Este é um espaço para registro de impressões e reflexões sobre o que se vive, o que se lê, o que se vê, o que se sente.
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
O passado é pedagógico II
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
O passado é pedagógico I
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Votos para um novo ano e um novo mundo

sexta-feira, 12 de agosto de 2011
A pedagogia do turismo
A viagem foi muito boa. O tempo maior de permanência em Paris teve razão afetivo-familiar. O giro por Portugal e Espanha foi divertido, relaxante e - como direi? - pedagógico.
A gente aprende muito quando anda por outras plagas. Aprende a reconhecer a alteridade e os limites da diversidade, que não é pequena, mas é restrita, se é que me entendem. A cada vez que vou à Europa, percebo o aumento do número de migrantes, que intensifica o colorido de roupas e peles nas ruas das metrópoles. É uma diversidade festejada, comemorada, mas, ao mesmo tempo, com "cada um no seu quadrado". Uma coisa é diversidade, mas daí a se falar em miscigenação vai distância grande.
Chegamos a Portugal na semana em que os noticiários alarmavam a população com a crise econômica. Em decorrência da crise grega, os bancos portugueses, que haviam emprestado muito dinheiro ao governo grego, viram-se ameaçados. E retraíram o crédito em Portugal. O noticiário falava insistentemente na reunião de uma certa "troica", que ocorreria na Bélgica, para cuidar da crise portuguesa. Descubro que a "troica" era, na verdade, formada pelos representantes do FMI, Banco Mundial e Banco Central Europeu.
Dessa reunião participaram também a primeira-ministra da Alemanha e o presidente francês. Decidiu-se pela injeção de alguns bilhões de euros na economia portuguesa, mas com as devidas contrapartidas, pelo governo português, de redução dos gastos do estado - e consequentemente de seu papel regulador das atividades econômicas. Era a velha cartilha neoliberal, imposta sempre que um país endividado ameaça calote.
Após essa solução, diziam os noticiários que os portugueses podiam respirar aliviados, porque o estado saberia gerir a crise com os recursos liberados pela União Europeia. Eis que então os banqueiros saem da moita e vão a público cobrar do governo português que saldasse seus débitos, se quisesse garantir a volta da oferta de crédito. Chantagem pura e simples, via meios de comunicação. Mas os portugueses, ao que parece, já respiravam aliviados. De férias, nas praias.
Depois de curtir quatro dias em Lisboa e três no Porto, rumamos para a Espanha. Uma viagem muito interessante, de ônibus, até Madri, observando as mudanças na paisagem enquanto adentrávamos mais e mais a península ibérica. Extensas plantações de oliveiras às vezes tornam monótona a vista.
Também a Espanha começava a se preocupar com o rebote da crise grega sobre sua economia. As medidas propostas pelo governo eram as mesmas do receituário português: corte de gastos públicos, aumento de idade para aposentadoria, redução de gastos com benefícios sociais etc.
Ficou claro que o tratamento recebido pelos dois países nas reuniões dos organismos financeiros da Comunidade Européia deve-se a que se trata de duas economias periféricas na Europa. Impressionou-me o porte autoritário da primeira-ministra alemã e a desenvoltura do presidente francês, servilmente ladeados pelo pândego primeiro-ministro da Itália, também ele às voltas com a falência iminente do estado.
As imagens eram claras: no jogo de forças em que se debate a União Europeia, o poder está com a Alemanha e a França. Esses dois países coordenaram as reuniões que discutiam a crise econômica e deram solenemente seu aval para as propostas de empréstimos aos primos pobres. Poder: essa é a palavra.
O mundo assiste à desintegração do dólar, ameaçando pela primeira vez em décadas a hegemonia americana. A União Europeia tem de cuidar para que não seja abalada pela crise, sob pena de também ter sua hegemonia ameaçada. Cuidar-se significa socorrer os países em processo falimentar e tentar manter uma unidade econômica para não sucumbir às crises cíclicas do capitalismo. Mesmo que para isso os países da periferia europeia tenham de abrir mão de sua soberania.
Em tempo, um recado a alguns portugueses de Lisboa que deixaram claro, por atitudes, que não gostam de brasileiros: o Brasil de hoje - e os brasileiros que para aí vão, em busca de oportunidades - é aquilo que Portugal, como nação que protagonizou a expansão do capitalismo europeu, foi capaz de produzir. Sorry!
sexta-feira, 3 de junho de 2011
Brasileiros como eu e você!
Marcos Gomes da Silva também teve uma orelha cortada, da mesma forma que José Cláudio e Maria do Espírito Santo. Essa é a senha usada pelos pistoleiros para provar aos mandantes dos crimes que o alvo foi abatido.
Há muitos trabalhadores rurais marcados para morrer. Denúncias são feitas todos os dias, mas a garantia do direito à vida não se estende até os habitantes do Brasil profundo, terra em que a lei do capital prevalece sobre todos os princípios de defesa do meio ambiente e dos direitos humanos mais elementares. E esse Brasil profundo não está tão longe quanto você pensa, lá na longínqua floresta amazônica. Não. Ele está também em São Paulo, no Paraná, em Minas Gerais, no Tocantins, no Mato Grosso, em Alagoas, no Distrito Federal e por aí vai. Veja aqui o relato de uma trabalhadora rural jurada de morte pelos madeireiros.
Não se pode pensar que a ação dos madeireiros é isolada, porque não é. Eles são a linha de frente do avanço do latifúndio sobre a floresta. São eles que primeiro devastam as terras que irão se transformar em pastagens ou em plantações de soja. E a sanha devastadora se acelerou depois da aprovação na Câmara Federal do novo Código Florestal, com clara vitória da bancada ruralista. A certeza da impunidade tem lá seus efeitos. Leva, inclusive, uma líder da bancada ruralista no Senado Federal a dar declarações em que banaliza os assassinatos dos trabalhadores rurais.
