode.
- Certeza?
- Se você quiser. (A professora agora está desconfiada.) Mas também pode aproveitar e ensinar seus amigos a falarem de acordo com a norma culta que você aprende aqui na escola.
- Ah! Não, eu prefiro falar do jeito deles. Sabe como é, né? Senão eles perdem a confiança em mim.
- É uma escolha sua. Mas você sabe que, por exemplo, quando for fazer uma entrevista para emprego, não deve falar como fala quando está com seus amigos, não sabe?
- Sei sim, professora. Mas eu não vou ter esse problema não, porque eu nunca vou procurar emprego.
- Ah, não?
- Não. Eu vou é ser o dono da fazenda, quando meu pai passar ela pra mim.
- Verdade?
- Verdade. E aí eu vou fazer questão de, quando falar com eles, falar certinho, usando a norma culta.
- Mas por que?
- Ué, professora, pra marcar a diferença: patrão é patrão, né?
- É, vejo que você aprendeu bem o que significa usar a língua como instrumento de poder.
- É, graças às aulas de português.

* * *

Acredite, esse diálogo não é ficcional. Ele aconteceu mesmo, na sala de aula de uma escola pública que recebe alunos do interior de Minas. Se a professora acreditava que todos os alunos devem receber a mesma educação, sem discriminação de classe social, raça ou religião, ela deve ter se considerado bem sucedida no trabalho de ensinar aos alunos como lidar com as variações linguísticas. De fato, o aluno evidenciou a apreensão do conteúdo, não é verdade? O posterior questionamento de sua disposição em reproduzir práticas de dominação, fazendo da norma culta um instrumento para isso, também deve ter ocorrido. Essa professora teve, com certeza, tempo para levá-lo à reflexão e imagino que o tenha feito.

Pois bem. A professora ministrou um conteúdo previsto nos Parâmetros Curriculares Nacionais, os famosos PCNs, que é o da "variação linguística". Trata-se de fenômeno corriqueiro, mas que não é sistematizado pelos gramáticos, ciosos de seu papel de conservar, preservar e defender a língua (aqui restrita à concepção de norma culta, uma das suas variações) da corrupção e da degeneração que a fala cotidiana lhe provoca.

Pronto. É esse o campo fértil para a falsa polêmica que tomou a mídia brasileira nos últimos dias, levando-a a acusar o MEC de distribuir um livro didático que "ensina ao aluno que ele pode cometer erros de concordância." A mídia parece pensar que as escolas tem de ensinar apenas a norma culta, sonegando ao aluno o direito de saber que existem diferentes falares, diferentes registros para uma mesma e única língua. E que o registro culto é apenas um deles. Daí o escândalo, com direito à carranca do William (Homer Simpson) Bonner e beicinho da Fátima Bernardes em horário nobre. E na Band, o repórter msn(*) chega ao ponto de entrevistar um professor de gramática para concursos públicos. É muito amadorismo!

Nessa polêmica, faço minha a posição, bem como os argumentos, do linguista Marcos Bagno, que você pode ler AQUI. E também essas reflexões, do Miguel do Rosário, cujo mérito é nos lembrar da existência de grandes poetas como Patativa do Assaré e Luiz Gonzaga, que tão bem valorizaram outro registro de nossa língua, que não a tal norma culta.

Na falta de algo mais promissor a que se agarrar para atacar o governo - e também na tentativa de neutralizar uma possível candidatura à prefeitura de São Paulo -, nossa máfia midiática volta as baterias contra um livro didático. Mas sua munição tem o mesmo efeito de um traque: só barulho, nenhuma credibilidade.

Enquanto isso, leio no Correio Braziliense de hoje que, na Comissão de Educação do Senado, o oportunista Cristovam aproveita para ajudar a minar o governo por cuja base foi eleito. Mau caratismo, má fé ou ingenuidade?

_____________
(*) muito sem noção!

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

"Brás Cubas, o professor e o vagabundo", por Gustavo Arnt

Em uma espécie de continuidade do post anterior, sobre Educação, publico hoje texto que recebi de um amigo, Gustavo Arnt, professor da rede pública do DF. O alerta é importante: a impressão que o GDF passa para a categoria dos professores é a de que "tudo mudou para ficar do jeito que sempre foi".

O alerta vai para a secretaria de educação, mas a questão mais grave apontada pelo autor é o sintoma da indigência política que assola a sociedade brasiliense, historicamente governada por grupos reacionários e corruptos. Se uma sociedade é o reflexo de seus governantes, eis aí o quadro analisado por Gustavo Arnt.


Brás Cubas, o professor e o vagabundo

Como é de conhecimento da maioria, infelizmente o governador Agnelo (a quem apoiei durante as campanhas e de quem ainda espero que faça um governo responsável) começou metendo os pés pelas mãos no que diz respeito à educação do Distrito Federal. Depois de nomear uma diretora morta, a Secretaria de Educação conseguiu a proeza de se superar: no dia 20 de janeiro, em quarenta minutos, convocou e “desconvocou” 1545 professores aprovados em concurso público para tomarem posse entre os dias 24 e 27 de janeiro. Sem ao menos apresentar um pedido de desculpas formal, a Secretaria simplesmente informou que não há verba para a contratação dos professores efetivos – embora desde o ano passado a equipe de transição já soubesse da enorme carência de professores na rede e pudesse ter incluído a verba necessária no orçamento; embora a mesma secretaria tenha realizado um concurso para mais de 6 mil professores temporários no dia 16 de janeiro; e embora tenha dinheiro para estádio de futebol, criação de novas secretarias, propaganda na televisão, etc., etc.

Hoje, dia 24 de janeiro, um grande grupo formado por professores aprovados no concurso, por professores efetivos do quadro da Secretaria de Educação e por representantes do SINPRO e do SINPROEP se reuniu em frente ao Palácio do Buriti para fazer uma manifestação e cobrar a nomeação imediata dos professores – em respeito aos aprovados, em respeito à categoria e em respeito aos alunos, que não podem começar o ano letivo com 1545 professores a menos em sala de aula.

Assim como costumavam fazer seus antecessores Arruda e Roriz, o governador Agnelo não apareceu, tampouco a secretária de educação, Regina Vinhaes. No entanto, mandaram seus legítimos representantes, amplamente capacitados para lidar com situações que dizem respeito aos direitos dos cidadãos: os gentis policiais! Esses, que em sua maioria enviam seus filhos para a escola pública, se viram na curiosa posição de ter de garantir que os professores que dariam aula para seus filhos não se manifestassem! Felizmente, no entanto, o movimento dos professores conseguiu se manter vivo e continuou o seu protesto, que, adianto, não alcançou o resultado esperado, já que a comissão de negociação conseguiu apenas a promessa de uma nova reunião na próxima semana, a sete dias do início do ano letivo... Em nome dos estudantes que começarão o ano letivo sem professor, gostaria, portanto, de parabenizar o governo pela agilidade e competência com que trata as questões relativas à área que ele alega ser uma de suas prioridades.

Contudo, apesar desse quadro surreal instaurado na educação do DF, o que motivou este texto não foram apenas as peripécias do governo. Fiquei particularmente tocado com a manifestação de dezenas de motoristas que passavam nas poucas faixas do Eixão liberadas pelos manifestantes. Feridos no seu direito de transitar a toda velocidade pelas pistas largas da capital, Brás Cubas e companhia, do interior do conforto de seus carros com ar-condicionado e vidro fumê, bradavam: “Vagabundos!”; “Vão trabalhar!”; “Seus desocupados!”. Alguns professores, indignados, reagiam, lançando impropérios de volta, embora seus ofensores já não pudessem mais ouvi-los. Dado o alto número de manifestações simpáticas da população motorizada, é evidente que não se trata de um gesto isolado, mas de uma ideologia amplamente difundida e arraigada, presente tanto na voz dos motoristas quanto na fala de apresentadores de televisão (quem não se lembra de Alexandre Garcia chamando professores grevistas de vagabundos e do Correio Braziliense argumentando que esses mesmos professores eram criminosos?) e na opinião até de pais e alunos, alimentados ferozmente pelo discurso dessa mídia.