Em apenas 10 dias, lá se foram Zé Cláudio, Maria, Dinho, Erenilton e Marcos. Nomes tão brasileiros, de brasileiros que tinham rostos, vozes, ideais. Brasileiros como eu e você!
sexta-feira, 27 de maio de 2011
"Nenhum minuto de silêncio, mas toda uma vida de luta"

Só me resta utilizar este modesto espaço de reflexão para protestar com todas as forças contra as mortes dos companheiros que lutam pela justiça no campo, e contra a repetição incessante das circunstâncias dos assassinatos. Sempre a mando da mais arcaica e atrasada modalidade de posse da terra, desde sempre na história das relações sociais brasileiras: o latifúndio.
Ou será que alguém pensa que a indústria do desmatamento não tem vinculações com os grandes proprietários de terra, aos quais interessa substituir a cobertura vegetal da região norte por capim, para alimentar as centenas de milhares de cabeças de gado que usam para ocupar ilegalmente as terras? Parece-me, inclusive, que essas mortes foram impulsionadas pela recente vitória dos ruralistas na votação das emendas ao código florestal brasileiro. Essa turma deve estar se sentindo mais poderosa do que a justiça que deixa impunes os mandantes dos assassinatos. E a impunidade é o mais claro sintoma da barbárie que se instala com estardalhaço nas relações sociais arcaicas predominantes no campo.
Impossível ficar indiferente a tanto descalabro. Enquanto nossa imprensa desvia o foco para a pretendida inadequação dos livros didáticos oferecidos pelo MEC, a guerra corre solta, cada dia com violência maior, naquele Brasil desconhecido da maioria dos brasileiros urbanos, que convenientemente não tomam conhecimento da violência e da truculência com que o latifúndio - hoje elegantemente denominado agronegócio - elimina seus opositores.
Não há minuto de silêncio dedicado a José Cláudio, Maria do Espírito Santo e Dinho; há sim a intensificação da luta pelos ideais que defenderam junto com seus companheiros e companheiras que, em todo o país, lutam pelo direito a terra, pão e trabalho.

A todos os meus amigos e amigas do MST e de todos os movimentos sociais do campo, minha irrestrita solidariedade em mais este momento de dor pela perda de tão valorosos militantes.
segunda-feira, 25 de abril de 2011
"Siga o dinheiro!"
Chico Buarque - Tanto Mar por mariusangol
leio as chamadas dos principais portais de notícias, passeio pelos blogs de todo dia, tuíto novamente, pesquiso no google, dou pitaco na polêmica sobre projeto de lei do RS que limita o uso de estrangeirismos, visito o sítio do Wikileaks para ler sobre os inocentes presos em Guantánamo, enfim, passo a manhã em atividade frenética frente ao computador.
Não sou otimista na análise do mundo e do meu país. De vez em quando bate um cansaço, uma preguiça, um desânimo, como se fosse a repetição incessante do mesmo filme: preconceitos de toda ordem são disseminados impunemente, sob o beneplácito dos meios de comunicação, das escolas, das religiões, enfim, daqueles aparelhos ideológicos que fazem com que as coisas pareçam mudar para que fiquem como sempre foram.
Mas é como disse um pensador italiano: a gente tem de ser pessimista na análise, sempre, para que a indignação e a vontade de fazer as mudanças impulsionem nossa ação, nossa interação com outras pessoas tomadas pelos mesmos sentimentos e pela mesma vontade de perseguir o que parece ser utópico, mas tem lá sua concretude a nos esperar no horizonte em construção.
Pois então. Ao mencionar preconceitos que grassam por aqui e alhures, detenho-me no sentimento que parece predominar em relação aos mais pobres. Desde que um operário foi presidente da república, o ódio de classe tão laboriosamente escondido nas relações sociais passou a aflorar em manifestações incontidas de preconceito. Porque é impensável, para o pensamento elitista, que um pobre saiba mais o que fazer para melhorar o país do que os ricos que o precederam foram capazes de saber. Porque é impensável que os pobres recusem o tratamento paternalista a eles dispensados pelos ricos, que se recusem a ser tutelados, que se recusem a viver de favores.
Sim. Porque o favor e o jeitinho são historicamente os subterfúgios utilizados pelos ricos para manter os pobres na dependência, como se não fossem capazes de gerir os próprios destinos. Vejamos algumas situações de hoje, que perpetuam esse vício arcaico da nossa sociedade.
Sérgio Bianchi, em seus filmes Quanto vale ou é por quilo? e Cronicamente inviável, representa bem essas relações, já também representadas na nossa literatura, desde Machado de Assis - o primeiro é uma adaptação do genial conto "Pai contra mãe". Depois de assistir aos filmes de Bianchi, você pode se perguntar: por que ele "desanca" as OnG (organizações não governamentais)?
Mas, se prestar atenção, verá que não são as OnG o objeto de sua crítica: elas são apenas a roupagem contemporânea da velha relação entre elite e pobreza. E não é difícil comprovar isso, no contato direto com a realidade dos pobres no Brasil. As OnG ocuparam o lugar que antes era monopolizado pela velha figura do "atravessador". Só que elas se especializaram em "atravessar" dinheiro público, obviamente em troca de um naco respeitável do recurso intermediado. Assim, os filhos das classes média e alta criam suas OnG e apresentam aos governos federal, estaduais e municipais projetos sociais, ambientais, agrícolas, que irão beneficiar pobres nas cidades, preservar o meio ambiente, ajudar os agricultores familiares, etc etc, para os quais requerem recursos.
Agora vejam uma situação que presenciei: 1) uma prefeitura, em (in)voluntária cumplicidade com uma OnG, especifica as medidas que deverão ter os alimentos a serem adquiridos para a merenda escolar do município (por força de lei, 30% desses alimentos devem ser comprados da agricultura familiar); 2) a OnG convoca uma cooperativa dos pequenos produtores para fornecer os produtos; 3) a cooperativa convoca as associações dos assentamentos para fornecerem os produtos; 4) as associações mobilizam seus assentados para suprir a demanda da prefeitura.
Primeiro problema: para atender às especificações da prefeitura, não é possível que os produtos sejam cultivados sem adubos químicos. Adeus, merenda saudável. E lá vão os pequenos agricultores aderir às práticas do latifúndio, não porque o queiram, mas por imposição da necessidade de sobrevivência.
Segundo problema: do preço contratado para a produção, 30% ficam com a OnG, 20% com a cooperativa, 10% com a associação. Sobram 50% para serem divididos entre os agricultores, proporcionalmente ao que cada um conseguir produzir. Isso os obriga a baixar os preços e os desanima de continuar fornecendo seus produtos para o município.
Agora me diga: por que um esquema desses funciona? A resposta é simples, ou, como diriam dois jornalistas americanos de antigamente: "Siga o dinheiro!"
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Muito barulho... Nenhum barulho...

Na época, teve gente de esquerda comentando comigo: "Poxa, assim fica difícil defender o MST! Desta vez eles exageraram!" Parece que, por conveniência, as pessoas "esquecem" que o noticiário é todo fabricado para criminalizar os movimentos sociais no Brasil e que a mídia deste país é toda comprometida com os interesses dos poderosos. No episódio em questão, com os grandes empresários do agronegócio.
Depois desse episódio, muitas pessoas auto-intituladas "de esquerda" perderam a coragem para continuar defendendo publicamente os movimentos de luta no campo - é preciso lembrar que o MST não é o único, há outros igualmente merecedores da nossa solidariedade.
Pois bem. Duas notícias surgiram somente em 2011, a respeito daqueles dois episódios (a invasão da fazenda da Citrosuco-Cutrale e a instalação da CPMI do MST): a primeira dizia que a 3ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo determinara o arquivamento do processo criminal contra o MST, por falta de substância jurídica para seu prosseguimento, ou seja, por falta de tipificação de crime durante o ocorrido; a segunda informava o melancólico final da referida CPMI, que, criada em ano pré-eleitoral para ser usada como munição pelo candidato da direita, fora finalizada sem proceder sequer à leitura do relatório final e sem discutir qualquer medida a ser encaminhada pelo Congresso Nacional ao poder judiciário. Simplesmente morreu...
Agora, digam-me: cadê a grande mafiomídia com seus noticiários? Cadê o estardalhaço de 2009, que criminalizava acintosamente o MST? Cadê os colunistas de pena paga para desmoralizar os movimentos sociais? Re-lo-ou!!! Cadê todo mundo? Cadê a Kátia, o Ônyx, o Caiado, cadê todos os difamadores dos trabalhadores do campo? Fabricando novas manchetes resultantes de velhas e manjadas práticas?
É isso, leitores! Assim é a máfia midiática, aqui e alhures. Por isso continuo ensimesmada, a pensar na presidenta e no almoço da Falha, ops!, Folha de São Paulo...
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
"Brás Cubas, o professor e o vagabundo", por Gustavo Arnt
O alerta vai para a secretaria de educação, mas a questão mais grave apontada pelo autor é o sintoma da indigência política que assola a sociedade brasiliense, historicamente governada por grupos reacionários e corruptos. Se uma sociedade é o reflexo de seus governantes, eis aí o quadro analisado por Gustavo Arnt.

Brás Cubas, o professor e o vagabundo
Como é de conhecimento da maioria, infelizmente o governador Agnelo (a quem apoiei durante as campanhas e de quem ainda espero que faça um governo responsável) começou metendo os pés pelas mãos no que diz respeito à educação do Distrito Federal. Depois de nomear uma diretora morta, a Secretaria de Educação conseguiu a proeza de se superar: no dia 20 de janeiro, em quarenta minutos, convocou e “desconvocou” 1545 professores aprovados em concurso público para tomarem posse entre os dias 24 e 27 de janeiro. Sem ao menos apresentar um pedido de desculpas formal, a Secretaria simplesmente informou que não há verba para a contratação dos professores efetivos – embora desde o ano passado a equipe de transição já soubesse da enorme carência de professores na rede e pudesse ter incluído a verba necessária no orçamento; embora a mesma secretaria tenha realizado um concurso para mais de 6 mil professores temporários no dia 16 de janeiro; e embora tenha dinheiro para estádio de futebol, criação de novas secretarias, propaganda na televisão, etc., etc.
Hoje, dia 24 de janeiro, um grande grupo formado por professores aprovados no concurso, por professores efetivos do quadro da Secretaria de Educação e por representantes do SINPRO e do SINPROEP se reuniu em frente ao Palácio do Buriti para fazer uma manifestação e cobrar a nomeação imediata dos professores – em respeito aos aprovados, em respeito à categoria e em respeito aos alunos, que não podem começar o ano letivo com 1545 professores a menos em sala de aula.
Assim como costumavam fazer seus antecessores Arruda e Roriz, o governador Agnelo não apareceu, tampouco a secretária de educação, Regina Vinhaes. No entanto, mandaram seus legítimos representantes, amplamente capacitados para lidar com situações que dizem respeito aos direitos dos cidadãos: os gentis policiais! Esses, que em sua maioria enviam seus filhos para a escola pública, se viram na curiosa posição de ter de garantir que os professores que dariam aula para seus filhos não se manifestassem! Felizmente, no entanto, o movimento dos professores conseguiu se manter vivo e continuou o seu protesto, que, adianto, não alcançou o resultado esperado, já que a comissão de negociação conseguiu apenas a promessa de uma nova reunião na próxima semana, a sete dias do início do ano letivo... Em nome dos estudantes que começarão o ano letivo sem professor, gostaria, portanto, de parabenizar o governo pela agilidade e competência com que trata as questões relativas à área que ele alega ser uma de suas prioridades.