Ensina um velho pensador morto, sepultado e, não esqueçam, inequivocamente superado (seria ele também um vadio?), a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante. Sendo assim, vale a pena rastrear alguns dos fundamentos históricos que sustentam os gritos que acusam os professores de serem vagabundos. Ora, segundo a definição corrente, vagabundo é aquele que leva a vida no ócio, é indolente, vadio, não tem ocupação ou não trabalha (confesso não conhecer professor assim). Vocês vão se lembrar de que já no Império, em 1830, com medo dos efeitos do crescente aumento da população negra livre no país, a elite brasileira tratou de publicar a Lei da Vadiagem, que condenava aqueles que não tivessem ocupação honesta e útil para subsistir após advertidos por um juiz! Por incrível que pareça, a vadiagem continua sendo crime (contravenção) no Brasil – lembrem-se de que não há desemprego neste país -, constando no artigo 59 da Lei de Contravenções do Código Penal. Para aumentar ainda mais a desfaçatez, o ato ainda é inafiançável!

Como se diz na TV – e o excelentíssimo ministro do STF Gilmar Mendes não se cansa de repetir -, a justiça está acima dos interesses prementes da população (aqui entenda-se pobres), devendo prezar, acima de tudo, pelo cumprimento da Lei (entenda-se prezar pelos interesses dos ricos). Essa boa mentalidade é o que levou, por exemplo, a prefeitura de Assis, no Estado de São Paulo, a voltar a aplicar severamente a Lei da Vadiagem. Essa boa mentalidade é o que certamente levaria os tão justamente indignados motoristas do Eixão a clamarem pela prisão imediata daquela “Cambada de vagabundos!” que se manifestava em frente ao palácio do governo pedindo emprego!

Pensemos, porém, um pouco mais no significado da Lei da Vadiagem. Sob a justificativa de proteger toda a população do convívio com “vadios”, “desocupados” e “mendigos”, as elites, por meio de seu aparelho jurídico e repressivo, encontram na dita lei mais um meio de criminalizar a pobreza – afinal, se um brasileiro não tem emprego, certamente é por opção! Prova inequívoca do caráter de classe da lei (que desde sua origem esteve vinculada à raça – os vadios eram os negros) e dos impropérios é o fato de que os Brás Cubas que vivem do patrimônio familiar, da terra usurpada aos trabalhadores rurais, da mais-valia, etc. jamais são ou seriam enquadrados nessa lei. Curioso também notar que os simpáticos motoristas não notaram que eles próprios, às dez da manhã ou às três horas da tarde de uma segunda-feira, não estavam trabalhando, ao passo que os professores “Vagabundos!” estavam reivindicando o seu direito de trabalhar!

Isso me deixou confuso, leitor. Quem é, afinal, o vagabundo?

Gustavo Arnt – preto, pobre e professor

P.S.: Conclamo que compareçam à próxima manifestação, que ocorrerá na segunda-feira (31), às 9h, em frente ao Palácio do Buriti!

domingo, 12 de dezembro de 2010

Vai um drops aí?


Perdoem-me os pacientes leitores, mas há períodos em que a gente fica sem tempo para esta prazerosa atividade, porque outros afazeres nos chamam e prendem a atenção. Daí as lacunas entre as postagens, não sem o firme propósito de um dia vir a regularizar esta produção. Quanto mais tempo passa, mais assuntos se acumulam e não resisto a falar pelo menos um pouquinho de cada um. Então, hoje é dia de drops!

* * *

Finalmente pegaram o Gim Argello, confortavelmente instalado na relatoria da comissão de orçamento da Câmara dos Deputados, aprontando a maior lambança com os recursos públicos, de conluio com empresas de fachada, alaranjadas. Demorou, caros leitores! Se as investigações não pararem, serão descobertas coisas do arco da velha: quem viver, verá. Aliás, há outros políticos de Brasília, que também estão confortavelmente na ativa, tranquilamente reeleitos, que merecem uma investigaçãozinha básica. Quem sabe a nossa tão combativa imprensa, sempre vigilante no que é acessório mas relapsa no que é essencial, resolva fazer um pouquinho mais de jornalismo investigativo...