Contudo, apesar desse quadro surreal instaurado na educação do DF, o que motivou este texto não foram apenas as peripécias do governo. Fiquei particularmente tocado com a manifestação de dezenas de motoristas que passavam nas poucas faixas do Eixão liberadas pelos manifestantes. Feridos no seu direito de transitar a toda velocidade pelas pistas largas da capital, Brás Cubas e companhia, do interior do conforto de seus carros com ar-condicionado e vidro fumê, bradavam: “Vagabundos!”; “Vão trabalhar!”; “Seus desocupados!”. Alguns professores, indignados, reagiam, lançando impropérios de volta, embora seus ofensores já não pudessem mais ouvi-los. Dado o alto número de manifestações simpáticas da população motorizada, é evidente que não se trata de um gesto isolado, mas de uma ideologia amplamente difundida e arraigada, presente tanto na voz dos motoristas quanto na fala de apresentadores de televisão (quem não se lembra de Alexandre Garcia chamando professores grevistas de vagabundos e do Correio Braziliense argumentando que esses mesmos professores eram criminosos?) e na opinião até de pais e alunos, alimentados ferozmente pelo discurso dessa mídia.
Ensina um velho pensador morto, sepultado e, não esqueçam, inequivocamente superado (seria ele também um vadio?), a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante. Sendo assim, vale a pena rastrear alguns dos fundamentos históricos que sustentam os gritos que acusam os professores de serem vagabundos. Ora, segundo a definição corrente, vagabundo é aquele que leva a vida no ócio, é indolente, vadio, não tem ocupação ou não trabalha (confesso não conhecer professor assim). Vocês vão se lembrar de que já no Império, em 1830, com medo dos efeitos do crescente aumento da população negra livre no país, a elite brasileira tratou de publicar a Lei da Vadiagem, que condenava aqueles que não tivessem ocupação honesta e útil para subsistir após advertidos por um juiz! Por incrível que pareça, a vadiagem continua sendo crime (contravenção) no Brasil – lembrem-se de que não há desemprego neste país -, constando no artigo 59 da Lei de Contravenções do Código Penal. Para aumentar ainda mais a desfaçatez, o ato ainda é inafiançável!
Como se diz na TV – e o excelentíssimo ministro do STF Gilmar Mendes não se cansa de repetir -, a justiça está acima dos interesses prementes da população (aqui entenda-se pobres), devendo prezar, acima de tudo, pelo cumprimento da Lei (entenda-se prezar pelos interesses dos ricos). Essa boa mentalidade é o que levou, por exemplo, a prefeitura de Assis, no Estado de São Paulo, a voltar a aplicar severamente a Lei da Vadiagem. Essa boa mentalidade é o que certamente levaria os tão justamente indignados motoristas do Eixão a clamarem pela prisão imediata daquela “Cambada de vagabundos!” que se manifestava em frente ao palácio do governo pedindo emprego!
Pensemos, porém, um pouco mais no significado da Lei da Vadiagem. Sob a justificativa de proteger toda a população do convívio com “vadios”, “desocupados” e “mendigos”, as elites, por meio de seu aparelho jurídico e repressivo, encontram na dita lei mais um meio de criminalizar a pobreza – afinal, se um brasileiro não tem emprego, certamente é por opção! Prova inequívoca do caráter de classe da lei (que desde sua origem esteve vinculada à raça – os vadios eram os negros) e dos impropérios é o fato de que os Brás Cubas que vivem do patrimônio familiar, da terra usurpada aos trabalhadores rurais, da mais-valia, etc. jamais são ou seriam enquadrados nessa lei. Curioso também notar que os simpáticos motoristas não notaram que eles próprios, às dez da manhã ou às três horas da tarde de uma segunda-feira, não estavam trabalhando, ao passo que os professores “Vagabundos!” estavam reivindicando o seu direito de trabalhar!
Isso me deixou confuso, leitor. Quem é, afinal, o vagabundo?
Gustavo Arnt – preto, pobre e professor
P.S.: Conclamo que compareçam à próxima manifestação, que ocorrerá na segunda-feira (31), às 9h, em frente ao Palácio do Buriti!
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
O dia em que São Paulo parou IV

Selma olha a sua volta e reconhece imagens guardadas em algum canto da memória. Vinte anos depois de ir para São Paulo, vê-se agora inexplicavelmente transportada para sua cidadezinha no interior do Maranhão, de onde saiu aos dezesseis anos em busca de futuro melhor.
Amanhece. Ela nota que está de chinelos e com a camisola que vestiu ao se deitar ontem. Não se lembra de mais nada, apenas de ter se deitado para dormir.
Olha em frente e lá está a rua em que morava quando criança. Não há mais a sua casa, mas no lugar dela um predinho com loja de duas portas no térreo, uma varandinha logo acima da marquise e duas janelas com cortinas claras.
- Quem será que mora aqui agora?
Faz um gesto para alcançar a campainha, mas se detém. Pensa que é muito cedo, deve ter gente ainda dormindo lá dentro. Espera.
Na outra calçada da rua sem movimento, alguém abre um portão pintado de vermelho. Uma mulher sai e fica olhando para Selma.
- Marinalva? Graças a Deus! Lembra de mim?
- Selma?! Vixe, é você mesmo? Não acredito! Mas que faz aqui, assim, de camisola? Corre, dê cá um abraço!