* * *

Por falar em políticos de Brasília, vocês precisam ver - e aqueles que já viram hão de concordar comigo - o quanto esta cidade está abandonada. O mato está mais crescido do que nas áreas de proteção ambiental! Na minha quadra, ontem, tive que ficar de olho para a Laurinha não se afastar de mim durante o passeio, com receio de que ela se perdesse no matagal que viceja sob minhas janelas... Controle de pragas? Não, não há! Varrição de rua e coleta de lixo? Tsc, tsc! Desentupimento das bocas-de-lobo para escoar a água da chuva? Também não! Buracos no asfalto, que se agravam nesta época do ano? Cheiiiinho! Enquanto isso, o governador-tampão Rogério Rosso apressa o envio de projetos, no mínimo, suspeitos para a Câmara Legislativa. Recentemente foi revogado o decreto que obrigava às eleições diretas nas escolas públicas, porque estava na cara que era um jeitinho de acomodar as bases rorizistas nos cargos de diretores, na maior cara-dura! Eita ano que não termina! (Perdoe-me o Zuenir Ventura, mas o ano que não terminou não foi apenas 1968, para o bem e para o mal...)
* * *
Isso sem falar na proliferação das cracolândias. A população está abandonada, sem política de saúde pública, de moradia, de transporte, de educação. A escalada das drogas é visível, também nas ruas do Plano Piloto, não é mais exclusividade da periferia. Abandono é a palavra para definir Brasília hoje.
* * *
Fico sempre desolada quando alguma escola pública obriga os alunos a participarem daquelas festinhas pseudo-educacionais, mas sempre de cunho religioso. Educação laica. Qualquer dia destes vou escrever sobre esse assunto. Hoje eu soube que um conhecido, temeroso de colocar seu filho em uma escola pública que não respeite a sua não-crença, estará acionando o MP para tentar garantir que não haja abordagem da religião nas escolas. Esta semana vou entrar em contato com ele para oferecer meu apoio nessa solicitação. A polêmica promete ser boa, com aqueles pais que preferem terceirizar o ensino religioso e pensam que a escola é que tem obrigação de fazer isso. É ou não é uma interferência indevida das atividades privadas sobre o espaço público?...
* * *
Lidar com perdas é a coisa mais difícil, né não? Perder a hora, um brinco, uma roupa que não fecha mais, um sapato que quebra o salto, a comida esquecida no fundo da geladeira, a flor que secou porque me esqueci de regar, o dinheiro que caiu do bolso por descuido, o telefone celular esquecido no balcão da farmácia, tudo isso tem conserto, tem remédio, tem jeito, tem superação rápida da frustração. O que não dá é para lidar com a perda de pessoas, seus afetos, seus trejeitos, suas risadas, seus humores, suas brigas, suas mágoas, seus amores. Ai, como dói!
* * *
"Tá relampiando, cadê nenen?
Tá vendendo drops no sinal pra alguém..."
(Lenine)

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O Pacheco esteve aqui!

Na noite da última quinta-feira, 25/11, parei tudo que me ocupava e fui para a Escola Classe da 304 Norte, a 100 metros da minha casa, participar de evento da maior importância para a educação brasiliense.

Trata-se da escola pública em que a Sofia, minha neta, vai estudar a partir do próximo ano. Nela estudaram também minhas filhas, nos anos 80 do século passado.

(Ai! como o tempo voa! Já sou uma pessoa que fala com a maior naturalidade de coisas que vivenciei "no século passado"!)

Já naquela época a escola reunia um grupo de pais e mães de alunos muito participativos, preocupados com a qualidade da educação. Mas preocupados, acima de tudo, em que a escola se tornasse um espaço não de reprodução das relações sociais, e sim de questionamento permanente dessas relações. Não queríamos a escola que "padronizasse" nossos filhos, mas que nos ajudasse a dar-lhes uma formação cidadã, crítica e autônoma. Notem: isso foi lá pelos idos de 1985-88.

Houve boas brigas. Fomos a primeira Associação de Pais e Mestres a utilizar o instrumento jurídico da ação popular, instituída pela Constituição de 1988, para obrigar o governo do DF a negociar com o Sindicato dos Professores, em greve havia 45 dias. O difícil foi desmentir a imprensa local, que dizia ser essa uma iniciativa para acabar com a greve, contrária ao movimento dos professores. Nossa APM também resistiu contra a exoneração da diretora da escola, nossa querida e comprometida Bete, rechaçando a vinda de uma interventora nomeada na calada da noite pela então Fundação Educacional do DF. Foram muitas reuniões, muita discussão, muitas idéias, muitas iniciativas inovadoras. Não me queixo daqueles anos: graças a esse movimento minhas filhas se tornaram boas leitoras, críticas, politizadas e sensíveis.

Mas vamos ao Pacheco. Ele foi diretor da
Escola da Ponte, em Portugal, desde sua criação, em 1976, até há pouco mais de dois anos. Não preciso falar aqui dessa escola, já por demais conhecida pelos educadores brasileiros. Suas palestras são muito concorridas, professores e estudantes gostam de ouvi-lo falar, empolgam-se com o relato de suas vivências, de como se tornou educador "por vingança", de como a escola que dirigiu deixou de ser "um lixão" para se consagrar como modelo de uma educação emancipadora, trabalhando com conceitos libertários de disciplina e responsabilidade, enfrentando a violência presente no dia-a-dia das comunidades excluídas. Pacheco fala com muita convicção, com muita paixão, com forte embasamento crítico-teórico.

Esse educador português fez questão de realçar em sua palestra o grande número de iniciativas inovadoras em educação, dizendo que há no Brasil muitas "escolas invisíveis", que conseguem bons resultados com seus alunos rompendo os padrões estabelecidos da educação alienadora. E a boa nova é que ele participará de um projeto conjunto da Escola Classe 304 Norte e a Faculdade de Educação da Universidade de Brasília, como apoiador da direção, dos professores e dos pais dos alunos, na prática educacional do diálogo, da solidariedade e da autonomia. E a minha filha faz parte do grupo de pais que correram atrás de um projeto novo para a educação de seus filhos. E é para a turminha da Sofia que primeiro se descortinarão as mil novas possibilidades de aprendizagem e de "ensinagem", como diz o Pacheco, sempre brincando com assuntos sérios.

Ao final da palestra, fui tomada por aquela sensação de estar conhecendo pessoalmente alguém com quem vinha mantendo, pela leitura de seus textos, sintonia fina, desde muito tempo. A sensação de conhecer aquele professor, de compartilhar suas expectativas, de ser solidária com sua história, com sua formação de esquerda, com suas propostas para a educação. E não pude resistir a uma pergunta emocionada:

- Onde é que você estava em dezembro de 1985, quando um grupo de jovens pais e mães de alunos desta escola iniciava intuitivamente uma revolução na forma de educar seus filhos?

Hoje, 25 anos depois de vivenciar tantas angústias, tantas dúvidas, tanta insegurança e de lutar com convicção contra a educação que tínhamos certeza de não querer, vejo que não tivemos José Pacheco - ocupadíssimo em revolucionar a educação em Portugal -, mas vieram em nosso socorro Paulo Freire, Anísio Teixeira, Darci Ribeiro, Demerval Saviani e Lauro de Oliveira Lima; com este último aprendi que "o homem está em permanente reconstrução: por isso é livre: liberdade é o direito de transformar-se".

sexta-feira, 26 de março de 2010

Uma amizade incomum

Bem, vamos lá.

A escola sobre a qual eu queria falar, no post anterior, fica na cidade de Sete Lagoas-MG. Conheci professores de lá em junho de 2006, quando realizamos a Conferência Estadual da Educação Profissional e Tecnológica, em Contagem.