Amigas de infância sofrida e adolescência idem, as duas se encontram no meio da rua vazia. Um abraço demorado traz de volta antigos afetos, reconhecem-se como se o tempo não tivesse passado.
- Vem cá pra dentro, acabei de passar o café, já ia comprar o pão. Vem, amiga, a casa é sua. Eles ainda estão dormindo, meu marido e meus filhos, mas daqui a pouco acordam.
Na casa modesta Selma conta a Marinalva o que não sabe. Não sabe como veio parar ali, não se lembra do que aconteceu.
- Sabe? Agora há pouco no rádio deu uma notícia de coisas estranhas acontecendo em São Paulo. Gente que desapareceu, muita gente mesmo. Diz que a cidade está na maior confusão.
- Ah, Marinalva, então eu sou uma das pessoas que desapareceram. Não tem outra explicação.
- Toma, amiga, veste esta roupa minha, vamos até a padaria. Quem sabe a gente fica sabendo de mais alguma coisa lá?
Selma está perplexa. Quer saber onde estão as outras pessoas de sua família, que ficaram para trás quando ela fugiu para São Paulo. Pai, mãe, irmã e irmãos.
- Toda a sua família foi pra São Luís, pouco tempo depois que você sumiu. Acho que seu pai tinha esperança de encontrar você lá...
Saem rumo à padaria. No caminho, encontram outras pessoas vagando pelas ruas, desnorteadas.
- Vixe! Não foi só você que voltou, Selma! Olha ali o Nonatinho, lembra dele? Estava em São Paulo também. Aqueles outros eu não conheço, mas aquela senhora mais velha parece a mãe da Deusina, lembra? Ela largou a família e sumiu, já faz uns dez anos!
- Jesus! Que confusão é essa, amiga? O que que nós estamos fazendo aqui? Será que um poder maior despachou todos os nordestinos de São Paulo de volta pro Nordeste?
- Sei não, amiga! Vamos ver se na padaria as pessoas estão comentando alguma coisa...
O cheirinho do pão fresco no ar lembra aquele das manhãs paulistanas, quando Selma vai cedinho comprar o pãozinho para o café da manhã da família.
Na padaria, seu Manoel está em uma manhã agitada. Muita gente estranha aparece para pedir informação. Homens e mulheres querem saber o nome da cidade, dizem não saber o que fazem ali. Em meio aos aromas de pão e café, ele repete a notícia que ouviu no rádio:
- Sumiu muita gente de São Paulo. Se a senhora mora lá, então vai ver que é por isso que está aqui.
- Sumiu como, Seu Manoel? Aqui, encontrei a Selma, que saiu daqui há vinte anos... Ela foi pra São Paulo e apareceu lá na rua em que a gente morava!
- Eu eu sei, Marinalva? Só sei que esse povo todo apareceu na cidade de manhãzinha, todo mundo meio tonto, desnorteado. O que eu posso fazer é repetir a notícia que deu no rádio hoje cedo. Diz que São Paulo amanheceu bem vazia...
- Será que os nordestinos todos resolveram voltar? Mas a Selma nem sabe como veio parar aqui...
- Disse no rádio que não foram só os nordestinos, não. Todo mundo que não era de lá sumiu.
- Meu Deus! Ai, Marinalva, que que eu faço? Eu tenho uma vida lá em São Paulo!
- Então, amiga! Vamos lá em casa ligar a televisão e ver se tem mais alguma notícia. Já está na hora de começarem os jornais. Mas me conta, como é sua vida lá?
Selma quase começa a contar sua história em São Paulo, mas alguma coisa a faz se calar. Pensa que Marinalva está lá, no mesmo lugar, com sua casa, seu marido e seus filhos. E ela? Durante todo esse tempo, ficou trabalhando de casa em casa, até parar mais tempo com uma família. De seu, tem apenas o que cabe no quarto de empregada. Ah, para que contar isso a alguém?
Sua cidade natal está bem maior agora, tem asfalto, energia elétrica, comércio. Dói pensar que talvez devesse ter ficado. Fugiu em busca de futuro, vive em São Paulo uma vida apagada, sempre trabalhando e morando nas casas de outros. E se tivesse ficado? Será que teria uma vida igual à de Marinalva?...
Pela TV, as amigas veem: São Paulo está parada, vazia, caótica. Como uma cidade amanhece assim, sem metade de sua população, da noite para o dia?
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
O dia em que São Paulo parou III
Embora a cidade esteja estranhamente vazia de gente nas ruas, está também estranhamente desorganizada, com lojas fechadas, semáforos desligados, aparência de abandono. Era para o trânsito ser mais ágil, mas ocorre o contrário.
Liga o rádio e tem de apertar várias vezes o botão, até conseguir sintonizar uma emissora. Apenas música. Nada de noticiário. Continua dirigindo. No banco de trás, uma das meninas pergunta:
- Mãe, por que está tudo diferente hoje? Não tem ônibus e táxi, só uns poucos...
- Não sei, filha, só sei que temos de chegar em casa rápido e ficar lá, esperando tudo voltar ao normal. Quem sabe a Selma já chegou?
Já é quase meio-dia, quando começa a descer a rua onde fica seu prédio. Olha para um e outro lado e percebe que o lugar, sempre movimentado, tem as lojinhas fechadas e pouca gente a pé. Mas vê que a padaria de seu Alonso está aberta. Dá uma paradinha, abre o vidro do carro e vê o dono lá dentro, com ar de desorientação.
- Ei, seu Alonso, tudo bem aí?
- Hem?... Ah, sim, tá tudo bem... acho... não sei. Os empregados não vieram, nem o padeiro que contratei em Minas apareceu, hoje não pude vender pão...
- Olha, seu Alonso, estão dizendo que está tendo ataque do PCC pela cidade. Acho melhor o senhor fechar a padaria e ir para casa...