Nessa Conferência, o embate dos delegados de escolas públicas com o verdadeiro "rolo compressor" enviado pelo "Sistema S" (formado pelas escolas do SESI, SENAI e congêneres, que recebem recursos públicos) foi ferrenho. Sem a articulação promovida pelos segmentos federal, estadual e municipais, não teríamos conseguido enviar delegados a Brasília, para a Conferência Nacional, que se realizou em novembro daquele ano. Nesta sim, lavamos a alma! Conseguimos aprovar, às vezes com pequena diferença de votos, propostas cruciais para a expansão da rede pública de educação tecnológica.

Pois bem, algum tempo depois desses enfrentamentos, iniciamos contato - eu, representando a escola federal em que trabalhava, e os professores da Escola Técnica de Sete Lagoas, naquela época em busca de alternativas para continuar em funcionamento.

Vista parcial da ETSL

Um convênio do município com escola federal foi a primeira possibilidade cogitada, que depois se desdobraria em outras, surgidas em muitas discussões com a comunidade escolar. Nessas discussões, conheci uma equipe de professores e servidores extremamente comprometida com a educação tecnológica, sempre em busca de melhorar cada vez mais a qualidade do ensino oferecido ali.

Impressiona-me a história dessa Escola, que completa 30 anos em 2010. Espero que comemore essa longa existência com uma grande festa, da qual participem alunos e ex-alunos, professores e funcionários atuais e os do passado, representantes da sociedade local e também das outras cidades próximas, de onde saem ônibus de alunos todos os dias para Sete Lagoas.

A Escola Técnica de Sete Lagoas nos dá uma lição de resistência. Tem cerca de mil alunos, da própria cidade e também originários de umas 15 cidades da região, o que é um número bastante expressivo para uma escola técnica municipal. É mantida por uma fundação, que administra o recurso público repassado pela prefeitura para pagamento de pessoal. Exerce plenamente sua autonomia didático-pedagógica, em processo de construção coletiva, recusando as soluções fáceis da acomodação e do conformismo, ampliando sempre as possibilidades de inovação da práxis educativa.

De minha parte, posso garantir que me orgulho de ser amiga de uma equipe tão comprometida, que não perde a perspectiva do trabalho como princípio educativo, conforme nos ensina Gramsci. Ali no espaço da escola, tenho certeza de que estão sendo formados muito mais do que trabalhadores; estão se formando cidadãos criativos, críticos e atuantes no mundo do trabalho, resultantes do esforço para se integrar as dimensões técnico-científica, cultural e humanística nessa formação.

Pois então. O mínimo que posso fazer para honrar a confiança que construímos nesses anos é continuar buscando, nos corredores de ministérios, oportunidades para que a ETSL reafirme a excelência de sua comunidade escolar.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Educação e mundo do trabalho

Antonio Gramsci foi um pensador-militante comunista italiano, que passou 8 anos encarcerado pelo fascismo e morreu aos 46 anos, em 1937. Em seus escritos, reunidos nos Cadernos do Cárcere (seis volumes), há reflexões importantes sobre a relação entre educação e trabalho. Gramsci defende o trabalho como princípio educativo, ou seja, como "elemento constitutivo da formação na medida em que possui uma dimensão teórico-prática, capaz de mediar a integração do trabalho com o momento educativo."

Gramsci

Cada vez que releio Gramsci e/ou seus estudiosos no Brasil, fico a pensar na educação de nível médio, hoje. O ensino médio é visto por muitos apenas como uma etapa a ser vencida pelos estudantes para terem acesso ao ensino superior. Tanto que muitas escolas substituíram a reflexão sobre os conteúdos ministrados nesse nível de ensino por estratégias para que o aluno enfrente os exames - antes, os vestibulares; hoje, o SISU-MEC.

Mas há grande número de pessoas que, depois de concluído o ensino médio, não vão para a universidade: algo em torno de 18 milhões de brasileiros e brasileiras. Esses vão procurar emprego, munidos apenas dos conhecimentos que obtiveram no colégio. Considere-se a precariedade de muitas escolas, que diplomam alunos com sérias deficiências de leitura, escrita e raciocínio matemático. Pense: quantas pessoas você conhece nessa situação? Quantas vezes você viu um recado mal escrito, uma lista de compras cheia de erros ortográficos, uma dificuldade com o troco por parte de um vendedor, e pensou: "nossa, nem parece que tem o segundo grau!"

Se tivessem saído do ensino médio com uma qualificação que lhes permitisse ingressar no mundo do trabalho - veja bem: eu não disse "mercado" -, esses brasileiros e brasileiras talvez pudessem dar rumo diferente a suas vidas. Algo mais que trabalhar para viver - nas sociedades capitalistas, "viver" é igual a "consumir".

Não pensem que estou propondo a volta da lei 5.672, de 1971, que fracassou na tentativa de profissionalizar o segundo grau justamente por causa de seu foco na formação estrita para o mercado de trabalho. Já naquela época era preciso pensar em uma formação que privilegiasse o trabalho como elemento estruturante da vida, naquela relação dialética entre a humanização da natureza e a "naturalização" do humano. Daí Gramsci ter pensado no trabalho como princípio educativo, princípio esse que nortearia a produção de conhecimento técnico-científico e também a interação do homem com as práticas culturais.

Trabalhei em uma instituição pública de educação tecnológica, antes e depois do desmonte da educação promovido pelos (des)governos FHC. De nada adiantaram os protestos das comunidades dessas escolas, que por força de um decreto, foram proibidas de ofertar a educação básica - ensino fundamental e médio - integrada com a educação para o trabalho. Foram anos de luta e de labuta em uma escola deliberadamente sucateada, cujos dirigentes saíam a buscar financiamento em fontes outras que não o governo federal.

Laboratórios tornavam-se obsoletos, professores aposentavam-se e não eram substituídos. Trabalhar naquela época foi muito mais um exercício de resistência e de enfrentamento da cartilha neoliberal imposta pelo governo. FHC, Paulo Renato, Bresser Pereira e grande parte daqueles que hoje se aninham no governo paulista foram os responsáveis diretos pelo enfraquecimento da educação tecnológica no Brasil, enquanto o sistema S se esbaldava com dinheiro público.

Hoje está de volta o ensino integrado e houve aumento considerável do número de escolas federais de educação tecnológica. Foi necessário que um operário sem diploma de curso superior chegasse à presidência da república para que o país passasse a valorizar a educação integrada e integral que essas escolas oferecem. Se quiser ver como foi sua expansão, clique aqui.

Mas o assunto deste post não era esse. Alonguei-me na introdução. Não faz mal: no próximo post falarei de uma escola da qual fiquei amiga e que, apesar de todas as dificuldades, caminha na direção dessa educação que se organiza em torno do trabalho como princípio educativo de que nos fala esse italiano baixinho, corcunda e genial! Aguardem...

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Casa de vó

Todas as crianças deveriam poder exercer a liberdade de serem crianças, fase que é vivida, na nossa sociedade, somente até o momento em que são levadas à escola pela primeira vez.

Digo isso porque há crianças que, antes de irem à escola e mesmo depois que atingem a idade escolar, são vítimas da necessidade que as obriga a trabalhar. Essas não podem, definitiva e irreversivelmente, exercer a liberdade de serem crianças, que lhes é inerente. Ela lhes é sonegada enquanto vivem a vida que lhes é permitido viver, em seu universo regido pelo signo da pobreza.

Cartaz do Ministério do Trabalho, da campanha contra o trabalho infantil

Se todas as crianças tivessem assegurados os direitos a uma vida plena, seria encantador ver em todas elas o exercício da liberdade. Esse encantamento, provavelmente, duraria apenas até o momento em que seu comportamento começa a ser moldado para que se transformem em cidadãos. É assim que a mídia denomina os consumidores de hoje e é nisso que serão transformadas as crianças após passarem pelo aparelho ideológico da escola: bons consumidores, bons leitores de rótulos.

Na escola elas aprendem a ler, a escrever e a fazer contas. Começam a conhecer o funcionamento do mundo, da natureza, da sociedade em que vivem. São, também, adestradas para se enquadrarem perfeitamente nos papéis que essa sociedade lhes reserva.