Acelerou sem esperar resposta, porque uma buzina tocava atrás de seu carro.
Acionou o controle remoto para abrir o portão de entrada do condomínio e percebeu que o porteiro não estava. Chegava finalmente à segurança do prédio, dentro em pouco estaria em casa com as meninas. Era só esperar que o marido também chegasse.
Nada da Selma, nenhum telefonema, nenhuma explicação. Resolve olhar o quarto da empregada. Tudo está como se ela não tivesse saído: a cama desarrumada - "Engraçado, parece que ela se deitou ontem à noite e depois resolveu sair..." - as roupas no armário, os sapatos na pequena prateleira do canto, a bolsa sobre o criadinho, com tudo dentro: carteira, dinheiro, documentos. Começa a pensar que a Selma não saiu à noite, parece ter sido levada.
O marido chega depois de alguns minutos. Está com cara de incrédulo, tem um ar de perplexidade.
- Querida, você não imagina como está a cidade. Parece que não tem gente suficiente para garantir que tudo continue funcionando! Está um caos!
- Ah, sabe o que eu acho? Isso não é coisa do PCC, de jeito nenhum! Parece que milhões de pessoas simplesmente desapareceram. Sumiram! A Sofia está na internet, conversando com as amiguinhas e elas estão dizendo a mesma coisa: que sumiu muita gente.
- Pois é, lá no escritório, algumas pessoas não apareceram. A dona Socorro, a Yoko, o Eustáquio... Engraçado, são todos funcionários que tem famílias em outros estados! Mas será...?
Ele não quer acreditar no que acaba de pensar. Será que sumiram só os que não são de São Paulo?!
- Peraí! O porteiro do nosso prédio é do Ceará... A dona Socorro uma vez me disse que nasceu na Bahia... O Eustáquio veio de Minas há um ano... A Yoko foi contratada quando ainda morava em Curitiba, onde nasceu... Será que é isso?!
- Você quer dizer que sumiram todos os que não são de São Paulo? Ih, pode ser isso mesmo... O seu Alonso da padaria disse que o padeiro, que também é de Minas, não apareceu. Ai, meu Deus! A Selma é do Maranhão, vai ver foi por isso que desapareceu! Tudo dela está lá no quarto, do jeitinho que ela deixou ontem, quando foi dormir!
Correram os dois para a frente da TV, exatamente no momento em que o noticiário mostrava uma São Paulo como eles nunca tinham visto: milhares de carros abandonados nas ruas, semáforos desligados, linhas do metrô com trens parados.
- Muda o canal, vamos ver mais!
Hospitais com muitos leitos vazios e com falta de muitos funcionários; escolas, colégios e universidades sem funcionar por falta de muitos alunos, professores, funcionários... Prédios inteiros de apartamentos completamente vazios, casas abandonadas com as portas abertas...
- Que loucura! Jamais pensei que fosse ver São Paulo assim!
Nesta tarde, ficam em casa, com a TV fica ligada. Todos parecem perplexos e intrigados. Buscam explicações para o fenômeno do desaparecimento dos migrantes da cidade. Até alguns apresentadores de programas televisivos estão ausentes, as transmissões são precárias, porque faltam muitos funcionários também nos meios de comunicação.
Enquanto esperam, tentam imaginar a cidade tão enorme, tão cosmopolita, agora meio vazia, ou meio cheia, depende do ponto de vista: cheia de paulistanos da gema, vazia de todos os migrantes que a fazem funcionar. Quase instintivamente, o casal chega à janela do apartamento.

Pela primeira vez marido e mulher não sabem explicar por que, mas sentem no ar uma sombra de perigo e ameaça, indefinida...
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
O dia em que São Paulo parou
Acordou estranhando o silêncio naquela quarta-feira. Não ouviu o costumeiro barulho na cozinha, não sentiu o cheirinho do café fresco, sentiu falta de alguém cantarolando baixinho.
- Selma?... Selma!... Ué, cadê a Selma, gente? Cadê o café da manhã?
Logo veio o marido e ela estava atrapalhada na cozinha, tentando preparar o café da manhã, antes que as crianças saíssem do quarto.
- Cadê a Selma?
- Não sei, não está aqui.
- Será que ela não dormiu em casa? Mas ela nos deu "boa noite" ontem, dizendo que ia dormir...
- Pois é, não dormiu aqui. E sabe-se lá a que horas vai chegar...
Chegam as crianças, duas garotas de 10 e 12 anos, já com roupa de escola. Olham em volta e veem que é um daqueles raros dias em que a Selma não está em casa. Veem a mãe tirando queijo, leite e suco da geladeira. Pão, só o de ontem, porque a Selma é que devia ter comprado cedinho... Café tem de ser o solúvel mesmo, a água já estava fervendo no microondas.
- Engraçado, a televisão não está passando o jornal matinal - diz o pai.
- Hoje está um dia muito esquisito, querido... fala a mãe. - Estou achando o ar mais silencioso, não ouço o barulho dos ônibus e já são quase 8 horas... Será greve dos rodoviários?
- Terminaram, meninas? Então vamos, já estamos atrasadas - diz a mãe. Tchau, querido, bom dia! Depois de deixar as meninas na escola, vou fazer as compras do mês. Quando eu voltar a Selma já estará aqui, para guardar tudo e fazer o almoço.
- Tchau, querida, vejo você à noite. Ah, quem me dera poder vir almoçar com vocês... Impossível, com o trânsito de São Paulo! - falou isso com orgulho de ser paulistano.

Mal andou dois quarteirões e ele já está irritado com o trânsito, mais lento do que o normal. Não vê aquela quantidade enorme de ônibus que sempre o atrapalham, apenas três ou quatro. Mas está vendo muito mais carros na rua.