Enquadrar. Essa é a palavra para designar a função preponderante das instituições que frequentamos durante a vida. Na sociedade produtora de mercadorias, como a nossa, essa função é uma das que integram o processo pelo qual nos transformamos em coisas. E, como coisas, valemos tanto quanto somos capazes de consumir. Quanto mais temos, mais valemos. Assim somos vistos nas instituições que presidem nossas vidas: na escola, no trabalho, no culto religioso, no condomínio, na academia de ginástica, no trânsito...

Ainda bem que a educação tem dois gumes: ao mesmo tempo em que aliena e enquadra, pode fazer germinar, pelo conhecimento, a emancipação. Por isso nem sempre a escola, por si só, é eficaz para alienar. Ela pode ser, também, espaço para questionar a própria educação e a sociedade. É o que aprendemos com Paulo Freire.

Enquanto essas idéias me ocorrem, aguardo o momento em que acenarei para minha neta, que me vê à janela do apartamento, enquanto brinca no parquinho do jardim de infância. Ao me ver, lá de dentro do espaço escolar, ela sabe que aqui é um lugar onde pode exercer sua liberdade.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Terceirização.

Vocês já perceberam como se tornou comum a terceirização no nosso cotidiano? Explico: muitas pessoas preferem delegar a outras pessoas ou instituições as tarefas implicadas na educação dos filhos. Há coisas que devem ser ensinadas em casa e há outras que devem ser ensinadas na escola, não? O problema é que muitos pais e mães transferem para a escola a responsabilidade de ensinar conteúdos que deveriam se restringir à convivência da família.

Um exemplo disso é o ensino religioso. A Constituição Brasileira de 1988 extinguiu a obrigatoriedade de matrícula do aluno nessa matéria, que passou a ser facultativa. Minhas filhas, que estudaram em escola pública em Brasília, não tiveram ensino religioso. Não foi fácil convencer a direção da escola a se programar para que elas tivessem outra atividade durante a aula de religião. No início, elas eram colocadas em uma biblioteca quente e desconfortável, onde ficavam ouvindo sermão da bibliotecária, que as ameaçava com o fogo do inferno por serem pessoas sem religião. Apenas depois de algumas brigas é que as meninas puderam exercer seu direito de não-exposição a uma crença no espaço educacional.

Costumo dizer que as pessoas sem religião são alvo de intolerância maior do que as que professam alguma crença. Na escola, as meninas eram frequentemente questionadas pelos adultos, que achavam impossível alguém viver bem sem ter uma religião. Aprenderam cedo a dar as respostas que afastassem os xeretas de plantão: religião precisa de fé e fé é um sentimento íntimo, por isso deve ser tratada em casa e não na escola, que é um lugar para adquirir conhecimento das ciências, das linguagens e da natureza.

Bem, essa briga foi nos anos 80 do século passado. E não é que descubro hoje, em pleno século XXI, que as escolas da rede pública de Brasília ainda colocam os pequeninos do jardim de infância para rezar, três a quatro vezes por turno?

Pois é. De acordo com o que diz a Constituição Brasileira, em seu artigo 210, parágrafo 1°: "O ensino religioso,
de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental." (Se quiser ler a carta magna, clique aqui e se espante com a quantidade de emendas que ela já recebeu!)

Raciocínio dedutivo: a educação pública é aquela ofertada pelo Estado; o Estado brasileiro é laico (ou seja, livre de vinculações a uma religião específica); logo, a educação pública deve ser laica. Portanto, como a matrícula é facultativa, se algum pai ou mãe informar à escola seu desejo de que o filho não receba ensino religioso, há que se respeitar esse desejo. Isso sem contar a enorme diversidade de religiões professadas no Brasil e que são desrespeitadas quando o educador impõe apenas uma forma de se "religar com Deus". Vejam algumas fotos e imaginem como seria lidar com essas formas religiosas nas escolas:


O problema é que muitos pais e mães acham bom que o filho aprenda religião na escola. Isso lhes poupa o trabalho de desenvolver com eles a autêntica fé religiosa, dentro de casa e frequentando o culto religioso que escolheram. E o direito das outras crianças, cujos pais não possuem e não querem que os filhos tenham religião?

O direito? Ora, o direito...