- "Deve ser greve" - pensa. "Saco! Todo dia tem alguma coisa para atrapalhar."
Atrasado, coloca o carro no estacionamento pago, a meio quarteirão do escritório. No caminho, percebe que a banca de revistas está fechada. Estranha. Sempre compra o jornal antes de entrar no centro empresarial e bate um papo rápido com seu Nonato, o dono da banca, que conhece há mais de 10 anos.
Ele sempre dá uma passadinha rápida no café do térreo do centro empresarial, compra um para viagem e sobe pelo elevador. Mas hoje só há três garçonetes, em vez das oito habituais. Fila no caixa. Desiste do café, corre para pegar o elevador. Ao descer no andar do escritório, percebe que está mais vazio. Vários colegas de trabalho ainda não chegaram: o Eustáquio, a Yoko, o Gilvan, a Socorro, o Raoni...
- É, deve ser greve mesmo. De rodoviários, metroviários, sei lá...
Mal se senta e seu celular começa a tocar. É a esposa:
- Querido, não sei o que fazer. A escola está sem um terço dos professores. A diretora não sabe o que aconteceu, ninguém avisou nada. A Clarinha tem professor para três horários e a Sofia para dois. Que que eu faço?
- Será que os professores estão em greve?! Mas não, é escola privada, não tem greve, né?
- Não, parece que eles simplesmente faltaram, não chegaram para trabalhar.
- Ah, então, leva as meninas para casa. Melhor, leva elas para as compras com você, depois vão todas para casa. Amanhã a coisa deve se normalizar.
De novo a irritação, porque o telefone do escritório toca sem parar. Droga! Despede-se rapidinho da mulher e atende, porque a Socorro não está. É a Flavinha, estagiária:
- Doutor, tô ligando pra avisar que hoje não vai dar pra chegar aí, aqui em Itaquera tá a maior confusão, trânsito parado, lojas fechadas, canteiros de obras vazios. Ninguém sabe o que está acontecendo.
- Ah, Flavinha, deve ser alguma greve...
- Não é, não, doutor. É alguma coisa estranha, estão faltando pessoas nas ruas, nas casas, nas lojas, nos prédios em construção... Tudo muito esquisito, parece que sumiu todo mundo... Os nossos vizinhos da frente saíram e deixaram a casa aberta.
- Tá bem, Flavinha, não esquenta. Se não der pra chegar aqui, fique em casa. Tchau!
Esquisito. Ele percebe que está mesmo é faltando gente na cidade. São Paulo sempre tem tanta gente nas ruas. Mas agora, olhando pela janela do escritório, ele vê bem menos gente transitando. No prédio em que trabalha, o movimento dos corredores está reduzido.
Liga de novo a mulher:
- Querido, tá a maior confusão no supermercado. Faltam vários funcionários, não tem reposição de produtos, não tem açougueiro, nem padeiro, pouquíssimos caixas. Não sei como vou fazer as compras...
- É, querida, tem alguma coisa errada. Tá faltando gente em vários lugares da cidade.
- Olha, aqui tem uma televisão ligada e vai ter edição extra do jornal. Vou desligar e te ligo de novo, pode ser alguma notícia para a gente saber o que está acontecendo.
Enquanto espera, ele liga o computador e busca notícias nos portais dos principais jornais. Nada, apenas uma notícia de que o maior hospital da cidade está funcionando de forma precária, porque muitos profissionais não compareceram ao trabalho.
Volta a tocar o celular. E a mulher:
- Ai, querido, a notícia que deu na televisão é de que São Paulo amanheceu com menos de 50% da população. Será possível? Para onde foi todo mundo? Ah, liguei lá em casa e a Selma ainda não apareceu...
- Pois é, alguma coisa aconteceu e as notícias são insuficientes. Eu jurava que era alguma greve, mas agora começo a pensar que é outro ataque do PCC, sei lá...
- Ai, querido, vou pra casa agora mesmo com as crianças. Dá um jeito de ir você também, tá? Não demora, está me dando um medo...
- Calma, bem! Vai com calma, não se preocupe com as compras. Eu também vou, encontro vocês em casa.
quarta-feira, 19 de maio de 2010
"Não somos racistas"
Mostra-nos ele, entre outras coisas, que os negros e mestiços continuam em desvantagem: têm em média 2 anos menos de escolaridade que os brancos; a média salarial das pessoas negras/mestiças é 50% menor que a das pessoas brancas; o percentual de negros nas universidades públicas é ainda muito pequeno, apesar da adoção das políticas afirmativas.
Tudo isso é sabido e consabido. Esses números podem ser piores, se focarmos especificamente a situação das mulheres negras, pois a ela se soma a desvantagem da discriminação de gênero, além da cor da pele.
Esses dados são divulgados todos os anos e mostram melhoras muito lentas na situação dos negros/mestiços no Brasil. São indignantes e servem para nos mobilizar na luta pela superação da herança escravista.
Mas neste ano foi divulgado um dado pra lá de indignante, escandaloso mesmo: o professor Paixão nos mostra que, de 2003 a 2009, foram libertados do trabalho escravo 40 mil brasileiros e brasileiras, que viviam e trabalhavam em fazendas, em regime de servidão por dívida. Destes, 73,5% são negros. É o alto preço da "paz no campo" defendida pela senadora Kátia Abreu, latifundiária e presidente da Confederação Nacional da Agricultura. E esse é também o preço que paga o trabalhador rural que não ingressou em um dos movimentos sociais de luta pela reforma agrária: o de ser espoliado e escravizado.
Trabalhador libertado mostra sequelas de acidentes de trabalho e a água "potável" que consumia durante a escravidão (Imagem retirada do Blog do Sakamoto)A OnG Repórter Brasil monitora as ações de combate ao trabalho escravo e mantém atualizadas as notícias que nos mostram tratar-se de prática generalizada em todo o Brasil. O grande explorador dessa mão de obra é o agronegócio - nome moderno para nosso velho conhecido latifúndio. Na lista suja do Ministério do Trabalho, você pode comprovar que as empresas agropecuárias são as maiores infratoras das leis trabalhistas. Mas isso ocorre também nos ramos de atividade da construção civil, das confecções e dos calçados.
Uma sociedade erguida sobre as bases carcomidas do latifúndio e da escravidão, que não se dispõe a combater efetivamente essas práticas sociais, pode se dizer civilizada? Você, que compra nas Lojas Marisa e C&A, sabe que as roupas vendidas por elas são produzidas à custa do trabalho escravo de imigrantes bolivianos, no bairro do Bom Retiro, em São Paulo?
Trabalhadores escravos em oficina de costura que fornece roupas para as Lojas Marisa e C&A (imagem retirada do site Repórter Brasil)São 40 mil brasileiros (e também estrangeiros) libertados da relação escravista. Pessoas que tiveram suas vidas roubadas, foram proibidas de sonhar, impedidas de exercer livremente seus direitos. A escravidão hoje é duplamente perversa: primeiro, pelo crime de privação da liberdade de outrem, já por si hediondo; segundo, por persistir esse crime em uma sociedade dita civilizada, que alardeia a igualdade de direitos de todos perante a lei.
Passados 122 anos da abolição oficial da escravidão no Brasil, ao ver esses dados da pesquisa do professor Paixão, ganhamos a certeza de que também esse capítulo da vida social brasileira não passa de mais um conto da carochinha da história oficial.
Quase nada mudou. Hoje Macunaíma talvez dissesse: "Latifúndio e escravidão, os males do Brasil são."
quarta-feira, 7 de abril de 2010
O banquete dos ricos
Cidade linda, possui uma orla bem cuidada. Uma lei municipal proíbe a construção de prédios de mais de quatro andares perto da praia. Os passeios ao longo do litoral levam-nos a praias lindas, algumas semidesertas. Há mar para todos os gostos, de surfistas a famílias com crianças pequenas. Bom demais.

O povo paraibano é muito simpático e receptivo. Os profissionais das diferentes áreas do turismo são motivados e extremamente bem-humorados.
Uma das peculiaridades dos paraibanos em geral é o humor. São capazes de tiradas muito inteligentes e sutis. E possuem expressões muito diferentes para determinadas situações. Até hoje ainda não entendemos direito o que quer dizer "criar urso no quintal", expressão usada pelo guia que nos levou ao passeio pelas praias do sul. Um cara muito falante, que sabe ser engraçado sem ser indelicado e atende pelo apelido de Hulk, porque possui lindos olhos verdes, encravados em um rosto meio indígena.
Pois então. Os garçons tem senso de humor, os motoristas de táxi, os donos de bares, os funcionários do hotel... Não sei se é um traço marcante dos paraibanos em geral ou se demos sorte de cair nos ambientes em que se concentravam as pessoas bem-humoradas. Sei que foi uma convivência interessante.
Vimos os bairros onde vivem os ricos, perto do mar. Também passamos pelos lugares da pobreza, que não é pouca em João Pessoa, e fica geralmente afastada dos pontos turísticos, como em qualquer outra cidade da costa brasileira.
Houve um episódio que turvou nossa alegria e descontração, durante o almoço do primeiro dia, após uma manhã gostosa de praia. Notamos a presença de um homem, na casa dos sessenta, acompanhado de meninas que, a princípio, pensamos serem filhas dele. Só que não demorou para percebermos as carícias que fazia na perna de uma delas, discretamente, por baixo da mesa. A peixada que saboreávamos, de repente, adquiriu um sabor de puro sal. A indignação por estarmos tão próximos de um provável aproveitador de meninas tomou conta de nós.
Também discretamente, um de nós saiu do restaurante e buscou o telefone mais próximo. Tentou ligar para todos os números divulgados pela polícia nos cartazes de combate ao crime de exploração sexual de menores. O primeiro número ficava tocando uma gravação que dizia como era importante aquela ligação; o segundo só dava ocupado; o terceiro não atendia; o quarto só tocava uma musiquinha. O jeito foi largar o telefone e parar uma viatura da Polícia Militar que passava pela rua.
Feita a denúncia, vimos quando os policiais chegaram ao restaurante. Dirigiram-se a um dos garçons e perguntaram se havia por ali um senhor de cabelos grisalhos acompanhado de duas menores. O garçom disse que não, embora a descrição correspondesse à mesa que ficava bem ao lado dos policiais. Logo veio o dono do restaurante e notamos que ocorria uma "operação abafa". Pedimos a conta e saímos do local. Ficamos em frente ao hotel, na mesma rua do restaurante, e vimos quando o distinto senhor passou tranquilamente de mãos dadas com uma das meninas, que por sua vez dava a mão à outra. Em suma, nada aconteceu.
Pois bem. Há tempos eu não viajava para uma cidade litorânea. Havia me esquecido de que essa é uma prática frequente no litoral brasileiro. Praia e turismo sexual dão uma combinação iníqua. Geralmente são meninas pobres as vítimas dos turistas endinheirados. Pobres e cada vez mais novas, na faixa dos 12 aos 14 anos. Esse é mais um capítulo cruel das relações entre as classes, no Brasil. Aqui os pobres, de ambos os sexos, servem também para o prazer do banquete dos ricos.
Mas não pensem que essa iniquidade é exclusividade das cidades nordestinas. Não, isso ocorre também no sul maravilha, assim como nas cidades da região norte.

Fica aí o flagrante dessa prática deplorável, que precisa de combate sem trégua.








